sábado, 31 de março de 2007

Influenza

Exorcizo te, omnis spiritus immunde!


A minha veia de Vilar de Perdizes...

sexta-feira, 30 de março de 2007

Encontro Literário

Um título com um pequeno sofisma, porém ele (o tal encontro) realizou-se no dia de São Valentim (o acaso tem disto!), na Cidade do México, em 1976.
O encontro (literário) entre Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa deu nisto:

Gabriel García Márquez

Pobre Gabo!

Ao que parece, este recontro literário internacional deu-se devido ao excesso de paixão do colombiano, havendo atingido um ponto tal que se estendeu à mulher do peruano.

Vem tudo aqui no insuspeito The New York Times, incluindo um entrevista ao fotógrafo mexicano Rodrigo Moya. Segundo diz Moya, Gabo pediu-lhe que o fotografassem naquele estado dada a eventual escassez de oportunidades de, no futuro, se poder vir a apresentar com um olho negro (crente ou mentiroso?)

Nota: o autor do artigo, Noam Cohen, para além do título, com um coloquialismo ímpar «Olho à belenenses termina os seus 31 anos de omissão.» (tradução livre: por minha culpa, minha tão grande culpa [bato com a mão no peito], talvez "quietação" não ficasse mal, mas para o efeito pretendido fica melhor "omissão"), brilha quando recorda outros grandes encontros na História da literatura, à laia de Rocky Balboa:

  • Lillian Hellman vs. Mary McCarthy;
  • Vladimir Nabokov vs. Edmund Wilson;
  • Norman Mailer vs. Gore Vidal.

Sobre este último fica a presença de espírito de Vidal quando derrubado. Ainda no chão diz: «Uma vez mais, faltaram-te as palavras, Norman Mailer.» [Tradução livre: AMC]

quinta-feira, 29 de março de 2007

ZODIAC

Estreado no início de Março nos Estados, aí está o último trabalho de David Fincher baseado nos assassinatos que aterrorizaram a cidade de São Francisco no final da década de 60, cujo homicida permanece ainda hoje por descobrir, tendo ficado conhecido como o Assassino do Zodíaco pelas mensagens criptográficas que enviava a cada crime.



Entretanto, Fincher já se encontra a rodar The Curious Case of Benjamin Button, baseado no conto homónimo de F. Scott Fitzgerald.

Portugalidade assimilada

Diz que é uma espécie de seleccionador!

Para quem é estrangeiro, cedo se travestiu da mediocridade lusa e, como todo o autóctone médio, vive a vida a jogar para o empate, despreza os melhores e, a juntar a tudo isso, é rancoroso.
Mas afinal não veio esta luminária do Brasil?
Em 1500, Pedro Álvares Cabral…

quarta-feira, 28 de março de 2007

Memória

Fosse porventura um crítico literário – que com alguma (des)ventura não sou, nem anseio ser, talvez pelo perigo que representa transformar o objecto do meu prazer num melancólico instrumento de trabalho – cuja recensão decidisse o destino da obra analisada, João Tordo (n. 1975) ter-me-ia apanhado à 5.ª página, pela epígrafe de Hotel Memória:
«Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios.»
Por um díspar acaso quis a púbere vontade aliada às contingências da vida que não o fosse. E se o tivesse sido, percorrendo os atalhos que tentadoramente os outros nos vão colocando na inevitável interacção social, possivelmente a marca Auster não pudesse ser ostentada com tanta veemência para seguir os firmes cânones da isenção e quiçá da erudição, da estranha convenção de pós-modernista aposta ao poeta do acaso.
Recenseia, mas não te deixes apanhar nas malhas do minimalismo literário e pelos labirintos desassossegados da memória, onde a sombra de um beco parece espreitar a cada esquina dobrada sem que se vislumbre o fim.
A metadiegese é um dos recursos literários de eleição do escritor norte-americano. Aliás, embora não possa ser considerado o pioneiro na área – lembremo-nos de Edgar Allan Poe ou de Jorge Luis Borges –, Auster é hoje considerado como ficcionista ímpar no emprego desse recurso tantas vezes repudiado pela crítica e mais vezes repreendido pelo público que se perde nos tais labirintos narrativos.

Por muito que se tente repudiar, ou até negar, numa recalcitrante escassez de abertura à liberdade criativa, austeriano será em breve um adjectivo que o crescente uso consagrará no vocabulário dos vários idiomas, como se pode constatar, por exemplo, através de uma simples busca do termo nos motores de pesquisa à disposição do utilizador na internet.
Hotel Memória é um romance austeriano por excelência, não só pelo uso da distintiva metadiegese, mas também pelo papel primordial desempenhado pelo acaso nas intrincadas linhas com que se vai cosendo a narrativa. Porém, o romance também transpira Melville não só através das directas alusões às obras de que o protagonista se servirá nas mais diversas ocasiões, como Moby Dick e Bartleby – este último será o apelido que irá adoptar nas suas labirínticas deambulações nova-iorquinas – como na perceptível estrutura existencialista da própria obra, quer na demanda obsessiva por respostas, quer na angustiante busca pela redenção.
Depois, para além de um Bartleby obsessivo, há Samuel, Daniel e Russell: Tratem-me por Ismael (a famosa frase de abertura de Moby Dick, e presumivelmente a voz do próprio Melville, uma alegoria bíblica, o símbolo dos desgarrados deste mundo).
Com a epígrafe e as referências literárias que vão sendo feitas ao longo do romance, Tordo não nega a inspiração e as influências na construção da história. Trata-se de uma brilhante associação Auster/Melville, sabendo-se que o primeiro nunca negou as grandes influências do segundo no seu trabalho (aliás, o contrário seria verdadeiramente impossível).
De linguagem firme, decidida, sem arabescos e com diálogos curtos e incisivos, Hotel Memória prende o leitor pela surpreendente cadência dos acontecimentos. Tal como o inspirador, o inspirado – João Tordo – conseguiu levar-me a momentos de puro choque, sem dramas gratuitos e sensacionalistas, mas pela verosimilhança, pela dura realidade que poderá surgir a qualquer momento e na imperceptível, porém curta, distância do limite de uma existência feliz ao abismo do sofrimento, da solidão, do desespero e da indigência humana.
A luta. Esta constante luta.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo, Hotel Memória. Lisboa: QuidNovi, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 221 pp.

terça-feira, 27 de março de 2007

Um personagem nada acidental

Iris Murdoch - Um Homem AcidentalAustin Gibson Grey é Um Homem Acidental. Personagem principal do romance de 1971 da escritora britânica (de adopção) Iris Murdoch, nasceu em Dublin em 1919 e morreu em Oxford em 1999 vítima da Doença de Alzheimer.
Casada desde 1956 com o escritor e crítico literário John Bailey, Iris Murdoch é ademais conhecida pelas fortes raízes filosóficas da sua formação académica na Universidade de Oxford, baseada sobretudo no existencialismo de Jean-Paul Sartre, cuja marca se faz notar nas suas obras de ficção. Poetisa, dramaturga e ensaísta, foi contudo na literatura de ficção em prosa que se notabilizou. Obras como O Sino (1958), The Black Prince (1973, vencedor do prestigiado James Tait Black Memorial Prize), A Máquina do Amor: Sagrado e Profano (1974, vencedor do Whitbread Book Award), O Mar, O Mar (1978, vencedor do Booker Prize) e O Bom Aprendiz (1985) foram internacionalmente aclamadas como obras-primas da Literatura do século XX.

Este ano (em Janeiro) a excepcional editora lusa Relógio D’Água – cujo trabalho editorial tem permitido a publicação de obras de literatura de outros tempos que jamais haviam sido editadas no mercado português, ou daquelas cuja edição na língua de Camões se encontrava esgotada há décadas – publicou pela primeira vez no nosso país o romance de Iris An Accidental Man (1971) sob o título Um Homem Acidental.
Este romance de Iris Murdoch é, como tantos outros romances da autora, marcado pela matriz filosófica existencialista de Sartre. Fortemente imbuído do intrincado das relações sociais e das influências nefastas que as nossas acções exercem na vida dos outros de forma involuntária, apenas porque somos livres de as praticar, onde imperam a angústia perante a decisão e o absurdo da própria existência.

A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...

Assim é Austin Gibson Grey. Um anti-herói. Um homem que se define a si próprio como acidental. Aquele que pela sua acção aparentemente anódina traz a infelicidade ao mundo e destrói tudo aquilo que o rodeia. Um homem que vive com a culpa dessa destruição e que resignadamente sobrevive com essa consciência. Vive na angústia da separação física da mulher que ama e cuja existência em comum é entendida como um cataclismo por razões aparentemente injustificáveis e não encontradas à luz da razão. A dado passo, num curioso diálogo sobre a Irlanda – terra natal da autora, remota e fortuita na sua consciência, já que viveu em Inglaterra desde os primeiros anos da sua infância –, estabelece-se a analogia entre a terra de São Patrício e o acidental protagonista: «A Irlanda é como o Austin. Bonita para se ver e tem-se pena dela, mas é, de certo modo… horrível.» (pág. 246)
Austin desiste da possibilidade de uma existência feliz, abdica da luta, porém a luta vem ter com ele a cada gesto que, por mais inocência que possa encerrar, arrasa e implica tudo e todos que o rodeiam, mas que, de forma paradoxal e inexplicável, o próprio, o pólo de atracção da tormenta, acaba por sair incólume:
«Austin faz com que qualquer um fique com um ar pálido e assombrado.» (pág. 363)
É em roda deste personagem que se desenrola a trama com mais de uma dúzia de personagens que gravitam em torno dessa contingência existencial que é Austin Gibson Grey, a que não falta um espaventoso carro desportivo, que passa de mão em mão, apelidado de Kierkegaard...
Um Homem Acidental é um puro exercício da mestria das capacidades de narrativa de Iris Murdoch.
A escrita flui num manancial de diálogos que são acompanhados de algumas introspecções, mas sobretudo de cartas e bilhetes que dão uma sequência lógica ao enredo, através da revelação das inquietações mais profundas dos personagens. E depois temos os eventos sociais, onde Murdoch através de frases curtas e aparentemente retiradas do contexto nos transmite de forma magistral a frivolidade da classe média inglesa, numa sociedade que ainda mal acabara de lamber as feridas de uma guerra atroz e que parecia subsistir num auto-estimulado autismo num mundo onde dois pólos opostos se digladiavam no extremo oriente afastando, em definitivo, a barbárie das batalhas fratricidas do martirizado solo europeu.
Um Homem Acidental é um livro de leitura compulsiva, pleno de ironia, com momentos de boa disposição – alguns elevados ao paroxismo do burlesco que nos induzem à manifestação de uma sonora e saudável gargalhada –, e outros que exigem uma reflexão, não à laia de uma enfatuada lição sobre a condição humana, mas sobre os efeitos perversos que as tais contingências resultantes do exercício da nossa inderrogável liberdade individual têm sobre os outros, o inferno.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica
Iris Murdoch, Um Homem Acidental. Lisboa: Relógio D’Água, Janeiro de 2007, 365 pp. (tradução de Maria de Lourdes Guimarães; obra original: An Accidental Man, 1971).

segunda-feira, 26 de março de 2007

Sinais preocupantes?

