sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Laura

Como por tempo quente às vezes sói
a ingénua borboleta à luz afeita
ofuscada voar, e então se deita
contra uns olhos e morre e àqueles dói;

corro eu ao sol fatal que sempre foi
o de olhos de doçura tão perfeita
que a Amor freio do siso não sujeita
e a quem discerne então quem quer destrói.

E neles vejo bem que esquivo engano
e sei que disso morro verazmente,
que sem ter força contra a dor me afano;

pois me encandeia Amor tão brandamente
que choro enfado alheio e não meu dano;
e, cega, em seu morrer a alma consente.


As Rimas de Petrarca, (141), por Vasco Graça Moura. Lisboa: Bertrand, 2003, pág. 421.

Pequenas notas sobre quase nada

  1. O Código Nabokov: Rosenbaum strikes back (Slate)
  2. Cinema: (a) esplendorosa adaptação de Este País Não É para Velhos pelos irmãos Coen. (b) Não se compreende a não-nomeação de Tommy Lee Jones para Óscar de Melhor Actor pela imaculada interpretação do Xerife Ed Tom Bell (a alma do romance tão bem transposta para o filme). (c) Bardem, na pele de Anton Chigurh, é soberbo. (d) Iniciei o texto sobre a minha apreciação do filme, arquivei-o, por enquanto, e para quem estiver interessado, remeto-vos para o texto que escrevi no passado dia 1 de Dezembro sobre o romance de Cormac McCarthy, editado pela Relógio D'Água. Não há muito a acrescentar... Joel e Ethan captaram quase tudo; Cormac pode sentir-se mais que recompensado.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Pedagogia democrática

Em cada “rincón”, daqueles que apelam à detenção do passo apressado na azáfama do dia-a-dia, deparo-me com cartazes gigantescos de cara inteira de dois dos homens que ferozmente se digladiam para alcançar a presidência do Governo espanhol no próximo dia 9 de Março. Por exemplo, na estação de metro Sol (na Puerta del Sol) apanhei o primeiro de muitos sustos. Quando, na minha irrepreensível delicadeza urbana, cedia o passo a um grupo de transeuntes apressados, perdi o equilíbrio e, desorientado, agarrei-me, de imediato, à parede do túnel, quase lambuzando uma das bochechas barbudas de Mariano Rajoy, que se apresentava, de sorriso amarelo sobre fundo azul ferozmente marcado pelo chavão “PP con cabeza e corazón” – o susto foi ainda maior quando me lembrei das frases de campanha do nosso coveiro Guterres. No PSOE a coisa também não é famosa, os cartazes mostram um Zapatero aparentemente absorto, com um olhar seráfico, apenas estorvado por umas olheiras vincadas – traduza-se, vêem como me esfalfei por Espanha nos últimos quatro anos – sobre um fundo antracite, contrastando com um desafiante vermelho vivo – por onde anda o rosa? – da sigla e do símbolo do partido, e um slogan “Vota con todas tus fuerzas” – a minha mente fértil, tendencialmente burlesca e nos limites do decoro, construiu a imagem de um necessário esforço peristáltico no momento de aposição da cruz no boletim de voto.
Adiante...
Durante esta semana, para além do Óscar atribuído a Javier Bardem, e do assunto das quatro mulheres assassinadas no mesmo dia pelos respectivos companheiros em pontos distintos do país, o debate televisivo entre Zapatero e Rajoy, realizado na segunda-feira, era o motivo de todas as conversas e das mais variadas conjecturas sobre o vencedor e a magnitude da vitória. O debate, preparado ao milímetro pelas máquinas partidárias – contou, por exemplo, com mais de duas centenas de exigências de ambos os lados –, saldou-se num chorrilho de inanidades e de troca de acusações, roçando o insulto pessoal. Quando ambos abandonaram o estúdio, foram proferidas pelos dois lados declarações de vitória. O povo espanhol enfada-se, e com razão – depois da expulsão de Aznar – e não se revê nestes dois políticos medíocres. Ah, se eu lhes falasse da escolha que nós, portugueses, teremos de enfrentar em 2009: Sócrates ou Menezes… Prefiro a mediocridade dos contendores espanhóis.
(Apesar de tudo, salva-se em Espanha a iniciativa partidária de Rosa Diez, Mikel Buesa e Fernando Savater a que se juntou Mario Vargas LLosa.)

Na Fnac do Callao acabei de adquirir dois “libros de bolsillo” – que aqui em Espanha há-os para todos os gostos – e foi-me oferecido o primeiro volume de um conjunto de contos e ensaios sobre os assuntos que preocupam os espanhóis à porta das eleições (livro na imagem).
Um grupo de editores compilou um conjunto de temas em que os espanhóis manifestaram, numa grande sondagem nacional, a sua grande preocupação. Ei-los: fraude e corrupção, toxicodependência, economia, educação, qualidade do emprego, guerra, infra-estruturas, imigração, insegurança, administração da justiça, juventude, meio ambiente, desemprego, segurança social, classe política, racismo, saúde, violência doméstica e habitação. A estes temas, os editores acrescentaram mais dois: o consumo e, por razões óbvias, os livros.
Para cada preocupação há um capítulo. Cada capítulo subdivide-se em três partes: uma entrada do Dicionário do Diabo de Ambrose Bierce; um texto de reflexão; e uma história ou um relato de um autor consagrado.

Um exemplo retirado do primeiro volume [tradução AMC, excepto entrada referente ao Dicionário do Diabo, de responsabilidade de Rui Lopes]:

  • Capítulo: A Economia
  • Entrada*: Economia, n, Adquirir o barril de uísque que não é necessário pelo preço da vaca que não se tem dinheiro para comprar.
  • Reflexão sobre “La Nueva Economía” pelo economista Joaquín Estefanía (ex-director do El País) e actual director da Escola de Jornalismo da Universidade Autónoma de Madrid.
  • Conto: John Cheever, “O Natal é triste para os pobres” (originalmente publicado na revista The New Yorker no dia 24 de Dezembro de 1949):

«O Natal é uma época triste. A frase sobreveio à mente de Charlie no instante seguinte ao despertador haver tocado, e trouxe-lhe de novo a depressão amorfa que o havia perseguido na noite de véspera. No outro lado da janela, o céu estava negro. Sentou-se na cama e puxou a corrente de luz que se enganchava defronte do seu nariz. O dia de Natal é o mais triste do ano, pensou. De todos os milhões de pessoas que vivem em Nova Iorque, eu sou praticamente o único que tem de se levantar na fria escuridão das seis da manhã de um dia de Natal; praticamente o único.» (pág. 197)


*Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo. Lisboa: Tinta da China, 1.ª edição, Janeiro de 2006, pág. 53; tradução de Rui Lopes; obra original: The Devil’s Dictionary, 1911.

Neste volume há ainda textos de Freud, Hemingway, Juan José Millás, David Sedaris, Dorothy Parker, entre outros.

Um verdadeiro deleite para enfrentar, pela arte, o enjoo reiterado do discurso político.

Referência bibliográfica:
VV. AA., Entender todo esto: Cuentos y reflexiones para las Elecciones Generales de marzo de 2008. Barcelona: Fnac, 2008, n. 1, 405 pp.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Oscar®*

Paul Thomas Anderson e Daniel Day-Lewis
Prometi que não voltava ao tema dos Oscars®, embora deixasse ficar a ressalva que a ele poderia voltar após assistir à projecção de Este País Não É para Velhos dos Irmãos Coen (sem “h”) – filme que estreia amanhã no circuito comercial português, cuja antestreia ocorreu na passada segunda-feira na abertura do Fantasporto 2008.

Todavia, este texto do Sérgio no seu Auto-Retrato – novamente sem caixa de comentários e, como Sérgio confessou no seu regresso à blogosfera após uma curta ausência, tem tido alguma dificuldade de, atempadamente, responder às inúmeras mensagens de correio electrónico que lhe assaltaram a caixa postal – merece, da minha parte, uma brevíssima réplica.
Como referi
aqui, antes da realização da cerimónia de atribuição dos Óscares da Academia, consegui ver a totalidades dos filmes que foram objecto de nomeação por via da categoria de “Melhor Actor”. Por aquilo que pude ver, apreciando com alguma cautela – especialmente após o anúncio de 22 de Janeiro último – as 5 interpretações referenciadas, não vacilei, nem por um único instante, no momento de apontar o meu eleito. Afirmei, categoricamente: Daniel Day-Lewis desempenhou o papel da sua vida e a sua actuação não encontra rival nas últimas três décadas da historiografia do cinema mundial – e esta é, como me parece óbvio e salutar, uma opinião eminentemente pessoal, por isso questionável e, em consequência, admitindo a eventual diferença de opinião manifestada por quem eu reconheça como autoridade cinéfila.
Ignoro a existência de critérios científicos que me permitam objectivar uma qualquer manifestação artística, tal como repudio a mera tentativa de outros para os criarem. No domínio dos “gostos” encontramos sempre um arrazoado, mais ou menos verdadeiro, leia-se mais ou menos falacioso, que permite sancionar e justificar as nossas opções.



