domingo, 20 de maio de 2007

Depois da Aparição


Depois da aparição, perdi em definitivo o rasto do Senhor Borges.
Após a inscrição daquele acontecimento na minha memória, circulei todos os dias pelos mesmos sítios à mesma hora e o trânsito corria fluído, sem entraves, sem encontrar Borges, ou alguém como ele, que caminhava do exterior para o interior para se perder do lado de lá, o Porto, nos seus labirintos de gente dispersa, hipnotizada pelo desejo de sobrevivência, sem saber que por mais que calcorreie essas artérias, a sua concepção, empreendida por algo que me foge aos apertados limites da compreensão tão humanos, foi apenas a materialização do divino pelo necessário inculcamento do desdém pela imortalidade. Em suma, vias porventura ilusórias e sinuosas que foram engenhosamente construídas para que apenas pela morte surja a almejada libertação.
Walser, em conversa com Seelig – via Vila-Matas –, referia-se aos monges voluntariamente encerrados nos mosteiros que olham com sede de exterior, de dentro para fora, o objecto que por uma vez negociaram para redenção da alma. Têm nostalgia do exterior. Porém, os escritores, aqueles que se fecham por dias infindos de solidão, empreendem um caminho sem retorno, embora voluntário, em busca do interior perdido, da sua própria identidade que se foi arruinando por paragens remotas, e agora inalcançáveis, nas intermináveis deambulações por esse labirinto: a profunda nostalgia do interior.
E assim deverá andar Borges, aquele que vi da janela do meu carro numa manhã de Maio de calor abrasador, caminhado pela Circunvalação do exterior para o interior num aparente movimento perpétuo.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Os Melhores de Sempre

Vai interessante e assaz didáctica esta musical troca de galhardetes – no bom sentido – entre o Henrique e o Lourenço.
Porém, permitam-me discordar, quais Jagger & Richards, Lennon & McCartney, talvez só Cale, Reed & Companhia!
Eis os melhores de sempre (posição irredutível e que me acompanhará até ao último suspiro):



1976-1980, primeiro como Warsaw, depois como Joy Division

I wish I were a Warhol silk screen
Hanging on the wall
Or little Joe or maybe Lou
I’d love to be them all
All New York city’s broken hearts
And secrets would be mine
I’d put you on a movie reel
And that would be just fine

Ian Curtis (1956-1980), St Valentine’s Day poem from Ian to Debbie (1973)*

*poema de Ian Curtis (contava 16 anos) retirado da pág. 13 do livro de Deborah Curtis, Carícias Distantes: Ian Curtis e Joy Division (c/ prefácio de Jon Savage). Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Março de 1996, 197 pp. (tradução de Ana Cristina Ferrão; obra original: Touching from Distance: Ian Curtis and Joy Division, 1995).
Nota: Hoje, na 60.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, o filme Control do realizador holandês Anton Corbijn, baseado na curta vida do mágico atormentado Ian Curtis, foi aplaudido de pé por uma plateia em êxtase.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Aparição

Hoje, vi Borges. Seriam umas nove horas e vinte minutos da manhã, a canícula fazia-se anunciar pelo característico odor adocicado e húmido que emanava da pequena tira de terra, escondida do sol pelos carvalhos, que separa o mirrado concelho do Porto dos seus arejados vizinhos: as estradas interior e exterior do pior atentado da História infligido a um razoável planeamento urbanístico da minha cidade, a Circunvalação.
Rádio desligado, tejadilho e vidros abertos deixando descansar o ar condicionado até que a temperatura se dignasse a superar a rinite na escala de adversidades estivais. Esperavam-me a tese e um livro para os longos intervalos na sala de fumo oficial, a varanda de minha casa, o silêncio que dela se apoderou depois do mulherio – a minha santíssima trindade – haver abandonado o lar rumo às suas tarefas quotidianas – qual é a tua, pequena M.? Choro, biberão, risos, palração, cólicas…
Um barulho estridente e assustador. Borracha a desfazer-se no asfalto quente. A luz de stop marcada no meu campo visual com um espectro indestrutível. Pé direito no travão que vibra pelo arrancar do ABS. Buzinas. Imprecações… rapidamente contidas. De súbito, da parte anterior do carro que segue à minha frente surge um vulto, curvado, vestido de preto com uma bengala na mão, envergava um fato assertoado e aquela fragilidade altiva de quem há muito ultrapassou a casa dos noventa mas não perdeu, por mais paradoxal que possa parecer, a impetuosidade com que encarou uma vida.
Era Borges! Jorge Luis… O homem dos labirintos e das narrativas fantásticas. O marechal, sem Nobel, da Literatura do século XX. Vivo e em plena estrada exterior da Circunvalação. Com uma mão segurava a bengala, com a outra pedia paciência agradecendo aos condutores anónimos dos veículos que por um simples e caridoso instante lhe proporcionaram mais um fôlego para poder ditar os seus memoráveis escritos.
Borges está vivo!
Arranco devagar, Borges segue numa lentidão estudada, sem pressas para chegar à outra margem, o interior.
Contive-me, o meu superego estava alerta apesar da indolente canícula, queria ter-lhe dito, arrancando o ar ao fundo dos meus pulmões: Senhor Borges é este ano…!

Em 1976 Saul Bellow vence o Prémio Nobel da Literatura contra as fortíssimas expectativas que enchiam o mundo literário de que esse seria, finalmente, o ano da reparação da injustiça, o ano de Borges.
Em Outubro de 1980, Gabriel García Márquez comentava, num artigo de opinião publicado no El País, que «todos os anos, por esses dias [recorde-se que os Prémios Nobel terão de ser atribuídos até meados de Novembro], um fantasma inquieta os grandes escritores: o Prémio Nobel da Literatura. Jorge Luis Borges, que é um dos maiores e também um dos candidatos mais assíduos, protestou uma vez numa entrevista que concedeu à imprensa pelos dois meses de ansiedade a que o submetem os adivinhadores.» O colombiano, que receberia o dito prémio precisamente dois anos depois, referia-se, certamente, às seguintes palavras proferidas pelo argentino em 1976, com aquela ironia cortante, isto é com laivos de alguma verrina, que o caracterizava:

«Não me atribuírem o Prémio Nobel converteu-se numa tradição escandinava: desde que nasci que não mo dão.»

Se Borges era reconhecidamente um dos maiores escritores latino-americanos da época e, decerto, um dos melhores de sempre, agravado pelo facto de ter tido uma vasta obra possibilitada por uma vida longa e por isso dispor de maiores possibilidades de vir a receber o galardão – por exemplo, a Academia não atribui prémios a título póstumo –, qual a razão, mais ou menos obscura, que esteve na génese dessa injustiça?
García Márquez, munido de um desresponsabilizante “diz-se por aí”, identificou o momento fatal. O acontecimento a partir do qual Borges muito dificilmente seria alguma vez galardoado pela Academia Sueca: a sua visita ao Chile a 22 de Setembro de 1976, recebido em sessão solene por Augusto Pinochet, onde Borges, socorrendo-se uma vez mais da sua ironia acutilante, elogiou o ditador chileno e as ditaduras da Argentina e do Uruguai que «defendiam a liberdade e a ordem […] num continente anarquizado e desbaratado pelo comunismo.»
Ainda segundo o autor colombiano, a atribuição do prémio a Borges havia sido decidida em Maio desse ano. No entanto, a decisão foi abruptamente modificada na tradicional reunião do júri do Comité Nobel em Outubro, alguns dias antes do aguardado anúncio oficial, ficando decidida a sua atribuição ao escritor norte-americano Saul Bellow.