O seu nome é Paul, Paul Auster. Nova-iorquino de coração, nascido há 60 anos em Nova Jérsia na terra Natal do Mestre P. Roth, que no último dia de S. José completou 74 anos.
Em entrevista dada ao director do Instituto Cervantes de Nova Iorque, Eduardo Lago (EL), e publicada no jornal El País no início deste mês, Paul Auster (PA) termina-a dando claros sinais de alguma sintomatologia do Síndrome de Bartleby – o escrivão de Melville.
Auster confessa que depois de haver escrito Travels in the Scriptorium e de ter terminado a rodagem do filme The Inner Life of Martin Frost (produzido por Paulo Branco e filmado em Sintra) tem apenas uma pálida ideia sobre o conteúdo da sua próxima obra. Sente-se esgotado e revela uma tremenda angústia pelo fantasma do padecimento do famoso bloqueio de escritor, conjecturando mesmo sobre o seu fim no mundo das letras.
Quase ignorado na sua terra pelos seus reputados colegas de profissão e pela crítica, Auster é um dos escritores norte-americanos da actualidade mais admirados na Europa, principalmente em França, na Alemanha, em Itália e em Espanha, onde, a cada visita, as salas de leitura ou as sessões de apresentação de livros e de autógrafos se enchem sempre que o seu nome aparece em cartaz; onde a cada livro publicado os fãs se organizam em troca de opiniões e grupos de leitura, analisando as entrelinhas do acaso, marca registada do autor.
Uma detestável crítica literária inglesa* – que se amanha com afinco na sua ainda púbere arte de criticar – atribui a sua popularidade em solo europeu ao facto de os tradutores europeus de língua francesa, alemã, polaca, checa, espanhola, portuguesa, italiana ou romena, no seu afã de traduzir, de alindarem, porque só se pode melhorar, a sua prosa pobre e sem qualquer tipo de brilho. Aliás, há até um blogger/jornalista da
New York Magazine que encaixa em Auster uma famosa frase de Gore Vidal sobre Kurt Vonnegut – este último, tal como com Auster, mais amado fora do seu país – “lose something in the original.
A rapariguinha que, de quando em vez, recenseia no
The Times Literary Supplement e execra Auster, chega a afirmar que os próprios personagens de Auster são potencialmente perigosos para os seus leitores dado o seu grau de solidão e de sofrimento – depois de António Oliveira com o seu famoso assassinato por meios audiovisuais no “Caso Paula” em reportagem na SIC, haveria de ler uma recensão de uma estridente moçoila que quase faz a apologia de marca Oliveirista de homicídio pela literatura. Curiosamente, motivou uma veemente reacção por parte dos seus leitores que, com sarcasmo, se diziam verdadeiramente ameaçados pelo simples abrir das folhas de um livro do escritor de Brooklyn – outros interrogavam-na pela necessidade, quase masoquista, de ler Auster quando na realidade o detestava, demonstrando-o à saciedade, ou seja, para quem à partida o odeia, qual a razão de ter lido na íntegra os cerca de 11 romances e 5 ensaios, para além da poesia reunida? Não podem ser invocados motivos de exercício da profissão, uma vez que o preconceito anti-Auster decerto a toldará em futuras análises das suas qualidades literárias, tendo como produto final uma recensão inquinada e intelectualmente desonesta.

Eis as palavras de Auster no El País (1 de Março de 2007):
«(…)
EL: [No seu romance Travels in the Scriptorium] você reserva a aparição de Daniel Quinn, personagem de A Trilogia de Nova Iorque, para o fim. Isso significa que Travels in the Scriptorium é uma tentativa de regresso às origens, uma espécie de recapitulação de toda a sua obra?

PA: É possível… Reconheço que é uma decisão um pouco estranha. A verdade é que quando terminei As Loucuras de Brooklyn não estava no máximo das minhas forças. Tinha dúvidas sobre a minha capacidade para escrever outro romance.

EL: Porquê? Quer dizer que sua imaginação não se encontra em boa forma?

PA: Em boa verdade, não sei. Neste momento demonstro alguns sinais de esgotamento. Trabalhei muito nos últimos tempos. Escrevi o argumento de um filme que estreará em Março. Depois de Travels in the Scriptorium não comecei nada de novo. Oxalá possa continuar a escrever. Tenho algumas ideias, porém são muito vagas. Quem sabe se não terei chegado ao fim. Porventura não haverá mais romances de Paul Auster. Não sei. Oxalá não seja assim, mas neste momento nada posso assegurar.»

Um sinal preocupante para humanidade, um pequeno sinal de criação para os artistas das letras (digo eu).

Notas: *Deborah Friedell

Pulhas!

Cerca de 60% dos votantes do programa Os Melhores Portugueses votou em dois pulhas, antidemocratas e apologistas da opressão como sustentáculo e base orientadora da vida dos cidadãos, por via da coarctação dos direitos, liberdades e garantias que hoje em dia, pelo menos como pessoas com alguma saúde mental, reputamos como inalienáveis.

2.ª Conclusão
Também não excluo, apesar da gritante falta de base científica à votação, o exercício do tal voto de protesto, como disse e bem Rosado Fernandes, perante uma classe política de corruptos e pela podridão que grassa na Justiça, percorrendo de forma transversal juízes, procuradores, advogados e demais funcionários, que contagia a sociedade, de forma irremediável, pela via da impunidade.

3.ª Conclusão
E ainda decorrente do debate, admiro os bêbados e os homossexuais, como admiro qualquer forma de transgressão à imunda e repugnante mediocridade desta sociedade portuguesa, pequeno-burguesa, pejada de filisteus, de gente ignara, arrivista, onde se exalta o chicoespertismo como qualidade perante a sordícia deste nojo de país.

PIM!

PS – Escrito a quente, sem qualquer tipo de revisão, e de forma incandescente, em brasa – fujam do cheiro a enxofre! –, e assim ficará; nem que amanhã me possa vir a arrepender daquilo que neste momento escrevo neste blogue!

sexta-feira, 23 de março de 2007

Top Ten

Até ao momento em que escrevo este texto, suponho que fui o único leitor português que postou as suas preferências literárias no sítio do livro editado por J. Peder Zane, The Top Ten: Writers Pick Their Favorite Books – para o efeito, utilizei, no passado dia 2 de Fevereiro, a lista automática, de inspiração bretoniana, que publiquei aqui no dia 22 de Dezembro de 2006; todos os dias faria outra diferente…
Para participar na votação, carregar aqui.

O editor pediu a 125 escritores que elegessem, por ordem de preferência, os 10 melhores livros de ficção de todos os tempos, de acordo com o seu gosto pessoal.
Entre os eminentes escritores eleitores estão nomes como: Paul Auster, John Banville, Julian Barnes, Peter Carey, Michael Cunningham, John Irving, Ha Jin, David Lodge, Norman Mailer, Scott Turow, Barry Unsworth, David Foster Wallace ou Tom Wolfe.

Divirtam-se!

É hoje!

O Henrique Fialho apresenta o seu mais recente livro, Estórias Domésticas, em Leiria:


(carregar na imagem para a ampliar)

Este caro prazer – IV

[intróito]
Para manter alguma coerência com alguns princípios que formulei quando iniciei a actividade na blogosfera, amplamente dissipadora de maus espíritos, abster-me-ei de mais considerandos da teoria económica, até em razão da própria formação académica que versou sobre questões felizmente mais pragmáticas e menos dadas à efabulação.

[exorcismo]
Há uns dias falava do famoso binómio trabalho e ócio e da eterna busca de uma estável harmonia dessa misteriosa dicotomia que, paradoxalmente, se consubstancia nessa palavra inaudita: “felicidade”.
O mais frustrante, para quem se interroga sobre os meios para alcançar esse fim, promissoramente feérico, é entender que essa perenidade assenta num círculo vicioso: a incomensurabilidade, a diversidade gradativa e a forte carga pessoal e intransmissível no alcance desse objectivo supremo é o que simultaneamente nos embota o espírito e que, na tremenda ânsia de o divisar, se constitui no nosso pathos.
Recorrendo à judiciosa sabedoria popular, esta atreveu-se a transformar aquele binómio num trinómio cujo equilíbrio é perfeitamente inalcançável – a típica vitimização do ser humano pela cruel provação divina, um sentimento colectivo de invencibilidade do desígnio. Trata-se da famosa tríade “saúde, tempo, dinheiro”, cuja busca da tal combinação óptima determina a divisão do nosso longo processo ontogenético em três fases, sendo que, para tristeza geral – assim augura o fatalismo popular –, um desses factores assume o valor “zero” ou dele se aproxima de forma vertiginosa numa dessas fases – normalmente anteposto da expressão “falta de”. E esse é o nosso Óptimo de Pareto em cada uma das etapas – o exorcismo parece não resultar.

