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quinta-feira, 21 de junho de 2007

Anotações e Transcrições – 9

6.º Passo: Libertação de todos os nossos defeitos de carácter
(seguindo os passos até ao São João)

Um dos traços que define a liberdade de expressão (em potência) da blogosfera é a hipótese de se poder pôr em prática a denominada interactividade dos seus utilizadores de forma quase irrestrita. Um dos veículos que contribui para o reforço dessa tal interactividade, e que se encaixa de forma quase perfeita na benfazeja reciprocidade, é o de manter em funcionamento uma caixa de comentários, apesar dos riscos que lhes estão subjacentes, designadamente o do spam publicitário e o da possibilidade de surgirem os inevitáveis impropérios ou de observações grosseiras (ou mesmo extravasando o limite da decência), falaciosas e de eminente ataque pessoal, completamente fora do espírito preconizado pela própria blogosfera.
Todavia, ciente dessas potenciais ameaças, nunca me passou pela cabeça eliminar a hipótese de dar a liberdade a quem me lê de poder comentar os meus textos, reservando-me sempre ao direito de, como autor de um espaço de liberdade, eliminar aqueles que se revelaram manifestamente ofensivos à luz de um inescapável critério de avaliação pessoal – que outro poderia ser?
Há uns tempos JPP suscitou algum alarido quando, em tom ensaístico, decidiu discorrer sobre “a fauna que enxameia as caixas de comentários” – apesar de aquele não possuir qualquer tipo de caixa de comentários no seu Abrupto, desde que me conheço como blogger. Certeiro em certos tópicos que referiu e desenvolveu a propósito do assunto, acabou por tomar o todo pela parte e resolveu nomear alguns dos excelsos comentadores da blogosfera que, recorrentemente, utilizam as ditas caixas sob pseudónimo, alguns deles até dispunham dos seus próprios blogues.
Ultrapassando todas as questões que tal polémica suscitou, volto a este assunto pelo incentivo de pura criatividade que o meu texto imediatamente anterior deu a este comentador anónimo, ao transformar o mundo dos jovens autores portugueses num grandioso combate de boxe, com vários assaltos, disputado pelas livrarias mais conhecidas deste país. Só não entendo o anonimato…

And now for something completely different…
Mantendo-me no mundo da Literatura, aproveito para descarregar a bílis sobre a tradução, a todos os títulos hiper-realista, de Nuno Batalha do romance Sangue Sábio de Flannery O’Connor (Cavalo de Ferro, 1.ª ed., 2007) do american-english para a língua portuguesa. O afã do tradutor em não trair o pensamento e o fio condutor da narrativa da autora norte-americana é tanto e tão obsessivo que, na minha opinião, acaba por ter, precisamente, o efeito contrário: irritar o leitor e com isso desvirtuar a obra.

Apenas dois exemplos: um injustificadíssimo brasileirismo «marcha-à-ré» (pág. 56) para designar marcha-atrás; e uma, entre centenas, de expressões incomodativamente coloquiais sempre que existe um diálogo «Ah, nã foi nada […] E que tal s’a gente fôssemos ó Walgreen beber um sumo? ‘Inda nã há discotecas abertas a esta hora.» (pág. 36).

E depois… depois, a leitura demora – nem sequer cheguei a meio do livro – e a obra é que paga! Pobre Flannery!...

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Anotações e Transcrições – 8

Cito o José Mário Silva do blogue Sim no Referendo, para tal como ele vos poder transmitir a sensação de náusea e de repugnância que experimentei após a leitura deste pequeno texto do mais asinino, reles, perverso e obsceno que jamais vi durante cerca de ano meio que levo de blogosfera – e faço aqui a transcrição na íntegra para que não se apague a sordícia da nossa memória usualmente curta:

«
Venceu a cultura da morte!
11 de Setembro, 11 de Março, 11 de Fevereiro. Datas manchadas pela morte!
»


O José Mário categoriza-o como o “
post mais infame, mentiroso e desonesto de que tenho memória”. Eu assino por baixo e ainda acrescento, para não me desenquadrar daquele contexto puramente abjecto, é na sua essência terrorista.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Anotações e Transcrições 7: Mutações [actualizado]

O Dr. Horácio, personagem de Agustina, determina:
«“As pessoas sofrem quase todas de insignificância e só as podemos aliviar dizendo-lhes que escrevam um livro, plantem uma árvore e façam um filho.” Isso traduzido para os tempos mais recentes resumia-se em comprar um automóvel, fumar erva e ir a um concerto de rock.»
Em A Ronda da Noite, de Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 1.ª edição, Setembro de 2006, pág. 43.