Jorge Luis, já não és rapaz novo, com os teus quase 108 anos e a tua infeliz obnubilação, por favor, da próxima vez usa a passadeira.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

O Hexágono

«O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercado de parapeitos baixíssimos.»

Corro de plano em plano e ainda nem sequer saí do primeiro hexágono. «Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou pelo menos da nossa intuição do espaço. Consideram que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; mas o seu testemunho é suspeito; as suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus.) Basta-me por agora repetir a clássica sentença: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, e uma circunferência é inacessível.»
A volúpia das palavras que sofregamente vou tragando avoluma o meu inextinguível desassossego por aquelas que não li, são como açúcar para hiperglicemia, a traição para a inveja, não são uma inutilidade, porque não são neutras; massacram, extenuam, adejam por sobre as nossas cabeças em movimentos lúbricos, exibindo-nos a certeza de que sempre existirão em combinações de 25 sinais ortográficos que se repetem em livros de 410 páginas que se diferenciam entre si pela mudança de apenas uma delas, e voltamos ao primeiro axioma de Borges que a "Biblioteca existe ab aeterno" e seríamos perfeitamente estúpidos se nela vislumbrássemos um fim.
Porventura foi esse sentimento de imortalidade que se renova a cada palavra escrita que me tornaram bibliómano sem remição; o meu longínquo momento de fuga pela Tua ausência, o desvio para a paralela superior e a esperança não-euclidiana de nos encontrarmos, segundo Poncelet, no tal ponto no infinito – aquele que a perspectiva une na eternidade duas paralelas. E sei, por Pascal, que com esse hexágono gravado nessa circunferência divina e etérea consigo encontrar três pontos de intersecção, formados a partir da projecção de três pares de rectas dos lados opostos do hexágono, que são colineares... deles extraio o caminho que me leva a esse além-mundo inescrutável.
Agora pensa nas rectas que se formam a partir desses hexágonos de nível superior, na infinidade de caminhos que se cruzam e me distraem de um objectivo que o tempo tornou difuso. Em suma, o esforço inumano que qualifica esta fuga, que me desvia daquilo que os outros assentiram ser a minha vocação, o tal fundamento para uma condenação in absentia.
E sigo ainda com Borges, através de Vila-Matas, Doutor Pasavento, que vou tragando com a tal, a inaudita, sofreguidão:

«Ignoro se a música sabe desesperar da música e se o mármore do mármore, mas a literatura é uma arte que sabe profetizar aquele tempo em que terá emudecido, e encarniçar-se com a própria virtude e enamorar-se da própria dissolução e cortejar o seu fim.»

Falta-me tempo…
Trinta e três obras foram seleccionadas por Jorge Luis Borges para integrarem A Biblioteca de Babel, uma selecção de textos de literatura fantástica, originalmente propostos ao autor argentino pelo editor italiano Franco Maria Ricci e prefaciados por Borges – ler aqui a história. Como é sabido, a Editorial Presença teve a feliz ideia de editar esta colecção no nosso país, que começou a ser publicada desde o início de 2007.
Se apenas escrevo no aqui e agora uma nota sobre esta empreitada, tal ficou a dever-se a alguma preguiça de escritor blogueiro, cujo momento escolhido, o agora, resultou da eminência do autor do 4.º livro publicado da série referida. Trata-se da obra Os Amigos dos Amigos (The Friends of the Friends, 1896 [originalmente publicado como The Way It Came]) escrita por O Mestre, Henry James, pela primeira vez traduzida para a língua de Camões.
Os livros já publicados para além deste último (por ordem cronológica de publicação):

  • Gustav Meyrink – O Cardeal Napellus (Der Kardinal Napellus, 1913);
  • Pedro Antonio de Alarcón – O Amigo da Morte (El amigo de la muerte: cuento fantástico, 1852);
  • Giovanni Papini – O Espelho que Foge (Lo specchio che fugge, 1906).

Para além das 4 obras já publicadas, que representam, respectivamente, 4 línguas diferentes – alemão, espanhol, italiano e inglês – e de mais 4 obras de Borges – uma delas em co-autoria com Bioy Casares –, fazem parte desta biblioteca – que será publicada na íntegra pela Editorial Presença – nomes como Melville (com o seu Bartleby), Kafka (O Abutre), Wilde, Poe, Hawthorne, Voltaire, Chesterton, H.G. Wells, R.L. Stevenson, J. London e R. Kipling.

Anedota do Dia

terça-feira, 15 de maio de 2007

Em breve...

Em português, editado pela Dom Quixote, e segundo o JL sob o estranho título – adjectivação de minha responsabilidade – de Todo-o-Mundo (recebeu o título de “O Homem Comum” no Brasil e de “Elegía” em Espanha.


Até lá (e ainda vai funcionando o contador "R.E.P." iniciado por mim há mais de 1 ano no meu hibernado blogue Data) vamo-nos deliciando com as primeiras linhas do original (tal como fiz no Porque há 1 ano):
«Around the grave in the rundown cemetery were a few of his former advertising colleagues from New York, who recalled his energy and originality and told his daughter, Nancy, what a pleasure it had been to work with him. There were also people who'd driven up from Starfish Beach, the residential retirement village at the Jersey Shore where he'd been living since Thanksgiving of 2001-the elderly to whom only recently he'd been giving art classes. And there were his two sons, Randy and Lonny, middle-aged men from his turbulent first marriage, very much their mother's children, who as a consequence knew little of him that was praiseworthy and much that was beastly and who were present out of duty and nothing more. His older brother, Howie, and his sister-in-law were there, having flown in from California the night before, and there was one of his three ex-wives, the middle one, Nancy's mother, Phoebe, a tall, very thin whitehaired woman whose right arm hung limply at her side. When asked by Nancy if she wanted to say anything, Phoebe shyly shook her head but then went ahead to speak in a soft voice, her speech faintly slurred. "It's just so hard to believe. I keep thinking of him swimming the bay-that's all. I just keep seeing him swimming the bay." And then Nancy, who had made her father's funeral arrangements and placed the phone calls to those who'd showed up so that the mourners wouldn't consist of just her mother, herself, and his brother and sister-in-law. There was only one person whose presence hadn't to do with having been invited, a heavyset woman with a pleasant round face and dyed red hair who had simply appeared at the cemetery and introduced herself as Maureen, the private duty nurse who had looked after him following his heart surgery years back. Howie remembered her and went up to kiss her cheek.»
Philip Roth, Everyman (Houghton Mifflin)


Das 26 obras de ficção escritas e publicadas pelo Mestre Philip Roth – saga que começou em 1959 com Goodbye, Columbus and Five Short Stories, estando prevista para Outubro a publicação da 27.ª, com o título de Exit Ghost –, estão disponíveis em português de Portugal apenas 9 (NOVE), sendo que o perturbado Alexander Portnoy é o único representante de 31 anos de obra publicada entre 1959 e 1990 – por ordem cronológica da publicação original:

  • O Complexo de Portnoy (Bertrand, 1994) – Portnoy's Complaint, 1969.
  • Traições (Bertrand, 1991) – Deception, 1990.
  • Teatro de Sabbath (Dom Quixote, 2000) – Sabbath's Theater, 1995.
  • Pastoral Americana (Dom Quixote, 1999) – American Pastoral, 1997.
  • Casei com um Comunista (Dom Quixote, 2001) – I Married a Communist, 1998.
  • A Mancha Humana (Dom Quixote, 2004) – The Human Stain, 2000.
  • O Animal Moribundo (Dom Quixote, 2006) – The Dying Animal, 2001.
  • A Conspiração contra a América (Dom Quixote, 2005) – The Plot Against America, 2004.
  • Todo-o-Mundo (Dom Quixote, 2007) – Everyman, 2006.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

O Duende

Nasceu diferente na terra quente andaluza e nela morreu pela indisfarçável diferença na canícula de Agosto num país inflamado.
Falo de Lorca. Federico García Lorca (1898-1936), poeta espanhol, nascido em Granada, no coração da fúria e da virilidade espanholas, a Andaluzia, pátria do Flamenco, mas também dos touros e dos… duendes!
Em 1933, na Argentina, numa conferência na Sociedad de Amigos del Arte de Buenos Aires expõe pela primeira vez o seu mais famoso ensaio Jogo e Teoria do Duende (Teoría y Juego del Duende), e estabelece a notável distinção entre os conceitos de Musa, Anjo e Duende, na relação entre a arte e a morte.
A Musa:
«Quando a musa vê a morte chegar, fecha a porta ou ergue uma peanha, ou passeia uma urna e escreve um epitáfio com mão de cera, mas em seguida volta a regar o seu loureiro com um silêncio que vacila entre duas brisas.» (pág. 68)
O Anjo:
«Quando o anjo vê a morte chegar voa em círculos lentos, e com lágrimas de gelo e narcisos tece a elegia que vimos tremer nas mãos de Keats e nas de Villasandino, e nas de Herrera, e nas de Bécquer, e nas de Juan Ramón Jiménez. Mas que terror, o do anjo, se no seu brando pé rosado sentir uma aranha, pequena que seja!» (pp. 68-69)
O Duende:
«Pelo contrário, o duende não aparece se não vir possibilidade de morte, se não souber que irá rondar-lhe a casa, se não tiver a certeza de que vai agitar esses ramos que todos transportamos e não têm, não terão, consolo.» (pág. 69)

A editora Assírio & Alvim, pela mão de Aníbal Fernandes, reúne numa antologia, intitulada de Anjo e Duende, parte da prosa poética, dois textos escritos para conferências e cinco exemplares de um estranho exercício poético em diálogos criados pelo insigne autor granadino. São pistas biográficas. Textos que assim reunidos nos procuram levantar a ponta do véu sobre a dimensão humana, terna, frágil e angustiante, de um dos maiores poetas de sempre de língua castelhana. Neles se demonstram a obsessão do jovem poeta pela morte; o amor pelo mundano e pela cultura popular do seu país, os touros, o flamenco, os ciganos andaluzes e a sua ancestralidade oriental; as suas relações de amizade com os artistas da Geração de 27, que habitam a mesma residência de estudantes em Madrid, como Pepín Bello, Luis Buñuel e Salvador Dalí, com destaque especial para este último, pela profunda admiração mútua (e não só...), cuja amizade veio a sofrer uma dolorosa e lenta ruptura após Lorca haver publicado Romancero Gitano em 1928*, Dalí chega a apelidá-lo de un perro andaluz, ironizando através da alusão ao filme surrealista escrito por Dalí e Buñuel e realizado por este último; as entrelinhas da sua condição de homossexual, reprimida por uma sociedade tremendamente machista, de implacabilidade e violência homofóbicas e de um profundo fundamento religioso, onde as facas dilacerantes eram falos e a sua evocação da Lua, como anunciação permanente da morte e de um erotismo oculto. Por fim, o García Lorca político, a falaciosa capa de perigoso espião russo cuidadosamente erigida para ocultar a sua morte bárbara e desonrosa perante um pelotão de fuzilamento dos falangistas e que mais tarde foi impudica e ardilosamente aproveitada pelos vermelhos republicanos como bandeira dos seus ideais não menos bárbaros e sanguinários. Todavia, Lorca nada queria da política e dos políticos, apesar de demonstrar, através da sua arte, as suas preocupações sociais com os mais desfavorecidos e com as minorias étnicas. O poeta morreu vítima de uma sociedade fechada, confessional, preconceituosa e fortemente homofóbica. De um dos seus carrascos são as palavras: «Acabamos de matar a Federico García Lorca. Yo le metí dos tiros en el culo por maricón […] Es que estábamos hartos ya de maricones en Granada.» (pág. 15)

{*Excerto da carta de Salvador Dalí a García Lorca a propósito de Romancero Gitano: «“Li calmamente o teu livro […] A tua poesia de hoje cai dentro do tradicional, e nela descubro a substância poética mais suculenta que alguma vez existiu mas ligada em absoluto às regras da poesia antiga, incapaz de nos emocionar e satisfazer os nossos desejos actuais. A tua poesia está de mãos e pés amarrada à poesia velha. Talvez julgasses aquelas imagens atrevidas, ou naquilo que fazes encontrasses uma dose aumentada de irracionalidade, mas posso dizer-te que a tua poesia se move dentro da ilustração dos lugares-comuns mais estereotipados e conformistas.”» (pp. 129-130)}

Para terminar, resta apenas referir o trabalho notável de síntese, de tradução e de compilação de Aníbal Fernandes, aliás como vem sendo hábito na sua vasta carreira de tradutor de autores estrangeiros de primeira água.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Federico García Lorca, Anjo e Duende. Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Abril de 2007, 155 pp. (tradução, apresentação e notas de Aníbal Fernandes).

A 17 de Maio

David Fincher's ZODIAC

domingo, 13 de maio de 2007

Quem corre por gosto... [corrigido]


Li com interesse este texto do Eduardo Pitta sobre um dos muitos episódios, integráveis na secção dos efeitos colaterais “Carmona, O Arguido”, e que neste caso redundou no cancelamento de um ciclo de conferências subordinada ao tema “Os livros que não esqueci”, organizado pela Casa Fernando Pessoa, notavelmente dirigida nos últimos anos por Francisco José Viegas – que, como portuense que sou (nado, criado e residente), enche-me de inveja pelos eventos literários promovidos sem eco nesta acabrunhada Invicta.
Todavia, o que me traz a estas curtas palavras nada tem que ver com as triviais questões burocrático-administrativas que soem atrasar o andamento de um país que caminha a passo de caranguejo, passe a redundância. Nem tão-pouco discutir sobre a efervescência política actual que afecta o apetecível trono do maior município português, assim como os repulsivos jogos de bastidores de estruturas partidárias, empórios, organizações secretas e ufanos altruístas da cidadania perdida. Quero falar do pro bono, ou da tendência doutrinal da obrigatória graciosidade dos servidores da causa pública, neste caso materializada nas artes literárias.
O evento foi cancelado. Faltou o vil metal de que se fariam pagar os reputados ponentes – entre eles José Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Segundo o Eduardo, Rui Pereira, o director municipal da Cultura da Câmara de Lisboa, disse que os convidados «Almeida Faria e Diogo Pires Aurélio disseram logo que falariam gratuitamente». E depois de falar dos imbróglios administrativos, causa cimeira no cancelamento do evento, o Eduardo Pitta põe o dedo na ferida: «É evidente que o imbróglio radica na convicção, muito portuguesa, de que o trabalho intelectual deve ser feito pro bono.» Concordo com cada palavra do Eduardo aposta nesta contundente afirmação; compreendo – e revolta-me – o embaraço provocado a quem, como o Francisco José Viegas, havia dado a sua palavra a um número considerável de escritores que se deslocaria ao nosso país com o objectivo de participar no referido evento; discordo, todavia, da ideia subjacente ao caso concreto e imediato – Os livros que não esqueci – que sem pilim não há prelecção, cuja boa vontade, entendida aqui como graciosidade – e que se lhe atribua toda a carga semântica –, seria a única solução para a resolução do caso concreto, inadiável porque, segundo entendi, estava aprazado para o próprio dia. Só isto.

Uma pequena história (entre muitas, de trabalho académico pro bono)
Há três anos, após uma série de artigos científicos publicados e de algumas intervenções públicas em que participei como orador, fui convidado por uma reputada revista especializada na minha área profissional para, num luxuoso Hotel da minha cidade, intervir num congresso subordinado ao tema que vinha a tratar nos meus intermináveis trabalhos – que ainda hoje se mantêm – de elaboração da tese de dissertação de doutoramento.
Para participar no evento de três dias, cada assistente teria de desembolsar cerca de 1500 euros.
Chegou o dia, intervim no painel que me estava destinado, com um moderador e mais um ilustre participante que eu próprio arrebatei da sua Universidade extramuros. A sala do hotel estava repleta. Um natural e desinteressado olhar daria para calcular de cabeça a cifra que figuraria do lado da receita ilíquida. Uma enormidade. Falei 50 minutos, respondi a perguntas da audiência durante 20. No final recebo do Sr. Presidente do Congresso um forte aperto de mão e uma lembrança: um pequeno relógio de secretária, que no mais refinado dos sítios não passaria dos 15 euros.
Saí do lobby, entrei no parque de estacionamento, paguei cerca de 5 euros para chegar a casa.
Três anos volvidos, acabo de relatar o episódio no meu blogue…

sábado, 12 de maio de 2007

Dr. K. e M. Beyle

Quando em 2004 a Editorial Teorema deu início à publicação da curta obra deixada por Winfried Georg Maximilian Sebald (1944-2001), mais conhecido nos meios literários por W. G. Sebald, começou precisamente pela sua obra mais aclamada e a última publicada em vida, Austerlitz (2001), um romance deambulatório, onde se entrecruzam, como em toda a sua obra, o campo ficcional e a realidade, retratando as peregrinações do personagem epónimo e das suas curiosas relações com o autor.
Em Portugal assistiu-se a uma verdadeira febre sebaldiana despoletada pelas palavras de exultação estética dos ditos intelectuais deste ínfimo país ainda mais parco, pela baixíssima fasquia intelectual, de cabeças pensantes.
Poder-se-ia considerar que o atractivo, que normalmente engrandece a obra do autor, residiu no seu fim trágico. Com efeito, Sebald faleceu num acidente de automóvel em Norwich, Inglaterra – país onde residia desde 1970 –, no dia 14 de Dezembro de 2001. Todavia, arrisco que um dos factores que esteve na origem da admiração incondicional pode ter tido que ver com a putativa hermeticidade da narrativa aos não iniciados da corrente literário-intelectual lusa, ou seja, inalcançável aos espíritos mais obtusos da miserável plebe.
Eu explico-me. Sebald passou a ser entendido como uma marca distintiva, a fronteira entre a afirmação da intelectualidade e o simples gosto, meramente romanesco, de certa forma frívolo e superficial, pela Literatura. Em suma, eu sebaldo, logo tenho autoridade literária.

De todas as obras do escritor germânico e publicadas em Portugal, confesso que entre as que menos apelaram a uma certeza de encanto ou à minha exteriorização, sob que forma fosse, de um fascínio literário conta-se, precisamente, Austerlitz. Todavia, seria deveras indecente e falacioso afirmar que não gostei do romance na sua totalidade, mas também não tenho qualquer pejo em asseverar que a dita obra em nada contribuiu para o engrandecimento da minha cultura literária – ou o que se lhe quiser chamar.
Por outro lado, a obra Os Anéis de Saturno, publicada em 2006 pela Teorema, é de um enfado e de uma banalidade auto-indulgente, pontuada, no entanto, por algumas passagens reconhecidamente brilhantes. No mesmo ano, a mesma editora publicou a extraordinária História Natural da Destruição, de tom eminentemente ensaísta, Sebald percorre os horrores da II Guerra Mundial não se furtando à análise da devastação infligida pela força aérea dos Aliados em cidades alemãs como Hamburgo e Dresden, para além de fazer um minucioso retrato dos autores e da Literatura alemã durante e após o conflito.
Finalmente, não li Os Emigrantes.
Em Vertigens. Impressões, Sebald, parte de personagens reais como Franz Kafka e Stendhal (Henri Beyle), através das viagens que empreendeu na década de 1980 por Viena, Veneza, Verona, Riva e até uma deliciosa história sobre a sua estância nas margens do lago Garda, para terminar com uma brilhante narração da deambulação pela sua terra natal Wertach, na Baviera, e das pungentes reminiscências, indelevelmente marcadas na sua memória, assim como a do seu confronto com a realidade, a luta entre o retrato que os sentidos nela gravaram e aquilo que eles agora transmitem que, quer por corroboração, quer por uma dolorosa refutação, têm a capacidade de agitar o fundo daquilo que julgáramos ser, sob a forma de uma vertigem que simultaneamente nos paralisa e angustia.

«Por isso, aconselha Beyle, não devemos comprar gravuras com as lindas vistas ou perspectivas que observamos em viagem. É que uma gravura depressa ocupa por inteiro o lugar da lembrança que temos das coisas, pode-se até dizer que acaba por a destruir.» (pág. 11)

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
W.G. Sebald, Vertigens. Impressões. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 202 pp. (tradução de Telma Costa; obra original: Schwindel. Gefühle, 1990).


Nota: Para uma descrição mais pormenorizada da obra consultar a crítica “
De Viena a Verona, na pista de Stendhal e Franz Kafka” de José Mário Silva (a crítica a seu dono) publicada no Diário de Notícias em 28 de Abril último.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Actualização Thinking Blogger

Não podia deixar de agradecer ao Carlos Araújo Alves e à Fátima, autores dos excelentes blogues Ideias Soltas e Cão com Pulgas, respectivamente, por mais uma nomeação (ver outras aqui, assim como os respectivos comentários da casa) de que fui vítima nessa infindável cadeia de enlaces Thinking Blogger.
Obrigado.
Mas, V. Exas. com os vossos blogues, visitas frequentes e nomeações é que me obrigam a pensar e a reflectir na volta que hei-de dar no cinzentismo minimalista deste fundo de página que por osmose se estende à escrita.