[incerteza]
É, pois, com alguma estranheza, espanto e um sonoro suspiro de “isto só a mim!” que verifico que neste momento, seguindo esse presságio de almanaque com um forte cariz dogmático, atravesso o 2.º estágio do tal desenvolvimento existencial – período compreendido entre o 1.º emprego e o momento da reforma laboral – e porventura o mais curioso, ao arrepio do doutamente preceituado, “tempo” é o que neste momento parece não me faltar – pura ilusão? Será um megalómano sentimento de omnipotência, típico dos frequentadores da terceira década da vida?
Mas se, ao arrepio do credo popular, estabeleci com convicção a possibilidade da optimização do tempo para o alcance do meu bem-estar – ou felicidade –, a situação agrava-se pelas sérias dúvidas quanto à minha “saúde” – possivelmente mental, seguindo o ditame pessoano da incerteza pela própria lucidez – e, por fim, com as muitas certezas no que respeita ao “dinheiro” – escassíssimo –, apenas não lhe conhecendo o destino no momento da separação: Quo vadis?
Esperei tempos infindos e não houve resposta, assim sendo resta-me um desleninizado: Que fazer?
Lá vem Rilke uma vês mais. «precisas de mudar de vida» (du mußt dein leben ändern).

[dúvida sobre a incerteza]
Mas, e se seguir Walser? Não necessariamente o Mestre que acabou naquela precariedade existencial, mas Vladimiro, esse ser tão certinho e realizado, desembaraçado na descoberta do caminho (ou atalho) para a felicidade: «Tenho vivido até agora de acordo com o que considero bom e justo e não temo a possibilidade de que alguém possa vir provar-me que errei, pelo que me acho com todo o direito de afirmar que errar é humano. Compreendo, no entanto, que seria bom agirmos segundo nobres critérios, reduzirmos um pouco as alegrias da vida para cumprirmos outras tarefas, entendermos a felicidade também de outras formas que não apenas a de preservarmos a boa disposição, não nos tornarmos dependentes desta última, receosos a toda a hora de a perder, sempre preocupados em a manter viva; não, antes ousar, de peito aberto, sacrificar a nossa felicidade e talvez, como consequência disso, ganhá-la de novo.» in Robert Walser, A Rosa, pp. 16-17, (Relógio D’Água, 2004; tradução de Leopoldina Almeida; obra original: Die Rose, 1925)
Será essa presunção do espírito de realização – como posteriormente afirma Walser –, não enxergar o que nos incomoda, não enfrentar a injustiça, em suma, fugir da vida, o trilho certo para a tal felicidade?
Porventura é a isso que estamos condenados, a ignorância como via aberta para a santidade, o que não pressentimos não nos arruína; o eterno miasma judaico-cristão do oferecimento da outra face e da felicidade suprema para os pobres de espírito.

[constatação]
Para concluir esta chatice verborreica que já se estende por quatro longos episódios, tenho de constatar que o “tempo” nunca será um problema; ele é um estado de espírito que deriva da própria “saúde”, no seu sentido lato, que poderá ser agravada com a escassez do vil metal.
Por muito que nos esforcemos, empregando o nosso tempo, em obter o dinheiro indispensável para a manutenção da nossa sanidade física e psíquica, chegaremos desde logo à conclusão que esse tempo despendido em trabalho jamais nos trará a felicidade, porque não existe o indispensável ócio e assim, o actualmente acelerado ritmo editorial português só será um problema de saúde pública se acharmos que podemos deter o melhor dos dois mundos: tempo para o lazer e muito dinheiro.

[profecia]
Hoje mesmo receberei o primeiro prémio do Euromilhões…

[fundamento]
Inútil.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Contando os dias para o 1 de Abril (I)

Bem ao estilo do Inimigo Público:


Manuel Pinho, ainda Ministro da Economia, prepara-se para anunciar a marca “PORTUGIRL’S”.
O objectivo imediato da campanha é o de aproveitar o decréscimo de turistas no Sudeste Asiático dadas as catástrofes naturais e a instabilidade política na Tailândia.
Os meios de promoção ainda estão no segredo dos deuses, mas, segundo fontes bem informadas, já terá sido contactado o Prof. Doutor Barbas que, segundo se diz, garantirá a contratação de uma reputada escritora com experiência na matéria, cuja feliz coincidência do apelido permitirá a utilização na campanha dos dois primeiros versos do poema de Fernando Pessoa, Mar Portuguez:
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!

The hunter has become the hunted!

Aí está Michael Moore e o reverso da medalha.
O documentário Manufacturing Dissent, entretanto estreado nos Estados Unidos, realizado pela dupla canadiana Rick Caine e Debbie Melnyk, assumidos militantes de esquerda no espectro político, está a deixar a mascote da Velha Europa num confrangedor mutismo.

O trailer:



Será que este documentário irá merecer a Palma de Ouro no próximo Festival de Cannes?

Saul Bass

Excelente série de posters e de sequências de créditos iniciais de obras-primas cinematográficas criados pelo Mestre Saul Bass, postada pelo Francisco Valente no seu blogue godardiano O Acossado.

Deixo aqui ficar outro genérico inicial, criado por Bass e a sua mulher Elaine para Martin Scorsese. Trata-se da abertura do inolvidável Cabo do Medo, um remake do filme de 1962 Barreira do Medo (também Cape Fear no título original em inglês), com música original do inevitável Bernard Herrmann, com arranjo orquestral de Elmer Bernstein para a versão de 1991 de Scorsese.

Eis mais um exemplo da perfeição e da harmonia emanadas pela dupla Bass & Herrmann:


quarta-feira, 21 de março de 2007

Poesia II

E porque o dia é de(a) poesia, e confundindo-se esta com a historiografia da nossa melancólica e contemplativa História, eis um poema de um dos seus mais insignes poetas vivos:

Que mais pode este dia?
Em cada ligação a morte fala baixo
e arrefece as pernas das telefonias.
Em cada pulsação
escondemos o rosto embriagado
pelo tédio ou pelo terror
de mãos desfeitas.
Por vezes o silêncio ainda nos salva
e com que gratidão
banhamos a pele clara dos sentidos
na luz dos seus relâmpagos
mortais.

Porque a cabeça escuta,
escuta e nunca mais.

Armando Silva Carvalho, “A cabeça escuta”.


In Armando Silva Carvalho, O que foi passado a limpo (obra poética, 1965-2005). Lisboa: Assírio & Alvim, Março de 2007, pág. 279 (590 pp.) (poema originalmente publicado em Sentimento de um Acidental, 1981).

Poesia I

Neste dia, que é o seu, presto homenagem à forma de expressão literária que menos me foi dizendo, mas que fui (e vou) descobrindo à medida que vou envelhecendo.
Começa-se por um poema que um dia recitado nos desperta e descreve, com uma precisão de filigrana, o insulamento a que nos votámos, essa inquietude da alma pela inadaptação perante a injustiça reiterada.
Foi assim com o Porque de Sophia, e foi assim que a descobri, a sintonia poética, como mero receptor, que decisivamente me transmitiu a mensagem da profunda dor por outrem sentida, a cada verso tragado, a cada novo poema lido e relido.

Em jeito de homenagem à arte poética, deixo aqui ficar um dos meus autores favoritos:

toda a ignorância escorrega para o saber
e de novo se arrasta para a ignorância:
mas o inverno não é para sempre,mesmo a neve
derrete;e se a primavera estragar o jogo,que fazer?

toda a história é um desporto de inverno ou três:
que fossem cinco,eu seguiria insistindo que toda
a história é demasiado pequena até mesmo para mim;
para mim e para ti,excessivamente demasiado pequena.

Mergulha(estridente mito colectivo)na tua tumba
tão-só para trabalhar a escala até à hiperestridência
por cada magda e marta diogo e david
–amanhã é o nosso endereço permanente

e aí mal nos hão-de achar(se acharem,
mudaremos ainda mais para diante:para agora


e.e. cummings, “toda a ignorância escorrega para o saber”.

in e.e. cummings, xix poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2.ª edição (edição bilingue), 1998, [xiv], pág. 57 (77 pp.) (tradução Jorge Fazenda Lourenço; poema original: "all ignorance toboggans into know", inserido no livro de poemas 1 x 1, 1944)

Achado

Há dias assim, de sorte, Dias Felizes onde o acaso, nas suas impenetráveis digressões, resolve bafejar-nos com algo de importante, não apenas na dimensão da coisa, mas também nos pequenos nadas que para nós tudo parece significar.
Estou numa semana da sorte, nuns casos apenas resultado da recompensa do duro trabalho que implica a luta pela vida, noutros é a mera providência, entendida aqui como a aleatoriedade da espuma dos dias, daquilo que fica depois da tenebrosa agitação da simples pretensão pela sobrevivência.

Ontem, a sorte estabeleceu um pacto comigo – o tal que vinha pedindo e ia perdendo no momento da firma –, apenas exigindo como recompensa o fruto do meu esforço que se ia fundindo no desespero dos longos dias em branco, paradoxalmente manchados no mais negro dos matizes: a sombra do desassossego.
Hoje, o tal pequeno nada que tudo significa: Samuel Beckett, o meu sumo-sacerdote na liturgia das palavras, o fiel reprodutor em letras e gestos do negrume da natureza humana; os últimos trabalhos condensados numa pequena encadernação, em edição bilingue, com tradução de Miguel Esteves Cardoso.
Repousava na estante, encafuado numa vulgar embalagem de plástico, entre Watt e Molloy, ou seria Murphy? Talvez Malone

Wortstward Ho, 1983 (Pioravante marche)
Stirrings Still, 1988 (Sobressaltos)
What is the Word, 1988 (Que palavra será)

Excerto:
«Uma noite estava ele sentado à mesa dele com a cabeça entre as mãos quando se viu a si mesmo a levantar-se e a ir-se. Uma noite ou um dia. Pois quando se apagou a luz dele não ficou na escuridão
Abertura de “Sobressaltos” de Samuel Beckett (trad. MEC)

Referência bibliográfica:
Samuel Beckett, Últimos trabalhos de. Lisboa: Assírio & Alvim / Independente / Miguel Esteves Cardoso, 1996 (edição bilingue), 63 pp.

terça-feira, 20 de março de 2007

As memórias de um filisteu

Para o Rogério, por isto.

