sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Um prémio em etapas (com direito a revisão)

Ontem foram anunciados os sempre aguardados com ansiedade, embora hajam perdido o brilho de anos anteriores, National Book Awards. Na categoria de ficção, entre 271 livros a concurso, depois de seleccionados os cinco finalistas, venceu o romance-calhamaço do escritor, ecologista e monge budista converso, Peter Matthiessen, nascido em Nova Iorque em 1927.
Este é o primeiro livro de ficção que Matthiessen, pertencente ao grupo que fundou em 1953 a revista literária The Paris Review, publicou no século XXI, e apenas o terceiro se contarmos com os seus dois livros de viagens publicados no início da década.
Mas o vocábulo publicação e os seus matizes, através dos seus afixos, associado às palavras inédito e original, tem gerado um burburinho no meio literário norte-americano.
Shadow Country não é um romance original e inédito, longe disso, é uma espécie de súmula dos três anteriores romances do autor, denominados pela “Trilogia Watson”: Killing Mister Watson, 1990; Lost Man’s River, 1997; e Bone by Bone, 1999.
Com efeito, o autor nova-iorquino dedicou-se a corrigir imprecisões, a cortar e a compilar num livro contínuo três das suas obras anteriores, retirando ao seu somatório cerca de 400 páginas.
No passado dia 11, Charles McGrath escreve um artigo para o The New York Times cujo título levanta, de forma directa, a questão da originalidade como condição sine qua non para a atribuição de um prémio literário: «Serão 3 romances, revistos como um, um livro novo?».
A resposta de um dos membros da fundação que atribui o prémio foi o de atribuir a esta compilação romanesca reestruturada o mesmo valor de uma antologia poética ou de uma colectânea de contos previamente publicados reunidos num só livro. Disse não se tratar de uma mera reimpressão – o que motivaria a sua exclusão da lista à partida –, até porque a obra sofreu cortes – ou mutilações, que foram alvo de censura e de descontentamento manifestados por leitores/admiradores da trilogia na íntegra – e muitas partes foram reescritas.
Matthiessen defende-se dizendo que dificilmente existirá alguma frase no novo livro que não houvesse sofrido alguma alteração.

Sem querer passar por um puritano, intransigente e moralista, defensor da virgindade literária na atribuição de prémios desta índole e tentar minorar o enorme esforço de revisão, reestruturação e reescrita empreendido pelo autor octogenário, tal como vem descrito nos diversos artigos de crítica e de opinião a ele dedicados, creio que a atribuição do referido prémio a esta obra inquina, sem hipótese de retrocesso ou de reparação sem estridência, o espírito que lhe está subjacente: a igualdade de oportunidades para todos os autores concorrentes, materializada no esforço inventivo de contar novas histórias, do poder único de, através da arte, criar novos mundos, novos horizontes, e de os poder transmitir como novidade aos seus leitores. É tudo isto que se premeia. Deste modo, por uma questão de equidade, que se crie um National Book Award for Revised, or Rewritten Fiction.

Apesar de tudo, deixo aqui ficar um excerto da página de abertura do romance vencedor, que integrava o primeiro livro (Killing Mister Watson, 1990), que consistia na recolha de testemunhos dos assassinos do personagem semificcional Edgar J. Watson (1855-1910):