Novo Amis em Portugal

Já aqui (em dois textos) havia dado a notícia sobre a publicação nos Estados Unidos do último romance do escritor britânico Martins Amis, The House of Meetings.
O romance, que fez a sua estreia mundial no Reino Unido em Setembro de 2006, vai estar disponível muito em breve nos escaparates nacionais, pelo menos foi o que pude verificar através do simples folhear do suplemento Ípsilon do jornal
Público de hoje – aliás como faço todas a sextas-feiras de manhã no local onde habitualmente reponho os meus níveis de cafeína e, por enquanto, de nicotina, já que estou convicto de que a medida de superfície do local andará longe dos 100 m2 necessários.
A responsabilidade pela edição portuguesa do romance de Amis, que recebeu o nome de A Casa dos Encontros, coube à Editorial Teorema*, como vem sendo hábito de há uns tempos para cá com as obras do autor.

Felizmente, parecem andar longe os tempos em que esperávamos décadas pela tradução para português de obras de reputados escritores. O último exemplo, que convém salientar e através dele felicitar os responsáveis, a editora Gradiva, deu-se com a estreia mundial do último romance de Ian McEwan em inglês do Reino Unido (língua original de escrita do autor) e em português de Portugal.

Nota: *Aproveito a ocasião para apelar aos responsáveis da Editorial Teorema para a necessidade de construção de uma página na internet, não só para publicitação das últimas novidades da editora, que publica, entre outros, Nabokov, Sebald, Calvino, Easton Ellis, Carver, mas também para acesso público à base de dados da, decerto, extensa bibliografia da editora. Na mesma situação está, por exemplo, a editora Casa das Letras. Nos dias que correm, trata-se de uma situação perfeitamente incompreensível.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

O Dia da Memória

Faltam 5 dias…
Maio, dia 15, dia de estreia mundial do 14.º romance de Don DeLillo (n. 1936, Nova Iorque), depois de (1) Americana, 1971; (2) End Zone, 1972; (3) Great Jones Street, 1973; (4) Ratner's Star, 1976; (5) Players, 1977; (6) Running Dog, 1978; (7) The Names, 1982 (Os Nomes, Relógio D’Água); (8) White Noise, 1985 (Ruído Branco, Presença); (9) Libra, 1988 (Libra, Presença); (10) Mao II, 1991 (Mao II, Relógio D’Água); (11) Underworld, 1997; (12) The Body Artist, 2001 (O Corpo enquanto Arte, Relógio D’Água) e (13) Cosmopolis, 2003 (Cosmópolis, Relógio D’Água).

O primeiro Grande a escrever sem rodeios sobre o Dia da Memória: 11/09/2001.
Sem mais palavras, o incompreensível fragor que emudeceu o mundo…

«It was not a street anymore but a world, a time and space of falling ash and near night. He was walking north through rubble and mud and there were people running past holding towels to their faces or jackets over their heads. They had handkerchiefs pressed to their mouths. They had shoes in their hands, a woman with a shoe in each hand, running past him. They ran and fell, some of them, confused and ungainly, with debris coming down around them, and there were people taking shelter under cars.

The roar was still in the air, the buckling rumble of the fall. This was the world now. Smoke and ash came rolling down streets and turning corners, busting around corners, seismic tides of smoke, with office paper flashing past, standard sheets with cutting edge, skimming, whipping past, otherworldly things in the morning pall.
»
Don DeLillo, The Falling Man (Scribner).

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Sr. Comendador

Por vezes o bulício do quotidiano, que absurdamente se revela numa dolorosa tendência para o enfado, ou melhor, a simples rotina que nos tortura, isola-nos de tudo aquilo que potencialmente nos enleva a alma – essa pécora (fui brando) insondável, vendedora de esperanças.
É inegável o fascínio que um tal de Benjamin, nascido há 60 anos em Newark, Nova Jérsia, desperta em mim, levando-me ao êxtase paralisante da idolatria, sem que as palavras sejam suficientes para explicar o fenómeno, sem que a horripilante cientificidade atribuída às artes literárias o permita compreender.
Esse eminente habitante de Brooklyn, Nova Iorque – com honras de dia festivo marcado no calendário, 3 de Fevereiro, dia do seu aniversário, pelo presidente do município (borough) de Brooklyn – foi recentemente galardoado (23 de Abril).

Paul Auster recebeu as insígnias do grau mais elevado da Ordem das Artes e Letras de França, o de Comendador:

Commandeur dans l'ordre des Arts et des Lettres

A condecoração foi atribuída, em nome do Estado francês, pelo embaixador francês em Washington Jean-David Levitte, a um Auster visivelmente emocionado:


«De todos os escritores americanos, vós sois o mais francês.»
Palavras de Jean-David Levitte na cerimónia de entrega [tradução livre: AMC, evitando o coloquialismo do “Bocê é”].

terça-feira, 8 de maio de 2007

Em boa companhia


Serei eu? Um distraído por natureza, marca indelével no meu código genético.
Ou será esse imenso mundo lusófono, que vai conquistando terras de além-mar pelo império da língua, que anda distraído?

Entre 24 e 29 de Abril deste ano decorreu nos Estados Unidos o PEN World Voices Festival: The New York Festival of International Literature, que reuniu escritores de todo o mundo e que participaram em conferências, entrevistas, colóquios e sessões de leitura. Entre eles esteve apenas um representante luso do Quinto Império, o jovem poeta, romancista e dramaturgo José Luís Peixoto (n. 1974) – também participou Patrícia Melo representando o Brasil (n. 1965).
O autor de O Cemitério de Pianos participou no dia 26 de Abril no colóquio From Page to Stage I, realizado no Segal Theater (situado em plena 5.ª avenida, NY) em conjunto com os dramaturgos Dorota Masłowska e Vladimir Sorokin, da Polónia e da Rússia, respectivamente.
No dia 28 de Abril, juntou-se a Breyten Breytenbach, Pia Tafdrup e a Saadi Youssef, representando a África do Sul, a Dinamarca e o Iraque, respectivamente, para uma sessão de leitura de poesia na Poets House (NY).
JLP, que ultimamente tem percorrido o mundo, juntou-se, assim, neste evento literário de 6 dias a nomes como Salman Rushdie (o organizador do evento), Paul Auster, Don DeLillo, David Grossman, Sam Shepard, Marillyne Robinson, Guillermo Arriaga, Edmund White, Kiran Desai, Sidney Pollack, Nadine Gordimer, Siri Hustvedt, Russell Banks, Miranda July e até Patti Smith.

Está disponível em áudio (mp3) a interessante e descontraída conversa entre Paul Auster e o escritor mexicano Guillermo Arriaga (escreveu argumentos como Amor Cão, 21 Gramas e Babel, e o romance O Búfalo da Noite, recentemente editado entre nós pela Oficina do Livro).

«Paul Auster: We don’t really know what we’re doing…» (lá está o indolente acaso...)

E pronto...


…aconteceu o que se previa depois da final antecipada dos quartos-de-final entre Ronnie O’Sullivan e John Higgins, o vencedor do encontro seria, certamente, o campeão do mundo de snooker em 2007, facto que se confirmou com a eliminação de Shaun Murphy nas meias-finais.

John Higgins 18-13 Mark Selby.

Cidade Proibida

Eduardo Pitta poeta, ensaísta, contista, crítico literário, viajante e epicurista, e segundo lhe apontam – decalcando uma referência da sua página pessoal – de hermenêutica eminentemente gay; e, em suma, blogger de colheita vintage, com firme estrutura de taninos e de complexidade aromática de onde sobressai um aroma da mais fina pimenta da índias, como uma síntese das notáveis aptidões e qualidades atrás mencionadas.