A santíssima trindade – assim grafada, dadas as susceptibilidades religiosas – que supostamente me livrarão da sevícia do alcatrão incandescente sobre a (minha) pele... sensível. Será?
Dois momentos e um pequeno excerto da posta-restante:

(1980) O fabuloso e comovente Double H (Hopkins/Hurt):


Uma História Simples




(1999) Derrogação de aforismo: Simple is beautiful! (adenda: para quê complicar, quando o simples é executado como uma obra-prima?)


O Homem Elefante




(1990) Esmagador (bons tempos do sobrinho de Francis Ford e primo de Sofia)



Ao ritmo de um por década.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Philip Roth vence PEN/Faulkner de 2007

Philip RothComeço o texto com a pergunta que faço sempre quando penso em, leio ou escrevo sobre Philip Roth: Srs. Membros da Academia Sueca, para quando o Nobel?
Roth, escritor judeu norte-americano, nascido em Newark, Nova Jérsia a 19 de Março 1933, cumpre hoje 74 anos. No passado dia 26 de Fevereiro venceu pela terceira vez um dos mais prestigiados prémios literários em língua inglesa: o PEN/Faulkner Award for Fiction, desta feita com Everyman (ainda não editado em Portugal).
Desde 1981, ano em que o prémio começou a ser distribuído, Roth foi o único a vencê-lo por três vezes. Em conjunto com John Edgar Wideman, (vencedor em 1984 e 1991) só em 2005 o escritor chinês Ha Jin, tal como em 2006 E. L. Doctorow o igualaram com duas atribuições; este ano Roth descolou do grupo, devendo as restantes atribuições aos romances Operation Shylock (em 1994) e The Human Stain (em 2001)
Todos os adjectivos elevados a qualquer forma de superlativo são poucos para qualificar a obra de um dos meus escritores favoritos. Quem não se encantou com a destreza narrativa contrafactual de Conspiração Contra a América, com o magistral, atormentado e edipiano Complexo de Portnoy e a soberba narração da beleza e da crueldade da condição humana no assombroso – para mim o melhor romance de Roth e um dos melhores de todos os tempos – Pastoral Americana.

Parabéns, Philip!

Aqui fica um pequeno excerto de um das suas mais extraordinárias obras de ficção. O homem que sabe que a morte, pela lei da natureza, está próxima e, sem rendições, no enleia nessa teia de desesperos, cumplicidades, júbilos, ostentações e alegrias que matiza a vida, essa puta:
«Há que fazer uma distinção entre morrer e a morte. Nem tudo é morrer ininterruptamente. Se somos saudáveis e nos sentimos bem, vamos morrendo invisivelmente. O fim, que é uma certeza, não tem de ser arrojadamente anunciado. Não, não podemos compreender. A única coisa que compreendemos acerca dos velhos quando não somos velhos é que foram marcados pelo seu tempo. Mas compreender apenas isso imobiliza-os no seu tempo, o que equivale a não compreender nada. Para aqueles que ainda não são velhos ser velho significa que já fomos. Mas ser velho também significa que apesar de, além de e para lá do nosso estado de ser, ainda somos. O nosso estado de ser está muito vivo. Ainda somos e sentimo-nos tão atormentados pelo ainda-ser e pela sua plenitude como pelo já-ter-sido e pela sua qualidade de passado. Pensem na velhice do seguinte modo: o facto de a nossa vida estar em risco é apenas um facto quotidiano. Não podemos esquivar-nos ao conhecimento daquilo que em breve nos espera. O silêncio que nos envolverá para sempre. Tirando isso, é tudo a mesma coisa. Tirando isso, somos imortais enquanto vivermos.»
Philip Roth, O Animal Moribundo. Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2006, pág. 38 (131 pp.), (tradução de Fernanda Pinto Rodrigues; obra original: The Dying Animal, 2001)

Lista completa dos vencedores do PEN/Faulkner Award for Fiction (títulos em português e respectiva editora se for o caso):
1981 – Walter Abish, How German Is It?
1982 – David Bradley, The Chaneysville Incident
1983 – Toby Olson, Seaview
1984 – John Edgar Wideman, Sent for You Yesterday
1985 – Tobias Wolff, The Barracks Thief
1986 – Peter Taylor, The Old Forest
1987 – Richard Wiley, Soldiers in Hiding
1988 – T. Coraghessan Boyle, World’s End
1989 – James Salter, Dusk
1990 – E. L. Doctorow, Billy Bathgate (Temas da Actualidade)
1991 – John Edgar Wideman, Philadelphia Fire
1992 – Don DeLillo, Mao II (Relógio D’Água)
1993 – E. Annie Proulx, Postcards
1994 – Philip Roth, Operation Shylock
1995 – David Guterson, A neve caindo sobre os cedros (Relógio D’Água)
1996 – Richard Ford, Dia da Independência (Presença)
1997 – Gina Berriault, Women in their Beds
1998 – Rafi Zabor, The Bear Comes Home
1999 – Michael Cunningham, As Horas (Gradiva)
2000 – Ha Jin, À Espera (Gradiva)
2001 – Philip Roth, A Mancha Humana (Dom Quixote)
2002 – Ann Patchett, Bel Canto (Gradiva)
2003 – Sabina Murray, The Caprices
2004 – John Updike, The Early Stories 1953-1975
2005 – Ha Jin, War Trash
2006 – E. L. Doctorow, March
2007 – Philip Roth, Everyman

Literatura e o Mundo

Três pequenos apontamentos das relações, vulgarmente apontadas como perigosas, entre a arte literária e a política, ou a cultura como meio privilegiado para se reconquistar uma hegemonia que se perdeu.

Não é difícil de adivinhar com quem Gabriel García Márquez, o escritor colombiano semper fidelis,
resolveu comemorar o seu 80.º cumple años, fugindo dos que lhe deram a prerrogativa, através da merecida deificação da sua escrita, para cometer de forma livre estes desvarios, com um ligeiro aroma (não da goiaba, mas) da democracia professada mas não praticada. Democracia, esse conceito tão difuso e conformável às necessidades. Mas, não houve Ezra Pound, por um lado, e George Bernard Shaw, por outro? E tantos outros...

Formou-se um grupo de 44 escritores francófonos para a elaboração de um manifesto que exige uma mudança do centro geodésico da língua francesa, até hoje concentrada na Metrópole, para outros cantos do mundo onde se fala francês, como África e Caraíbas. No entanto, a chamada de atenção para os escritores francófonos fora do pentágono gaulês redunda, de forma cómica, em exemplos dessa descentralização na literatura de língua… inglesa! São apontados como exemplo a seguir nomes como Rushdie (nascido na Índia e naturalizado inglês), Ishiguro (nascido no Japão e naturalizado inglês) ou Ondaatje (nascido no Sri Lanka e naturalizado canadiano) e esquecem-se de referir quais os francófonos que poderiam ser a voz dessa mudança. Talvez eu, um lusófono não pertencente ao mundo das letras, proponha Houellebecq que nasceu na ilha de Reunião, escreve em francês e vive em Espanha; ou então a jovem esperança Jonathan Littell que, apesar de americano, vive em Espanha, casou com uma belga e publica em francês.

Finalmente, o escritor peruano Mario Vargas Llosa (meu colega de doutoramento… em matérias e épocas diferentes, porém no mesmo local) emite a sua opinião sobre a libertação de Ignacio de Juana e para o perigo de desmoronamento daquilo que o país conquistou com a denominada Transição Pacífica – que, acrescento, foi o factor que esteve na génese do contínuo afastamento do nosso país do vigor económico, social, tecnológico e cultural espanhol.

domingo, 18 de março de 2007

Ninfetas e Mancebos – 2

Björn Andrésen em Morte em Veneza
Este a imagem pertence a um dos muitos cartazes promocionais de uma das obras-primas de Luchino Visconti, Morte em Veneza (1971), baseado no romance homónimo, de 1912, de Thomas Mann.
Nela figura o jovem Tadzio (Björn Andrésen), objecto de obsessão puramente platónica de Gustav von Aschenbach – magistralmente interpretado por Dirk Bogarde –, sozinho no mundo e com uma vida destroçada pela perda da família e do dom para a composição musical. No filme de Visconti (realização e argumento), tal como no romance do escritor alemão, a arte revela-se na beleza do sofrimento pelo inatingível e que nos sossega com a simples contemplação. Não há gratuitidade lasciva e nem se apela à pederastia, como muitos fizeram crer repudiando o romance – aliás como ocorreu com Lolita de Nabokov uns anos mais tarde, sendo, porém, curioso que o próprio Nabokov repudiasse, por motivos estéticos, a obra de Mann.
Apesar da bem conhecida bissexualidade tanto de Mann, como de Visconti, Morte em Veneza não pretende explorar o filão mediático pelo choque, é apenas uma manifestação artística que exibe o ponto extremo que pode alcançar o sofrimento humano, imposto pelos constrangimentos que advêm da sua peculiar e essencial característica de homo socialis.

sábado, 17 de março de 2007

Ninfetas e Mancebos – 1

Kubrick's Lolita
Na imagem (parte integrante do cartaz promocional) Sue Lyon, como Dolores Haze, mais conhecida por Lolita.
Filme de 1962 do Mestre Stanley Kubrick, com argumento de Vladimir Nabokov, baseado no seu romance homónimo de 1955.

Comentário: suponho que foi Walser (e a ele tenho recorrido com alguma frequência nos últimos tempos) que disse que se um escritor são é mau escritor, é, nesse caso, um escritor enfermo, mas se um escritor doente produzir obras boas, ele pertence ao grupo das pessoas sãs, através da sua escrita.