O que é que eu vi em “Daniel Plainview”, a pele atribuída por PT Anderson a Daniel Day-Lewis, que este último encheu à discrição de carne e osso?
Um ser obstinado pelos eflúvios inebriantes do dinheiro e do poder, que lhe toldam qualquer perspectiva de vida e de uma maneira de viver que vá para além da demanda por novas formas que lhe permitam manter ou engrandecer essa embriaguez. Não há amizade, não há família; não há Deus, nem religião; não há valores e princípios por que lutar; não há amor, muito menos paixão; não há arrependimento e perdão (rima involuntária que a preguiça sinonímica impediu a devida correcção). O Guião de PT Anderson pedia uma máquina humana, cúpida, celerada, implacável. Um guião que procurou, quase que obsessivamente, a concentração destas características num só homem, e isto se o compararmos com o magnata J. Arnold Ross do romance Oil! de Upton Sinclair cuja trama se concentra numa contenda ideológica deste com o seu filho “Bunny”. Um confronto entre o capitalismo despótico e o socialismo. Por diversas razões e algumas vicissitudes ocorridas durante a fase de produção do filme – designadamente, a escassez de financiamentos –, Haverá Sangue foi-se progressivamente afastando do fulcro da obra de Sinclair; PT transformou o filme numa obra de um só personagem. Anderson já havia apostado em Day-Lewis, e confrontado com as novas restrições deu-lhe o guião pedindo-lhe o seu sangue…


DDL conseguiu: foi a estrela que cintilou no negrume do petróleo. Deu tudo de si, criou um personagem na dimensão de um Charles Foster Kane (Orson Welles) ou de um Jett Rink (James Dean), e com uma inspiração confessada (por PT) em Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart) e no trio de gananciosos prospectores de ouro.

Depois, a rigorosa selectividade aposta por Day-Lewis nos filmes que protagoniza, não pode nem deve ser subvertida, como se tratasse de uma fraqueza ou de uma debilidade de carácter do actor. Se essa exigência existe, ela deve-se, por um lado, ao estatuto conquistado pelas suas portentosas e aclamadas interpretações anteriores e, por outro, ao arrepio da distintiva cupidez criminosa do personagem interpretado, Daniel Plainview, à consciência de que ser um actor de Hollywood não o obriga a aceitar todo e qualquer papel para acrescentar mais uns milhões à sua já incomensurável riqueza; ao contrário, por exemplo, do seu compatriota Anthony Hopkins que já ameaçou retirar-se uma dúzia de vezes – lembram-se da reforma anunciada após a filmagem de Instinto em 1999 (Instinct)? Atentem no cine-lixo que fez a seguir –, ou que se iria tornar mais selectivo na escolha dos guiões propostos; no entanto, a realidade está aí para o desmentir.

Finalmente, no que respeita ao unanimismo (ou quase unanimidade) na apreciação da última prestação de Daniel Day-Lewis, só posso dizer que já há muito deixei a minha rebeldia pubertária de ir contra a corrente da opinião, quando assumia orgulhosa e bravamente a diferença no campo artístico (música, cinema e literatura). E, neste caso concreto, o unanimismo até proveio dos artigos de crítica cinematográfica e do direito de voto exercido por especialistas na matéria (e isto se exceptuarmos a crítica portuguesa) e não do público, que se reviu mais no melodrama choramingas de McAvoy, nos golpes de artes marciais em pelote de Mortensen, na irritante e omnipresente presunção de Clooney ou na destreza navalhística de Depp. Tommy Lee Jones tem, como já referi, uma boa interpretação no filme No Vale de Elah, embora esteja longe do seu melhor (e estou ansioso por o ver na pele do Xerife Ed Tom Bell, cujas reflexões me apaixonaram ao ler o romance de Cormac McCarthy), como por exemplo no filme O Fugitivo (The Fugitive, 1993) de Andrew Davis no papel do implacável e legalista U.S. Marshall Samuel Gerard, papel que lhe valeu o Óscar para Melhor Actor Secundário (vá-se lá saber por que carga de água lhe foi atribuído neste filme o papel secundário); ou em Chuva de Fogo (Blown Away, 1994), desempenhando o papel de um psicopata bombista Ryan Gaerity; entre outras excelentes interpretações que referi no
texto mencionado.

Dos 5 nomeados ao Oscar® para “Melhor Actor”, e por ordem de decrescente do número de prémios arrecadados com as respectivas interpretações, temos:

Daniel Day-Lewis (“Daniel Plainview” em Haverá Sangue) – 19 prémios
Academy Awards – Oscar
BAFTA film Awards
Broadcast Film Critics Association Awards
Central Ohio Film Critics Association
Chicago Film Critics Association Awards
Dallas-Fort Worth Film Critics Association Awards
Florida Film Critics Circle Awards
Globo de Ouro (Drama)
Kansas City Film Critics Circle Awards
Las Vegas Film Critics Society Awards
London Critics’ Circle Film Awards (ALFS)
Los Angeles Film Critics Association Awards
National Society of Film Critics Awards (EUA)
New York Film Critics Circle Awards
Online Film Critics Society Awards
Phoenix Film Critics Society Awards
San Diego Film Critics Society Awards
Screen Actors Guild Awards (EUA)
Southeastern Film Critics Association Awards

Viggo Mortensen (“Nikolai” em Promessas Perigosas) – 4 prémios
British Independent Film Awards
Sant Jordi Awards (Melhor Actor Estrangeiro)
Satellite Awards (Drama)
Toronto Film Critics Association Awards

George Clooney (“Michael Clayton” em Michael Clayton – Uma Questão de Consciência) – 3 prémios
National Board of Review (EUA)
San Francisco Film Critics Circle
Washington DC Area Film Critics Association Awards

Johnny Depp (“Benjamin Barker/Sweeney Todd” em Sweeney Tood – O Terrível Barbeiro de Fleet Street) – 2 prémios
Globo de Ouro (Musical ou Comédia)
People's Choice Awards – Favorite Male Movie Star (independentemente do filme)

Tommy Lee Jones (“Ed Tom Bell” em Este País Não É para Velhos) – 2 prémios
San Diego Film Critics Society Awards (Actor Secundário,)
Screen Actors Guild Awards (prémio colectivo, melhor elenco)
Nota: obteve 3 nomeações pelo personagem “Hank Deerfield” No Vale de Elah, derrotado por duas vezes por Daniel Day-Lewis “Daniel Plainview” e uma por Viggo Mortensen “Nikolai”. Por outro lado, o filme No Vale de Elah, no total, apenas ganhou o prémio SIGNIS (Associação Católica Mundial para a Comunicação) para melhor filme no último Festival de Veneza.


Nota: * “Oscar” é o personagem principal do filme de animação de 2004, Shark Tale (O Gang dos Tubarões) da Dreamworks, cuja voz pertence ao actor norte-americano Will Smith. Foi assim mesmo baptizado na versão dobrada em português e lê-se como sendo oxítona: “Oscar” pronuncia-se com a mesma entoação de “buscar”, ou então, para ser mais preciso de “emboscar” com o “o” aberto. Ora, na língua portuguesa as palavras graves (aquelas cuja sílaba tónica é a penúltima) não são por regra acentuadas, havendo, no entanto, algumas excepções, como por exemplo em palavras terminadas, entre outras, pela consoante “r”: “carácter”, “almíscar”, “esfíncter”, “mártir”, e por aí em diante.
Se se pretende não acentuar o nome do galardão da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, então devê-lo-emos pronunciar assim. Mas então “Nobel” pela mesma ordem de razão deveria vir “Nóbel”? Aqui Saramago tem razão, tanto as nossas regras de acentuação, como a pronunciação dos próprios suecos é “Nobel”… e o Estado norte-americano da “Florida”, prefiro dizê-lo “Flórida”, mas não consta do vocabulário português. Isto dava pano para mangas, e há cerca de 1 ano tomei a decisão de passar a empregar por regra “Óscar” e “Óscares”, ao invés de “Oscar” e “Oscars” como fazia até então (basta consultar os meus textos antigos).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Óscares IV – Impressões e considerações finais

[Para acabar com o assunto de vez, deixo aqui ficar algumas impressões sobre a noitada de ontem (poucas, a paciência não chega para tanto, com a agravante de correr o sério risco de me chamarem de cinefilamente superficial, ou coisas piores)]

