quarta-feira, 10 de maio de 2006

Hans Zimmer e a censura democrática

Hans Zimmer - O Código Da Vinci (BSO
Para os amantes de cinema há muito que o nome Hans Zimmer entrou no nosso imaginário.
Um filme não é só luz, câmara, acção – ou pelo menos a sua produção.
Uma obra cinematográfica pronta a estrear é a ponta de um icebergue de um conjunto imenso de técnicos e de colaboradores, que numa, às vezes, perfeita sinergia consegue criar a denominada obra-prima.
Desde pequeno, pelo inato feitio indagador que, por vezes, levava os meus pais à exasperação, aprendi a analisar e a criticar não só o argumento, a fotografia, os efeitos visuais e especiais e o desempenho dos actores num filme, como também o processo de montagem – no meu entender a arte do cinema nele começa e acaba, caso contrário teríamos metros de celulóide sem utilidade alguma – e a banda sonora quer seja original ou não.
De tenra idade aprendi a admirar o trabalho de Bernard Herrmann indissociável dos filmes do Mestre dos mestres da realização na sua fase americana, Alfred Hitchcock: Vertigo, O Homem que sabia Demais, O Terceiro Tiro, Psico ou Intriga Internacional. Ademais, Herrmann pontificou em filmes de Scorsese, de Truffaut, de Mankiewicz, de Wise e até de Welles.
Outros nomes grandes da orquestração para filmes poderiam ser indicados, como por exemplo John Williams, ou o que seria de “O Silêncio dos Inocentes” sem a envolvência da música de fundo de Howard Shore; e James Newton Howard, Ennio Morricone, Wojciech Kilar, Elmer Bernstein, Maurice Jarre, Nino Rota, entre outros. Ver
este artigo no The Independent que vai neste sentido.
Para a semana estreará, quer se goste ou não, o filme mais aguardado do ano: «O Código Da Vinci». Realizado por Ron Howard (Uma Mente Brilhante) e interpretado por Tom Hanks, Audrey Tautou, Jean Reno, Ian McKellen e Alfred Molina, a banda sonora original ficou a cargo do alemão Hans Zimmer.
Esta semana
soube-se que a autoridade britânica para a classificação de filmes – BBFC – pretendia classificar O Código como "m/15" devido à violência sonora da música de Zimmer – textual –, discordando da classificação sugerida pela Sony de "m/12".
Ora, como nesta indústria quem manda é o mercado, a produtora norte-americana suavizou o tom da música em exclusivo para o Reino Unido, uma vez que a classificação de "m/15" afastaria parte do público-alvo, provocando uma queda inevitável nas receitas.
Apesar dos defeitos que possa apontar ao nosso pequeno país – que são muitos e de alto calibre –, congratulo-me com a política seguida pelas autoridades portuguesas neste domínio.
O Estado não é, nem deve ser, o pai dos nossos filhos, nem tão-pouco se deverá assumir como o putativo grande educador de um povo preaviamente catalogado de ignaro ou iletrado, ao estilo da doutrina maoísta – oh, e há tantos maníaco-educadores ou educadores-compulsivos neste país e até na blogosfera!
Parece paradoxal que, actualmente, nos países do mundo ocidental ou ocidentalizados, onde o pilar da sua existência assenta no conceito democracia e na consubstanciação dos princípios democráticos, existam práticas de censura, a que eu resolvi chamar de censura democrática: o Estado garante-nos a liberdade de expressão, religiosa, de orientação sexual, do livre pensamento, etc., porém estabelece normas de conduta eminentemente pessoais e até idiossincráticas.
A mim assombra-me e perturba-me a politica censória seguida no domínio das artes por governos de países que se consideram como os pais da democracia e da liberdade, designadamente, as autoridades americanas e britânicas.
Parafraseando um professor americano que me ensinou o inglês que, hoje em dia, me vai desenvencilhando por esse mundo fora, para mim seria inconcebível viver num país onde fumar é quase proibido, o consumo de bebidas alcoólicas é interdito a menores de 21 anos na maioria dos Estados, grande parte das letras de músicas, dos filmes e dos livros são vítimas de práticas censórias, e que, no entanto, se pode comprar, livremente, uma arma na loja da esquina ou num banal hipermercado.

São critérios!

1 comentário:

Manoel das Couves disse...

Neste momento em http://abanacao.blogspot.com estão disponíveis dois inquéritos que pretendem (de alguma forma) intervir na Consulta Pública sobre a proposta de Legislação antitabágica que o Governo apresentou. O que é também uma forma de participação cívica, para que outros não determinem autocraticamente aquilo que também nos diz respeito.

MFR