Nos jardins da Moncloa uma horda de estudantes apenas deixava entrever escassos metros quadrados de relva por ocupar. Carregavam sacos de plástico, daqueles que se oferecem nos hipermercados, que dado o peso do material transportado poderiam rebentar a qualquer momento.
Estupefacto, detive-me naquele ponto estratégico da Calle Princesa, por um curto mas suficiente espaço de tempo, mirando do alto privilegiado a área confinada pelo Paseo Moret, a Avenida Victoria e a Avenida Séneca, movido por uma irreprimível curiosidade sociológica.
Aquele amontoado, aparentemente anárquico, de jovens, entre os dezassete e vinte muitos anos, era, no entanto, formado por centenas de pequenas rodas quase perfeitas e indistintas de rapazes e raparigas, que seguravam, com um zeloso afinco, um mega copo de plástico onde previamente haviam preparado um cocktail explosivo de rum, tequila, gin, vodka, absinto e whisky, meticulosamente suavizado com refrigerantes e colas.
Perguntei qual a razão de ser daquele amontoado. Responderam-me que era pelo simples prazer do convívio ao ar livre e que, assim, se poderia juntar o prazer de beber e de fumar – não só tabaco – por um preço irrisório. Está claro que, desde logo, me apercebi de que aquele último era o motivo principal.
Mais tarde pude testemunhar algumas das sequelas do botellón. Pelos jardins a relva transformara-se num mar de copos de plástico e de garrafas de bebidas espirituosas e de refrigerantes. Porém, havia retardatários nadando em poças do seu – penso eu – próprio vómito. Outros estavam prostrados à sombra lunar de um carvalho, de um plátano ou de uma tília. Mais à frente alguns jovens casais copulavam num despudor que só lhes era permitido pela abundância de álcool e de substâncias psicotrópicas que circulavam naquelas veias ainda fortes e resistentes pela parca idade biológica.
Contudo, houve uma certa manhã em que acordei com a notícia de que essas práticas licenciosas passariam a ser proibidas. O famoso botellón soltaria, por certo, o seu último estertor por aqueles dias.
E assim se sucedeu, se bem que…


Quem ainda não leu o livro de Dan Brown “O Código Da Vinci”?

















