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domingo, 24 de junho de 2007

Romantismo

10.º Passo: prossegue o inventário pessoal, admitindo com convicção os nossos erros.
(seguindo os passos até ao São João... + 2 d.)




Poderia começar por dizer que todos os romances felizes são parecidos, cada romance infeliz é infeliz à sua maneira. Poderia, ademais, para ser mais preciso, trocar o substantivo “romance” pela forma elíptica adjectivada “clássico”, se bem que tivesse de acrescentar a locução adjectiva “menos conseguido”. E, por último, transmudar a célebre asserção tolstoiana das “famílias” para os “romances”, para além de encerrar uma arteirice discursiva, jamais se poderá comparar uma “família”, essa unidade social basilar na evolução do homem, com um “romance”, uma mera invenção de uma mente, normalmente, perturbada…

Recomeço…
Pais e filhos é um “romance” sobre “famílias” como reflexo de todo um sistema social tipicamente feudal da Rússia de meados do século XIX. Bom, adiante…

Pais e Filhos, romance escrito por Ivan Turguéniev (1818-1883) – considerado como o “mais ocidental” dos autores russos novecentistas –, foi originalmente publicado em 1862, ano que, de forma indelével, assinalou nos anais da História do império dos czares o surgimento do movimento cultural do niilismo russo – cuja etimologia deriva da expressão do Latim “nihil”, que significa…

[pressinto o fim, nasce em mim uma vontade de divagar, como se ao exceder um imaginário limite de palavras, o inebriamento que o vício nos dissemina nas entranhas perdurasse para além do limite que estipulámos, o fim].

[O niilismo russo] que defendia o fim do opressivo sistema feudal, fortemente hierarquizado e dominado por uma classe aristocrática corrupta, frívola e indolente e que se limitava a explorar os desprotegidos que, imbuídos de uma religiosidade acerba e de um tradicionalismo paralisante, não contestavam o poder despótico das instituições de governo do império influenciadas por essa aristocracia.
Turguéniev, um admirador confesso das democracias, das sociedades e das escolas de pensamento ocidentais, designadamente das francesa e inglesa, constrói uma narrativa que, de uma forma veemente, através do seu personagem principal Evguéni Vassílitch Bazárov, condena a eslavofilia, machista, absoluta e servil, intensamente arreigada na sociedade russa que lhe foi contemporânea – note-se que a acção decorre no ano de 1959, logo após o términos do reinado tirânico de Nicolau I (m. 1855), encontrando-se a Rússia nos primeiros anos de governação do seu filho, o czar Alexandre II, cujo assassinato em 1881 iria marcar o fim deste movimento, indecorosamente confundido com e absorvido pelo movimento anarquista.
Bazárov, com o seu austero niilismo, condena todo o tipo de romantismo ou de arte, que considera como palavras sinónimas entre si, assim como com inutilidade, sem qualquer tipo de valor, trata-se apenas da «arte de acumular dinheiro, ou de acabar com as hemorróidas!»: «um bom químico é vinte vezes mais útil do que qualquer poeta» (pág. 32)
Arkádi Nikoláevitch Kirsánov regressa a casa, à cidade de X… (denominada por Marino pelo pai Nikolai Petróvitch Kirsánov, que vive com o seu irmão Pável), após a frequência da Universidade em São Petersburgo, trazendo consigo o seu colega, amigo e, de certa forma, mentor e iniciador no niilismo, Bazárov. Este é o ponto de origem de todo o conflito geracional que se arrasta pela obra.
Atente-se em parte de um delicioso diálogo estabelecido entre Arkádi e Bazárov sobre o pai do primeiro:

«(…)
– Anteontem dei com ele a ler Púchkin – continuou Bazárov entretanto. – Fá-lo ver, por favor, que isso já não serve para nada. Ele não é nenhum rapazinho, é tempo de deixar essas tolices. E que gosto esse de ser romântico nestes tempos! Dá-lhe qualquer coisa sensata para ler.
– Dar-lhe o quê? – perguntou Arkádi.
– Sim, eu acho que o
Stoff und Kraft
, de Büchner, para começar.
– Eu também acho – aprovou Arkádi. –
Stoff und Kraft está escrito numa linguagem popular.» (pág. 54)

Repleto de personagens fascinantes, cujos passados, minuciosamente descritos, justificam, como uma herança genética, as distintas maneiras de ver o mundo, fortemente influenciadas pelo espírito do tempo por que a Rússia atravessava, quer por aceitação ou resignação, quer por reacção ou denegação, em contraposição com o desenvolvimento das democracias ocidentais que, pela filosofia aplicada à ciência, caminhavam rumo a um materialismo visto como libertador das amarras da crendice, da servidão humana e do preconceito, Pais e Filhos é, todavia, um tratado sobre a moderação, sobre o necessário diálogo geracional, o meio-termo que evita a potencial devastação pelo recrudescimento dos radicalismos de pólos contrários, tão bem consubstanciado nas capacidades curativas do “amor” – o paroxismo do romantismo –, na arte como o veículo para essa redenção, aqui entendido como a mola impulsora, conscientemente rejeitada pelo embaraço do Homem – o seu esforço inglório de racionalização de todo o comportamento humano, rejeitando qualquer tipo de sentimento –, para alcançar a plenitude da alma.

