domingo, 12 de outubro de 2008

Temível Aurora

«Quando acordei, vi a luz do amanhecer através dos buracos da persiana. Vinha tão de dentro da noite que tive uma espécie de vómito de mim mesmo, o espanto de encarar o novo dia com a mesma apresentação, a sua indiferença mecânica de sempre: consciência, sensação de luz, abrir os olhos, o nascer do dia.
«Nesse instante, medi o horror que tanto maravilha e seduz as religiões com a omnisciência do semi-adormecido: a perfeição eterna do cosmos, a revolução interminável do planeta sobre o seu eixo. Náusea, sensação insuportável de coacção. Estou obrigado a suportar que o sol apareça todos os dias. É monstruoso. É desumano.»
Julio Cortázar, O jogo do mundo (Rayuela), pág. 423.
[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Abril de 2008, 631 pp.; tradução de Alberto Simões; obra original: Rayuela, 1963]

1 comentário:

Mapas De Espelho disse...

" Gosto de ti como quem gosta do sol" António Franco Alexandre
...
Outra perspectiva sobre a repetição dessa presença ...