Quem fala da Literatura, pode estender a asserção aos outros domínios da arte.
Não estou com isto a questionar a avaliação da sanidade mental de Nabokov aos olhos dos filisteus, aliás isso pouco lhe importava, mas a assumir um comportamento desviante que se corporiza na arte, a tal válvula de escape freudiana.


Contudo, esta é a minha convicção, as obras de arte potencialmente derrogadoras da concepção moral estabelecida numa dada sociedade num dado momento, nada mais são que o produto da criatividade de alguém que, irreverentemente, nos transmitiu de forma exaltada determinada concepção, mesmo que o produto final encerre uma certa forma de messianismo ou pretensões dirigistas. Assaz diferente é o uso e abuso dessas tais mensagens derrogadoras por uma qualquer chusma de reputados criativos, cuja obra criada apenas serve alguém cujos objectivos são unicamente mercantilistas e apenas dela se serviram para que a mais do que antecipada polémica produza resultados (económicos) na sua conta de exploração trimestral. Isso não é arte, é tão-só e somente um abuso da liberdade de expressão.

Este caro prazer – III

Antes de prosseguir com um possível final desta sequência assaz torturante para um amante da Literatura – e o epílogo terá necessariamente de revelar aquilo que me atormenta, a ostentação da sublimação deste escriba infecundo ou, porventura, apenas temporariamente falho de ideias –, há um episódio, sem a mínima importância senão para o protagonista, bem ilustrativo da patologia de que tenho vindo a falar por subentendidos: Voragem In Litteris; bem auxiliada pelos limites infindos dos anestésicos cartões de crédito.
A
Mónica e o Sérgio já me alertaram para a indispensável introdução da variável “tempo” – neste caso a falta dele –, e na realidade o “tempo” esteve indelevelmente associado ao objectivo inicial – como demonstrarei à saciedade – desta divagação manchada pela futilidade.

O episódio que me envolveu teve a qualidade de trazer à urdidura Walser e Kerouac – passe a pretensão e a companhia, o primeiro morreu louco e o segundo morreu de bêbado. Por outro lado, envolveu Mário Dorminsky, sendo que ele não o sabe, nem tão-pouco me (re)conhece.

Dezembro de 2006, antes do Natal, por volta das 3 da tarde. Desloquei-me à casa de perdição sob o pretexto de esgotar, em definitivo, a minha lista de presentes a oferecer na noite de 24 para 25. Discos, filmes e livros encheram três cestos que a cadeia francesa põe à disposição dos clientes – mal sabendo a tremenda falha ergonómica que tal objecto encerra. Quase que me poderia escusar de referir que mais de metade dos livros iria servir para atafulhar ainda mais – Voragem In Litteris – a minha abarrotada biblioteca de livros em espera.
Primeiro baque: 270 euros (3 pontos no cartão e mais 270 para os 1500 de desconto de 6%).
Segundo baque: embrulhos e etiquetas (a necessidade de).
Terceiro baque: longa fila que Mário Dorminsky me conseguira encobrir parcialmente dada a saudável envergadura.
Terceiro baque e 1/2: ainda gastou mais que eu (pulsão voyeurística).

Kerouac, Walser e Kerouac. (Não, não se trata do Macaco poeta da preclara Preciosa! Foi mesmo assim.) Os Subterrâneos (x2) e O Ajudante. Ambos edição Relógio D’Água. Oferta, oferta para mim e para mim mesmo.
Conversa agradável com Dorminsky assim que as meninas embrulhadeiras nos colocaram lado a lado em frente à mesa a abarrotar de embrulhos de vários tamanhos e feitios. Inevitável espiadela mútua e pergunta surda: “o que é que o gajo vai ler? E oferecer? Hum!”, o importante blogger (invisível) e o eminente cinéfilo e figura pública: “Ah! Ilha de Xisto! Excelente livro! O Manuel Carvalho agradece”, disse Dorminsky. Embrulha e empresta-me a caneta… para o Pai.
Dezenas de presentes e não-presentes depois: “Bom Natal!”

Janeiro de 2007. Antes de O Engenho de Arenas (comprado na mesma data, local e momento; sem embrulho, claro!), apetecia-me antes tomar algo… O Ajudante de Walser…
Robert? Robert, por onde andas? (pergunta, porventura, acompanhada de um trautear típico de situações de alegre busca de objectos perdidos e supostamente à mão de semear).
Kerouac, Kerouac. Os Subterrâneos (x2).
FODA-SE!

Moral da história: falar com celebridades, para além de ser um súbito impulsionador de vociferação de imprecações, é causa directa de iliteracia.

Epifenómeno:Blogger is undergoing brief maintenance and will return in a few minutes”, quando quis publicar o texto... ainda não possuo O Ajudante.

(continua)

sexta-feira, 16 de março de 2007

Este caro prazer – II

Eis a condição necessária e suficiente: edição em 2007.
Eis o número real: Cento e setenta e sete com trinta e quatro*.
Eis a pequena lista que originou o número e que previamente satisfez a condição sine qua non:

  • Amos Oz, Uma História de Amor e Trevas (Asa)
  • Bernard-Henri Lévy, Vertigem Americana (Asa)
  • Colm Tóibín, O Mestre (Dom Quixote)
  • Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento (Teorema)
  • Flannery O’Connor, Sangue Sábio (Cavalo de Ferro)
  • Frederico Lourenço, Valsas nobres e sentimentais (Cotovia)
  • Geraldine Brooks, O Idealista (Asa)
  • Henrique Fialho, Estórias Domésticas (Ovni)
  • João Tordo, Hotel Memória (Quidnovi)
  • Joseph Mitchell, O Fundo da Baía (Ambar)
  • W. G. Sebald, Vertigens (Teorema)
    (e a procissão ainda vai no adro: estamos ainda no 1.º trimestre de 2007 e já se anunciaram umas edições que, de todo, não perderei.)

Eis algumas considerações:
Nela não entra o novo livro do
Eduardo Pitta, Intriga em Família (Quasi), que já consta da lista de livros que indispensavelmente terei de comprar, apenas porque ainda não tem preço definido pela editora.
Depois, há vida para além da condição inicial, apenas aqui exposta para efeitos dramáticos, uma vez que há livros de anos anteriores – principalmente de 2006 – que já constam da lista mas não houve disponibilidade – apelo aqui a uma restrição sinonímica – para os adquirir.
Finalmente, há os clássicos em vias de extinção – ou mesmo extintos – em Portugal que constam de um sem número de encomendas, espalhadas por um número assinalável de livrarias e alfarrabistas com possibilidades de comércio no ciberespaço, que aguardam a existência física para que se proceda a umas vergastadas pecuniárias nos meus depauperados cartões de crédito.

(já nem falo sequer das deslocações às livrarias madrilenas que, por motivos académico-laborais, são bastante frequentes, ou então, apesar da resistência, da tentação da Amazon & C.ª para aquisição de livros em língua inglesa: até quando aguentarei sem ler Gravity's Rainbow ou The Adventures of Augie March).

*Euros.

(continua)

Adenda (15:58): a cifra (número real) é a preços Fnac, isto é, já inclui 10% de desconto sobre o preço do editor.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Prémio Camões 2007

António Lobo AntunesAntónio Lobo Antunes, aquele homem atormentado pela sua Memória de Elefante – fabuloso romance de estreia – cuja escrita nos transmite um invulgar e inigualável Conhecimento do Inferno, advindo das suas deambulações pelos Cus de Judas que a pátria, no sua ufana querença colonial, teimou em sustentar, acabou de ser designado como vencedor do Prémio Camões de 2007, juntando-se assim a Torga (1989), Jorge Amado (1994), Agustina (2004), ao seu amigo Saramago (1995) – que deve estar radiante –, Vergílio Ferreira (1992), Maria Velho da Costa (2002), Eugénio de Andrade (2001), Rubem Fonseca (2003), Eduardo Lourenço (1996) e a Sophia (1999).

Parabéns ao meu mais estimado escritor vivo português, apesar das exasperantes derivações babilónicas da última temporada.

«Procurou às cegas a garganta de Paul Simon no porta-luvas e introduziu-a na ranhura de caixa de esmolas do leitor de cassetes no intuito de escutar, a caminho de Lisboa, o apelo hesitante e terno, delicado e ferido, de uma voz tão igual à que se lhe enrolava nas tripas que o assaltava por vezes a sensação esquisita de que cada uma das palavras do cantor fora arrancada, sílaba a sílaba, do mais secreto de si mesmo, e o envergonhava que aquele homem lhe mostrasse em público, despudoradamente, a intimidade da angústia que tentava transformar, em vão, na lucidez sem amargura que fazia nele, nos seus melhores momentos, as vezes da alegria. Um roçar de violinos, leve como um espanador, trepou-lhe das pernas para o peito como a maré veste, no rio, o lodo castanho da muralha numa poderosa inspiração de água:

[Letra:
Paul Simon – Still Crazy After All These Years]

«Sou parecido com este tipo pequenino e feio (pensou) e espanta-me não encontrar sobre o umbigo, quando o coço, uma pauta de cordas de guitarra, espanta-me que a minha saliva, a minha urina e o meu esperma não saibam à espuma de cerveja morna dos bares dos negros de Harlem que escorrega para dentro da garganta num lamento de blues, espanta-me este cenário de cartão para férias inventadas, este Algarve excessivamente claro que afasta os loucos e os espectros com o néon do sol, reduzindo a penumbra a uma vaga geometria de linhas escuras acumuladas nos ângulos dos quartos. Como em Lisboa, verificou a palpar uma espinha infectada no pescoço, a única cidade do mundo onde a noite não existe: existem manhãs, tardes, crepúsculos, auroras, as nuvens translúcidas, alaranjadas, roxas, do poente, que se afilam e estiram como os troncos no orgasmo num júbilo elástico e tranquilo, existe o revelador brutal da madrugada que faz surgir nos nossos rostos nos espelhos os contornos dos velhos que seremos, mas a noite não existe: os turistas, perplexos, fotografam estátuas idênticas a generais de chocolate, perdem-se, de mapa em riste, num labirinto de travessas fumegantes como intestinos, invadem as pequenas pastelarias suburbanas onde cavalheiros calvos bebem chás de limão defronte dos problemas de damas do jornal, e acabam por regressar, extenuados, aos hotéis, para tentarem dormir na claridade ofuscante de um meio-dia perpétuo.»