Esta edição da obra-prima de Turguéniev, com chancela da Relógio D’Água, inclui um posfácio de Vladimir Nabokov, de mera análise literária.
Na sua primeira frase, Nabokov afirma que «Pais e Filhos não é só o melhor romance de Turguéniev, mas também um dos maiores romances do século XIX.» (pág. 219)
Concordo com a afirmação, desde que se ressalve a posição cimeira de Tolstoi (1828-1910) e de Dostoievski (1821-1881) – inimigo visceral de Turguéniev e objecto de alguma censura literária por Nabokov – enquanto romancistas e na quantidade de obras-primas que trouxeram ao mundo na arte de romancear, onde permanecem (quase) imbatíveis decorrido mais de um século.
Porém, o seu a seu dono, e o mérito com quem o tem, sem ser uma obra-prima da dimensão das engendradas pelos dois autores supramencionados e seus contemporâneos:

Classificação: ***** (Muito Bom).

Referência bibliográfica:
Ivan Turguéniev, Pais e Filhos. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Maio de 2007, 251 pp. (tradução de António Pescada; obra original: Отцы и Дети, 1862).

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Podes viver mas não amarás

A frase em epígrafe estava inscrita numa tatuagem de um dos braços de Arbatchak, um dos “brutos”, um urca, do campo de trabalhos forçados, ou Gulag – acrónimo para a administração dos campos de trabalho ou de reeducação – estalinista, em Norlag na Sibéria, a Rússia setentrional, para além do Círculo Polar Árctico.

«O meu irmão mais novo chegou ao campo em 1948 (eu já lá estava), no auge da guerra entre os brutos e as bestas…» (pág. 13)

Estas são as primeiras palavras do 1.º capítulo do romance epistolar A Casa dos Encontros do escritor britânico Martin Amis (n. 1949) e «esta é uma história de amor. Amor Russo, é certo. Mas amor.» (pág. 13)
O narrador, um próspero imigrante russo de 84 anos a viver nos Estados Unidos, de quem nunca saberemos o nome, escreve uma longa carta à filha, Venus – filha de Fénix, a renascida... –, sobre o seu passado bárbaro na União Soviética, enquanto navega pelos mares gelados do Árctico rumo ao espaço físico que as suas rememorações jamais abandonaram, e que o próprio sabe que o acompanharão até aos dias do fim.
O narrador avisa a filha para a brutalidade da história, que apenas os seus olhos ocidentais confirmarão como tal, mas que para um russo, mesmo que afastado do país há 20 anos, faz parte da realidade e do quotidiano daquele país, de uma verdade nua e crua que, há centenas de anos, e de forma inelutável, parece haver sido inscrita e posteriormente confirmada no código genético da sua História. Uma história que se conta através das atrocidades perpetradas pelos seus diferentes protagonistas, «não há Deus russo que chore e cante»: desde o século X até aos czares, a revolução de 1917 e as atrocidades do País dos sovietes, e o novo capitalismo, de rosto russo, estatizado, onde o Estado deixou o monopólio e passou a principal accionista, «o oligarca principal», onde não faltam sequer as tragédias do teatro Dubrovka em Moscovo e a chacina de Beslan… Porém, esta é uma história de amor:

«A história de amor é de forma triangular e o triângulo não é equilátero. Por vezes, gosto de pensar que é um triângulo isósceles: forma sem dúvida um vértice muito aguçado. Mas, sejamos honestos, admitamos que o triângulo se mantém brutalmente escaleno. […] Escaleno, do grego skalenos: desigual.» (pág. 14)

