sexta-feira, 28 de abril de 2006

A realidade é uma alegoria da própria vida

¡Dígame!
– Estou…
– Ah, queira desculpar-me! É o hábito… Mas… é a cara leitora do
Luís, de novo! Ouvi a sua meia mensagem, ontem.
– Oh, desculpe-me! Mas o telemóvel…
– Não tem importância! Mas afinal o que me quer? Pensei que depois do último telefonema as coisas houvessem ficado bem definidas!
– Pois, eu sei! Digo já, com a franqueza que me caracteriza, que sirvo apenas de pombo-correio,
o Luís pediu-me… ou melhor sugeriu-me que falasse consigo acerca de um assunto que o tem apoquentado.
– Hum…
– E pediu-me que eu, no meu infinito particular, lhe transmitisse uma mensagem… sobre a sua tese… esse trabalho que o apoquenta no momento!
– Sim...
– Vá lá, não seja assim, esqueça as nossas tricas fúteis ou até eventuais. Quer abrir-se comigo?
– Bem, não sou pessoa que se exponha assim com facilidade…
– O Luís… Oh, o Luís! Pediu-me que lhe transmita que uma tese não se faz de metáforas, lúbricas ou não, mas treina-se diariamente e criam-se automatismos…
– Futebol? Transmitiu-lhe a minha mensagem?
– Sim, claro! Mas isso agora não importa! Fala-me de si… da sua tese, queria eu dizer. Não consegue apenas escrever ou não tem mesmo tese? O que se passa?
– Oh, isso é uma história muito comprida…
– Mas fale-me da parte que o apoquenta!
– O que me apoquenta? Quer mesmo saber?
– Sim telefonei-lhe para isso mesmo… e para lhe transmitir
a tal mensagem. Porém, se de igual modo não fosse do meu interesse, talvez até nem lhe ligasse.
– O.K., vejo que se preocupa! E, acima de tudo, agradeço-lhe essa preocupação.
– Não tem de quê!
Uma grande amiga, daquelas que se acham raras vezes na vida, definiu bem a situação! É uma vida que segue em paralelo, como se estivéssemos erradamente na margem direita de um rio a caminho da foz e vislumbrássemos aquilo que, eventualmente, poderia ocorrer na margem esquerda. A corrente é forte, o rio é cavado, escuro e tenebroso, e até aqui não surgiu uma única ponte, excepto a primeira que atravessei… ou melhor me convidaram a atravessar e eu, às apalpadelas, agarrei-me à balaustrada e atravessei. Precipitei-me para a outra margem, senti um empurrão, tropecei, uma densa neblina turvou-me a vista e segui em frente.
– E a ponte estava lá?
– Sim, creio que sim! Mas quando nos enchemos de orgulho, de uma inabalável certeza que o que pensamos naquele momento preciso é o que é correcto, justo e virtuoso, nem tentamos cortar a neblina, a cortina que nos separa o regresso ao trilho que gizáramos, porque a nossa convicção é a lanterna que nos alumia…
– Mas se lhe indicou o caminho, ou pelo menos lhe deu a luz para caminhar, qual é o motivo para que o percurso construído não seja o correcto?
– Porque estamos sós!
– Desculpe-me, mas essa luz não é o farol que guiará os outros até si? Aqueles que realmente ama e que o amam?
– Não, cara leitora! Está enganada! Redondamente, enganada! Essa luz é imaginária, ou se preferir o seu comprimento de onda é superior àquela que se consegue ver.
– Como os infravermelhos!?
– Exactamente! Todavia, nós desconhecemos que ela não é visível, porque nós a vemos, o caminho é visível, logo essa tendência para autocentrar aquilo que nos rodeia leva a essa ilusão.
– Megalomania?
– Se lhe quer chamar assim... prefiro um termo mais suave: auto-ilusão. Convencemo-nos de que somos David enfrentando Golias e que, mais cedo ou mais tarde, lá acabará por aparecer a inevitável funda, com a qual cegaremos o monstro.
– O monstro!? O que é para si o monstro? Os nossos medos e manias? As nossa atitudes que escapam ao controlo do super
– Não, cara leitora! Esse monstro que referi representa o mal que o adversário, materialmente mais poderoso, nos pode infligir. Tal como Sartre dizia, o inferno são os outros, se bem que muitas vezes ele vive dentro de nós. Logo não é uma asserção definitiva, dogmática… percebe?
– Em parte…
– Vou-lhe dar um exemplo recorrendo, sem presunção de alguma espécie, ao meu caso concreto.

– Sou toda ouvidos!
– Contudo, não lhe irei contar os pormenores e os factos em si. Para além de poder ser um exercício penoso, tanto para mim como para si, são factos que só a mim e aos meus mais próximos dizem respeito. Entende-me?
– Claro, prossiga…
– Há poucos anos propus-me realizar um desafio, sem nada de especialmente transcendente, significava fazer o vital upgrade na minha carreira e ainda para mais recorrendo à investigação, a minha dilecta actividade. E assim foi. Sem apoios de espécie alguma – falo dos financeiros – lá me aventurei para o coração do país vizinho e lá permaneci um ano fenomenal. Repleto de descobertas e de desafios. Nada de melhor para um jovem quase a entrar na quarta década da sua vida – os deliciosos 30.
– E… correu bem?
– Não poderia ter sido melhor, classificações, encómios, congressos, publicações, laços de amizade que ainda perduram durante este 4 ou 5 anos, tanto com colegas como com os meus colegas/professores.
– Óptimo, mas…
– Por favor, deixe-me terminar. O segundo ano, foi dedicado exclusivamente à investigação para a obtenção do D.E.A…
– D.E.A.?
– Diploma de Estudos Avançados!
– Ah! E conseguiu?
– Consegui, com palmas e louvores uma vez mais, e vivas a Portugal pela prende ofertada. Desculpe-me, estou a ser imodesto…
– Não, se é a realidade…
– Pois, mas não sou muito dado ao auto-elogio… percebe?
– OK, continue!
– Todavia, apesar do excelente ano em termos académicos, o meu mundo começou a desmoronar…
– Hum…
– No início desse segundo ano, fiquei a saber que 2 míseros centímetros de tecido malformado podem redundar em morte. E assim foi! Fizemos tudo o que era possível, hospitais, médicos, viagens, mas… durou 10 meses.
Só chegou aos 26!
– Isso é horrível… não tenho palavras…
– Não há dia que passe que não me lembre desse período. Contudo, na memória conservo os momentos bons que me deixaram uma eterna saudade – que dizem que se torna boa com o tempo e nos fazem esquecer os momentos de atribulação, mas isso é uma pérfida mentira!

(continua num dia destes, o mais repugnante do ser humano ainda está para vir)

1 comentário:

rute disse...

(aguardo ansiosamente)