António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno. Lisboa: Dom Quixote, 14.ª edição (1.ª edição ne varietur), Novembro de 2004, pp. 20-22.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Este caro prazer – I

Sou um indisciplinado por natureza que, todavia, se disciplina na desorganização. Como cultor do ócio, o verdadeiro tutano da vida, só trabalho sob pressão, como um experiente funâmbulo que se propõe a atravessar o Grand Canyon equilibrado na mais fina corda.
Um célebre jurista/economista norte-americano, Louis O. Kelso, publicou em 1958 um manifesto do capitalismo, no qual o professava como o melhor dos sistemas de organização económica e social, aquele que, sendo seguido, seria certamente o melhor indutor de felicidade na espécie humana.
A base da sua teoria está na maximização da produtividade total através da produtividade do capital, relegando para segundo plano a tão incensada produtividade laboral como factor crítico de sucesso. Segundo o autor, uma vida boa – diferente de boa vida – traduz-se pela maximização do binómio trabalho e ócio, onde a acumulação de riqueza para além da satisfação da procura individual por lazer é potencialmente geradora de infelicidade, não só para o acumulador desses excedentes que os desperdiça, como também para aqueles que por via dessa acumulação terão de se esforçar mais para poder subsistir e com isso aniquilar qualquer disponibilidade para a sua realização pessoal através dos tais momentos de ócio. Ao contrário das teorias económicas clássica, neoclássica e marxista, uma economia saudável seria aquela onde cada trabalhador seria simultaneamente proprietário na estrita medida das suas necessidades, reduzindo a intervenção do Estado ao mínimo indispensável, principalmente no que concerne à sua cada vez mais desajustada função de redistribuição da riqueza gerada nessa economia.

(continua num próximo texto, para assim o poder exorcizar de toda a linguagem eminentemente economicista que, decerto, estragaria o tema central… E, como disse noutras paragens por essa blogosfera, nauseia-me falar de trabalho num sítio que pretendo que funcione como uma catarse para o meu cinzento alter-ego.)

Desejos

Vai animada, dentro dos limites que o bom senso clubista permite, esta pequena charla entre o Rui e o Luís, respectivamente, um lagarto atacado de uma indómita simpatia pelo tricolor da Reboleira e um lampião que, qual Gregor Samsa propenso ao mundo vegetal, se metamorfoseou numa melancia, à qual não escapam as inevitáveis pevides potencialmente asfixiadoras.
O mote foi dado pelo Luís ao envergar uma camisola de tom verde num evento público – que penso ter sido este – o que proporcionou um momento de fina ironia ao esverdeado Rui.
Eu confesso que, apesar da simpatia tricolor que me irá assolar no decurso desta semana com culminância na próxima segunda-feira – e se fora metaforizado num qualquer vegetal, entalar-me-ia pelas eventuais sementes de destruição deixadas pelos rapazes da Amadora em solo supostamente Invicto –, entendo a dolorosa, porém breve, transmutação do Luís apelando à minha memória de outras épocas, onde as conveniências me faziam aproximar de terreno inimigo.
Contudo, duvido que ambos carreguem um fardo superior ao meu, desde que há quase dez anos resolvi enclausurar-me numa vida a dois, sendo a contraparte de verdes simpatias, facto que foi agravado pela lagartização que, por reacção ao fanatismo draconiano deste que vos escreve, se aproxima perigosamente dos limites do tolerável no que se refere aos deveres conjugais de zelo e de respeito mútuo.

Não sei se se trata de um indício para o que poderá ocorrer nas lides futebolísticas do próximo fim-de-semana, mas o evento produzido pela
Guerra & Paz – e que bem fica neste texto a denominação da editora de Manuel Fonseca – a que ambos se referem, tratou da apresentação de um livro de um reputado benfiquista e que foi apresentado quer no Porto, quer em Lisboa, por dois ilustres representantes da causa azul e branca.

terça-feira, 13 de março de 2007

O Mestre é…

Henry James.
A primeira década do século XXI foi fértil em obras de ficção que, de forma directa ou indirecta, se debruçaram sobre um dos maiores estetas literários de todos os tempos.
O maior destaque vai não só para a obra de Allan Hollinghurst, A Linha da Beleza (The Line of Beauty, 2004) – vencedor do Booker Prize em 2004 e que se centra na existência atribulada do jovem plebeu e homossexual Nick Guest pelos meandros da frívola aristocracia e da corrompida classe política britânicas, enquanto trabalha na sua tese de doutoramento sobre Henry James –, como também, e de forma mais directa, pelas obras Autor, Autor (Author, Author; 2004) do truculento David Lodge e de O Mestre (The Master, 2004) do escritor irlandês Colm Tóibín, que lhe permitiu vencer o cobiçado IMPAC Dublin Literary Award em 2006 – em termos monetários, é o maior prémio do mundo a distinguir uma obra literária de ficção que, desde a sua criação em 1996, já galardoou romances de escritores como Michel Houellebecq, Orhan Pamuk, David Malouf ou Javier Marías.
Decorridos quase três anos (1060 dias) após a sua primeira publicação em língua inglesa, O Mestre de Colm Tóibín foi finalmente editado em português de Portugal, sob a chancela da Dom Quixote.

Na Ípsilon do
Público de sexta-feira passada há um excelente e extenso artigo, escrito por Luís Miguel Queirós sob o título “Diabruras do fantasma de Henry James”, que relata a recente febre Jamesiana na literatura contemporânea e em particular um curioso conflito entre Tóibín e Lodge a propósito da publicação das suas obras com Henry James como protagonista.

Para finalizar, nada como as palavras de um Mestre sobre outro Mestre, sobre alguma incompreensão do público e da crítica reinante perante a subtileza dos personagens e dos finais abertos que abundam na obra do escritor anglo-americano e na recusa daqueles pelo mundo das sombras em detrimento da realidade substancial. Joseph Conrad discorre sobre a permanente busca do público pelo desenlace, pelo fim da história, pelo descanso após o encerramento do livro e a constatada impossibilidade dessa demanda na genialidade da obra de James e dos seus personagens que imitam a vida, deixando os seus leitores em permanente sobressalto.
Conrad chega a afirmar: «Por que motivo o público leitor, que, como um todo, nunca conferiu ao contador de histórias o poder de ser um artista, lhe deve exigir a presunção da Divina Omnipotência, é algo absolutamente incompreensível.» [tradução livre: AMC]

A ler: Joseph Conrad, “Henry James – An Appreciation – 1905”, Notes on Life and Letters, 1921 (Part I – Letters; textos editados por J. H. Stape)

segunda-feira, 12 de março de 2007

Vidas

A prodigiosa mente humana e as suas constantes fugas ao que outros por nós convencionaram chamar de caminho ou de rumo correctos – ou até de via rápida sem atribulações para o utilizador.
As convenções, o resultado de juízos sobranceiros à suposta pequenez do confessor. De onde vêm? Porque surgem? Serão o resultado de simples acto de entrega, sem interesse e objectivo?
Aí está a sentença para a desfrutares contigo próprio, na solidão dos teus pensamentos, e com os outros que, munidos da soberba postuladora, a formularam. Convenção que resultou de uma presciência que invejo nesses tais – os outros – porque com o pulsar do tempo no seu irritante ritmo síncrono mais certeza tenho da incerteza desse destino que se havia concebido como certo ou, mais grave ainda, como indutor de felicidade.
As convenções levam-nos a um permanente escrutínio da bondade dos nossos actos, quando não são os outros, o inferno, que nos poupam à execução dessa tarefa deveras torturante e, por definição, improfícua – chorar sobre o leite derramado, em vez de procurar a fonte que permita a sua rápida reposição para o estado ou a condição precedentes ao seu derramamento.

Todo esse exame da acção passada carrega o peso das emanações de uma profunda letargia, fomenta a indolência na resposta ao desafio mais premente: viver a vida. Ela não se coaduna com tais rememorações; ela é voraz e pulha o suficiente para nos prostrar a um canto, onde predomina a mais espessa e vazia escuridão, à espera que desse ilusório buraco negro algo emerja e nos ilumine a trajectória que julgáramos perdida; todavia, e esse é o seu lado mais frustrante, a única certeza que dela advém é a lenta e inexorável aproximação do seu fim. Um pessimismo que nos vai corroendo a alma, espalhando os fragmentos da identidade que nos distinguia dos demais.
Resta-nos a ilusão – talvez seja uma manifestação da nossa megalomania – de um vida outrora bem vivida.

