sábado, 10 de fevereiro de 2007

Venham mais quatro… (III)

A minha terceira leitura de Janeiro deste ano de livros editados em 2006 foi ocupada pelo último romance de Agustina Bessa-Luís, A Ronda da Noite (Guimarães Editores).

A Ronda da Noite – ou A Companhia do Capitão Frans Banning Cocq e Tenente Willem van Ruytenhurch, como foi originalmente denominada – é o título de uma colossal obra de arte em tela pintada a óleo por Rembrandt, concluída em 1642, cujas dimensões atingem os 4,4 por 3,6 metros. Rembrandt pintou este quadro por encomenda directa do referido Capitão – futuro burgomestre da cidade de Amesterdão –, onde figuram, para além deste último e do seu Tenente, alguns elementos pertencentes à Companhia de Arcabuzeiros de Amesterdão.
Este quadro tem alimentado ao longo dos tempos alguma especulação crítica sobre as verdadeiras pretensões de Rembrandt e até sobre a aparente escuridão da obra.
De facto, o pintor holandês parece revogar os cânones do retrato convencional – o muito vulgar para a época Retrato de Milícia –, conferindo um dinamismo ímpar à cena, obscurecendo alguns personagens e introduzindo alguns elementos picarescos – como alguns críticos de arte denominaram – como um grupo de crianças e um cão. Todo o cenário inspira movimento, apreensão e ansiedade, como se a Milícia se preparasse para o confronto iminente ou se pressentisse o dealbar de uma rebelião interna.
O título A Ronda da Noite não é o original, apenas surgiu em finais do século XVIII, foi aposto devido ao obscurecimento sofrido pela tela pela sua exposição aos elementos e pelas sucessivas aplicações de camadas de verniz.

É esta a obra que ensombra todo o romance de Agustina e a ilustre família Nabasco. Uma cópia do quadro passa de geração em geração como uma herança indivisa, exercendo, por último, um inexplicável fascínio em Martinho, neto de Maria Rosa, viúva de Filipe Nabasco. Alguns afiançam tratar-se de uma cópia reproduzida pelo próprio Rembrandt da sua obra-prima original. Outros asseveram que se trata sem dúvida de uma falsificação. Porém, não é esse o mistério que exerce o tal deslumbramento em Martinho. A disposição das partes que integram aquele todo, a razão de ser para cada movimento aparente, expressão facial, o brilho intenso da pequena Saskia – como surge no romance, note-se que Saskia van Uylenborgh, mulher de Rembrandt, foi modelo de vários quadros do autor e morre em 1642, ano de conclusão da obra.

O romance é simultaneamente um tratado filosófico, um detalhado estudo sociológico e um retrato preciso e fiel da decadente sociedade fidalga portuense em finais do século XX.
Em Martinho podemos encontrar alguns traços de um Carlos da Maia apenas mais contemporâneo. Criado pela avó após a morte do pai e do abandono do lar da mãe, que parte para Lisboa para se casar com um capitão da Marinha, Martinho vive rodeado do séquito de criadas de Maria Rosa e dos eminentes amigos de família. Porém é o que há de diletante em Martinho que o aproxima de Carlos da Maia. Amante das artes e das letras, licencia-se em Arquitectura que nunca viria a exercer. Refugia-se em tertúlias com os amigos, mesmo após o casamento, arranjado pela avó, com a terna e simultaneamente misteriosa Judite – cuja mãe, criada da casa, dizia-se, fora barbaramente assassinada pelo pai, que cumpria pena de prisão por homicídio.
Esta é a história de uma estrutura familiar que se vai desmoronando, mantendo a fachada intacta que esconde as ruínas da memória de um passado feliz, sem dilemas existenciais e supostamente filantropa. Martinho é o fim da linha, o seu epítome arrasador, insensível e amargurado, lúgubre e céptico:
«Felizes os que não amam senão a sombra das coisas»
e
«“Porque é que hei-de amar as pessoas? Basta ser-lhes grato, se for caso disso, ou gratificá-las se também for caso disso. Mas amá-las é fora de questão. O amor é como se diz de Deus: “Não devemos jurar o seu santo nome em vão”, pensava ele.» (pág. 131)

Ao contrário de Doidos e Amantes – um bom romance, porém bem longe da genialidade –, Agustina, com A Ronda da Noite, provou que os doce 83 anos, idade com a qual finalizou a obra, são a vantagem que a experiência permite para se escrever uma obra-prima, um verdadeiro tratado sobre as relações humanas cingidas à arte, transmitidas pela arte de escrever.

«Capítulo I: Dia de Finados: Naquele ano coube a Martinho Dias Nabasco acompanhar o que restava duma família numerosa e abastada, ao cemitério da terra natal.» (pág. 7; abertura do romance. Ai, os romances que começam com o triste e esmagador dias de finados...!)

Classificação: ****** (Obra-prima, classificação máxima)

2 comentários:

manuel a. domingos disse...

nunca li nada de agustina. tentei ler vale abraão e não consegui terminar.

não consigo explicar a razão, mas os livros dela nunca me chamaram.

AMC disse...

Manuel,
Curiosamente, ontem, a propósito de uma visita dos meus sogros a minha casa, peguei n'A Ronda e entreguei-o à minha sogra (uma leitora compulsiva, principalmente dos autores portugueses) dizendo-lhe que lhe ia emprestar um excelente romance. Resposta:
- Vou-lhe confessar uma coisa: nunca li nada da Agustina... Embirro com o personagem e sempre rejeitei os seus livros!
Levou-o para ler (dados os elogios que lhe teci) e aguardo a recensão.

Sinceramente, considero-o um romance excepcional.