Mostrar mensagens com a etiqueta National Book Award. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta National Book Award. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Patti Smith, como se esperava

Foram anunciados ontem os National Book Awards de 2010, e Patti Smith venceu com o seu Just Kids a categoria de “Melhor Livro – Não-Ficção”. A obra trata das memórias de uma parte importante da sua vida frenética, quando esta foi consumida nos 60 e 70 do século passado ao lado do fotógrafo, irreverente e controverso, Robert Mapplethorpe (1946-1989).
Haverá, num futuro próximo, uma versão portuguesa deste livro?

Na categoria de “Ficção” venceu um romance sobre outro género de cavalo (embora no caso anterior fosse moderado), Lord of Misrule, da escritora equina Jaimy Gordon. Carey voltou a perder a corrida. Oh, que situação tão triste.
O mais conhecido fabricante de calhamaços vivo, Tom Wolfe (n. 1931), sucede a Gore Vidal vencendo a Medalha de Distinção pelo seu contributo para letras norte-americanas (eu diria para os caracteres norte-americanos, dado o gasto…)
Mais pormenores, em português, aqui.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Push Oprah, Push

Good salesgirl! E nem com toda a sua massa (apelo à polissemia) Oprah conseguiu dar o empurrão necessário, e nem tão-pouco o privilégio de ser capa da Time Magazine (edição de 23 de Agosto de 2010, com recensão do razoável crítico e miserável escritor Lev Grossman) trabalhou como um meio de pressão adicional para a sua promoção.
Descodificando. Foram anteontem anunciados, por Pat Conroy a partir da casa onde Flannery O’Connor passou a sua infância em Savannah no Estado da Geórgia (hoje uma fundação), os autores e respectivas obras finalistas nas diversas categorias do National Book Award e, de forma heteróclita e até aberrante, não se fala de outra coisa na imprensa especializada que não seja o crime da não nomeação do escritor Jonathan Franzen (n. 1951), com o seu mais recente candidato a calhamaço Freedom. Em todo lado se lê um “snubbed” indignado à obra e/ou ao autor, que muitos consideram, e não fazem a coisa por menos e de forma infundamentada, como um sucessor de Bernhard (talvez pela proximidade dos títulos de uma das obras) ou de Pynchon. Franzen é abertamente contra os escritos, que designa como obscuros, de autores deste calibre, elegendo como epítome do obscurantismo literário William Gaddis, em nome do realismo pop tão defendido pelos polícias da cristalização literária e do decalque oitocentista como B.R. Meyers ou James Wood. Frazen afirma que esse género de escritores (Joyce, Beckett ou Gaddis, como os seus prosélitos pós-modernos) – os tais de escrita complexa e ininteligível – desrespeita o público e causa danos comerciais irreparáveis à indústria literária.
Num famoso ensaio de 2005 do destemido escritor e crítico norte-americano Ben Marcus, publicado na edição de Outubro desse ano da Harper’s, Marcus desanca com toda a virulência em críticos como o citado Meyers e principalmente em autores como Franzen. A despeito do conceito primordial de elite, estes defensores do comercial e da clareza da palavra escrita, tornaram-se em verdadeiros elitistas que reconhecem como genuínos «aqueles [escritores] que procuram assegurar que a cultura se afaste do progresso literário, aqueles que insistem que os sucessos narrativos do passado devem ser solidificados, polidos e praticados pelas gerações mais jovens. Neste ambiente, o sucesso artístico é um legado e os escritores são encorajados a comportarem-se como grupos que se dedicam a cantar versões musicais, adornando os clássicos, talvez, enquanto se asseguram de que a canção encerra uma velha e familiar melodia que nos faz sorrir pelo simples reconhecimento, para que possamos ler mais de memória do que pelo esforço de concentração.
»Os verdadeiros elitistas no mundo literário são aqueles que se enfastiam perante a ambição literária sob qualquer forma, aqueles que transfiguraram na sua totalidade o verdadeiro significado da palavra ambição, que agora se traduz como um mero acto de desprezo, de hostilidade perante o pobre leitor comum, que jamais deveria ser chamado a fazer algo que lhe possa provocar uma lesão muscular. (Que alívio ouvir isto, não há necessidade de nos preocuparmos com um livro que possa parecer agreste, ou abstracto, ou invulgar.) Os elitistas são aqueles que ficam zangados quando se lhes sugere que um livro pouco vendido possa merecer um prémio, como aconteceu, no ano passado, com o National Book Award na categoria de ficção*.»
Ben Marcus, “Why experimental fiction threatens to destroy publishing, Jonathan Franzen, and life as we know it: A correction”, Harper’s, October 2005, pp. 40 [tradução: AMC; *N.T. – Marcus refere-se ao NBA de 2004, atribuído a Lily Tuck pelo seu romance The News from Paraguay (obviamente não editado em Portugal)]
E tanta verborreia, para aqui deixar a listagem dos finalistas na categoria de ficção do National Book Award de 2010 (Carey entre mulheres, e é dele o único dos cinco romances, por agora, editado em Portugal):
  • Jaimy Gordon, Lord of Misrule
  • Karen Tei Yamashita, I Hotel
  • Lionel Shriver, So Much for That
  • Nicole Krauss, Great House
  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
Nota: A portentosa Patti Smith está nomeada na categoria de não-ficção com livro de memórias Just Kids, que relata o seu relacionamento com o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Ao que dizem, e segundo as minhas leituras, trata-se de um assombroso e comovente retrato dessa relação turbulenta que ocorreu nas décadas de 60 e 70 do século passado – espera-se, porventura em vão, pela edição portuguesa.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Um prémio em etapas (com direito a revisão)

