sábado, 3 de fevereiro de 2007

60 anos. Obrigado, Benjamin!

Paul AusterPaul Benjamin Auster, nasceu no dia 3 de Fevereiro de 1947 em Newark no Estado norte-americano de Nova Jérsia. De ascendência judia, em 1970 conclui o estudos em Literatura na reputada Columbia University com o grau de mestre e em 1971 – tendo abandonado o doutoramento – partiu para França, onde se manteve até 1974, havendo exercido a profissão de tradutor em regime liberal e, segundo relatou, as atribulações dessa breve jornada permitiram-lhe experimentar o sofrimento que mais tarde apôs nos seus ensaios e poesias, e sobretudo na prosa de ficção que o distinguiu pelo mundo fora.
Amante confesso de Cervantes – de cujo O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha diz ser o melhor livro de todos os tempos – Shakespeare, Tolstoi, Dostoievski, Proust, Kafka, Hamsun, Beckett e Borges, publicou os seus dois primeiros livros em 1982, ambos de não-ficção: The Art of Hunger e The Invention of Solitude (Inventar a Solidão).
Em 1985 dá início ao trabalho que iria impulsionar a difusão do seu nome por todo o mundo: The City of Glass (A Cidade de Vidro). Trata-se da primeira de 3 histórias que irão integrar o seu internacionalmente aclamado The New York Trilogy (A Trilogia de Nova Iorque).
De lá para cá colaborou com a 7.ª arte quer de forma indirecta: cedência de direitos de autor dos seus livros para adaptação cinematográfica; quer de forma directa: escreveu argumentos para o cinema (onde se destacam dois filmes realizados por Wayne Wang, Smoke e The Center of the World, O Preço da Fantasia, escrito em parceria com a sua mulher Siri Hustvedt e a revelação Miranda July) e realizou 4 filmes (Smoke, Blue in the Face, Lulu on the Bridge e The Inner Life of Martin Frost, este último rodado em Sintra).
O seu romance mais recente, Travels in the Scriptorium, fez a sua estreia a semana passada nos Estados Unidos, havendo sido previamente editado noutros países: Reino Unido (Outubro de 2006) e Dinamarca (Junho de 2006). Sobre este último romance a crítica tem-se dividido desde o ódio visceral até ao paroxismo do panegírico. Como sempre, em Auster não há meio-termo: adora-se ou odeia-se.

Muito mais poderia ter sido dito sobre a extensa biografia do meu escritor contemporâneo favorito (Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras de França em 1992, nomeado Oficial em 1998 e Comandante em 2005), sendo que esse favoritismo nada tem de racional. Foi amor à primeira vista, arrebatado, infantil, assaz inebriante e sonhador.
Em jeito de homenagem, deixo aqui ficar a tradução do discurso de agradecimento proferido por Auster aquando da entrega do Prémio Príncipe de Astúrias na categoria das Letras que distinguiu a sua carreira e que corroborou o amor dos leitores espanhóis pelo autor norte-americano:

«Não sei porque me dedico a isto. Se ou soubesse, provavelmente não teria a necessidade de fazê-lo. A única coisa que posso dizer, e disso estou completamente certo, é que senti tal necessidade desde os primeiros tempos da minha adolescência. Refiro-me a escrever e, em especial, à escrita como meio para contar histórias, relatos imaginários que nunca se sucederam nisso a que chamamos mundo real. Sem dúvida, trata-se de uma maneira estranha de levar a vida: encerrado num quarto com a caneta na mão, hora após hora, dia após dia, ano após ano, lutando por pôr palavras em bocados de papel com o objectivo de dar vida a algo que não existe, excepto na sua cabeça. Porque é que na Terra há-de alguém querer fazer uma coisa destas? A única resposta que me ocorreu até hoje foi: porque não tem mais alternativas, porque não tem escolha.