«Tudo isto pertence à denominada “linguagem do fantástico”. Há muitas formas de falar nesta língua e quase todas começam quando uma pessoa diz a outra: “Eu desejava…” O que quer que desejem é totalmente irrelevante sempre e quando for algo de impossível: “desejava que o sol nunca mais se pusesse”, “desejava que o dinheiro crescesse nos meus bolsos”, “desejava que a cidade voltasse a ser como era nos velhos tempos”. Fazes uma ideia do que te digo, não é verdade? Questões absurdas e infantis, sem significado nem possibilidade de se converterem em realidade. De um modo geral, as pessoas sustentam a teoria de que por muito má que a situação estivesse ontem, hoje será sempre pior; o que ocorreu há dois dias é melhor que o ocorrido ontem. Quanto mais te remontares ao passado, mais belo e desejável te parece o mundo. A cada manhã despertas forçosamente do sonho para enfrentares algo muito pior que o que nos coube viver no dia anterior; mas ao falar do mundo que existia antes de ires dormir podes enganar-te a ti mesmo e acreditar que o dia de hoje é só uma ilusão, nem mais nem menos real que a recordação de todos os outros dias que guardas no teu interior.»
Paul Auster, In The Country of Last Things [tradução livre: AMC, 2007].

sábado, 10 de março de 2007

Prémio Literário T. Harris (*)

O prémio que consta do título deste texto de facto não existe. Porém, por que não criar um galardão que permitisse notabilizar o que de muito mau se faz na Literatura, à semelhança dos Razzies na 7.ª arte, e que vende como lixo (que, na realidade, é)?
O imaginado prémio T. Harris inspira-se no escritor norte-americano Thomas Harris (n. 1940), autor da obra O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1988), fabulosamente adaptada para o cinema pelo argumentista Ted Tally, com a espantosa realização de Jonathan Demme e as inesquecíveis interpretações de Anthony Hopkins e Jodie Foster.
Antes do filme que o trouxe para as luzes da ribalata, Harris já havia escrito O Dragão Vermelho (The Red Dragon, 1981), adaptado para o cinema em 1986 sob o título Manhunter, com argumento e realização de Michael Mann.
Explorando o filão que a obra-prima de Demme lhe serviu numa bandeja de prata, Harris escreve em 1999 Hannibal, em jeito de sequela do “I do wish we could chat longer, but I’m having an old friend for dinner”, deixado em aberto por Demme. O sucesso era garantido. De tal forma que Dino De Laurentiis tomou a seu cargo a produção do filme (estreado em 2001), contratando uma equipa de luxo encabeçada pelo realizador Ridley Scott e pelo polivalente realizador-argumentista-dramaturgo-escritor David Mamet – que teve a cargo a elaboração do argumento, mais tarde modificado por Steven Zaillian, devido, ao que dizem, à violência gratuita do primeiro. Este último filme não convenceu, apagou-se do estrelato dos galardões anualmente atribuídos, exibindo cenas dignas de um filme de Ed Wood, como por exemplo a charla ridícula do banquete final mantida entre Hopkins, Julianne Moore e Liotta, este último proferindo inanidades ao mesmo tempo que exibia de forma grotesca os seus miolos que iam sendo excisados por um Hannibal faminto.
Em 2002, surge, em tom de remake, O Dragão Vermelho baseado no referido livro homónimo de Harris. Desta feita De Laurentiis contratou um mediano realizador de filmes de acção, Brett Ratner, assegurou Ted Tally para o escrever o guião e apostou num naipe de actores que, para além de Hopkins, contava com nomes grandiosos como Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman e Mary-Louise Parker. O filme vendeu e estava assegurada a fórmula para eventuais sequelas ou prequelas.
E assim foi, ao mesmo tempo que se lançava para o mercado o último livro de Thomas Harris sobre o famoso psiquiatra psicopata, anunciava-se ao mundo a estreia iminente do filme Hannibal Rising, desta vez com argumento a cargo do próprio Thomas Harris e com o quase estreante Peter Webber – nome aclamado por Rapariga com Brinco de Pérola, filme de 2003. (Sobre o filme estamos conversados, ainda não o vi, logo será de todo conveniente dele não falar.)

O livro – Hannibal: A Origem do Mal – retrata os anos da infância e da adolescência do mentalmente torturado Hannibal Lecter.
A história centra-se em terras da Lituânia durante a 2.ª Guerra Mundial e onde se perpetraram muitas das mais bárbaras atrocidades durante o conflito, tanto pelo exército nazi, como pelo exército vermelho que, no final do conflito, veio a ocupar aquele território do Báltico.
Hannibal, herdeiro do Conde Lecter, vive num castelo nas florestas da Lituânia com os seus pais, irmã, preceptor e restante criadagem, quando de um momento para o outro, após fuga forçada do castelo para um longínquo pavilhão de caça, a família é subitamente dizimada por um bombardeiro nazi em perseguição a uma comitiva de soldados pertencentes ao exército soviético. Hannibal vê-se irreparavelmente abandonado, tendo que cuidar da sua querida irmã de apenas três anos de idade, quando é invadido por um grupo de mercenários que assenta arraiais no refúgio, que para sobreviver se entregam a práticas alimentares menos ortodoxas.
A trama é posteriormente ensombrada pelo desaparecimento da pequena Misha e pelas torturantes rememorações do pequeno Hannibal, que após a libertação da Lituânia do jugo nazi irá viver para França na companhia do seu tio paterno e da sua esbelta e atraente mulher japonesa, que, mais tarde, o acompanhará em Paris após a morte trágica do seu marido.
Seguem-se os corriqueiros e mais do que estafados planos de vingança na mente de um psicopata, a roçar a gratuitidade da violência, sem subentendidos ou reticências, revelando, isso sim, uma aturada investigação pelo autor da anatomia do ser humano.
Aquilo que podia ser uma tenebrosa viagem à mente de um criminoso, transforma-se num amontoado de lugares-comuns, de escrita tautológica, sem ritmo, com elipses incompreensíveis e numa linguagem – pese embora algo que eventualmente se poderá ter perdido na tradução – corriqueira, sem arte e a raiar a oralidade mais desprovida de vocabulário.
Depois surgem, carregadas de um lirismo ímpar, frases do género:
«Milko fez aquele pequeno ajuste do coração que fazemos antes de matarmos.» (pág. 219)
Lamento informar o Sr. Harris de que não faço a mínima ideia do que seja um ajuste do coração – a não ser o imaginável numa nunca sofrida intervenção cirúrgica para a introdução de um pacemaker – e muito menos matei alguém nos meus 34 anos de vida; nem penso vir um dia a sentir o tal ajuste devido ao cometimento desse acto.
Outra frase lapidar surge no momento em que Hannibal assiste com a sua tia japonesa, num camarote da Ópera de Paris, à representação de Fausto de Charles Gounod:
«Hannibal, com dezoito anos, torcia por Mefistófeles e desprezava Fausto, mas só estava a prestar mais atenção ao clímax.» (pág. 143)
Vêem como ele é mauzinho! Harris não o referiu mas subentende-se que Hannibal também torcia por Bafo de Onça contra o Rato Mickey, ou pelo implacável Inspector Javert contra o pobre Jean Valjean de Victor Hugo, ou até – naquela mente quem sabe? –, por Mr. Hyde contra o manietado Dr. Jekyll, de Robert Louis Stevenson.

Pronto, quebrei a regra que estatuí ainda no meu
anterior blogue: falar de livros maus e classificá-los. Mas uma raiva incontida pelos euros desperdiçados numa obra de uma pobreza confrangedora sobrelevou essa norma.

Classificação: * (Péssimo)

Referência bibliográfica:
Thomas Harris, Hannibal: A Origem do Mal. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 275 pp. (tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa; obra original: Hannibal Rising, 2006).


(*) Título inspirado
nesta triste notícia escrita pelo Eduardo Pitta.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Recordações independentes

Nunca mais digas jamais, especialmente quando puderes ocupar um cargo vago (cheio de coisa nenhuma).
Eis um belo exemplo do desdém pelo poder (decerto outrora escrito com “ph”), manifestado na plenitude das suas estridência (porventura devido a uma desafortunada carência hormonal) e gesticulação. Na histriónica representação nem sequer faltou o bobo da corte, agora em decadência enquanto vai suspirando por um Learjet para fazer compras em Nova Iorque.
Imperdível:





[via valter hugo mãe, no seu casadeosso]


Pequena nota epistolar, intimista e expiatória:

Meu querido primo Sebastião,
Que estas palavras te encontrem de boa saúde, aí na Capital do Império.
Há dois anos que ando para te dizer isto:
Lembras-te quando exprobraste o meu sentido de voto nas Legislativas de 2002?
Não só estás perdoado, como te ofereço as minhas lágrimas de arrependimento que, como te digo e em abono da verdade, já vêm sendo derramadas há um bom par de anos.
(…)

Henrique

«A vida é vaga, injusta, vazia e passageira. O que a nossa vida mudar no mundo, jamais será suficiente para uma mudança (íntima) do Mundo. Porque os grandes feitos históricos (nós agradecemos), não acabaram com a fome, com a guerra, com a exploração, com a opressão, com o medo, com a solidão, com a doença, com a infelicidade.»
Do prefácio (pág. 16) de Estórias Domésticas, de Henrique Manuel Bento Fialho. Entroncamento: Ovni, 2006, 169 pp.

Apresentação do livro pelo autor no
Alinhavar, em Leiria, no próximo dia 23 de Março.

Infelizmente, uns míseros 200 km e três mulheres para aturar (duas delas menores de idade) impedir-me-ão de assistir à apresentação. No entanto, a (insuficiente) compensação da perda advirá com a aquisição do livro.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Momentos

Concordo com o Henrique. Contudo, julgo que o mais injustiçado da noite de gala da RTP foi Esteban no seu esforço de vencer a opressão espanhola nas Índias Ocidentais:

Le Grand Condor


Le 16ème siècle...
Des 4 coins de l'Europe,
De gigantesques voiliers partent à la conquête
Du Nouveau Monde.
A bord de ces navires, des hommes,
Avides de rêve, d'aventure et d'espace,
A la recherche de fortune.
Qui n'a jamais rêvé de ces mondes souterrains,
De ces mers lointaines peuplées de légendes,
Ou d'une richesse soudaine qui se conquérait
Au détour d'un chemin de la Cordillère des Andes.
Qui n'a jamais rêvé voir le soleil souverain
Guider ses pas au coeur du pays Inca
Vers la richesse et l'histoire
Des Mystérieuses Cités d'Or


(Excerto da narração inicial do genérico de Les Mystérieuses Cités d'Or, se bem se lembram: «Ah, ah, ah, ah, ah,/ Esteban, Zia, Tao, les Cités d'Or».)