Lev, o meio-irmão do narrador, irmãos uterinos, chega em Fevereiro de 1948 a Norlag, um campo de trabalhos forçados, fortemente hierarquizado, onde predominam a selvajaria e a iniquidade, um campo dividido em porcos – os funcionários e os guardas –, urcas – bestas e brutos –, cobras – os informadores, os bufos –, fascistas – todos os que houvessem por uma vez manifestado uma ideia política não comunista –, sanguessugas – os burlões e trapaceiros burgueses –, gafanhotos – os urcas sem corpo nem lei – e papa-merdas – os de mais baixo estrato, os cansados da luta interna, apenas disputavam os restos de comida.
No centro da narrativa está o amor por “a Américas”, Zoya, a judia, cujo corpo fazia lembrar os rutilantes contornos geográficos das duas Américas, cuja «cintura delgada» era o «Panamá» – que Nabokov uma vez comparou a dois artistas de circo que se seguravam em plena acção no trapézio –, e que motivou a prisão, a condenação por 10 anos e a consequente deportação de Lev quando numa fila em Moscovo, em conversa mantida com a irmã de ambos, Kitty, falava bem da Américas, havendo quem o acusasse de se referir, em termos laudatórios, ao arqui-inimigo da pátria, os Estados Unidos. Contudo, era apenas a encantadora e esguia Zoya que Lev teve a ousadia de arrebatar, enquanto o narrador, nos primeiros anos do pós-guerra, expiava os seus pecados sob o gelo do Árctico, relembrando os tempos em que esta vivia numa mansarda cónica de Moscovo, com umas escadas em ferro exteriores em caracol e ele, solícito, a agarrava pelo braço para que não escorregasse no gelo que se formara – sim, «porque em pequena nunca tinha aprendido a gatinhar…» –, para posteriormente assistir ao corrupio de homens que daquela torre entravam e saíam, e ele versejando na sombra, do outro lado da rua, numa imobilidade perturbadora, prostrado horas a fio no gelo cortante da capital russa à espera de um sinal, o fechar da persiana – a ironia, o «herói violador» apaixonado, foi encarcerado por essa paixão, pela «destruidora de poetas» que, mais tarde, encarcerou o irmão.
Tudo isto ocorre durante o reinado de terror de José Vissarionovitch, a quem Amis prefere ocultar o nome principal, onde os cidadãos são apenas números, são activos do Estado, meros objectos ao seu dispor para, por todos os meios, concretizar e assegurar a imposição e o sucesso da ideologia comunista aos olhos do corrompido mundo ocidental.
Era a época das purgas, dos delatores, da polícia política, dos campos de concentração, da apologia do terror contra a dissidência, das fortes campanhas de propaganda para o exterior de um vida e de uma sociedade sãs e sapientes através das artes e do desporto, da perversa perseguição aos judeus pós II Guerra Mundial – o início do pogrom –, da proibição de todo e qualquer tipo de actividade religiosa e de qualquer tipo de manifestação. Porém, no meio desta barbárie silenciosa estava Zoya que, para surpresa do narrador, havia casado secretamente com Lev na véspera de este ser detido.
Os anos vão passando no Gulag. José Vissarionovitch morre em 1953, mas o terror no campo não abranda. É preciso matar para sobreviver, e o narrador vê-se confrontado com a atitude de pacifista do irmão e a necessidade de o defender dos porcos e das cobras delatoras, outrora gente sem rosto do seu lado da contenda nos terríveis campos de batalha da II Grande Guerra e da chegada triunfal a Berlim em 1945, que como membro do Exército Vermelho participou no estupro colectivo de milhões de mulheres alemãs, enlouquecidas, atordoadas e martirizadas por seis anos do mais terrível dos conflitos.
Ao longo da narrativa paira um mistério materializado numa data, 31 de Julho de 1956, e num local, a casa dos encontros no Norlag.
Após 9 anos de reclusão do marido, Zoya desloca-se ao campo de trabalhos para se encontrar com este, mediante uma política de abertura do regime que concedia o privilégio aos condenados casados de, numa noite, desfrutarem da companhia dos cônjuges. O narrador assiste aos preparativos do irmão e à chegada da sua cunhada, objecto da sua obsessão. A partir dessa data, aquela noite que reuniu Lev e Zoya na casa dos encontros, algo muda… Seguem-se os anos de liberdade, metaforizada na inevitável cruz russa, condicionada a uma pátria sufocante e omnipresente, que superintende cada gesto, atitude ou acção de cada cidadão.

Inspiriado no soberbo tratado de Anne Applebaum (n. 1964), Gulag: Uma História (vencedor do Pulitzer em 2004 na categoria de Não-Ficção) e na obra-prima Arquipélago de Gulag do Prémio Nobel da Literatura em 1970 Aleksandr Solzhenitsyn (n. 1918), A Casa dos Encontros é um romance sobre a turbulenta forma de amar (n)a Rússia, sobre a brutalidade quotidiana que se manteve ao longo dos tempos, apenas entendida aos olhos dos que lá vivem, formando a sua cruz, a constante subida da curva da morte acompanhada pela descida da curva que representa o número de nascimentos, que se intersectaram algures, por volta de 1992, a cruz russa: parece surgir da «tentativa de uma criança de três anos de desenhar a metade inferior de uma baleia ou tubarão: o torso largo estreita-se até desaparecer e depois tende para a barbatana caudal.» (pág. 194).

A Rússia «não é como Zoya. A Rússia aprendeu a gatinhar, e ela aprendeu a correr. O que não aprendeu foi a caminhar.» (pág. 204).

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Martin Amis, A Casa dos Encontros. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Abril de 2007, 229 pp. (tradução de Telma Costa; obra original: The House of Meetings, 2006).