O João Gaspar, no n.º 4 do seu Exercício da Mediocridade, dispara outra proposição, assaz teleológica, que o tempo e os tempos trataram de confirmar:
«adoptar um filho, plantar uma rosa, escrever uma badana.»

E para concluir, aqui fica o aforismo n.º 183 do Vasco M. Barreto, com a sua Máquina, para o qual fui devidamente alertado pelo Rogério:
«Plantar um eucalipto, fazer um bastardo e plagiar um livro provavelmente não conta.»

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 6

Começo com os V’s que, nada tendo que ver com o inimitável Pynchon, se constituem numa trindade cujo silêncio, acaso ajustado, atordoa de tão hermético: Valentim, Veiga e Vieira.
Há silêncios que, face ao estridor impudico precedente, não se conseguem explicar à luz de uma linearidade de comportamento que se preza e na qual se deverão basear os mecanismos judiciais para uma correcta aplicação do direito, não só no estrito cumprimento da sua missão de reparação do dano e de compensação da perda, como também no seu fim último de prevenção, ou seja, reduzir a probabilidade de ocorrência de casos similares.
Face ao exposto, nada melhor que as excelsas palavras dos outros, perante a dolorosa assunção de uma certa fadiga intelectual sobre o assunto, quando aquelas vêm de encontro às diversas interrogações que se apoderaram de mim desde a publicação da obra-prima do momento, pela ilustre e desinteressada editora Dom Quixote.

Eis as palavras [os destaques são da minha inteira responsabilidade]:

«A bota pode ser a do Ricardo Quaresma, o mais genial jogador do campeonato português – tal como já o era no ano passado, queira Scolari ou não queira. A perdigota pode ser a D.ª Carolina Salgado, que actualmente simboliza muito bem aqueles que chegaram ao futebol por acaso ou caminhos ínvios, dele se alimentaram para tentarem ser alguém e que a ele só trouxeram vergonha e sujidade. Há quem prefira o futebol à maneira da D.ª Carolina; eu prefiro-a a maneira do Ricardo Quaresma. Se vou para a bancada do estádio é por causa de jogadores como o Quaresma; se não me aproximo dos camarotes é por causa de pessoas como a D.ª Carolina, que por lá habitam.

Há três anos que venho dizendo isto e peço desculpa por me repetir: o grande embaraço do Apito Dourado é que desde o início que se tornou óbvio, para quem tenha alguns conhecimentos de direito ou algumas preocupações em ver a justiça ser feita, que as expectativas que muitos alimentaram à sua conta não encontravam correspondência nos factos do processo. Ou, por outras palavras, o grande objectivo de 80 por cento daqueles que obcecantemente falam, escrevem e sonham com o Apito Dourado – a saber, o entalanço de Pinto da Costa e do FC Porto – esbarram miseravelmente no pouco interesse que despertam as manigâncias do FC. Gondomar e de um pequeno exército de sombras gravitando à roda do major Valentim Loureiro. E isso, manifestamente, não interessa aos entusiastas do Apito Dourado: não é o Gondomar que interessa, é o FC Porto; não é Valentim Loureiro, é Pinto da Costa. Que chatice, não bater a bota com a perdigota!

Com grande esforço e voluntarismo, alguns magistrados do Ministério Público fizeram o que puderam para chegar onde a maioria queria: descobriu-se um árbitro que terá ido beber um café a casa de Pinto da Costa, antes de um palpitante FC Porto-Rio Ave para a Taça de Portugal, e outro que terá pedido a alguem que pediu a alguém ligado ao FC Porto duas meninas para se entreter antes de arbitrar o terrível FC Porto-Estrela da Amadora, disputado numa altura de 2004 em que o FC Porto já tinha uma vantagem irrecuperável para ser campeão e estava a dias de ganhar a Champions, enquanto o Estrela da Amadora já não tinha forma de evitar a despromoção. Eis um problema sério: como encontrar aqui interesse em corromper um árbitro, como descobrir o móbil do crime?