Em 7 pontos
  1. Uma parte importante (38%) dos milhares (porventura centenas) de leitores deste blogue preferia ver o filme Expiação como o vencedor da noite (28% elegeria Haverá Sangue, cerca de 23% viu realizado o seu desejo ao assistir à vitória de Este País Não É para Velhos e 9% votou em Juno e, ainda, Nespresso "0");
  2. Não me furtei a um insonoro sorrisinho sardónico, mas com expressão de Mutley (mais inteligente, claro), que preocupantemente perdurou por alguns minutos na minha expressão facial – qual Jack Nicholson no Joker de Burton –, enquanto escrevia o texto anterior ao haver constatado que Expiação figurava no aglomerado de filmes galardoados com apenas 1 Óscar, pequena malícia potenciada pela categoria: “Melhor Banda Sonora Original” – meses após a estreia, ainda se pode escutar o reverberante martelar das teclas da máquina de escrever… mas, não é por tanto dedilhar que se responde satisfatoriamente ao desafio: como agarrar o talento e a subtileza de McEwan?
  3. A cerimónia foi fraquinha. Cheia de pontos mortos e com algumas descoordenações e embaraços. Repararam no friíssimo cumprimento entre Jon Stewart e Owen Wilson?
    Stewart esteve igual ao papel representado no Daily Show da Comedy Central, física e comicamente abaixo do seu amigo Colbert, e longe dos inesquecíveis Johnny Carson, Bob Hope, Chevy Chase e até Billy Crystal. Tem, já sabemos, o invariável defeito whoopi-goldberguiano de se rir das suas próprias piadas, mesmo quando se apercebe do falhanço de algumas delas – aqui, porém, consegue ficar
    acima de Herman José, que continua a considerar-se um delicioso irreverente mesmo perante uma terrível sucessão de boçalidades acabadas de sair da sua boca – que o digam Dennis Hopper, quando Stewart lhe perguntou se aquele sabia onde se encontrava, e Jack Nicholson (que, convenhamos, pela pose, já estafada, a isso se presta) quando Stewart refere as actrizes grávidas presentes no Kodak Theatre. Porém, houve duas piadas de circunstância que se destacaram das demais pelo brilho relativo: (1) Quando Stewart se referiu ao desempenho da actriz Julie Christie em Longe Dela, filme que retrata as sequelas da doença de Alzheimer na vida de uma família: «Julie Christie was absolutely amazing in Away From Her. Brilliant movie. It was the moving story of a woman who forgets her own husband. Hillary Clinton calls it the feel good movie of the year»; (2) A incontornável referência de Stewart às 80 edições da cerimónia da estatueta dourada: «Oscar is 80 this year, which makes him now automatically the frontrunner for the Republican nomination.»
  4. Gostei de ver a alegria incontida do, normalmente esquivo e sorumbático, Cormac McCarthy pelo reconhecimento, embora indirecto, da sua obra. O seu romance, já aqui o havia referido nas minhas notas de leitura (pede-se o favor a V. Exas. de as procurarem na coluna do lado direito), é tenebrosamente excepcional (na fase do inventivo rescaldo, gostei especialmente da curta frase asinina do Público, reproduzida pelo João, sobre o romance do autor norte-americano: «Este País não é para Velhos, a adaptação de um romance de Cormac McCarthy que conta a história de um negócio de droga que dá para o torto, no sul do Texas», o título do texto e o comentário do João levaram-me às lágrimas; mas, enfim, temos aquilo que merecemos.
  5. Comentários lusos nos estúdios da TVI: Teve uma certa graça – noutros tempos ter-me-ia dado ao trabalho de escrever um cáustico e vigoroso e-mail de protesto – a pequena discussão entre os comentadores gerada pela atribuição do Óscar honorário ao director artístico Robert Boyle, com os seus 98 anos, em que as variantes Boyle e Doyle saltaram, qual jogo de pingue-pongue com bolas de golfe, entre Vieira Mendes e Tendinha, abafando (salvo seja) Nicole Kidman e as primeiras palavras do provecto director artístico. E depois, interrogo-me todos os anos, por que raio a TVI não disponibiliza a emissão sem comentários, via canais de som diferentes?
  6. PT Anderson perdeu, e manteve-se na sua postura sonolenta; talvez seja timidez, outros afiançam que é fleuma e sobranceria. Salvou-se a Direcção de Fotografia, para além do esperado e merecidíssimo Óscar pela magistral interpretação de Daniel Day-Lewis.
  7. Com canções horrorosas, uma orquestra dirigida por Bill Conti que a certa altura pareceu entrar na competição internacional do trecho musical para cinema mais desafinado, sem as habituais apresentações individualizadas dos filmes candidatos ao galardão máximo, com uma plateia que não se renova a cada ano que passa – sempre com a mascote testosterónica de óculos de sol e sorriso lúbrico na linha da frente – e umas meninas choronas que abrem a torneira sempre que o tom do “thank you Academy” se aproxima do sussurro meloso de Jennifer Tilly com cambiantes do histriónico discurso com soluço intercalado de Renée Zellweger, este formato está morrer aos poucos, já não há pachorra… mas para o ano… é superior às minhas forças, noitada garantida. Junta-te a eles...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Óscares III – Os Vencedores de 2008


Vitória em três apelidos: Bardem, Coen e McCarthy

Acabaram de ser atribuídos os galardões mais importantes no mundo do cinema – quer se goste ou não, repudiando ou simplesmente tentando ignorar, ninguém consegue ficar indiferente à noite mágica de Hollywood; é assim desde 1929, ano em que uma estatueta misteriosamente apelidada de Óscar vai enchendo de sonhos o imaginário de todos aqueles que do Cinema fazem a sua arte.
Eis os vencedores da 80.ª Cerimónia de entrega dos Óscares da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood:

4 Óscares (1 filme)
Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men) de Joel e Ethan Coen
- Actor Secundário – Javier Bardem
- Argumento Adaptado – Joel e Ethan Coen
- Filme
- Realização – Joel e Ethan Coen

3 Óscares (1 filme)
Ultimato (Bourne Ultimatum) de Paul Greengrass
- Efeitos de Som
- Montagem
- Som

2 Óscares (2 filmes)
Haverá Sangue (There Will Be Blood) de Paul Thomas Anderson
- Actor – Daniel Day-Lewis
- Fotografia

La Vie en Rose (La Môme) de Olivier Dahan
- Actriz – Marion Cotillard
- Caracterização

1 Óscar (9 filmes)
A Bússola Dourada (The Golden Compass) de Chris Weitz
- Efeitos Especiais

Elizabeth – A Idade do Ouro (Elizabeth: The Golden Age) de Shekhar Kapur
- Guarda-Roupa

Expiação (Atonement) de Joe Wright
- Música (BSO) – Dario Marianelli

Os Falsificadores (Die Fälscher) de Stefan Ruzowitzky
- Filme Estrangeiro – País de Origem: Áustria; Título EUA: The Counterfeiters

Juno (Juno) de Jason Reitman
- Argumento Original – Diablo Cody

Michael Clayton – Uma Questão de Consciência (Michael Clayton) de Tony Gilroy
- Actriz Secundária – Tilda Swinton

Once de John Carney
- Canção – “Falling Slowly”, por Glen Hansard e Markéta Irglová

Ratatui (Ratatouille) de Brad Bird
- Filme de Animação

Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street) de Tim Burton
- Direcção Artística



Despeço-me com a pose de Tio Alfred H, sabendo que me esperam apenas 3 marcelistas horas de sono (talvez haja mais considerações para quando o sono estiver em dia):

Ladies and Gentlemen, good night!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Óscares II

[Imagem: ©New York Magazine]


Esta é uma das poucas categorias, senão a única – a preguiça é amiga da dúvida –, em que tive a feliz, porque escassa, oportunidade de ver todos os filmes a concurso – por mera curiosidade, ocorre precisamente o contrário com a categoria Melhor Actriz, será talvez um fenómeno de manifestação tácita de alguma misoginia fílmica?...

  • George Clooney em Michael Clayton – Uma Questão de Consciência
  • Daniel Day-Lewis em Haverá Sangue
  • Johnny Depp em Sweeney Tood – O Terrível Barbeiro de Fleet Street
  • Tommy Lee Jones em No Vale de Elah
  • Viggo Mortensen em Promessas Perigosas

Day-Lewis é magistral. O melhor actor da actualidade, realizou, porventura, a melhor interpretação cinematográfica das últimas duas ou três décadas, e uma das melhores da história do cinema. Nesta categoria, tratar-se-á, em princípio, da corrida de um só homem, os outros co-nomeados já disso se aperceberam, mesmo que Clooney no seu estilo trombeteiro, vendedor da própria imagem nas suas incansáveis buscas por microfone aberto, tenha referido que se sente como a Hillary Clinton desta competição, se não houvesse Obama [Day-Lewis]…
Permita-me que discorde, Mr. Clooney. O seu desempenho é banal, na linha do “Nespresso, what else?”, num filme prenhe de clichés, que estranhamente foi angariando nomeações em tudo o que era festival de cinema ou cerimónia de entrega de prémios.

Acima de Clooney está, sem sombra de dúvida Viggo Mortensen em Promessas Perigosas – apesar da minha inexplicável embirração com este actor. Segundo se diz, David Cronenberg deu total liberdade interpretativa a Mortensen, o que não só é revelador da confiança extrema aposta por um dos génios da realização da actualidade a um actor, como, ao verificar-se a consistência imagética e cénica do produto final, das qualidades reais do actor.

Tommy Lee Jones desempenha um excelente papel num filme medíocre, sem trazer qualquer tipo de novidade a uma carreira já com alguns sucessos e interpretações mais bem conseguidas, como por exemplo em Os Três Enterros de um Homem (The Three Burials of Melquiades Estrada, 2005), filme também realizado por si e que lhe permitiu arrecadar o prémio para Melhor Actor no Festival de Cannes, ou em O Fugitivo (The Fugitive, 1993) com que arrecadou o Óscar para Melhor Actor Secundário, não esquecendo a sua interpretação bem mitchumiana em Chuva de Fogo (Blown Away, 1994) e por antítese, no papel de homem traído em Céu Azul (Blue Sky, 1994) de Tony Richardson.

