sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Poder

Pequeno intróito
Tenho andado bastante ocupado com labores e cogitações que não me dão espaço para escrever… aqui, neste espaço plural a que se convencionou chamar de blogosfera. No entanto, não tenho razões que me façam admirar, a agitação faz parte do meu dia e muitas vezes suplico em vão para que este não se confine às 24 horas de 60 minutos. Preciso de mais tempo!

Introdução
O relógio do meu carro marcava 19 horas, ligo o rádio em 105.3 MHz e ouço a notícia introdutória do pequeno bloco que se segue: o director do jornal 24 Horas e dois jornalistas foram vítimas de buscas domiciliárias e de buscas no local de trabalho, tendo sido apreendidos os computadores e vários documentos.

(Con)Sequência e meditação
Em Portugal o jornalismo de investigação é praticamente inexistente. É caro, dizem uns. Não vende, dizem outros. Avilta os poderosos, digo eu e alguns milhares que não querem ou não podem falar.
Para ser claro atrevo-me a asseverar que, diariamente, há uma chusma de simples portugueses que enfrenta a arbitrariedade, a insídia e a perversidade dos seus pares, vivendo num angustiado silêncio com medo de perder a família, os amigos, o posto de trabalho, o património, a honradez, a felicidade, a saúde, o bom nome e até a sua vida ou a daqueles que lhe são próximos. O dano é irreparável e irrevogável. O mal foi feito e com esse mal terá que viver, quando muito poderá exigir a compensação das horas, dos dias, dos anos perdidos pelo anátema da perfídia.
O qualificativo de uma relação de poder é a hierarquização ou, mais corriqueiramente, a autoridade. Há o mandante e o mandado. O dirigente e o dirigido. O que pode e o que obedece. Porém, há direitos que não se confinam aos primeiros e obrigações que não se esgotam nos últimos; e, se assim fosse, viveríamos numa sociedade eminentemente perfeita, porque a liberdade tem o poder de me conferir o direito de ser livre, contudo – e este é o fruto do problema – atribui-nos a obrigação de deixar que os outros sejam livres.
Em teoria, o paroxismo da liberdade reflectir-se-ia na figura de um asceta, desprovido de relações humanas e em pleno e melífluo convívio com a natureza. No entanto, a própria mente é um mecanismo perverso porque nos impõe limites que se poderão traduzir por uma só palavra: Moral.
Em todas as profissões há normas de conduta e princípios deontológicos, mesmo que não exista um articulado plasmado num chorrilho de artigos profundamente abstractos, que pintam de preto as folhas brancas da pasta extraída das árvores que verdejam o nosso planeta. Essas normas explícitas ou implícitas, exteriorizadas sobre a forma de normas ou interiorizadas como correcção de conduta, terão que ser flexíveis e susceptíveis de interpretação. Não são becos, são vielas que desembocam em ruas e ruas que desaguam em avenidas suficientemente amplas, que nos permitam respirar e viver num todo harmonioso sem dor, sem ressentimentos, sem… INJUSTIÇA.

Conclusão
Os meios de comunicação social são, na maioria das vezes, o instrumento que nos permite gritar ao mundo a injustiça que sobre nós se abateu e para que o mundo a conheça, a sinta, a corporize através da sua divulgação para nos soltar do torpor ou da tremenda indiferença do individualismo dos nossos dias, profundamente egoísta e desumano.
Alguns poderão afirmar que, para além dos jornalistas, há padres, psiquiatras, advogados, procuradores e juízes sobre os quais impende o dever de sigilo. Porém, o padre ouve-me em confidência, e cura-me com uma penitência e com o eventual perdão do Espírito Santo, não mata a minha sede de justiça no mundo, neste mundo onde eu vivo hic et nunc. O psiquiatra aumenta-me a dose de antidepressivos, de ansiolíticos e de antipsicóticos, e carrega, carrega enquanto o mal não for curado, e isso, todos sabemos, que nunca será extirpado, nós é que nos vamos transformando em inadaptados, em perfeitos seres alienados, desprovidos de dor e sentimento: já não sentimos, logo não pensamos nem agimos. Advogados, procuradores e juízes… [espaço propositadamente deixado em branco]

Epílogo
Tudo isto para apenas referir que concordo plenamente com aquilo que o Eduardo Pitta proferiu com este texto, tentando abanar esta comunidade que se indigna facilmente – e felizmente tem todo o direito a isso – mas que, incompreensivelmente, fecha os olhos, ou então, é indiferente para assuntos que nos deveriam preocupar a todos.
O que se passou ontem com os jornalistas do 24 Horas tratou-se de um acto puro e simples de atentado legal à liberdade.

1 comentário:

Sílvia disse...

Completamente de acordo; Já imaginaste ( o tu é propositado) se nos privam do bem essencial que nos fizeram herdar? Como é que a nossa geração, de algum modo irreflexiva e alienada face ao dado adquirido, se adaptaria a conviver com a privação de liberdade? E os sinais dessa perda são cada vez mais incisivos e frequentes. (conheci hoje este blog. Gosto)