Ontem foram anunciados os sempre aguardados com ansiedade, embora hajam perdido o brilho de anos anteriores, National Book Awards. Na categoria de ficção, entre 271 livros a concurso, depois de seleccionados os cinco finalistas, venceu o romance-calhamaço do escritor, ecologista e monge budista converso, Peter Matthiessen, nascido em Nova Iorque em 1927.
Este é o primeiro livro de ficção que Matthiessen, pertencente ao grupo que fundou em 1953 a revista literária The Paris Review, publicou no século XXI, e apenas o terceiro se contarmos com os seus dois livros de viagens publicados no início da década.
Mas o vocábulo publicação e os seus matizes, através dos seus afixos, associado às palavras inédito e original, tem gerado um burburinho no meio literário norte-americano.
Shadow Country não é um romance original e inédito, longe disso, é uma espécie de súmula dos três anteriores romances do autor, denominados pela “Trilogia Watson”: Killing Mister Watson, 1990; Lost Man’s River, 1997; e Bone by Bone, 1999.
Com efeito, o autor nova-iorquino dedicou-se a corrigir imprecisões, a cortar e a compilar num livro contínuo três das suas obras anteriores, retirando ao seu somatório cerca de 400 páginas.
No passado dia 11, Charles McGrath escreve um artigo para o The New York Times cujo título levanta, de forma directa, a questão da originalidade como condição sine qua non para a atribuição de um prémio literário: «Serão 3 romances, revistos como um, um livro novo?».
A resposta de um dos membros da fundação que atribui o prémio foi o de atribuir a esta compilação romanesca reestruturada o mesmo valor de uma antologia poética ou de uma colectânea de contos previamente publicados reunidos num só livro. Disse não se tratar de uma mera reimpressão – o que motivaria a sua exclusão da lista à partida –, até porque a obra sofreu cortes – ou mutilações, que foram alvo de censura e de descontentamento manifestados por leitores/admiradores da trilogia na íntegra – e muitas partes foram reescritas.
Matthiessen defende-se dizendo que dificilmente existirá alguma frase no novo livro que não houvesse sofrido alguma alteração.

Sem querer passar por um puritano, intransigente e moralista, defensor da virgindade literária na atribuição de prémios desta índole e tentar minorar o enorme esforço de revisão, reestruturação e reescrita empreendido pelo autor octogenário, tal como vem descrito nos diversos artigos de crítica e de opinião a ele dedicados, creio que a atribuição do referido prémio a esta obra inquina, sem hipótese de retrocesso ou de reparação sem estridência, o espírito que lhe está subjacente: a igualdade de oportunidades para todos os autores concorrentes, materializada no esforço inventivo de contar novas histórias, do poder único de, através da arte, criar novos mundos, novos horizontes, e de os poder transmitir como novidade aos seus leitores. É tudo isto que se premeia. Deste modo, por uma questão de equidade, que se crie um National Book Award for Revised, or Rewritten Fiction.

Apesar de tudo, deixo aqui ficar um excerto da página de abertura do romance vencedor, que integrava o primeiro livro (Killing Mister Watson, 1990), que consistia na recolha de testemunhos dos assassinos do personagem semificcional Edgar J. Watson (1855-1910):


«ERSKINE THOMPSON

»Nunca tivemos algum problema com Mr. Watson, e do que pudemos assistir, ele nunca causou nenhuns, não entre os seus vizinhos. Todos os seus problemas chegavam-lhe de fora.
»E. J. Watson apareceu em Half Way Creek em 1892, trabalhou em quintas durante uns tempos, trabalhou na cana-de-açúcar. Era também um trabalhador incansável, mas ao que parece não amanhava a cana por dinheiro, era mais provável que pretendesse obter uma certa afecção da nossa comunidade. Forte, era um tipo bem-parecido na casa dos trinta, de cabelo ruivo escuro, bem constituído, largo de ombros mas sem sinal de gordura, não naqueles dias. Andava perto do metro e oitenta e três e tinha-se em boa conta, a malta topava-o de imediato e ninguém se metia com ele. A primeira vez que se vê o homem quer-se ser amigo dele – ele era desse tipo. Envergava um largo chapéu preto e uma sobrecasaca preta de grandes bolsos, faziam-no parecer imenso. Quando cortávamos madeira de sicómoro com machados e serras, dois a três molhos de lenha de quatro metros cúbicos por dia – é um trabalho violento, duro e suarento, no caso de ainda não o terem feito – Ed Watson nunca mudou o seu traje. Manteve aquele casaco sobre o seu fato-macaco de sarja, ele disse, porque nunca sabia quando poderia aparecer alguma companhia do Norte. Quando disse isso, é capaz de ter sorrido um pouco, mas nunca deu uma única explicação.
»A malta não sabia de onde este estranho tinha vindo e ninguém perguntava. Nunca fazíamos a um homem perguntas difíceis, não nas Dez Mil Ilhas, não naqueles dias. Hoje a malta contará isto de outra forma, mas na altura não havia muitos na nossa secção que não se encontrassem em fuga de um lugar qualquer. Quem viria para estas ilhas apodrecidas pelas chuvas sem solo suficientemente duro e alto para construir uma casa com fundações, e com tantos mosquitos a chagá-lo nos maus verões que pensava que seguira pelo caminho errado directo ao inferno?»
Peter Matthiessen, Shadow Country, p. 9 [tradução: AMC]
[New York: Modern Library, 2008, 912 pp.]