Segunda contrariedade: quem é que as escutas telef6nicas revelaram como grande
pivot do Apito Dourado
, verdadeiro patrão do jogo de sombras do futebol português? Valentim Loureiro. E quem é que deu o poder a Valentim Loureiro e com ele dividiu os cargos e influências na Liga de Clubes? O Benfica e Luís Filipe Vieira. Quem é que as escutas apanharam a escolher com ele ao telefone o árbitro que convinha ao seu clube? Luís Filipe Vieira. Quem é que lhe telefonou a pedir a interdição do campo do adversário e depois lhe prometeu «um beijinho» pelo favor feito? José Veiga. Que chatice, querem ver que a Justiça é cega?

Mas eis que agora, subitamente, um
sirocco
de esperança varre as almas justiceiras! Ainda nem tudo está perdido, ainda se pode fazer justiça! Graças à chegada aos acontecimentos de duas mulheres, já há benfiquistas que desabafam comigo que para o ano o FC Porto estará na II Divisão, tal como a Juventus, em Itália (já lá vai o tempo em que eles acreditavam poder vencer-nos: agora querem-nos é longe da vista e dos relvados...) Carolina Salgado, juram-me, vai ser a «testemunha-chave», «a mulher de coragem», como atestam a Leonor Pinhão e aquele Dr. Bexiga, ex-vereador de Gondomar, que, depois de a ouvir confessar que contratou e pagou aos que lhe deram uma coça, chegou à conclusão que ela era «um exemplo cívico» (mais uma e ele ainda a propõe para a Ordem do Infante...) O povo espera, obviamente, que o governo abra uma excepção às restrições orçamentais e que aplique parte do dinheiro dos nossos impostos e do nosso trabalho a garantir adequada protecção e recompensa a esta testemunha preciosa, cuja credibilidade, desinteresse e carácter moral estão amplamente expostos naquela coisa edificante a que a Editora D. Quixote resolveu chamar «livro» e que deve ser, com certeza, um modelo daquilo que os novos admiradores da D.ª Carolina gostariam de ver exposto acerca de si próprios, no dia em que os seus cônjuges resolvessem vingar-se deles. Valha-nos Carolina Salgado para perceber em que campo moral cada um se situa e como o futebol português é, de facto, o território do «vale tudo». Mas o povo também espera que a Dr.ª Maria José Morgado faça jus à sua fama de arrasa-criminosos e consiga descobrir finalmente o móbil do crime portista, nem que para isso tenha de mandar torturar, um por um, todos os árbitros portugueses, incluindo até Lucílio Baptista e todos os que apitaram jogos do Benfica, na gloriosa caminhada rumo ao titulo de 2004/05. Dela se espera bem mais do que aquele caricato episódio de um juiz de instrução a ouvir três peritos em arbitragem para ver se eles conseguiam detectar, no vídeo do célebre FC Porto-Estrela da Amadora (4-1), provas concludentes sobre a corrupção do árbitro, coisa que, estranhamente, não se tornou patente.

Mas há uma coisa que, nem que Cristo descesse à terra para dirigir pessoalmente as investigações do Apito Dourado, se conseguiria desfazer: é esta chatice da verdade do futebol jogado dentro dos relvados e que todas as semanas pode ser constatada por quem segue o assunto e ainda gosta de futebol, E aí, nesse território da verdade, o que a memória dos últimos largos anos nos diz é que, tirando esporádicos intervalos, o FC Porto é a melhor equipa portuguesa a léguas de distância das outras e uma das melhores equipas da Europa e do Mundo. Não deve ser coincidência que quem por lá passa, seja jogador ou treinador (e, em especial, se vindo dos rivais directos), não se cansa de repetir que ali encontrou uma organização, um espírito de equipa e uma cultura de vitória como em lado algum. E, depois, há equipas como a do Baía, do Ricardo Carvalho, do Deco, do Derlei, ou esta do Helton, do Pepe, do Quaresma e do Anderson, que todas as semanas mostram num canal perto de si que só por absoluto fanatismo e má-fé é que é possível pretender que não é a eles que se devem as vitórias, mas sim aos árbitros – aqui, na Europa e no Mundo.