Nota: Este blogue anda numa francofilia que, de todo, não é característica da casa.

quarta-feira, 7 de março de 2007

O mundo, esse que nos inspira uma náusea manifesta

Il est vrai

Il est vrai que ce monde où nous respirons mal
N'inspire plus en nous qu'un dégoût manifeste,
Une envie de s'enfuir sans demander son reste,
Et nous ne lisons plus les titres du journal.

Nous voulons retourner dans l'ancienne demeure
Où nos pères ont vécu sous l'aile d'un archange,
Nous voulons retrouver cette morale étrange
Qui sanctifiait la vie jusqu'à la dernière heure.

Nous voulons quelque chose comme une fidélité,
Comme un enlacement de douces dépendances,
Quelque chose qui dépasse et contienne l'existence ;
Nous ne pouvons plus vivre loin de l'éternité.

La poursuite du bonheur (poèmes), por Michel Houellebecq (1992)

terça-feira, 6 de março de 2007

Last Rites


«Ela é alta e esguia, talvez tenha uns setenta anos, cabelo grisalho, bem cuidada, não é negra nem branca, é de um dourado pálido de rum. Ela é uma aristocrata de Martinica que vive em Fort-de-France, mas também dispõe de um apartamento em Paris. Estamos sentados no terraço da sua casa, uma casa arejada e elegante, que parece toda feita de um rendilhado de madeira: lembra-me certas casas antigas de Nova Orleães. Estamos a beber chá de hortelã gelado, suavemente aromatizado com absinto.
Três camaleões verdes perseguem-se uns aos outros pelo terraço; um deles estaca aos pés da Senhora, meneando a língua bifurcada, e ela comenta: “Camaleões. Que criaturas excepcionais. A forma como mudam de cor. Vermelho. Amarelo. Verde-lima. Rosa. Alfazema. E por acaso sabe que eles adoram música?”. Ela fita-me com os seus belos olhos negros. “Não crê no que lhe digo?”
»

Truman Capote, Música para Camaleões [Music for Chameleons, 1980; tradução livre: AMC]

Num país de daltónicos por opção nada disto faz sentido.
Vamos passeando, numa doce e átona harmonia, com o negro do mercado, o brilho intenso do branqueamento impune e os diversos tons de cinzento com que se matiza a mediocridade não congénita.

Preciso de mudar de vida! Ó torso arcaico de Apolo

Ta ta!

segunda-feira, 5 de março de 2007

Contemporaneidades

Multiculturalismo e globalização. Choque de culturas e dominação. Pobreza e poderio económico. A arte e a cultura contemporâneas veiculam até à exaustão aqueles chavões. Para onde caminhamos? Caminhará este mundo sobrelotado, de forma inexorável, para a sua autodestruição? Que remédios aplicar para combater o actual estado de insensibilidade perante a miséria, a crueldade e a exploração humanas? Será um sinal dos tempos ou a aqueles atributos da condição humana sempre prevaleceram na História da humanidade? Estaremos mais cientes agora desses defeitos, à medida que progridem a divulgação da informação, a ciência e a tecnologia? Ou a única diferença entre a actualidade e os tempos de outrora radica na possibilidade das vozes de uma ínfima minoria poderem ser ouvidas, já que nesses tempos idos eram silenciadas pela inacessibilidade aos meios de comunicação?
Atrevo-me a dizer, sob pena de ser crucificado pela ínfima comunidade de leitores que se dá ao trabalho de ler os meus textos, que a arte não dá respostas, limita-se a constatar e a anunciar ao mundo o estado a que as coisas chegaram numa óptica perfeitamente subjectiva ou até intimista – não significando, porém, que seja desinteressada –, havendo quem divague sobre a sua aparente inutilidade, levando a que haja quem nela vislumbre uma profunda carência de capacidade transformadora da humanidade.
Nada de mais errado. Essa é a habitual e típica deturpação praticada pelo filisteu, a negação do necessário poder interpretativo, do símbolo, do cariz mediato da obra de arte. Ela deixa uma porta aberta para a descoberta do mundo sob determinada perspectiva que até ao seu surgimento desconhecíamos, e que só se materializou dada a sua capacidade única de estimuladora da consciência ou da interiorização de um problema que em silêncio pairava sobre as nossas cabeças sem se anunciar ou manifestar.
Em suma, uma das funções da arte é a de veicular um ou vários estados de alma, daí a sua inevitável característica de ostentação, não há artista que esconda o produto da sua criatividade quando pensa que esse objecto encerra uma mensagem – e como toda a mensagem, carece de um receptor – que abale o âmago das nossas convicções e da nossa ufana certeza de superioridade cultural.

A conversa já vai longa, e o que aqui se pretende é falar sobre o último livro vencedor do Booker Prize, atribuído em 2006, intitulado A Herança do Vazio, da autora indiana, nascida em 1971, Kiran Desai:
Já na segunda metade da obra, teorizava-se sobre “Crime e Castigo” de Fiodor Dostoievski (conversa entre três mulheres, uma hindu – a bibliotecária, uma cristã ocidentalizada – Noni – e a outra uma adolescente indiana nascida em solo russo e cristã de educação – a protagonista, Sai):
«
– Fiquei um pouco assombrada com a escrita, e, em parte, confusa – declarou Noni – com estas ideias cristãs da confissão e do perdão; colocam o fardo do crime as costas da vítima! Se nada pode reparar a má acção, porque há-de o pecado ser invalidado?
De facto, todo o sistema parecia favorecer os criminosos, em detrimento dos justos. Podia-se ter um mau comportamento, mas mostrando-se arrependimento poder-se-ia desfrutar de uma diversão adicional e ser reintegrado no mesmo cargo que a pessoa que nada tinha feito e que, agora, tinha de sofrer o crime e a dificuldade de perdoar, sem haver nenhum aspecto positivo em toda esta situação. Então, evidentemente, as pessoas sentiam-se mais livres do que nunca para pecar, estando cientes de tal rede de segurança: lamento, lamento, oh, lamento tanto, tanto.
Como delicados pássaros a voarem, podia-se libertar tais palavras.
A bibliotecária, que era cunhada da médica que todos consultavam em Kalimpong, retorquiu:
– Nós, os hindus, temos um sistema melhor. Cada um tem o que merece e não pode escapar as suas acções. E, pelo menos, os nossos deuses parecem deuses, não é? Como o Rajá Rani. Não como aquele Buda ou Jesus… tipos pedintes.
Noni:
– Mas nós também nos escapámos! Não nesta vida, dizemos nós, mas noutras, talvez…
Sai acrescentou:
– Piores são aqueles que julgam que os pobres devem morrer a fome, pois são as suas próprias más acções em vidas passadas que estão a causar-lhes problemas…
A verdade era que se ficava de mãos vazias. Não havia sistema que atenuasse a injustiça das coisas; a justiça não tinha competência; podia deter o ladrão de galinhas, mas grandes crimes evasivos teriam de ser ignorados, pois, se fossem identificados e apanhados nas malhas da lei, fariam desmoronar toda a estrutura da pretensa civilização. Por crimes que ocorriam nas monstruosas relações entre nações, por crimes que ocorriam naqueles espaços íntimos entre duas pessoas, sem qualquer testemunha, por estes crimes, os culpados nunca pagariam. Não havia religião nem governo que mitigasse o inferno.
» (pp. 258-259)

À primeira vista, Desai escreveu uma obra à laia de manifesto, típica de algum messianismo que se costuma apontar aos autores da nova vaga da literatura que despontaram na confirmação da era da globalização e do multiculturalismo.
A tentação é grande, vivemos tempos de incerteza e de medo, de angústia perante um futuro que nem os mais afinados oráculos ousam em confirmar, sendo que se unem na verdade abstracta da inevitável catástrofe.
Porém, A Herança do Vazio não é nada mais que um relato de como se manifesta a inquietude do ser humano nos tempos que correm, não tendo pretensões – pelo menos que haja vislumbrado na sua leitura – a apontar o rumo certo, em que a autora se arroga ao desempenho de um papel ou à descoberta de uma fórmula mágica que busque a redenção da humanidade. É antes a saga de pessoas e das suas famílias, de ricos e pobres, de instruídos e de iletrados, do choque de culturas entre o ocidente e o oriente, da sensação de desterro e da precariedade dos valores e das crenças que supostamente se haviam tornado definitivos, donde deriva uma batalha surda na defesa de algo que convictamente já se sabe que se perdeu: um juiz que vive o ocaso da sua vida na triste certeza da inutilidade da sua existência construída sobre uma mentira piedosa que se avolumou, num efeito de bola de neve, com o passar dos anos; uma jovem indiana, neta do juiz, que vive o confronto entre a cultura do seu país e os valores ocidentais que lhe foram sendo incutidos; um jovem nepalês que se vê a braços com o mesmo dilema, todavia de forma invertida, de origens humildes e em contacto com a instrução e os valores ocidentais no momento em que dá explicações à adolescente; um imigrante indiano ilegal nos Estados Unidos que criara uma aura de vencedor na sua terra pela profissão que exerce na terra de todos os sonhos e que é o orgulho do pai, cozinheiro, que vive a sua vida nessa falsa certeza de um futuro promissor; duas velhas irmãs britânicas que teimam em viver sob os preceitos da tradição colonial e da fleuma da terra de Sua Majestade; um padre cristão benemérito que se refugiou na beleza espectral dos Himalaias e nas tertúlias alcoólicas com um homem ocidental que aí se refugiou das sentenças do seu mundo. É esse amontoado de retalhos que juntos fazem uma manta cujo destino parece entregue à simples inutilidade, ao tremendo vazio de que fala o título.
A escrita flui nas cerca de 420 páginas que compõem o livro. Contudo, quer-me parecer – e quem sou eu para aferir esses itens – que aqui e ali podemos encontrar um estilo de narrativa saído directamente de um curso de escrita criativa, que parece não colar e até, a dados momentos da intriga, distrair e com isso prejudicar o fio condutor do romance. Em consequência disso:

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Kiran Desai, A Herança do Vazio. Porto: Porto Editora, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 414 pp. (tradução de Vera Falcão Martins; obra original: The Inheritance of Loss, 2006).