A necessidade de fazer, criar e inventar é sem dúvida um impulso humano fundamental. Mas com que propósito? Que sentido tem a arte, em particular a arte de contar histórias, no tal mundo real? Nenhum que me ocorra agora – pelo menos num sentido prático da coisa. Um livro nunca encheu o estômago de uma criança faminta. Um livro nunca impediu uma bala de entrar no corpo de uma vítima inocente. Um livro nunca impediu que uma bomba matasse civis inocentes no fragor de uma guerra. Há quem creia que uma apreciação entusiasta da arte pode realmente fazer-nos melhores: mais justos, mais decentes, mais sensíveis, mais compreensivos. Provavelmente isso será verdade em alguns casos raros e isolados. Todavia, que não esqueçamos que Hitler começou a sua vida como artista. Tiranos e ditadores lêem romances. Assassinos encarcerados lêem romances. E quem poderá afirmar que eles não retiram dos livros o mesmo prazer que todos os outros retiram?

Por outras palavras, a arte é inútil, pelo menos enquanto comparada com o trabalho de um canalizador, ou de um médico, ou de um maquinista. Mas será a inutilidade uma coisa má? Será que a falta de sentido prático significa que os livros, a pintura e os quartetos de cordas são simplesmente uma perda de tempo? Muitos pensam que sim. Mas, eu gostaria de argumentar que é a inutilidade da arte que lhe confere valor; que a criação de uma obra de arte é o que nos distingue das outras criaturas que connosco habitam o planeta, e o que, no essencial, nos define como seres humanos. Fazer algo por puro prazer, pela beleza de fazê-lo. Que se pense no esforço envolvido, nas longas horas de prática e de disciplina necessárias para se ser um reputado pianista ou bailarino. Todo o sofrimento e o trabalho árduo, todos os sacrifícios para alcançar algo que é total e absolutamente… inútil.

A prosa de ficção, no entanto, encontra-se numa esfera um tanto diferente das restantes artes. O seu meio é a linguagem, e a linguagem é algo que partilhamos com os outros e que é comum a todos nós. Enquanto aprendemos a falar, começamos a sentir avidez pelas narrativas. Aqueles que de entre nós são capazes de rememorar a infância recordam a ânsia com que saboreávamos o conto que nos contavam na cama, o momento em que o nosso pai, ou a nossa mãe, se sentava na penumbra junto a nós com um livro e nos lia um conto de fadas. Aqueles que de entre nós são pais não têm qualquer dificuldade em evocar a seduzida atenção nos olhos de nossos filhos quando lhes líamos um conto. A que se deve este desejo intenso de escutar? Os contos de fadas são normalmente cruéis e violentos, descrevem decapitações, canibalismo, transformações grotescas e encantamentos maléficos. Qualquer um pensaria que este tipo de componentes seria demasiado assustador para uma criança pequena; todavia o que a criança experimenta através desses contos é precisamente um encontro fortuito com os seus próprios medos e angústias interiores, num ambiente em que está perfeitamente a salvo e protegido. Tal é a magia das histórias: podem transportar-nos às profundidades do inferno, mas na realidade são inofensivas.

Envelhecemos, mas não mudamos. Vamos ficando mais sofisticados, mas no fundo continuamos a ser como quando éramos pequenos, criaturas que esperam ansiosamente que lhes contem outra historia, e a seguinte, e ainda mais outra. Durante anos, em todos os países do mundo ocidental, publicaram-se inúmeros artigos lamentando o facto de que cada vez se lêem menos livros e que entrámos na denominada “idade pós-literária”. Isso até pode ser verdade, todavia, simultaneamente, a universal avidez por histórias não diminuiu devido a esse facto. De qualquer forma, os romances não são a única fonte. Os filmes e a televisão e até os livros de banda desenhada produzem obras de ficção em elevadas quantidades e o público continua a consumi-las com uma enorme paixão. Isso deve-se à necessidade do ser humano por histórias. Eles precisam delas de uma forma tão desesperada como necessitam de comida e qualquer que seja a forma como são apresentadas – quer seja numa página impressa, quer num ecrã de televisão – seria impossível imaginar a vida sem elas.

Porém, no que diz respeito ao estado do romance, ao futuro do romance, sinto-me bastante optimista. Falar de quantidade não serve para nada quando nos referimos a livros; porque não há mais que um leitor, um só leitor em todas e em cada uma das vezes. E isto explica o poder singular do romance e por que, na minha opinião, jamais desaparecerá como forma literária. Cada romance é uma colaboração em partes iguais entre o escritor e o leitor, e constitui-se como o único lugar no mundo onde dois estranhos podem encontrar-se em condições de absoluta intimidade. Tenho passado a minha vida a meter conversa com pessoas que nunca vi, com pessoas que nunca chegarei a conhecer e assim espero continuar até ao dia em que der o meu último suspiro.

Nunca quis trabalhar noutra coisa.»

Paul Auster, Prémios Príncipe de Asturias, discurso proferido em 23 de Outubro de 2006, Teatro Campoamor, Oviedo, Astúrias, Espanha. [Tradução feita a partir do inglês e do espanhol, AMC, 2007]

4 comentários:

Mónica (em Campanhã) disse...

só li um PA e não amei. por ond me aconselha a tentar de novo?

e quanto aos livros não encherem a barriga de crianças famintas, não tenho assim tanta certeza disso (empaturrei-me de scones e limonada na minha infância à custa da enid Blyton). mas enchem-lhes a alma.

a minha filha, que está a meio do 1º ano leu descobriu ontem que já conseguia ler um livro e é indescritível o brilho que ela trazia quando mo veio contar.

AMC disse...

Cara M,
Não sei que livro leu do P.A., porém já conheço alguns gostos literários da M. a propósito da colaboração naquele exercício que levei a cabo no Porque dedicado às frases iniciais exemplares.
Aconselho o romance Música do Acaso pela descoroçoante alegoria sobre a dureza com que a vida se nos pode revelar. É violento e cru. Porém, é daqueles livros que nos deixam a rememorar a mensagem após a sua leitura.
Outro, Leviathan. Negro, profundo e apaixonante.
De resto aconselhava a leitura de todos, na medida em que com Auster conseguimos apreender um fio condutor de uns romances para os outros que, segundo dizem, culmina com o recentíssimo Travels in the Scriptorium que consubstancia a viragem anunciada com Brooklyn Follies.
Quanto ao discurso de Auster na entrega do Prémio Príncipe de Astúrias, ele refere-se à inutilidade de um ponto de vista metafórico, entrando, de propósito, em contradição quando diz: «Envelhecemos, mas não mudamos. Vamos ficando mais sofisticados, mas no fundo continuamos a ser como quando éramos pequenos, criaturas que esperam ansiosamente que lhes contem outra historia, e a seguinte, e ainda mais outra » e «Isso deve-se à necessidade do ser humano por histórias. Eles precisam delas de uma forma tão desesperada como necessitam de comida e qualquer que seja a forma como são apresentadas – quer seja numa página impressa, quer num ecrã de televisão – seria impossível imaginar a vida sem elas.»
Ou seja, apesar da tão dita inutilidade da arte, não há vida sem histórias, logo não existiria Homem sem livros.
Beijos,
André

Mónica (em Campanhã) disse...

Obrigada, André. Vou imprimir as suas sugestões para levar em breve a uma livraria.

O livro que li (não o disse antes porque nem me lembrava apesar de ter sido apenas há 2 ou 3 meses) foi (tive de ir à estante) As Loucuras de Brooklin. Não sei exlicar-lhe porque não me prendeu, é estranho porque o li até ao fim (actualmente deixo a meio os livros que não me agradam porque acho que há tantos livros e tão pouco tempo para os ler que não podemos desperdiçar muitos minutos com os que não valem a pena), mas, como lhe dizia, li-o até ao fim mas foi como se estivesse à espera de algo que não apareceu, de uma emoção, uma envolvência, que ele não despertou.

Tive o constraste em seguida com o Cemitério de Pianos, que me deslumbrou (apesar de doer imenso) e agora ando com um FJViegas que sobrou do Verão, A poeira que cai sobre a terra (o prazer de sempre em ler as histórias do detective JR).

Mónica (em Campanhã) disse...

ah, eu tinha percebido a metáfora, e estava a lançar-lhe outra, a dos scones que devorei apenas em pensamentos a ler os livros dos 5