No próximo dia 16 de Maio, pelas 18:30, na Fnac do Chiado (Lisboa), Eduardo Pitta apresentará a sua última obra Cidade Proibida (na imagem), editada pela QuidNovi, acrescentando assim mais uma competência ao seu já extenso currículo literário: romancista.

Por aqui, vai-se aguardando ansiosamente a venda para posterior degustação, enquanto perdura a aura de mistério sobre o fio condutor da narrativa.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Sitiado

Março de 1857, Gustave Flaubert (1821-1880), escritor, epítome do movimento realista francês do século XIX e herdeiro do romantismo de Stendhal (1783-1842), de Chateaubriand (1768-1848), de Balzac (1799-1850) e do romantismo poético de Charles Baudelaire (1821-1867) – embora esta corrente artística se houvesse, desde logo, manifestado com mais acuidade no século anterior e predominantemente nas literaturas inglesa e alemã –, inicia a extensa pesquisa bibliográfica – baseada, no essencial, nas obras do historiador e geógrafo grego Políbio (circa 203-120 a.C.) – para o romance que se seguirá ao escandaloso, para a época, e talvez a sua obra mais famosa a par de Educação Sentimental (1869), Madame Bovary (1857) – publicado pela primeira vez em fascículos em 1856 –, assim como ao encerramento, por absolvição, do processo judicial que lhe foi movido em França, sob a acusação de obscenidade e de atentado à moral e aos bons costumes.
Este será o segundo romance do autor, integrando a inovadora corrente francesa do realismo histórico e que se centrará no Império Cartaginês do século III a.C., após o decurso da I Guerra Púnica (de 264 a 241 a.C.) travada com o expansionista Império Romano pelo domínio das ilhas e das regiões costeiras do Mediterrâneo. A sua escrita termina em Junho de 1862, cinco anos após o seu início, o que demonstra à saciedade o afamado perfeccionismo estético do escritor natural de Ruão, igualável ao do seu mais jovem coetâneo, e seu admirador confesso, Henry James (1843-1916).
Para além do laborioso trabalho de recolha de fontes históricas, em 1858 Flaubert desloca-se, numa longa viagem e em plena fase de escrita do seu romance, às regiões do norte de África, onde outrora se situou a cidade-estado de Cartago – a cerca de 20 km a Leste de Tunes, capital da Tunísia –, o centro nevrálgico do Império Cartaginês.

Salammbô é uma personagem ficcional, filha de Amílcar Barca, general e comandante das tropas cartaginesas e pai de uma das figuras mais marcantes da antiguidade clássica, Aníbal Barca – protagonista da II Guerra Púnica com Roma (218-202 a.C.), nascido na Península Ibérica, local que despoleta o conflito.
Após a oclusão da I Guerra Púnica, os mercenários – os bárbaros – que auxiliaram Cartago contra Roma no conflito – entre os quais se contam os lusitanos, para além dos líbios e dos númidas, entre outros – e regressados da ilhas mediterrânicas onde combateram, retiram-se das muralhas da cidade sob a promessa do Conselho da República, extremamente debilitada, que os seus soldos iriam ser pagos assim que estes encetassem a viagem de regresso às suas terras.
O romance inicia-se com uma monumental orgia, nos jardins de Amílcar – ausente na Sicília – e que assinala o fim das hostilidades:

«Os soldados que este [Amílcar] comandara na Sicília organizavam um grande festim para celebrar o aniversário da batalha de Éryx e, como o dono da casa estava ausente e eram muitos, comiam e bebiam em completa liberdade.» (pág. 11).

É no primeiro capítulo que, no meio da exaustiva descrição da babilónia de povos, de línguas e dos comportamentos bárbaros de tão heterogéneo grupo, começam a surgir os protagonistas da obra que se divide entre a descrição histórica e um romance de fundo, de contornos cómicos e insólitos, entre o guerreiro líbio Mathô e a virgem Salammbô, filha de Amílcar guardada no seu palácio. Narr’Havas o traiçoeiro Príncipe da Numídia, Espêndio o perspicaz e agitador escravo grego de Mathô, Amílcar Barca o sufeta dos mares de Cartago, Hanão o sufeta da terras e herói da I Guerra Púnica, Gisgão o infeliz general cartaginês que se encarregou da promessa dos pagamentos aos mercenários.
A revolta dos mercenários perante o incumprimento de Cartago irá servir de base ao romance até à sua conclusão, assim como o estranho roubo do véu, Zaimph, da deusa Tanit, a Lua e deusa da fecundidade, cuja ausência é entendida como um presságio do enfraquecimento de Cartago, que poderá levar à extinção do império.

Salammbô estende-se por quinze capítulos, relatando ao detalhe as atrocidades das guerras da antiguidade clássica. Segundo alguns críticos e estudiosos de obra de Flaubert, Salammbô é entendida como uma alegoria para as atrocidades que se iam perpetrando em nome do poder absoluto e da glória dos povos e das civilizações em pleno século XIX – não nos podemos esquecer que a queda de Napoleão Bonaparte apenas havia ocorrido em 1814-15, ou seja, poucas décadas antes da publicação do romance, e que no momento eclodia a bárbara Guerra da Secessão americana (1861-1865).
Para além disso, o que mais fascina em Salammbô é a consciencialização da intemporalidade da crueldade imanente ao ser humano que se manifesta, servindo-se de meios que foram evoluindo, pela atrocidade das inumeráveis batalhas, do fratricídio sem fim que Flaubert quis testemunhar vinte séculos após o surgimento da guerra de Cartago contra os mercenários que, poucos anos antes, haviam apoiado a república do norte de África contra os romanos.
Faça-se uma extrapolação das barbaridades relatadas na obra para os dias de hoje e verificaremos que os vícios da humanidade, como a corrupção, a cupidez, a intolerância e a traição, estão presentes, como um espectro que é transversal à obra. Vícios que, de uma forma implacável, acompanharam e irão acompanhar a espécie humana durante séculos, até à sua profetizada auto-extinção, o Dia do Juízo onde os réus serão, porventura, declarados como contumazes, ao arrepio do anunciado na Sagradas Escrituras.

Salammbô é uma obra fascinante, um tratado de História – que na época em que foi publicada provocou uma autêntica febre cartaginesa na França novecentista – e simultaneamente um minucioso mapa psicossocial do comportamento humano perante a diferença entre povos, raças, religiões e culturas.
O romance requer alguma parcimónia e um ritmo pausado de leitura, não só pelos nomes estranhos que pululam ao longo da primeira metade da obra, como pela opção da editora em incluir as notas do tradutor no final da narrativa, como, também, pela delicadeza de alguns pormenores que a sua não leitura, para um leitor zeloso, decerto implicará o recuo de umas páginas para retomar o encadeamento da narrativa, ou, quiçá, poderá obrigar a um torturante retrocesso de um capítulo inteiro.