Quanto a Johhny Depp e o seu barbeiro demoníaco, abstenho-me de qualquer comentário adicional, não vá recidivar na náusea que me assolou pelo mero exercício de recordação. Ah, pois, dizem que o ídolo dos teenagers das pipocas canta muito bem…

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Óscares I

[Imagem: ©New York Magazine]

Vi 3 dos 5 filmes candidatos ao prémio mais aguardado da noite – normalmente o último a ser entregue:

  • Expiação (Atonement)
  • Haverá Sangue (There Will Be Blood)
  • Michael Clayton – Uma Questão de Consciência (Michael Clayton)

Escolha pessoal (sem vacilar): Haverá Sangue
Vencedor – Previsão (para mal dos meus pecados): Expiação
Surpresa da noite (hipótese aventada nos meandros de Hollywood): Juno
Pela crítica e pela opinião dos espectadores: Este País Não É Para Velhos (para quem, como eu, considerou o livro de base de Cormac McCarthy como o 4.º melhor livro editado em Portugal no ano de 2007, e que, ademais, é admirador incondicional dos fabulosos irmãos Coen, este seria, sem dúvida, um excelente vencedor).

Nota: inquérito em linha sobre a sua preferência (coluna do lado direito)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Crianças Queimadas… coitadinhas!

Confesso. Tenho uma notável aversão a compilações temáticas de quaisquer estilo e natureza, principalmente se aquelas se referem aos meus dilectos meios de expressão artística. E esta minha urticária compilatória converteu-se, de forma implícita, numa regra de cumprimento estrito, cuja derrogação induz, de forma severa, a uma manifestação de dor estética, sublimada por terríveis afecções psicossomáticas, em que a tal urticária intelectual ou dor espiritual se materializa em compulsão pruriginosa. E se essa terrível enfermidade se agudiza especialmente sempre que algo atinge a minha veia melómana – curiosamente, antes de o som chegar aos meus ouvidos sensíveis, o simples avistamento dos frontispícios coloridos pós-modernos da, por exemplo, ovnilógica Vidisco (Anual Tuning Mix, Dance Power 15 ou o imperdível Kizomba All Stars) é o suficiente para o surgimento do primeiro sintoma.
Bom, retomando, dizia eu que se é na música que a minha colectaneofobia se exterioriza com especial pungência, isso não implica que a literatura – a forma de arte que me assoberba – não escape como se fosse a excepção à regra. Não falo, é claro, das antologias de novelas, contos, poemas, micronarrativas, ensaios ou epigramas de um só autor, que tem como principal mérito a reunião numa só obra de um conjunto de escritos que de uma ou de outra forma correriam o sério risco de desaparecer no intrincado dos corredores hexagonais da infinita Biblioteca. No entanto respondo com algum menosprezo, ou com uma indiferença glacial, ao apelo ciciado desses livrecos que, através da exploração da minha famélica carteira, procuram em total desespero um novo lugar de repouso, talvez o paraíso, diferente daquele altivo, luzente e efémero espaço que ocupam no escaparate de uma livraria carregada de companheiros de auto-ajuda e dos que ostentam uma miríade de posições acrobaticamente sexuais, um triste purgatório – e com que rapidez se dá, hoje em dia, essa transitoriedade – normalmente marcados à nascença pelo pó e o bafio dos armazéns dos grandes livreiros, o inferno – dificilmente de lá regressam, a não ser que um iluminado arcanjo se recorde que o mercado pagaria um bom preço por alguns desses exemplares desaparecidos.

Afastei-me da questão central (já ouço a voz de Pacheco Pereira cantarolando em tom de meio falsete, com hiponasalação do “a” com til, «mas essa não é a questão essencial!»)

Ponto de ordem: As colectâneas literárias com histórias repescadas de vários autores irritam-me pelo baixíssimo rácio do número páginas aproveitáveis sobre o seu número total de páginas no livro. A maioria das histórias é descartável e serve para fazer número, contribuindo, com a sua aparente benignidade para a exercitação do intelecto, para o desbastamento da selva amazónica (ou do Pinhal de Leiria, ou então, dos sobreiros da Portucale, talvez financiadas pelo Jacinto Leite Capelo Rêgo).
Embora, mesmo nesta categoria encontre algumas felizes excepções. Recordo-me por exemplo da série Ficções, da Editorial Caminho, superiormente dirigida pela escritora Luísa Costa Gomes, que engenhosamente consegue reunir num mesmo volume histórias de nomes como Nabokov, Cortázar, Lispector, Cheever, Updike, Hemingway, Flannery O’Connor ou Tchekhov (cf. Ficções de férias).
Quem colige seus males espanta… Adiante, que compila (ou sem) parte sempre de um critério tão subjectivo de selecção que dificilmente conseguirá agradar um conjunto razoavelmente numeroso de leitores. Critério esse cuja explicação nos é, normalmente, ensaiada num prefácio cheio de justificativas.

Eis um exemplo:
A editora Bico de Pena publicou recentemente uma antologia de contos intitulada Geração Queimada da América, sob a putativa organização (ou edição) da jovem e celebrizada escritora britânica, agora residente nos Estados Unidos, Zadie Smith (n. 1975).
Em primeiro lugar, Smith apropria-se da compilação ao trazê-la ao Novo Mundo, de onde partiram os textos dispersos, embora no corpo do prefácio consiga explicar que esta lhe foi apresentada numa noite de borracheira em Mântua, Itália. A menina-prodígio, que agora anda a morder a mão de quem lhe deu de comer (cf. Ípsilon de hoje, 22/02/2008), foi contactada durante um festival literário em que participou como oradora por um casal de italianos, Marco Cassini e Martina Testa, que são em simultâneo amantes da literatura norte-americana e editores de livros, dirigindo a pequena editora romana minimum fax – visite-se a página na internet e atente-se no naipe de autores publicados por esta editora, dita amadora, desde a sua fundação em 1993, e agora compare-se com as reivindicativas pequenas editoras nacionais.
Depois, no que respeita à forma do livro, a “introdução” tem em apenso um aviso que, das duas uma, ou a autora desconhece a palavra e a função de “posfácio”, ou então, o dito aviso pertence ao grupo das tais chalaças muito jovens, frescas, criativas e irreverentes que sói colorir uma excitada e floribeleira geração de autores: «(Como é o tipo de introdução que faz extensas referências aos contos a seguir apresentados, deve ser lida no fim)» (pág. 11).
A tal introdução que pretendia ser posfácio, alonga-se por onze páginas, onde Zadie Smith procura, numa escrita cool, explicar o fio condutor dos textos agrupados no dito livro, associando-os à obra e à idiossincrasia de cada um dos autores. Mas, desde logo, comete um erro capital; qualquer leitor, por mais desatento que seja ou possa estar ao ler o textinho coquete, reparará que Smith, com uma vénia reverencial em forma de caracteres destaca David Foster Wallace que apenas integra a compilação com um conto de entre os 19 que completam o livro. Smith compara, justamente ou não – infelizmente li pouquíssimos textos, e em avulso, da sua obra, para aferir da verdade da afirmação, e note-se que, à excepção deste conto, não há qualquer texto de DFW traduzido para português de Portugal (se houver, por favor comentar na respectiva caixa) –, como dizia, Zadie Smith, supostamente sob o efeito de uma substância que estimule o name-dropping, compara DFW a Pynchon, Gaddis, Rushdie, John Barth, Bathelme, DeLillo e, até, a Nabokov, citando-o completamente a despropósito pelo «riso que emerge da escuridão» (pág. 12) – teria de ser mais bem explicado, menina; não basta recorrer ao título de uma obra e… aqui vai disto; ou então, num passe de mágica como a montanha de Mann, e por aí fora).
Em boa verdade, o conto de David Foster Wallace, “Encarnação de uma geração queimada”, é o único que roça o brilhantismo de entre todos os que compõem a antologia. É negro, angustiante, sucinto; parece escrito de um só fôlego, como uma emanação da alma, que o aguentou durante 3 páginas sublimes.
Dos restantes 18, saliento o engenhoso e tão comparável à frivolidade da vida das famílias contemporâneas “JÁ SEI FALAR!™” de George Saunders; o belo e descoroçoante “Timesharing” do excelente Jeffrey Eugenides; o inteligentemente bem escrito “Faith ou Conselhos para uma jovem que queira ter sucesso”, retrato de uma jovem americana obesa e dos constrangimentos e determinações comportamentais de uma sociedade leviana e desapiedada, escrito por Amanda Davis, tragicamente desaparecida aos 32 anos (14 de Março de 2003) num acidente de avião, a quem a antologia é dedicada; e o extravagante e original “Uma boneca verdadeira” da escritora A. M. Homes.
E fiquemo-nos por aqui. Os restantes 14 contos deixar-me-iam menos pobre se a antologia pudesse ser vendida à peça (onde se inclui o conto pobrezinho, a tentar dar para o imaginoso-piadético da jovem e incensada promessa Jonathan Safran Foer (n. 1977).

Por Foster Wallace, Eugenides, Homes, Saunders e Amanda Davis, embora puxados para o lamaçal literário (sem intenção) por Zadie Smith:

Classificação: *** (A Ler)

Referência bibliográfica:
Zadie Smith
(org.), Geração Queimada da América. Cascais: Bico de Pena, 1.ª edição, Fevereiro de 2008, 253 pp. (tradução de Tânia Ganho; obra original: The Burned Children of America, 2003).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O pirómano relutante

(continuando a série: EA Sports to the game!)

