sexta-feira, 9 de junho de 2006

Serei de Direita?

Com o natural evoluir do meu processo de envelhecimento fui construindo várias certezas, apesar de os graus de dúvida, de inquietação e de indignação terem crescido de forma exponencial.
Significará isto que as certezas que logrei alcançar são apenas o produto do agravamento inexorável das minhas dúvidas?
Não tenho resposta, nem há uma base empírica que me permita inferir para o todo intrincado das minhas ondas cerebrais.
Na minha juventude mais púbere rotulava-me ufanamente de direita. Votaria claramente Horta contra Soares, Soares Carneiro contra Eanes, PSD ou CDS contra PS e por aí em diante.
À medida que o tempo ia passando, superada a fase de balbúrdia hormonal, verifiquei que havia concebido determinada filosofia política, guiando-me por um paradigma concebido pelo meu processo de amadurecimento. Prontifiquei-me a estabelecer um rol de valores e de princípios que resultavam da minha parca experiência e do meu indelével sistema de crenças: da justiça social à livre iniciativa privada, da auto-regulação do mercado, que assim, de forma inabalável, caminharia para o equilíbrio, à mestiçagem dos conceitos de capital e de trabalho.
Comecei a entender que a Justiça e o seu funcionamento seriam o pilar, a base, o suporte de todo esse sistema, onde porém se entrecruza um manancial de outros pilares: a educação e a cultura, por exemplo. Em suma, a interacção desses pilares contribui para a construção de uma sociedade justa no seu entendimento mais amplo. Não se confunda, porém, por deriva legislativa e regulamentadora, paradoxalmente castradora do direito natural à liberdade, seja ela de que tipo for.

Qual é, então, a razão desta verborreia toda?
O motivo advém desta dura constatação: só se consegue ouvir um enorme silêncio por parte dos meus supostos correligionários a propósito da actuação de um energúmeno, ariano de tez morena, mediterrânico, aparentemente braquicéfalo, que incita à violência e à guerrilha urbana; professa o racismo, o anti-semitismo, a homofobia, enfim, o nazismo; clama por Hitler, Hess ou Goebbels; ameaça os imigrantes e repete ad naseum – aliás, como os seus mentores – argumentos como a imigração e o índice de criminalidade, a insegurança e a falta de intensidade ou de virulência das forças policiais, a babilónia de raças e a perda de identidade nacional.
Onde está a suposta direita que havia idealizado?
Onde estão as habituais palavras fortes de condenação?
Por que motivo se fala do assunto recorrendo-se a uma ignominiosa fuga para a frente, apontando-se o dedo à esquerda que não condena os actos de similar baixeza moral praticados pelos torcionários partidários da sua ideologia?
Sob o ponto de vista moral, até por uma questão de diferenciação perante os nossos putativos adversários de ideologia política, não deveria a direita ser a primeira a condenar, repudiar e afastar eventuais libelos de assentimento, quando aquele energúmeno apareceu de caçadeira em riste na famosa reportagem e proferiu nesse mesmo dia e nos seguintes aquelas abjecções corporizadas em palavras de ódio ou de incitamento à subversão dos princípios de um estado direito?
Quo vadis direita portuguesa?

Nota: Há um blogue de pendor xenófobo, racista e neonazi – o qual, por razões óbvias, aqui não o publicitarei – que ostenta uma frase em epígrafe, sabem de quem?
Não, não é de Hitler, Mussolini, Franco ou Salazar. É de Orwell, George Orwell!

Se motivos faltassem, daria para acreditar em alguém com este nível de iliteracia ou, para ser mais correcto, de analfabetismo funcional?

3 comentários:

pedro vieira disse...

camarada, não há limite de idade para te passares para o lado certo ;).

um abraço assim a dar para o vermelhusco, vá

AMC disse...

Isso poderá ser considerado proselitismo!
Um abraço a dar para o incolor :)

propranolol disse...

Ter dúvidas é bom, AMC, com elas sempre se aprende alguma coisa, que é o que devíamos andar todos a fazer por cá. Não queira ser como o Cavaco, não queira ter certezas como ele, e não queira ter desdém pela esquerda, como ele. Já deu para perceber que a minha tendência vai para o lado esquerdo e receio até que não tenha cura, mas não ligo. Gostei do seu post e sempre lhe digo que os nossos políticos se excitam muito a vincar as diferenças (frequentemente artificiais), como pretexto para não resolverem os problemas do país. Que é para isso que nós, cidadãos, lhes pagamos e fechamos os olhos a muitas das aldrabices que nos impingem.
Um abraço com as cores todas, que é o que interessa.