Uma obra genial e sobretudo intemporal, características que a tornaram um “clássico da Literatura”:
Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Gustave Flaubert, Salammbô. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Março de 2007, 275 pp. (tradução de Pedro Tamen; obra original: Salammbô, 1862)


Notas:

  1. A edição portuguesa da Relógio D’Água inclui no final uma carta enviada por Flaubert ao escritor e crítico francês Sainte-Beuve, como resposta aos três longos artigos publicados por este último no Nouveaux lundis em Dezembro de 1862, extremamente corrosivos e críticos da obra. Inclui uma pequena nota final de tréguas redigida por Sainte-Beuve no dia de Natal desse ano.
  2. Para ler as críticas de Sainte-Beuve, assim como os dois textos encarniçados escritos pelo arqueólogo e conservador do Museu do Louvre Guillaume Froehner e publicados na Revue contemporaine em Dezembro de 1862 e Janeiro de 1863, respectivamente, assim como as respostas de Flaubert, consultar esta página da Web.

domingo, 6 de maio de 2007

Arte graciosa

Porque a blogosfera é um lugar de liberdades, apesar de todos os seus deturpadores, propugnadores da exclusividade opinativa, defensores do feudo difusor da sua preclara intelectualidade, há exemplos de brilho e de entrega despretensiosa na divulgação das artes através da simples exibição do próprio processo criativo e do engenho inventivo, não apenas consubstanciados no produto final.
É um exemplo de entrega sem os habituais propósitos que se costumam reunir na génese de um negócio; e mesmo que por vezes nessas acções criadoras consigamos divisar um intento propagandista do autor, tal facto, creio eu, não é suficiente para uma execração motivada pelo nosso tão subjectivo e volátil juízo sobre a intromissão do puro e selvagem mercantilismo no território da arte.

Será que a blogosfera é um lugar tão puro, que os arrivistas nela não encontrem conforto para a disseminação da sua mediocridade endémica? Claro que não.

Em suma, e agora, para algo completamente diferente [Chapman, Cleese, Gilliam, Idle, Jones & Palin vs. Araújo Pereira, Dores, Góis & Quintela], um momento Marcelo Rebelo de Sousa:
Se os há? Há.
Que são condenáveis? São.
Se os deveríamos abolir liminarmente criando um manancial de preceitos abstractos e potencialmente herméticos ou de interpretação duvidosa para regulação da liberdade de expressão na blogosfera? Nunca!

Bom, essa não é a questão essencial…
Serve o presente texto para dar a conhecer o excepcional trabalho que estes filhos da blogosfera lusa têm vindo a desenvolver nos seus respectivos blogues:

  • O manuel a. domingos criou um blogue exclusivamente dedicado ao beatnik não assumido, poeta e prosador norte-americano de excepção, Charles Bukowski (1920-1994), chamado O amor é um cão do Inferno, onde o Manuel tem vindo a traduzir, de forma brilhante, alguns poemas do intrépido autor;
  • O Fernando M. Dinis, no seu blogue Fico Até Tarde Neste Mundo, tem vindo a publicar poemas de sua autoria – aliás, como já vinha a fazer desde que encetou a sua actividade blogueira –, acompanhados de música que ele próprio compôs.

Querem melhor exemplo de arte graciosa!

sábado, 5 de maio de 2007

Auto...

«O risco profissional a longo prazo de fazermos espectáculo de nós próprios consiste em, a dada altura, também comprarmos o bilhete.»

Uns são auto-indulgentes, outros auto-referenciais, outros ainda auto-iludidos e a nova estirpe, que brotou da terra como um géiser incontinente – que metáfora tão fraquinha, a roçar os limites do irrepreensivelmente deplorável (lá está!) –, os autodepreciadores.

Eu explico (soberba, aí vem a auto-referência). Terminada a leitura de Salammbô de Flaubert – mais tarde colocarei aqui a minha avaliação (auto-ilusão, ou seja, megalomania, com laivos de alguma histrionia…) –, pronto para regressar a mais umas linhas – poucas, talvez mais um artigo – do Caranguejo de Eco e para escolher o próximo livro que nos próximos tempos me acompanhará nas noites em que o buliçoso mulherio que comigo reparte o lar estiver, justa e convenientemente, a dormir a sono solto.
Segui o critério – sempre a postos para uma pequena derrogação – e percorri as lombadas do cemitério dos livros não lidos – dava um bom título! – peguei em DeLillo – não, o próprio, que, para além de não gostar de andar com desconhecidos ao colo, julgo eu deambula no momento pelos subúrbios de Nova Iorque – Cosmópolis, para finalmente poder imolar-me numa troca de mimos literários com o Rogério. No entanto, numa espécie de epifania arcangélica, uma lombada em tons de ciano, com letras impressas a negro encimadas pelo logótipo da Teorema, fez-me recuar e reflectir sobre o motivo daquela, em concreto, estar postada ao lado das lombadas dos “não lidos”.
Auto-expliquei-me: com o excepcional ano editorial de 2005 em Portugal, lembro-me que para não ter de rogar a um deus desconhecido que os dias tivessem 48 horas, deixei o último romance de Bret Easton Ellis, Lunar Park, no triste recanto do olvido este tempo todo, ofuscado por outros, porventura menores, não lhe havendo servido de nada a grossa lombada fosforescente que ampara as cerca de 420 páginas.
Bom, a triste conclusão: a tal epifania levou-me finalmente à sua desfloração (outra bela metáfora!)

Enfim, termino com o belo início autobiográfico do livro que não tem uma abertura. Ou melhor, até tem e para não recorrer a uma auto-referência sobre as frases de abertura, aqui fica:

«“Fazes uma esplêndida imitação de ti próprio.”
«Esta é a primeira linha de
Lunar Park e, na sua brevidade e simplicidade, deveria ser um regresso à forma, um eco, da linha de abertura do meu romance de estreia, Menos Que Zero.
«“As pessoas têm medo de se fundir nas auto-estradas de Los Angeles.”
«Desde então, as frases de abertura dos meus romances – por mais bem compostas que fossem – tinham-se tornado demasiado complexas e ornamentadas, carregadas de uma ênfase pesada e inútil nos pormenores.
» (pág. 9)

Ah, é verdade! A citação inicial pertence, segundo BEE – olha, o Abelha! – (epígrafe, pág. 7) ao romance de 1978 Panama do escritor norte-americano Thomas McGuane, considerado como o mais autobiográfico do autor... autor.

Referência bibliográfica:
Brest Easton Ellis, Lunar Park. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Outubro de 2005, 413 pp. (tradução de Maria Augusta Júdice; obra original: Lunar Park, 2005).

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Collodi

– C’era una volta...
– Un re! — diranno subito i miei piccoli lettori.
– No, ragazzi, avete sbagliato. C’era una volta un pezzo di legno.
Non era un legno di lusso, ma un semplice pezzo da catasta, di quelli che d’inverno si mettono nelle stufe e nei caminetti per accendere il fuoco e per riscaldare le stanze.

Carlo Collodi, Le avventure di Pinocchio: Storia di un burattino, 1883


– Era uma vez…
– Um rei! – dirão de imediato os meus pequenos leitores.
– Não, rapazes, haveis-vos enganado. Era uma vez um pedaço de madeira.
Não era uma madeira nobre, mas um simples pedaço do molho, daquela que no Inverno se mete no forno e na lareira para atear o fogo e para aquecer o quarto.

[Tradução livre: AMC]


«Deixa acabar, papá», dizia há pouco a minha filha, quando ensaiei no meu tom autoritário, de pai amolecido pela ternura, um «Por hoje acabou-se. Amanhã há colégio…» (modernices que a era do DVD vai permitindo… e se vos contasse os risos dela com a tontarias, que se repetem todos os dias, do pequeno boneco de madeira e do seu gato, Fígaro, não esquecendo o Grilo Falante, que nos conta história através dos píxeis do ecrã do televisor na versão abastardada da Disney...)

