quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Reminiscências

Há muitos anos ouvi, suponho que num daqueles documentários televisivos de divulgação científica, que o supostamente inexplicável fascínio dos adolescentes e dos jovens adultos pela música, de tal forma imbricado nos seus pensamentos e actos quotidianos que a vida sem ela perderia todo e qualquer sentido, levando a que, eventualmente, se cometam em seu nome as maiores loucuras, deve-se ao facto de nessa fase – a era dourada dos idealismos, da utopia e das paixões arrebatadas – ser a única ao longo da vida normal do ser humano em que o sentido da audição se encontra mais apurado que o da visão.
Não sei se tal tese está ou não cabalmente (cientificamente) comprovada, porém, no meu caso, sinto que de alguma forma a hipótese formulada se materializou no meu salutar e tresvariado percurso de jovem irreflectido entre os 17 e os 25 anos – fazendo saber que o limite máximo desse intervalo etário representa a idade com que me casei.
Serve isto para dizer que respirava música, vivia com essa estrídula e depravada que punha os nervos em franja à pobre da minha mãe: Nova Era para a disposição frenética, XFM para meditação ou até para um agravamento do estado pré-depressivo paradoxalmente tão cool, e por vezes a Antena 2 em busca dos adágios que desconhecia, ou em raras vezes o intemporal e melífluo João Chaves na RFM para encontrar em mim o amor que uma vida frívola me fizera não lembrar.
Hoje disponho de uma colecção que ronda as 6 centenas de CD’s originais de música, excluindo os discos de vinil e os DVD's musicais, e posso afirmar com toda a segurança que cerca de 4/5 foram adquiridos nessa etapa da minha vida, curiosamente quando os trocos oriundos de uma semanada, porventura não merecida, eram poucos para dividir entre o acto de comprar e de ouvir música numa discoteca do meu pequeno mundo.

Tanta charla para apenas mencionar
este texto do Sérgio Lavos no seu Auto-Retrato e com isso lhe poder agradecer o ter-me permitido descobrir um grupo – agora sei – canadiano que ignorava por completo, cuja sonoridade se aproxima e muito dos meus ídolos musicais, que ainda hoje não me canso de ouvir, de uma juventude remota que jamais esquecerei e cuja experiência passada tem contribuído para manter viva a chama que me agarra ao mundo.

Esta é uma das muitas razões por que vale a pena participar neste espaço a que se convencionou chamar de blogosfera e cujos 70 dias de ausência tanta ansiedade me provocaram (e serve isto para o Ritmo, Sérgio).

2 comentários:

susana disse...

É engraçado que também tenha acontecido o mesmo comigo, André. A maior parte dos meus CD's foram comprados durante o período da minha vida em que menos dinheiro tinha para gastar. Por outro lado, sobrava o tempo para ouvir tudo e mais alguma coisa. Agora tenho menos tempo, mas a mesma vontade de ouvir. Só que já não sou obrigado a comprar tudo aquilo de que gosto. E no meu caso, André, o ouvido apurou-se a um ponto em que se tornou esquisito: já não é qualquer coisa que serve, é preciso ser muito bom para merecer que eu gaste o meu tempo a descobrir com toda a atenção. Os Arcade Fire merecem todo o tempo que lhes pudermos dispensar.

Mónica (em Campanhã) disse...

ah, o tempo em que tínhamos os bolsos cheios... de tempo. para ouvir música como deve ser e ler livros dias a fio!