«ERSKINE THOMPSON

»Nunca tivemos algum problema com Mr. Watson, e do que pudemos assistir, ele nunca causou nenhuns, não entre os seus vizinhos. Todos os seus problemas chegavam-lhe de fora.
»E. J. Watson apareceu em Half Way Creek em 1892, trabalhou em quintas durante uns tempos, trabalhou na cana-de-açúcar. Era também um trabalhador incansável, mas ao que parece não amanhava a cana por dinheiro, era mais provável que pretendesse obter uma certa afecção da nossa comunidade. Forte, era um tipo bem-parecido na casa dos trinta, de cabelo ruivo escuro, bem constituído, largo de ombros mas sem sinal de gordura, não naqueles dias. Andava perto do metro e oitenta e três e tinha-se em boa conta, a malta topava-o de imediato e ninguém se metia com ele. A primeira vez que se vê o homem quer-se ser amigo dele – ele era desse tipo. Envergava um largo chapéu preto e uma sobrecasaca preta de grandes bolsos, faziam-no parecer imenso. Quando cortávamos madeira de sicómoro com machados e serras, dois a três molhos de lenha de quatro metros cúbicos por dia – é um trabalho violento, duro e suarento, no caso de ainda não o terem feito – Ed Watson nunca mudou o seu traje. Manteve aquele casaco sobre o seu fato-macaco de sarja, ele disse, porque nunca sabia quando poderia aparecer alguma companhia do Norte. Quando disse isso, é capaz de ter sorrido um pouco, mas nunca deu uma única explicação.
»A malta não sabia de onde este estranho tinha vindo e ninguém perguntava. Nunca fazíamos a um homem perguntas difíceis, não nas Dez Mil Ilhas, não naqueles dias. Hoje a malta contará isto de outra forma, mas na altura não havia muitos na nossa secção que não se encontrassem em fuga de um lugar qualquer. Quem viria para estas ilhas apodrecidas pelas chuvas sem solo suficientemente duro e alto para construir uma casa com fundações, e com tantos mosquitos a chagá-lo nos maus verões que pensava que seguira pelo caminho errado directo ao inferno?»
Peter Matthiessen, Shadow Country, p. 9 [tradução: AMC]
[New York: Modern Library, 2008, 912 pp.]

4 comentários:

Rotiv disse...

Olá :)
O Blogue dos Manteigas de visita a este espaço :)
Um GRANDE SORRISO :)
http://bloteigas.blogspot.com/

El-Gee disse...

A questao de "o que premiar" parece-me paralela e irrelevante, quando comparada com a questao muito mais importante que é: agora que há uma edicao revista, qual o valor dos tres livros subjacentes?

Eu nunca li nenhum desses livros, mas se tivesse lido e gostado teria ficao francamente constrangido ao ver que, mais tarde, sairia uma "versao definitiva" com todas as frases mudadas.

É que isto nao é uma antologia, é uma revisao, quase um director's cut. certo?

Eu oponho-me a obras de arte que sao mais tarde manipuladas, e cabe ao Autor ter auto-confianca suficiente para conseguie conviver com o conjunto da sua obra.

penso que muitos autores (e artistas em geral) mudariam muito nas suas obras, pois toda a gente evolui/muda, e é claro que, 28 anos depois da edicao do primeiro dos tres livros, o Matthiessen teve mais que tempo para o repensar!

Penso ser prova de mau caracter artistico reeditar tres livros numa edicao e mudar todas as frases.

Andre, ja agora, obrigado por mais um bom post.

AMC disse...

Obrigado, meu caro El-Gee, não tem nada que agradecer.
Mas este episódio do "cut & paste" com revisão, é de facto, e no mínimo, um logro.

El-Gee disse...

Ontem acabei de ler a "Pastoral Americana" e pensei..

..será que o Roth nunca acorda com a consciencia pesada de ter deixado este livro a meio? Será que nunca tem vontade de se sentar, escrever cem paginazecas sobre o periodo que decorre entre o momento em que o Swede ve "Mary Stozltz" na pocilga onde vive e o dia em que ela morre? Será que, se o fizer, nao estará ele, Roth, finalmente, a acabar um livro inacabado?"

E, neste raciocinio, lembrei-me que uma "edicao revista", afinal, pode nao ser mau. Pode ser uma forma de remendar erros antigos. Pequenos detalhes, nalguns casos, paginas inteiras, no caso imaginario da Pastoral.

Portanto, pensei eu, enquanto um autor for vivo, quica, afinal, faca sentido poder rever as suas obras. Talvez o meu comentario anterior tenha sido precipitado.

Francamente, neste momento, ja nao sei,