«Brod em lágrimas, numa noite chuvosa, na rua dos ourives e alquimistas por baixo do castelo de Praga. Cruza-se com um livreiro muito conhecido: “Por que [sic] choras, Max?” “Acabo de saber que Franz Kafka morreu.” “Oh, lamento muito. Sei da tua estima pelo moço.” “Não compreendes. Ele ordenou-me que queimasse os seus manuscritos.” “Nesse caso terás de o fazer, pela tua honra.” “Não compreendes. Franz foi um dos maiores escritores da língua alemã.” Um momento de silêncio: “Max, tenho a solução. Por que [sic] não queimas antes os teus próprios livros?”»
In George Steiner, As Lições dos Mestres.

[Lisboa: Gradiva, 2.ª edição, Outubro de 2005, pág. 69; tradução de Rui Pires Cabral; obra original: Lessons of the Masters, 2003]


A comparação do incomparável: Brod e Kafka; Virgílio e Varius; Escritório de Lourenço Pinto e Carolina Salgado

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O meu Bukowski


Charles Bukowski (1920-1994) tocando... harpa.

Já se encontra no Meia-Noite Todo o Dia a minha contribuição para a excelente iniciativa bukowskiana do manuel a. domingos.

Nota histórica: 9 de Março de 1994, segunda-feira negra na Casa do Douro ou crash no mercado do vinho do porto. Quase catorze anos volvidos, o Paiz Vinhateiro duriense arrasta-se penosamente como um moribundo, sem solução à vista. Volta, Hank!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Chesterton em Babel

Após um percebido interregno, que não augurava nada de bom, a Editorial Presença prossegue com a fabulosa colecção “A Biblioteca de Babel”: um conjunto de 33 livros de outros tantos autores, editados por Franco Maria Ricci, escolhidos e prefaciados por Jorge Luis Borges (1899-1986).
Para o número 7 da referida colecção a Presença reservou a antologia borgiana de 5 histórias fantásticas do escritor britânico G.K. Chesterton (1874-1936):

Da colectânea de contos de Chesterton publicada em 1911, The Innocence of Father Brown foram retirados 3 contos: O Olho de Apolo (The Eye of Apollo), que ademais empresta o título à antologia; A Honra de Israel Gow (The Honour of Israel Gow); e Os Pés Estranhos (The Queer Feet);

De The Wisdom of Father Brown (1914), foi retirado o conto O Duelo do Doutor Hirsch (The duel of Dr. Hirsch);

Finalmente, Os Três Cavaleiros do Apocalipse (The Three Horsemen of the Apocalypse), que Borges considera o seu preferido entre os contos de Chesterton, foi retirado da colectânea de contos The Paradoxes of Mr. Pond (1937).

Números anteriores (as datas de publicação referem-se apenas ao conto epónimo):

  1. Gustav Meyrink – O Cardeal Napellus (Der Kardinal Napellus, 1913);
  2. Pedro Antonio de Alarcón – O Amigo da Morte (El amigo de la muerte: cuento fantástico, 1852);
  3. Giovanni Papini – O Espelho que Foge (Lo specchio che fugge, 1906);
  4. Henry James – Os Amigos dos Amigos (The Friends of the Friends, 1896); [originalmente publicado como The Way It Came]);
  5. Arthur Machen – A Pirâmide de Fogo (The Shining Pyramid, 1923);
  6. Auguste Villiers de l’Isle-Adam – O Convidado das Últimas Festas (Le Convive des dernières fêtes, 1883).

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Se eu fosse Dmitri...

Dmitri e Vladimir Nabokov ©Magnum
Este é o nome da mais recente e viciante diversão meta-literária à escala do globo. Publicações da especialidade e até as exaustivas revistas do coração referiram o fenómeno que, com toda a virulência (literária), se espalhou por todo o lado como cogumelos famélicos – e já sabemos quais as consequências destes prodígios sempre que aplicados às artes literárias; dizem que tem que ver com um senhor alemão, um tal de Zeitgeist...
Facto comprovado (1): não há quem lhe seja indiferente, mesmo ignorando o protagonista e/ou a sua obra.
Facto comprovado (2): todos querem ser Dmitri, vestir-lhe a pele ou pôr-se nos seus sapatos – se o primeiro acto arrepia pelo seu buffalo-billianismo, o segundo não é lá muito higiénico, fungicamente falando.
Todos arriscam lançando o seu palpite sobre a existência e o destino a dar a uma obra que, a honrar-se o putativo compromisso de antanho, deveria pelos dias deste século jazer em cinzas algures pela Confederação Helvética – centro nevrálgico: Montreux Palace Hotel.
Porém, a loucura instalou-se, e até já prevejo a aquisição dos direitos exclusivos para a produção de software – formato PC ou consolas de jogos – pela multinacional norte-americana EA Sports, provavelmente com o lançamento mundial de “If I were Dmitri...” para o início da época natalícia de 2008.

Na passada quinta-feira, o
Times de Londres narrava de novo a história dos 50 cartões de indexação que, por vontade expressa do autor – manifestada em lenta agonia no percebido leito de morte –, deviam perecer pelo método bradburiano dos 232,8 ºC – a tal temperatura a que ardem os livros: It was a pleasure to burn.
Uma vez mais – e esgotaram-se-me as reservas de paciência – foram contados todos os pormenores, sem qualquer tipo de originalidade ou de revelação, com a excepção de uma curta sondagem de opinião dirigida a destacadas figuras do meio literário: John Banville embarca no movimento pró-vida do manuscrito – pretende afastá-lo do tenebroso espectro dos cofres-fortes de vão de escada –, enquanto Tom Stoppard faz uso do lança-chamas e Edmund White fica-se por um amaneirado, arrebicado e inconsequente “sim, mas… talvez não, porventura…” – pressupondo que Nabokov, onde estiver, ainda se recorda, aplaudindo, de Elena.
No centro do debate está o provecto e pueril, provocador e irresoluto filho único de Véra e Vladimir Nabokov: Dmitri, hoje com 73 anos.
A 2 de Julho de 1977, Vladimir Vladimirovich morre num hospital suíço vítima de infecção pulmonar. Véra foi incumbida pelo marido de destruir o esboço de The Original of Laura e todas as suas notas. No entanto, Véra morre em 1991, sem haver tomado as providências pirómanas que lhe foram encomendadas, deixando assim o berbicacho nas mãos de Dmitri, que de lá para cá vem a desfrutar de um prazer sádico do “mostro/não mostro”, não se furtando, por vezes, a assumir o papel do menino travesso, que deixa cair umas pinguinhas pela incontinência verbal, como fez na celebração dos 100 anos do nascimento do seu pai (1999) na Cornell University, lendo uma frase de uma obra de Nabokov, pedindo ao público para a identificar: todos a identificaram, pela novidade, como sendo um curto excerto de The Original of Laura.

Neste momento, muito por culpa do comportamento errático de Dmitri, a história caminha a passos largos para a bambochata meta-literária: assiste-se já a um arraial de conjecturas, interpretações, supostas pistas deixadas no subtexto. Uns e outros recuperaram as especulações, levantadas por Andrew Field na sua biografia sobre Nabokov, reiteradas na
National Review pela recensão desta obra por outro estudioso nabokoviano, Jeffrey Meyers, sobre eventuais problemas relacionados com o álcool, para além de se aventar a hipótese de o jovem Vladimir ter sido vítima de pederastia perpetrada por um tio homossexual – o suficiente (sem exbicionismos) pode ser lido na sua obra autobiográfica Na Outra Margem da Memória (Speak, Memory; 1951, revista e actualizada em 1966).
Caminhamos a passos largos para o frenesim estúrdio dos esoterismos, da simbologia e da teoria da conspiração. E, não ficaria admirado se Fogo Pálido (Pale Fire, 1962) de repente se metamorfoseasse, qual ninfa lepidóptera, na Mona Lisa de Nabokov e Laura passasse a ser o lado feminino veladamente desenvolvido, como uma borboleta hermafrodita que transcorre a obra, e que explica o Yin (Charles Kinbote) e o Yang (John Francis Shade) – ou será o contrário? Shade, anag. para Hades, ou lit. sombra –, a luta de paradoxos que cria a harmonia… interior? Vestiria Nabokov em segredo a rendada lingerie de Véra? E se sim, ficaria horas a remirar-se com lascívia ao espelho ao mesmo tempo que ensaiava uma coreografia de corista de vaudeville?
Proposta para best-seller: O Código Nabokov – editoras, para eventuais contactos, usar o e-mail deste blogue.

Regressando ao artigo do Times, Banville propõe uma solução radical, mas absolutamente indefensável naquilo que ela tem de muito portuguesa – haverá sangue luso a correr naquelas veias eminentemente irlandesas? Ou seja, criar uma comissão…

«Se eu fosse Dmitri Nabokov, que graças a Deus não sou, eu dactilografava o fragmento e mostrava-o a dois ou três reputados e amáveis críticos – por exemplo, James Wood, Harold Bloom – e talvez também a um ou dois escritores – John Updike, Martin Amis – para que dessem a sua opinião sobre se aquele deveria ser ou não publicado.»

John Banville in The Times, 14/02/2008 [tradução: AMC]


Wood, Bloom, Updike e Amis, OK. Conquanto se contacte o Rui Gomes da Silva e o Luís Filipe Menezes para o exercício do contraditório, para além da contratação a peso de ouro de um dos representantes da West Coast of Europe com propensão opinativa: José Mourinho, tendo o quase indispensável Rui Santos e a sua indumentária como suplentes.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Público – Cahiers du Cinéma

Na passada sexta-feira, esquadrinhei uma boa meia dúzia de estabelecimentos tentando encontrar o jornal Público que iniciava uma colecção de livros, que se estenderá por 25 semanas (até 1 de Agosto deste ano), editados por umas das mais famosas publicações de cinema mundiais: a Cahiers du Cinéma (fundada em 1951 pelo trio Jacques Doniol-Valcroze, André Bazin e Lo Duca).
Trata-se da colecção “Grandes Realizadores” (originalmente, Grands Cinéastes), que o jornal francês Le Monde iniciou a 8 de Setembro passado, havendo terminado ontem com a curta biografia do cineasta russo Serguei Eisenstein e um DVD com o documentário exibido postumamente Que Viva México! e o filme O Couraçado Potemkine.
Por cá, o Público decidiu publicar 25 livros e respectivos DVD, escolhendo outras tantas personalidades da vida cultural nacional, de certa forma ligadas ao cinema, para que cada uma escrevesse uma brevíssima introdução ao cineasta supostamente escolhido. Como os títulos dos filmes diferem da edição francesa, presumo que, após a alocação de um realizador a uma personalidade, tenha havido liberdade de escolha do filme a editar em cada sexta-feira (e supostamente, evitados alguns problemas de direitos de autor que poderiam haver interferido na escolha final).
Relativamente à edição francesa (24 livros e DVD), a portuguesa acrescenta mais uma semana à dita colecção (25 livros e DVD), diferindo na inclusão de alguns nomes: Buster Keaton, Michelangelo Antonioni, Woody Allen e Manoel de Oliveira não fazem parte da edição francesa, assim como Clint Eastwood, Luis Buñuel e Pedro Almodóvar da portuguesa – um mero acaso ou alguma hispanofobia e mais ventos e casamentos?
Uma nota final apenas para a ausência de alguns realizadores, cujos gigantismo e contributo para o engrandecimento da 7.ª Arte me induziram a um estado de estranheza, para não empregar a carregadíssima estupefacção. Falo, por exemplo, e sem procurar ser exaustivo – já sei que vou deitar as mãos à cabeça por alguns esquecimentos imperdoáveis –, de nomes como: Hitchcock, Visconti, John Ford, Hawks, Pasolini, Rohmer, Kazan ou Cassavetes, e muitos outros (cá está a ressalva). Sei, no entanto, que a edição foi limitada a 25 e que a publicação francesa não dispõe de textos biográficos ilimitados; todavia considero que qualquer um dos 8 nomes acima referidos poderia ocupar, por troca imediata, 4 das 25 posições da colecção definitiva (abstenho-me a nomear quais).

Eis a lista completa da colecção do Público “Grandes Realizadores” – Cahiers du Cinéma (todas as sextas-feiras, de 15 de Fevereiro a 1 de Agosto de 2008) e respectivo “padrinho”:

  • 15-02-2008 – Charlie Chaplin, O Imigrante (The Immigrant, 1917), O Campeão (The Champion, 1915); À Beira-Mar (By the Sea, 1915); O Polícia (Police, 1916); O Ringue de Patinagem (The Rink, 1917) – Manoel de Oliveira
  • 22-02-2008 – Steven Spielberg, Relatório Minoritário (Minority Report, 2002) – Mário Augusto
  • 29-02-2008 – Martin Scorsese, Touro Enraivecido (Raging Bull, 1980) – Rodrigo Guedes de Carvalho
  • 07-03-2008 – Sergio Leone, O Bom, o Mau e o Vilão (Il buono, il brutto, il cattivo; 1966) – Baptista-Bastos
  • 14-03-2008 – Federico Fellini, Roma (1972) – Nuno Artur Silva
  • 21-03-2008 – Tim Burton, Eduardo Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990) – Pedro Marta Santos
  • 28-03-2008 – Francis Ford Coppola, Apocalypse Now (redux) (1979) – Jorge Leitão Barros
  • 04-04-2008 – Jean-Luc Godard, Bando à Parte (Bande à part, 1964) – Manuel S. Fonseca
  • 11-04-2008 – Woody Allen, Match Point (2005) – Herman José
  • 18-04-2008 – Ingmar Bergman, A Máscara (Persona, 1966) – Vasco Graça Moura
  • 25-04-2008 – David Lynch, Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) – Luís Miguel Oliveira
    02-05-2008 – François Truffaut, A Noiva Estava de Luto (La mariée était en noir, 1968) – Leonor Silveira
  • 09-05-2008 – Akira Kurosawa, Kagemusha – A Sombra do Guerreiro (Kagemusha, 1980) – António-Pedro Vasconcelos
  • 16-05-2008 – Fritz Lang, O Testamento do Dr. Mabuse (Das testament des Dr. Mabuse, 1933) – Mário Jorge Torres
  • 23-05-2008 – Roberto Rosselini, Viagem a Itália (Viaggio in Italia, 1954) – João Mário Grilo
  • 30-05-2008 – Buster Keaton, Pamplinas Maquinista (The General, 1927) – Nuno Markl
  • 06-06-2008 – Andrei Tarkovsky, O Sacrifício (Offret, 1986) – José Matos Cruz
  • 13-06-2008 – Billy Wilder, O Apartamento (The Apartment, 1960) – Beatriz Pacheco Pereira
  • 20-06-2008 – Jean Renoir, A Grande Ilusão (La grande illusion, 1937) – Mário Dorminsky
  • 27-06-2008 – Orson Welles, O Quarto Mandamento (The Magnificent Ambersons, 1942) – Marcelo Rebelo de Sousa
  • 04-07-2008 – Kenji Mizoguchi, O Conto dos Crisântemos Tardios (Zangiku monogatari, 1939) – Paulo Rocha
  • 11-07-2008 – Stanley Kubrick, Horizontes de Glória (Paths of Glory, 1957) – José Pacheco Pereira
  • 18-07-2008 – Serguei Eisenstein, O Couraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin, 1925) – João Botelho
  • 25-07-2008 – Michelangelo Antonioni, O Eclipse (L'Eclisse, 1962) – Clara Ferreira Alves
  • 01-08-2008 – Manoel de Oliveira, Vale Abraão (1993) – João Bénard da Costa

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O Fazedor de Gigantes

Paul Thomas Anderson

Paul Thomas Anderson

(nasceu a 26 de Junho de 1970, na definitivamente sugestiva Studio City, Califórnia.)

Silberner Bär - Beste Regie (Berlinale 2008)
[Urso de Prata para a Melhor Realização - Festival de Cinema de Berlim 2008]

Júri internacional: Costa-Gavras (presidente); Uli Hanisch; Diane Kruger; Walter Murch; Alexander Rodnyansky; Shu Qi

Nota: Jonny Greenwood (Radiohead) venceu o Urso de Prata pela Melhor Contribuição Artística, ou seja, pela excelente e angustiante BSO para Haverá Sangue.

O Gigante

James Dean em O Gigante

James Dean, O Gigante

George Stevens' Giant (1956)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Gigantes

Daniel Day-Lewis em Haverá Sangue (P.T. Anderson)
Alertado, sugestionado, é certo. Porém, a minha memória, que aqui e ali vai dando sinais de fraqueza, não consegue, por muito que se excite, fazer estremecer uma convicção hoje firmemente formada: o que Daniel Day-Lewis fez com Daniel Plainview em Haverá Sangue (There Will Be Blood, 2007) de Paul Thomas Anderson é exemplarmente inalcançável; é inspiração sem esforço, genialidade inata; é a arte da representação cinematográfica levada ao paroxismo da perfeição.
Faço o tal esforço de memória, elaboro uma listagem rápida, recorro à minha videoteca, dou início a uma pequena pesquisa às bases de dados cinematográficas existentes no ciberespaço, mas não, não encontro par – nos últimos vinte anos, talvez Anthony Hopkins com o seu Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991) de Jonathan Demme, embora aqui a própria excentricidade do personagem haja contribuído, ao arrepio da aparência de dificuldade, para a singularidade do desempenho.

