sexta-feira, 23 de março de 2007

Este caro prazer – IV

[intróito]
Para manter alguma coerência com alguns princípios que formulei quando iniciei a actividade na blogosfera, amplamente dissipadora de maus espíritos, abster-me-ei de mais considerandos da teoria económica, até em razão da própria formação académica que versou sobre questões felizmente mais pragmáticas e menos dadas à efabulação.

[exorcismo]
Há uns dias falava do famoso binómio trabalho e ócio e da eterna busca de uma estável harmonia dessa misteriosa dicotomia que, paradoxalmente, se consubstancia nessa palavra inaudita: “felicidade”.
O mais frustrante, para quem se interroga sobre os meios para alcançar esse fim, promissoramente feérico, é entender que essa perenidade assenta num círculo vicioso: a incomensurabilidade, a diversidade gradativa e a forte carga pessoal e intransmissível no alcance desse objectivo supremo é o que simultaneamente nos embota o espírito e que, na tremenda ânsia de o divisar, se constitui no nosso pathos.
Recorrendo à judiciosa sabedoria popular, esta atreveu-se a transformar aquele binómio num trinómio cujo equilíbrio é perfeitamente inalcançável – a típica vitimização do ser humano pela cruel provação divina, um sentimento colectivo de invencibilidade do desígnio. Trata-se da famosa tríade “saúde, tempo, dinheiro”, cuja busca da tal combinação óptima determina a divisão do nosso longo processo ontogenético em três fases, sendo que, para tristeza geral – assim augura o fatalismo popular –, um desses factores assume o valor “zero” ou dele se aproxima de forma vertiginosa numa dessas fases – normalmente anteposto da expressão “falta de”. E esse é o nosso Óptimo de Pareto em cada uma das etapas – o exorcismo parece não resultar.

[incerteza]
É, pois, com alguma estranheza, espanto e um sonoro suspiro de “isto só a mim!” que verifico que neste momento, seguindo esse presságio de almanaque com um forte cariz dogmático, atravesso o 2.º estágio do tal desenvolvimento existencial – período compreendido entre o 1.º emprego e o momento da reforma laboral – e porventura o mais curioso, ao arrepio do doutamente preceituado, “tempo” é o que neste momento parece não me faltar – pura ilusão? Será um megalómano sentimento de omnipotência, típico dos frequentadores da terceira década da vida?
Mas se, ao arrepio do credo popular, estabeleci com convicção a possibilidade da optimização do tempo para o alcance do meu bem-estar – ou felicidade –, a situação agrava-se pelas sérias dúvidas quanto à minha “saúde” – possivelmente mental, seguindo o ditame pessoano da incerteza pela própria lucidez – e, por fim, com as muitas certezas no que respeita ao “dinheiro” – escassíssimo –, apenas não lhe conhecendo o destino no momento da separação: Quo vadis?
Esperei tempos infindos e não houve resposta, assim sendo resta-me um desleninizado: Que fazer?
Lá vem Rilke uma vês mais. «precisas de mudar de vida» (du mußt dein leben ändern).

[dúvida sobre a incerteza]
Mas, e se seguir Walser? Não necessariamente o Mestre que acabou naquela precariedade existencial, mas Vladimiro, esse ser tão certinho e realizado, desembaraçado na descoberta do caminho (ou atalho) para a felicidade: «Tenho vivido até agora de acordo com o que considero bom e justo e não temo a possibilidade de que alguém possa vir provar-me que errei, pelo que me acho com todo o direito de afirmar que errar é humano. Compreendo, no entanto, que seria bom agirmos segundo nobres critérios, reduzirmos um pouco as alegrias da vida para cumprirmos outras tarefas, entendermos a felicidade também de outras formas que não apenas a de preservarmos a boa disposição, não nos tornarmos dependentes desta última, receosos a toda a hora de a perder, sempre preocupados em a manter viva; não, antes ousar, de peito aberto, sacrificar a nossa felicidade e talvez, como consequência disso, ganhá-la de novo.» in Robert Walser, A Rosa, pp. 16-17, (Relógio D’Água, 2004; tradução de Leopoldina Almeida; obra original: Die Rose, 1925)
Será essa presunção do espírito de realização – como posteriormente afirma Walser –, não enxergar o que nos incomoda, não enfrentar a injustiça, em suma, fugir da vida, o trilho certo para a tal felicidade?
Porventura é a isso que estamos condenados, a ignorância como via aberta para a santidade, o que não pressentimos não nos arruína; o eterno miasma judaico-cristão do oferecimento da outra face e da felicidade suprema para os pobres de espírito.

[constatação]
Para concluir esta chatice verborreica que já se estende por quatro longos episódios, tenho de constatar que o “tempo” nunca será um problema; ele é um estado de espírito que deriva da própria “saúde”, no seu sentido lato, que poderá ser agravada com a escassez do vil metal.
Por muito que nos esforcemos, empregando o nosso tempo, em obter o dinheiro indispensável para a manutenção da nossa sanidade física e psíquica, chegaremos desde logo à conclusão que esse tempo despendido em trabalho jamais nos trará a felicidade, porque não existe o indispensável ócio e assim, o actualmente acelerado ritmo editorial português só será um problema de saúde pública se acharmos que podemos deter o melhor dos dois mundos: tempo para o lazer e muito dinheiro.

[profecia]
Hoje mesmo receberei o primeiro prémio do Euromilhões…

[fundamento]
Inútil.

2 comentários:

Fernando Dinis disse...

Muito espirituoso, andré! gostei bastante.

AMC disse...

Obrigado, Fernando.
Já tinha saudades de te ver por cá. Até já tinha perdido o hábito de te visitar, havias deixado o teu blogue numa modorra tal que pensei que fosses desistir. Mas já vi que continuas e assim terei de actualizar as minhas leituras dos teus textos.
Abraço