O FC Porto de Jesualdo Ferreira acaba de encerrar de forma brilhante dois ciclos de jogos, com uma interrupção de dez dias pelo meio, em que foi o único representante português a ultrapassar a fase de grupos na Champions e se afirmou internamente como o grande candidato ao título. Foram 13 jogos, quase todos sem Anderson, alguns arrostando com arbitragens prejudiciais, outros encaixando a quase violência dos adversários, e apenas cedendo, no final, dois empates: um em Alvalade, no campo de um rival directo, e outro contra o Arsenal, em que só o azar impediu a vitória. Nunca o Apito Dourado deu tanto jeito para desviar as atenções!
»

Por Miguel Sousa Tavares, "Não bate a bota com a perdigota", in A Bola, 19/12/2006

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 5

Começo pelos pertinentes destaques de João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos [Maria José]:
«Excelente escolha, a de Maria José Morgado para "coordenar" a investigação ao funesto "apito dourado". Oxalá não lhe faltem meios, pessoas e apoio como lhe faltaram no passado, na PJ, no combate ao crime "de colarinho branco".»
E, citando o Vasco Pulido Valente:
«Sucede que a corrupção no futebol é uma ínfima parte da corrupção geral do país. E serve sobretudo para a esconder.»

A visibilidade do futebol, a que se junta alguma anestesia social que tolda o conhecimento de toda uma plêiade de direitos consagrada na Constituição e cujo denominado cidadão comum é o seu mais directo beneficiário, conduz-nos, de forma quase irrefutável, àquela asserção proferida por VPV, oportunamente transcrita pelo João.
Desafortunadamente, a corrupção tornou-se um quase ser vivo, com alguma autonomia, que se alimenta parasitariamente do esforço produtivo dos incorruptíveis ou dos incapazes, por vontade própria ou por manifesta falta de competência e/ou de meios, para corromper.
Patologicamente, e isso torna-a mais difícil de combater, propaga-se e desenvolve-se como um vírus, sem metabolismo próprio, logo sem antibióticos eficazes para a sua eliminação depois de instalado no organismo.
A corrupção combate-se, sobretudo, com profilaxia, com acções preventivas, evitando-se ou obrigando-se a evitar os comportamentos de risco.
Ora, esse comportamento de prevenção passa, em primeiro lugar, por uma mudança na estrutura da mentalidade de um povo que, por definição, é dificilmente alterável nos curto e médio prazos, senão mesmo inamovível.
A mentalidade só se altera com um bom sistema de educação, orientado para o civismo, para a civilidade e para o respeito mútuo; para a liberdade individual circunstanciada pela liberdade colectiva; pelos sentimentos de paz e de harmonia induzidos por comportamentos de solidariedade e de coesão social. Esse vírus e a capacidade mutante das suas subespécies só se extinguirão quando se der a interiorização plena daqueles valores como verdades inabaláveis, não conflituantes com a percepção individual da realidade que, decerto, conduziria à infelicidade e finalmente ao incumprimento.
O facilitismo, a indolência, o peso do Estado e a prostração facilitam a sua propagação: não se pede, por exemplo, uma factura pela compra de um produto ou pela aquisição de um serviço; não se controla o desperdício; não se monitoriza a actuação de um dirigente; atribui-se a determinada classe – clique social – um poder discricionário e insusceptível de escrutínio pela generalidade da sociedade; etc.
Em suma, os males estão identificados, a terapêutica já se conhece, há apenas manifesta falta de vontade, por dolo ou por negligência (ausência de posição), no combate ao flagelo.

Pelo supramencionado, fiquei deveras satisfeito com a nomeação da certamente incorruptível – que já deu provas disso mesmo – Maria José Morgado para exercer as funções de coordenadora dos processos relativos ao caso «Apito Dourado» e com o efeito de contágio que daí poderá advir para o todo – este país de corruptos impunes.

Para terminar transcrevo o delicioso “Decálogo do Corrupto: Princípios ideológicos do Saco Azul” elaborado por Maria José Morgado:

«I. Nunca te esquecerás de que a ética kantiana é uma teoria impraticável e que são o poder e a ambição que ditam todas as acções dos homens.
II. Terás sempre em atenção que deves usar o teu poder para servir os que ainda estão acima de ti e para seres indispensável aos que estão abaixo de ti.
III. Jamais terás dúvidas de que o dinheiro que geras para ti e para os teus é o melhor atalho para consolidar e aumentar o teu poder.
IV. Realizarás todos os teus actos na sombra, em silêncio, sem provas, sem testemunhas, longe de documentos e especialmente ao largo de telemóveis.
V. Procurarás nunca desapontar os teus amos e nunca renegar os teus cúmplices, especialmente se estes forem família, ou tiverem tido acesso a tua intimidade.
VI. Estarás sempre vigilante em relação aos que te invejam e aos que, por formalismos legais ou por suspeita, querem fiscalizar as tuas acções. Encontrarás meios para os desacreditar ou, em último caso, os eliminar.
VII. Construirás diariamente uma teia, com fios feitos por líderes que graças a ti treparão mais alto, por funcionários que de ti tirarão benefícios, por empresas que através de ti chegarão ao lucro, e por novas entidades que deixarás os teus liderarem.
VIII. Deverás estar atento a todas as oportunidades de mercado, sabendo que elas são infinitas, e estudarás especialmente as novas formas de negócios, ou seja, o modo de as usares a teu favor.
IX. Serás cirúrgico e asséptico no modo de contornar as leis, os regulamentos e os códigos, e atrairás a ti os melhores especialistas para te ajudarem a camuflar e a fazerem desaparecer todos os traços das tuas actividades.
X. No caso extremamente improvável de seres apanhado, gritarás inocência até ao fim, marcarás conferências de imprensa para proclamar o teu horror e quando te confrontares com a tua consciência, dirás a ti próprio que fizeste tudo para bem do povo e dos seus representantes.» (pág. 59)

Referência bibliográfica:
Maria José Morgado e José Vegar, O inimigo sem rosto: fraude e corrupção em Portugal. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª edição, Novembro de 2003, 151 pp.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 4

É a isto que se chama amor entre homens, in litteris? Não me interpretem mal. Embora, mesmo que o façam, não deixarei de ser quem sou: um lisonjeador quando a lisonja se me afigura justa e propositada. Desembaraço-me bem dos vitupérios rotuladores.

Este texto do Pedro Correia, sobre o imortal filme de Curtiz – o qual sito no pináculo da excelência da sétima arte – merece ser lido e relido. O Pedro termina assim citando Sophia – mais uma razão para a sua referência – sobre a dolorosa e aparente desistência de Rick Blaine:

«Rick assim faz. Entre o amor sem sombra de liberdade e a liberdade sem garantia de amor, optou por esta. Como se conhecesse os belíssimos versos de Sophia: “Terror de te amar num sítio tão frágil como o Mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e separa.
Esta é talvez a maior lição que aprendemos em Casablanca: o verdadeiro amor é sinónimo absoluto de verdadeira liberdade.
»



O que me inquieta em Casablanca – e talvez não devesse inquietar – é o futuro: a dor da separação e/ou do remorso.

Se ao dilema – ia dizer trade-off, mas o meu “id” diletante não deixou, a presa passou a caçador – amor/liberdade juntarmos a morte, Rick e Ilse optariam por esta, pressupondo a imortalidade da alma? Ou esta aparente opção pela coexistência fisicamente distante transformar-se-á, num futuro muito próximo, no implacável patíbulo pelas suas existências torturadas?

Sobre o amor e a morte, ler o brilhante ensaio de Patrick Süskind com o mesmo nome – publicado pela primeira vez em Portugal pela Editorial Presença em Novembro deste ano.
Süskind dá rédea solta às suas genialidade e fina ironia: Eros e Tanatos; Kleist e Goethe e o seu Werther; Tristão e Isolda, de Wagner; e a mais deliciosa das confrontações – entrará certa e directamente para o ideário das parelhas impossíveis: Jesus Cristo e Orfeu.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 3 [actualizado]

Para que se clarifique a minha posição, susceptível de deturpação com a citação anterior, subscrevo o texto do Rui Miguel BrásLágrimas Liberais”, do qual retirei este excerto (com a devida vénia ao Rui):

«Nestas idiotias, os nossos liberais são iguaizinhos aos marxistas que santificam Fidel: porque construiu um mercado livre ou um sistema de protecção social generoso, é o mesmo. A tirania é a mesma. E a idolatria bovina também. Só que os liberais têm mais cautela em admiti-lo (culpa das circunstâncias, não mais).»