P.T. Anderson é, uma vez mais, magistral. Sem grandes malabarismos de realização e truques de pirotecnia típicos de um género em rápida proliferação, um impostor aspirante a cineasta de culto – cabe ao público criar o mito, que se sustenta pelas integridade e coerência artísticas do sujeito venerado –, conta-nos uma parábola negra, bárbara e intemporal, que, contudo, assombra pela sua conformação à realidade contemporânea.
Sem se tornar panfletário (à laia de Clooney, Redford e Penn) ou messiânico (à boa maneira de Iñárritu), Anderson consegue abordar em tom de fábula o actual revigoramento do fundamentalismo religioso, por um lado, e a cupidez e o materialismo desenfreados, por outro, que vão abrindo brechas irreparáveis num dos pilares fundamentais da natureza humana, essa, a sua condição, de um ser eminentemente gregário: a coexistência pacífica e simbiótica entre povos, raças e culturas (a impossibilidade de).
Petróleo… o indisfarçável e ubíquo protagonista. O espectro que paira por sobre as cabeças celeradas dos urdidores da trama internacional.
Anderson partiu de Oil!, romance escrito em 1927 pelo famoso idealista e autor norte-americano Upton Sinclair (1878-1968). Criou personagens próprios, alterou o aparente centro da intriga (conflito entre pai conservador e filho socialista na versão de Sinclair), mas o leitmotiv está lá, inalterado, a máscara de uma história que se recria numa infinitude de cenários, numa multiplicidade de atitudes, gestos e palavras. E o que Anderson tem de mais fabuloso, demonstrado, por exemplo, de forma irrepreensível no maravilhoso Magnólia (Magnolia, 1999), é a sua destreza plástica no uso, em filme, do tom nabokoviano: a paródia, a comédia humana, a ficção como mera representação de uma realidade grotesca e risível.
E o que dizer da cena final?…

Comparar esta obra-prima com a beleza sensaborona e trapalhona de Expiação – eu sei, estou a ser falacioso, mas os prémios máximos do cinema mundial estão aí e não me consta que ambos se digladiem em diferentes categorias – é como beber Vinho do Porto feito na Austrália tendo um Quinta do Noval à mão, já servido em cálice desenhado pelo Siza em bandeja de prata. Wright abastardou a obra de McEwan, Anderson pegou na matéria-prima, seleccionou-a, deu-lhe benefício e criou um produto final com corpo, forma e alma.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Património

Finalmente, emerge do lodaçal dos livros de auto-ajuda, dos romances históricos, da resma de livros sobre Salazar e D. Carlos, a edição portuguesa do aclamado livro de memórias de Philip Roth sobre as doença e morte de seu pai, Herman Roth.


[capa da 1.ª edição americana; vencedor do National Book Critics Circle Award em 1991 na categoria de Biografia; em Portugal será publicado pela Dom Quixote.]

Diamante

Kim Novak
Kim Novak
75 anos


(nasceu Marilyn Pauline Novak, em Chicago, a 13 de Fevereiro de 1933)

[na imagem, na pele de Madeleine Elster, ou melhor de Judy Barton, pela mão do Mestre dos mestres da História do Cinema, Alfred Hitchcock, no melhor filme de sempre Vertigo, 1958]

Apito Encravado

Por falta de tempo, por redundância de argumentação, deixo aqui ficar dois parágrafos de um artigo de MST, sem alegações e demais comentários:

«Entretanto, das célebres “revelações” do “livro” de Carolina Salgado, uma havia que parecia a mais fácil e mais urgente de investigar: a de que fora ela própria, por inspiração de Pinto da Costa, quem organizara e comandara o pelotão de linchamento que agrediu violentamente o vereador de Gondomar, Ricardo Bexiga. Era fácil de investigar porque, inadvertidamente, a testemunha fatal se incriminara a si própria, na ânsia de incriminar Pinto da Costa; e urgente, porque se tratava do mais grave dos crimes arrolados em todo o processo. É verdade que, ao entrar nos detalhes da operação, a história dela começava logo a não bater certa: disse que, por precaução, haviam destruído previamente as câmaras de vigilância do parque de estacionamento onde a agressão teve lugar, mas não teve o cuidado de confirmar se o parque tinha câmaras de vigilância – não tinha. Mas, mesmo que desta mentira circunstancial resultasse a crença na mentira de toda a história, não se compreende como é que o Ministério Público não a acusou por crime de falsas declarações e denúncia caluniosa.
Pelo contrário, o Ministério Público, escudando-se na falta de provas, acaba de determinar o arquivamento do processo. Ou seja: a testemunha-chave do Ministério Público merece credibilidade quando acusa Pinto da Costa, mas já não a merece quando se acusa a si própria. E assim se resolve o problema de poder manter como testemunha-chave alguém que deveria figurar como arguida num outro processo e por crime mais grave.»
Miguel Sousa Tavares, “Apito Encravado”, A Bola, 12/02/2008


Nota: É também isto, Francisco, uma agressão confessada que fica impune.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

BAFTA 2008


Eis os prémios da British Academy of Film and Television Arts (BAFTA) de 2008, acabadinhos de entregar na London’s Royal Opera House (na imagem, o grande vencedor da noite):

4 Prémios
La Vie en Rose / La Môme (de Olivier Dahan)

Actriz – Marion Cotillard
Caracterização
Guarda-Roupa
Música (BSO – Anthony Asquith Award) – Christopher Gunning

3 Prémios
Este País Não É para Velhos / No Country for Old Men (de Joel e Ethan Coen)

Actor Secundário – Javier Bardem
Fotografia
Realização (David Lean Award) – Joel e Ethan Coen

2 Prémios
Expiação / Atonement (de Joe Wright)

Filme
Planeamento de Produção

Ultimato / The Bourne Ultimatum (de Paul Greengrass)
Montagem
Som

1 Prémio
A Bússola dourada / The Golden Compass (de Chris Weitz)

Efeitos Especiais

Control (de Anton Corbijn)
Revelação/Estreia (Carl Foreman Award) – Matt Greenhalgh (argumentista)

O Escafandro e a Borboleta / Le scaphandre et le papillon (de Julian Schnabel)
Argumento Adaptado – Ronald Harwood

Haverá Sangue / There Will Be Blood (de Paul Thomas Anderson)
Actor – Daniel Day-Lewis

Juno (de Jason Reitman)
Argumento Original – Diablo Cody

Michael Clayton – Uma Questão de Consciência / Michael Clayton (de Tony Gilroy)
Actriz Secundária – Tilda Swinton

Ratatui / Ratatouille (de Brad Bird)
Filme de Animação

This is England (de Shane Meadows)
Filme Britânico (Alexander Korda Award)

As Vidas dos Outros / Das Leben der Anderen (de Florian Henckel von Donnersmarck)
Filme em Língua Não-Inglesa

domingo, 10 de fevereiro de 2008

DFW

«Se nunca choraste e o queres fazer, tem um filho. Partirá o teu coração por dentro, é isso que te fará, um filho, é a canção pungente que o Papá ouve novamente, como se a própria cantora estivesse ali com ele, a olhar para baixo para o que eles tinham feito, se bem que horas depois o que o Papá não conseguirá perdoar a si mesmo é o desejo tão forte que teve de fumar naquele instante em que envolviam o filho o melhor possível, em gaze e duas toalhas das mãos cruzadas a fazer de fralda».
David Foster Wallace, “Encarnação de uma geração queimada”, Geração Queimada da América (Bico de Pena, 2008, pág. 95; trad. Tânia Ganho).

If you've never wept and want to, have a child. Break your heart inside and something will a child is the twangy song the Daddy hears again as if the lady was almost there with him looking down at what they've done, though hours later what the Daddy won't most forgive is how badly he wanted a cigarette right then as they diapered the child as best they could in gauze and two crossed handtowels».
David Foster Wallace, “Incarnations of Burned Children”, Esquire, November, 2000.]

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Severin

Um mal que não se expurga. Letras indelevelmente gravadas no passaporte. Nacionalidade: portuguesa.
Este país faz-me mal, fustiga-me sem piedade. E é nessa implacabilidade sem remorso que martiriza os seus filhos. Uma coisa assim não é pátria. É um mecanismo intrincado de tortura, matreiro sugador de sangue, que nos morde pelo seu fado, soturno, melancólico e atormentado.
Quero sair. Exilar-me. Mas não me deixam. Não posso… não quero!
Vá, fustiga-me com o teu chicote infecto.
Sou Severin, puro, indefeso e sórdido, que agora se mutila com a tua língua.
És Wanda, mátria, corrupta, leonina… castigadora, benevolente, porém iníqua.

Vénus em peles

Cintilantes, cintilantes, cintilantes botas de couro
Rapariguinha fustigada no escuro
Ao teu sinal vem, o teu servo, não o abandones
Bate-lhe, querida mestra, e cura-lhe o coração

Pecados felpudos das fantasias à luz da rua
Procura os trajos que ela irá vestir
Peles de arminho adornam a dominadora
Severin, Severin lá te espera

Estou cansado, estou exausto
Poderia dormir por mil anos
Mil sonhos que me fariam despertar
Diferentes cores feitas de lágrimas

Beija as botas de couro, couro cintilante
Couro cintilante no escuro
Língua de fitas de couro, o cinto que te espera
Bate-lhe, querida mestra, e cura-lhe o coração

Severin, Severin, fala tão delicadamente
Severin, põe-te de joelhos
Saboreia o chicote, amor não dado sem queixume
Saboreia o chicote, agora suplica

Estou cansado, estou exausto
Poderia dormir por mil anos
Mil sonhos que me fariam despertar
Diferentes cores feitas de lágrimas

Cintilantes, cintilantes, cintilantes botas de couro
Rapariguinha fustigada no escuro
Severin, o teu servo vem ao teu sinal, por favor não o abandones
Bate-lhe, querida mestra, e cura-lhe o coração


Venus in Furs, letra de Lou Reed (The Velvet Underground and Nico, 1967) [versão: AMC, 2008]

Agora, a música hipnótica de Reed, Cale, Morrison & Companhia:


Grande puta.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Miss Congeniality

A Arquivadoria… perdão, a Procuradoria-Geral da República representada pela equipa especial da Super Magistrada MJM, especialmente atenta aos furacões do mundo do futebol, decidiu arquivar o inquérito relativo às agressões perpetradas por desconhecidos contra o vereador da Câmara de Gondomar Ricardo Bexiga em pleno parque da Alfândega em 25 de Janeiro de 2005.

