«Quando acordei, vi a luz do amanhecer através dos buracos da persiana. Vinha tão de dentro da noite que tive uma espécie de vómito de mim mesmo, o espanto de encarar o novo dia com a mesma apresentação, a sua indiferença mecânica de sempre: consciência, sensação de luz, abrir os olhos, o nascer do dia.
«Nesse instante, medi o horror que tanto maravilha e seduz as religiões com a omnisciência do semi-adormecido: a perfeição eterna do cosmos, a revolução interminável do planeta sobre o seu eixo. Náusea, sensação insuportável de coacção. Estou obrigado a suportar que o sol apareça todos os dias. É monstruoso. É desumano.»
Julio Cortázar, O jogo do mundo (Rayuela), pág. 423.
[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Abril de 2008, 631 pp.; tradução de Alberto Simões; obra original: Rayuela, 1963]
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
domingo, 12 de outubro de 2008
Temível Aurora
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
No dia em que...
«Mal ele lhe amouvava o noema, o clémiso acumulava-se nela e os dois caíam em hidromúrias, em selvagens ambónios, em sústalos desesperantes. Sempre que ele tentava relamar os incupelos, perdia-se numa grimúria queixosa e tinha que inrolver-se com a cara contra o nóvalo, sentindo como as arnilhas se iam espelhunando pouco a pouco, apeltroando-se e reduprimendo-se até ficarem esticadas como o trimalciato de ergomanina sobre o qual se deixaram cair umas fílulas de cariacôncia. E no entanto aquilo era apenas o princípio, porque a certa altura ela tordulava-se os hurgálios, permitindo que ele aproximasse suavemente os seus orfelúnios. Assim que se entreplumavam, algo como um ulicórdio encristorava-os, extrajustava-os e paramovia-os, de repente surgia o clinão, a esterfurosa convulcante das mátricas, a jadescorrente nabocaplúvia do orgúmio, os espróemios do merpasmo numa suprahumítica agopausa. Evohé! Evohé! Volpousados na cresta do murélio, sentiam-se balparamar, porlinhos e márulos. Tremia o troc, venciam-se as marioplumas, e tudo se resolvirava num pínice profundo, em niolamas de gases argutensos, em carínias quase cruéis que os ordorreavam até ao limite das suas gúnfias.»
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), Capítulo 68, pág. 425
[Lisboa: Cavalo de Ferro, 1.ª edição, Abril de 2008, 632 pp; tradução de Alberto Simões; obra original: Rayuela, 1963]
Eis o capítulo 68 de Rayuela na voz do próprio autor argentino, embora em Espanhol-Glíglico: