terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Bartleby

É caso para dizer que o assédio continua. Evoco de novo o Sérgio Lavos e o seu Auto-Retrato, agora a propósito da sua excelente sucessão de textos sobre os Bartlebys deste mundo.
Este texto do Sérgio recorda um episódio ficcionado de Enrique Vila-Matas numa deambulação por Nova Iorque. Vila-Matas encontra Jerome David, ou melhor, J.D. Salinger num autocarro, mas, simultaneamente, julga ver ao seu lado o amor da sua vida. Uma rapariga que despertou no autor uma paixão assolapada e a forte convicção do tal raríssimo encontro com a alma gémea. Eis o dilema: as mulheres ou a Literatura?
Salinger, é o epítome do Síndrome de Bartleby – o escrivão do conto de Herman Melville, ao que dizem inspirado em R. W. Emerson. E mais não direi, o enlace vem na nota de rodapé n.º 31 ao texto invisível de Bartleby e Companhia de Enrique Vila-Matas: – Não te preocupes. Por amor de Deus, não te preocupes. (que repetitivo!)

Mas o mais fascinante na Bartlebylândia é imperfeição revelada em alguns dos seus habitantes menos ortodoxos. Por exemplo, Salinger é um Bartleby ortodoxo, deixou de escrever e acabou-se (a propósito: tem algum conto guardado na sua gaveta?) Com 88 anos, e há 42 sem publicar, dêem-lhe o Prémio Nobel da Literatura… do Não!
Thomas Pynchon é um caso à parte. Ninguém o vê, fotografa ou filma há décadas e Pynchon continua a publicar. É o caso de um Bartleby errático ou, se se preferir, heterodoxo em termos batlebyanísticos. Todavia, não foi Pynchon que me trouxe aqui.
Um feliz exemplo, de igual modo apontado por Vila-Matas, é o do escritor uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964) que, para além do abandono precoce da carreira de pianista, se embrenhou nas artes literárias através da narrativa curta, cujos contos eram famosos por simplesmente não terminarem, ou melhor dito, possuírem finais incompletos. O paradigma do conto incompleto é o seu famoso texto “Ninguém acendia as luzes”, que, por muito paradoxal que possa parecer, Vila-Matas considera dispor de um final inesquecível, o qual não revelarei, porque:

A ler (em castelhano): «Nadie encendía las lámparas».

6 comentários:

manuel a. domingos disse...

não sei se o exemplo que vou dar se insere em algum tipo de bartleminismo, mas Rimbaud foi um caso semelhante: escreveu dos 16 aos 19 (salvo erro) e depois parou de uma maneira inexplicável. mas o que escreveu lançou as sementes da poesia de actualmente.

sempre me fascinaram estes "casos".

AMC disse...

Tens razão, Manuel.
Vila-Matas no seu livro de texto invisível apenas com notas de rodapé, nomeia Rimbaud como um bartlebyano por excelência.
Tens de ler o livro:
De Enrique Vila-Matas, Bartleby e Companhia, (Assírio & Alvim)

manuel a. domingos disse...

Vila-Matas é um autor de quem eu muito gosto, apesar de só ainda ter lido três livros seus: Filhos sem Filhos, Una casa para siempre e Suicidios ejemplares.

Bartleby e Companhia ainda não li, embora já me tenha passado várias vezes pelas mãos.

susana disse...

Meu caro André, completas o que os meus textos deixam de parte (e deixam muito). Pynchon não sofre, a meu ver, do síndrome de Bartleby. Não desistiu de nada. Continua a escrever, no seu canto, e a publicar a espaços. Simplesmente cansou-se das mundanidades, não do mundo em si. E aquela teoria da conspiração que diz que Pynchon e Salinger são uma e a mesma pessoa? E que tem Richey Edwards, dos Manic Street Preachers, que ver com isto?

AMC disse...

Manuel,
Já agora de Vila-Matas e do mesmo estilo recomendo-te História abreviada da literatura portátil. Desta feita o objecto de estudo/divagação ficcional é Shandy, por derivação do Tristram Shandy de Laurence Sterne.
Sérgio,
Desconhecia essa teoria de Pynchon e Salinger poderem ser uma e uma só pessoa. Até teria piada o contrário, porém havendo concertação de partes, e assim naquelas supostas visitas de Peter Messent (o professor de literatura de Nottingham cujo tema da tese de doutoramento era a obra de Pynchon), intervaladas de alguns anos, tivesse na 1.ª conseguido a entrevista de Salinger e na 2.ª a festa, à laia de homenagem a TP, com o verdadeiro Pynchon: Então você terá de decidir qual é o verdadeiro.
Escapou-me a dos MSP. Mas vou investigar... :)
Abraços aos dois.

J.Ur disse...

Quando li Bartleby & Companhia de Vila-Matas, já lá vão uns bons anos, recordo-me de ter ficado decepcionado por lá não ver um dos mais poderosos escritores de lingua portuguesa do séc. XX. Mas era justeficável tal omissão, pois embora sendo Vila-Matas um conhecedor da literatura portuguesa não o era da brasileira. O certo é que não aparece aquele que quanta a mim é o maior prosador de lingua portuguesa do séc.XX: Raduan Nassar. Em meados dos anos setenta larga a literatura e dedica-se desde então à criação de coelhos e à sua fezenda no interior do estado de São Paulo. Isto quanto ao sindrome Bartleby. Quanto ao sindrome Pynchon entre nós temos um escritor maior que por sinal não faz parte das ementas dos nossos criticos e leitores de literatura. E têmo-lo mesmo tendo em conta o tamanho do país e a sua familieraridade que não ajuda ou mesmo impede que o sindrome Pynchoniano tenha lugar, possa sequer brotar. E refiro-me a um dramaturgo que nunca deu uma entrevista, que nunca pôs os pés numa representação da sua peça mais vezes posta em cena, e do qual não se tem qualquer imagem. Só não se esconde atrás de um pseudónimo. E foi durante a sua vida profissional professor de filosofia do ensino secundário em Castelo-Branco. Falo de Vicente Sanches. Tem meia dúzia de coisas editadas pela Cotovia, mas a maioria da sua obra foi editada pelo próprio. Trata-se de um escritor extraordinário.