Já agora, que se me permita a formulação de uma ingénua pergunta:
Mas, então, não houve uma emergente escritora – o vórtice aglutinador de todas as simpatias da Procuradoria, do Correio da Manhã (Cofina), da Dom Quixote e da mais fina nata artístico-opinativa lisboeta – que confessou, sem que fosse alegada falta ou vício na formação da vontade, haver ordenado a um conjunto de caridosos capangas uma valente tareia no dito vereador?

Com este arquivamento, passou-se, assim e sem qualquer tipo de decoro ou honradez, um certificado de legitimidade irrevogável à tão lusa impunidade.


Meus caros, este país é uma vergonha!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Ler devagar...

…e saborear cada palavra:

«Mrs Gereth had said she would go with the rest to church, but suddenly it seemed to her that she should not be able to wait even till church-time for relief: breakfast, at Waterbath, was a punctual meal, and she had still nearly an hour on her hands. Knowing the church to be near, she prepared in her room for the little rural walk, and on her way down again, passing through corridors and observing imbecilities of decoration, the æsthetic misery of the big commodious house, she felt a return of the tide of last night’s irritation, a renewal of everything she could secretly suffer from ugliness and stupidity. Why did she consent to such contacts? why did she so rashly expose herself? She had had, heaven knew, her reasons, but the whole experience was to be sharper than she had feared. To get away from it and out into the air, into the presence of sky and trees, flowers and birds, was a necessity of every nerve. The flowers at Waterbath bath would probably go wrong in colour and the nightingales sing out of tune; but she remembered to have heard the place described as possessing those advantages that are usually spoken of as natural. There were advantages enough it clearly didn’t possess. It was hard for her to believe that a woman could look presentable who had been kept awake for hours by the wallpaper in her room; yet none the less, as in her fresh widow’s weeds she rustled across the hall, she was sustained by the consciousness, which always added to the unction of her social Sundays, that she was, as usual, the only person in the house incapable of wearing in her preparation the horrible stamp of the same exceptional smartness that would be conspicuous in a grocer’s wife. She would rather have perished than have looked endimanchée
Henry James, The Spoils of Poynton (1897; ed. Oxford World's Classics, 2000, p. 1)

(E tudo isto a propósito do temperamento e dos gostos pessoais na avaliação de uma obra literária. Tão maneirista, pedante e aristocrata, e no entanto um dos melhores de sempre – o Mestre.)

Apesar do carácter retórico da pergunta, Sérgio, ensaio uma resposta: claro que é.
A nossa (deles, americanos) estimável Michiko é insuportavelmente feminista e misândrica, maniqueísta, cultora do ódio de estimação (que o digam Roth ou Mailer, este último num qualquer tipo de manifestação ectoplásmica), talvez induzida pela soberba do legado para o mundo literário de uma marca própria; porém, sabe de literatura e de como se constrói uma recensão, disseca, por vezes com um excesso de minúcia, as obras analisadas. É irritante e de crítica na maioria das vezes criticável (pleonasmo propositado, não sei por que carga de água...), mas irrepreensível no rigor – não é por acaso que já venceu um Pulitzer pela carreira de recenseadora.
A nossa (e aqui, infelizmente, o possessivo assenta-nos bem) Dóris Graça Dias é a imagem do país. E porque é nele que temos de viver, onde um simples texto de lamentação, ao invés de agir como agente preventivo para um comportamento desprezível, é normalmente visto como uma apologia, então fiquemo-nos pelos adjectivos que, de forma inexorável, a ele se agarram como lapas às rochas: pequenino, mesquinho, invejoso e, sobretudo neste caso, oportunista – o velho hábito luso do massacre, constante e sem piedade, do debilitado –, um imenso viveiro para a ostentação, para o snobismo grosseiro (ver etimologia, sine nobilitate).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Joycianismos

Rui Santos (o enfarpeladoximoro gælusofutebolutocrata) responde à flash interview, citando, no muito seu entaramelado e, por vezes, silente e frenético estilo expositivo – lá está, as gravatas são os olhos da alma… como? –, a melhor caracterização de Finnegans Wake:

«O Ulisses paira acima dos restantes escritos de Joyce, e em comparação com a sua nobre originalidade e rara lucidez de pensamento e estilo, o infeliz Finnegans Wake não é mais do que uma massa insípida e informe de falso folclore, um empadão frio, um ressonar que nunca mais acaba no quarto do lado, o que ainda piora mais as coisas para quem sofre de insónia como eu [e, já agora, eu, atente-se na hora]. Além disso, sempre detestei a literatura regional, cheia de anciãos esquisitos e pronúncias imitadas. A fachada de Finnegans Wake dissimula um prédio de apartamentos muito convencional e sem cor, e só os raros bocadinhos de entoações celestiais o redimem duma insipidez gritante. Sei que vou ser excomungado por este pronunciamento.»
Vladimir Nabokov, Opiniões Fortes, pp. 95-96 (entrevista dada ao Wisconsin Studies of Contemporary Literature em Setembro de 1966, publicada no Vol. III, n.º 2 (1967) da revista).


Pergunta da semana:
«Será que Sepsis e Tiuí, o primeiro um vocábulo patologicamente putrefacto e o segundo uma onomatopeia ornitológica, irão ser úteis ao enriquecimento lexical no futebol português?»
(respostas para o e-mail do programa)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Repugnância

Convencionou-se, de forma tácita, que Tim Burton é um bom crachá para alardear uma certa intelectualidade cinematográfica. Não gostar de Burton é não gostar de cinema. Não ver os seus filmes fará, com toda a certeza, acusar uma certa dose de filistinismo no balão da altivez cultural. Em claro paradoxo metafórico, criminoso é aquele que, perante o largo espectro de recursos cinematográficos empregados, potenciados por uma mente imaginosa corporizada numa imensa e cara fábrica de ilusões, não se deixa inebriar por tamanho esforço artístico e tal arrojo estético.
Para ser sincero – e com alguma pena minha, porque é precisamente a dura ausência de alguém que o idolatrava o (um dos) leitmotiv deste blogue –, Tim Burton nunca me convenceu: ele é muito fogo-de-artifício, muita cor e malabarismos de câmara, um desmesurado exibicionismo do grotesco e do macabro, os finais ribombantes, apoteóticos e cataclísmicos, como expressão máxima da sua extravagância imagética. É, em suma, recorrendo à fisiologia e a um pequeno motejo semântico, o paroxismo fílmico da pirotecnia plasmático-fluidal.

O Sweeney Todd de Burton baseia-se num musical da Broadway de 1979 (Sweeney Todd, the Demon Barber of Fleet Street) criado por um dos mais icónicos compositores americanos dessa vertente das artes do palco, Stephen Sondheim.
Na origem do sucesso de Sondheim está a obra criada na primeira metade do século XIX e inicialmente publicada em folhetins num dos pasquins fundados pelo editor britânico Edward Lloyd – os famosos penny dreadful –, que contratou à peça um tal de Thomas Peckett Prest (o putativo pai da obra).

No filme de Burton, todos cantam: Depp, Bonham-Carter (casada com Burton), Rickman e até, imagine-se, o irritante Borat. De facto é um musical, embora atípico, na medida em que se desvia do arquétipo cénico dos grandes e vetustos musicais de Hollywood.
Ao contrário da opinião da maioria da crítica e dos nomeadores profissionais que integram a chusma de sessões de atribuição de prémios que se realiza por esta altura, que exageram na sua eloquência encomiástica, considero perfeitamente mediana a interpretação dos trechos de diálogo e de monólogo cantados. Tentando, de forma falaciosa, comparar o incomparável, basta que apenas nos recordemos do último filme de Christophe Honoré, As Canções de Amor (Les chansons d’amour, 2007), e da excelência interpretativa do jovem elenco.

Porém, é no exibicionismo gore que Burton perde em toda a linha. A crua e gratuita explicitação da violência, assim como a subentendida – como exemplo a mera sugestão de canibalismo via ingestão de empadas de carne, que, a propósito, passou a substituir a de gato com a chegada de Sweeney Todd –, é de presença assídua do princípio ao fim do filme, embora essa gratuitidade siga um processo gradual de intensificação que culmina numa orgia de ossos, miolos, entranhas e sangue. E se, em termos gerais, a plástica contemporânea da violência no cinema não é susceptível de fazer retinir as minhas campainhas da denominada licenciosidade artística, já a inexorável tendência górica ou gótica nas artes visuais deixa-me completamente nauseado. Não lhe vislumbro uma finalidade, mesmo que meramente estética. É gratuita. É pura pornografia. Nada deve à arte. Mesmo que, enquanto se esquarteja, se assista a uma fabulosa representação vocal de uma ária de Mozart ou de um lied de Schubert.
Johhny Depp e Helena Bonham-Carter são dois excelentes actores.
John Holmes e Ilona Staller (aka Cicciolina) eram considerados os melhores no seu ofício, mas não mudaria a minha apreciação sobre a qualidade da obra se Holmes (Sweeney), enquanto sofria uma felação praticada com inigualável destreza por Ciccio (Mrs. Lovett), cantasse para a sua navalha reluzente as palavras de Sondheim «There there, my friend... / Come, let me hold you...» ao som da sua música.

É mau. Muito mau.