Chega de contagem de mortos, de presos políticos, de torturados, de viúvas, de exilados, de difamados, de chantageados… dessa treta toda, do inútil exercício de comparação da dimensão peniana (em comprimento e em perímetro, em estado rígido ou numa flacidez exasperante).
Como o
Henrique classificou aqui, e bem, os que os une é a filhadaputice. E a filhadaputice não tem escala de valores, não tem gradação, ou se é ou não é: são só “0”s e “1”s.
Maniqueísmo? Talvez, e daí…
Tanto faz ser Ceausescu, Fidel, Pinochet, Estaline, Hitler, Pol Pot, Noriega, Idi Amin, Salazar, Mussolini, Bokassa, Stroessner, Vargas, Mao Tsé-Tung, François ou Jean-Claude Duvalier, Kim Il-Sung, Franco, Honecker… ou até o Professor Moriarty.

Todos mataram (bastava uma morte), todos coarctaram (ou ainda coarctam) a liberdade ao povo que comandavam (ou ainda comandam).

«A tirania é a mesma.»

Nota da redacção: No texto anterior só tentei demonstrar a minha profunda indignação perante a permanente e sistemática tentativa de beatificação (quiçá canonização) em vida de um tirano: Fidel Castro.

[Actualização: por coincidência, Sérgio, li o teu texto depois de haver publicado o meu. Acho que a minha resposta está dada.]

Anotações e Transcrições – 2

Do Miguel Castelo-Branco no 31 da Armada sobre a morte de Pinochet [com sublinhados meus]:

«Concordo que Pinochet não deixa saudades, como não deixam todas as ditaduras da América Latina, de Fidel em Cuba, Videla na Argentina, Ortega na Nicarágua ou Stroessner no Paraguai.

Espero que, quando dentro de algumas semanas, quando Fidel Castro finalmente vier a morrer, haja para com ele a mesma justiça negativa, que agora e bem, é feita a Pinochet.
»


Subscrevo, mas não partilho da esperança do Miguel. Quem não se lembra do vergonhoso comício/festa/tertúlia realizado no dia 16 de Outubro de 1998 no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos a propósito da presença desse torcionário em terras da Invicta para participar na Cimeira Ibero-Americana?

Estavam lá Saramago, Carvalhas, Vasco Gonçalves e… Narciso Miranda. Para além de Sérgio Godinho, Jorge Palma, Manuel Freire e Luís Represas.

Para mais informação consultar o Pravda português [
a mentira é o ópio do povo].

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 1

«Gente descomprometida passou de moda. É um esclarecedor sinal dos tempos», Pedro Correia no Corta-Fitas referindo-se à painelada (derivação morfológica dos famosos paineleiros de Alfredo Farinha) comentadora da TSF*. «Quanto menos isentos melhor.» De facto, parece ser essa a divisa que dirige a cupidez dos detentores do 4.º poder no panorama comunicacional luso. É a oligarquia opinativa como reflexo da democracia tentacular que se instalou há muito neste país de compadres e comadres.

«Michiko Kakutani é solteira», Rogério Casanova no seu blogue
Pastoral Portuguesa, neste delicioso e curto ensaio biográfico – em nove pontos – sobre a truculenta crítica literária do New York Times de nome Michiko Kakutani.
Sobre Kakutani já me insurgi por diversas vezes no meu anterior
blogue, especialmente quando Miss Michiko perorou e tentou arrasar, através da sua estilizada – por vezes ufanamente hermética – crítica literária, o fabuloso romance O Mar – vencedor do Booker Prize em 2005 – do escritor irlandês John Banville.
Só me questiono se a nona nota biográfica postada pelo Rogério será a causa ou o efeito da miséria humana da dita senhora. Isto é, se a exigência sem critério, a imodéstia sentenciadora e a verrina crítica que M. K. apõe aos seus textos resultam de uma vida sentimental mal resolvida; ou se, ao invés, afora a sua aparência de despenteada mental, essa sua pungente e pujante volatilidade crítica são a causa da sua (dela) aparente solidão (em bom português: livra, coitado(a) de quem lhe pegue?)

*Após haver escrito este texto, verifiquei que a rádio que já foi de referência e que caminha a passos largos para o abismo cor-de-rosa por entre veredas (e quem sabe, canaviais) e um Fragoso caminho, promoveu a letrada Carolina Salgado – outrora vítima das diatribes de tom moralista dos Veiga, Vieira e Malheiro – a comentadora de assuntos “Pinto da Costa”. Não é que Carolina tem falado de meia em meia hora desde o início da manhã!