Lembrei-me de Auster e o seu Inventar a Solidão, quando aquele compara a dilacerante, e incomensuravelmente mais bela, versão de Collodi, a original, com a história descontaminada da Disney.
Lembrei-me também do Édipo e do Anti-Édipo e de todas essas patranhas e maquinações pseudo-intelectuais que nos querem impingir para estragar uma boa história.

Mas disso, Inês, tu não sabes. Dorme bem, amanhã há colégio.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Cartago


(carregar na imagem para ampliar)

Para aqueles que, como eu, aproveitaram a recente edição da Relógio D’Água, com tradução de Pedro Tamen, para se iniciarem, através da leitura, no romance histórico Salammbô de Gustave Flaubert, originalmente publicado em 1862, aqui deixo ficar um precioso auxiliar – ver imagem acima – para a tarefa mental de situar as cidades cartaginesas do século III a.C. mencionadas no livro, e para entender os limites até aos quais se estendia o Império de Cartago após o fim da primeira das três Guerras Púnicas com Roma, época em que decorre a acção da fabulosa narrativa:

«Era em Megara, subúrbio de Cartago, nos Jardins de Amílcar.»
Gustave Flaubert, Salammbô, pág. 11 (Relógio D’Água, 2007).

quarta-feira, 2 de maio de 2007

The Rocket

Irrita-me esta displicência do melhor dos melhores, mas, porventura, é essa imperfeição de não dedicação exclusiva à modalidade que me leva, por vezes, a endeusá-lo.
Ronnie O’Sullivan prepara-se para perder, e de forma copiosa, o jogo dos quartos-de-final do Mundial de Snooker frente ao escocês John Higgins.
Higgins é bom, é excepcional, todavia o desprovimento de imperfeições de pendor suicida aborrece-me.
O’Sullivan é capaz do melhor e do pior. Embolsa bolas perfeitamente inacreditáveis, falha tacadas longas com bolas directas para o buraco e, ainda por cima, como diz o maradona, põe-se a jeito com defesas paupérrimas.
Depois de na primeira ronda aniquilar o desgraçado do chinês Junhui – que The Rocket já havia posto a chorar
na final do Masters em Janeiro deste ano – com um expressivo 10-2 – à melhor de 19 partidas –, calhou-lhe em sorte o (naturalmente) oxigenado e arrogante australiano – a nova coqueluche, segundo dizem e eu não reitero – Neil Robertson. O’Sullivan depressa chegou às 9 partidas vencidas em 13 necessárias, para depois deixar aproximar o arrogante imberbe.
Mais logo, The Rocket deixará, decerto, o Crucible Theatre… devem esperá-lo umas partidas de pool – o nosso comum jogo de bilhar – nos Estados Unidos…

Florence & Edward

Não sei por onde começar, e muito menos como este texto poderá acabar. Dou, portanto, livre curso às palavras que se sucedem num ritmo ditado por um raciocínio não repisado, apenas animado pela leitura terminada há quatro dias, deixando que alguma da emoção ganhe corpo nas breves linhas que se seguem.
Há uns dias, quando soube da iminência da estreia do novo trabalho do autor inglês Ian McEwan, escrevi
isto, tentando dar uma perspectiva evolucionista, onde não faltava o processo de selecção natural, da sua já extensa bibliografia.
Sinceramente, não sei se tudo o que proferi naquele texto foi entretanto derrogado por este último trabalho. Porém, essa tal derrogação, um processo súbito de nulidade da minha divagação de diletante, a ter ocorrido só veio demonstrar quão bela é, para nós leitores – receptores passivos –, esta arte de escrever. Arte a que se convencionou chamar de Literatura: imprevisível, arrebatadora, sufocante e verdadeiramente deslumbrante quando as palavras e as ideias, como uma amálgama de barro em bruto em cima da pedra do oleiro, são trabalhadas, quiçá, por inspiração divina, por um misterioso sopro etéreo ininteligível e jamais acessível ao comum dos mortais. Essa é, decerto, a maneira mais cómoda para catalogar a genialidade de alguém que dos caracteres – tão à nossa mão – engendra a beleza e, de forma indelével, transporta o seu nome para o Olimpo das letras.

Depois de escritos e de lidos os parágrafos anteriores, constato que estes não surgiram sem causa aparente. Transmitiram, na verdade, o que me ia na alma quando me atrevi a falar de Ian McEwan e do seu último romance – novela? – Na Praia de Chesil.
Quem são Florence e Edward? Ou melhor, o que representa esse conúbio de nomes próprios?

«Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.» (pág. 7)

Não, não vou voltar a falar da importância de uma boa abertura de uma obra de ficção para o conjunto da obra. No entanto, toda o romance, de escassas 129 páginas na versão portuguesa, parece subsumido, numa perspectiva aglutinadora, por esta primeira frase.

A época
A parte principal da narrativa decorre em 1963, época definida em termos históricos como prenunciadora das grandes convulsões sociais, precisamente encaixada no interstício entre a cura das feridas abertas pelo conflito mundial de 39-45 pela sociedade britânica do pós-guerra e os primeiros sinais da revolução cultural – incluindo a libertação sexual – que iria transformar o mundo ocidental na década 60 do século XX. Trata-se do período histórico da consciencialização social e da materialização do hiato geracional que divide, num antagonismo difícil de não sobrevir à luz do dia, os fazedores e os filhos da guerra. Entre o pragmatismo marcial de defesa dos valores ancestrais de um povo e o idealismo humanista, um grito de alerta perante a constatação das debilidades de uma estrutura social vetusta e corrompida, descentrada do género humano, dos seus anseios mais prementes, e voltada para um paradoxo concretizado na febre securitária na corrida ao armamento, potencialmente aniquiladora do género humano.
Era o tempo do Primeiro-Ministro britânico Harold Macmillan e dos seus esforços para que o Reino Unido integrasse a, à época, recentemente formada CEE, contemporâneo do presidente norte-americano John Fitzgerald Kennedy – e não sei se se trata de uma mera coincidência, mas a acção principal decorre em meados do Verão de 63, sendo que JFK foi assassinado em Dallas a 22 de Novembro desse ano – e de Nikita Khrushchev como secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética.

Jovens diplomados e virgens
Florence e Edward simbolizam a tão mcewaniana tensão sexual que dá impulso ao mundo e que, posteriormente, depois de libertada, o cobre de uma mancha indestrutível, a inocência definitivamente perdida e a frustração advinda dessa perda.
Dois jovens que se conhecem, segundo eles, num conjunto de acasos ordenados por uma entidade superior e cujo destino se precipita para o, aparentemente, inevitável enlace conjugal.
Edward, filho de um professor e de uma mulher que, de forma insólita – um misterioso viajante da City, sem tempo a perder, abre a porta do comboio, ainda em andamento, que a atinge na cabeça enquanto esta, grávida de gémeos, espera pelo marido, regressado da guerra, no cais de embarque da estação de comboios –, se vê definitivamente aprisionada dentro da casa de gritos que é a sua própria mente, deixando entregues ao cuidado do pai os afazeres domésticos, para além da árdua tarefa de sustentar com os seus proventos a educação dos filhos. Edward licencia-se em História, com menção de honra, no University College de Londres. Leva uma vida perfeitamente vulgar e comum à maioria dos jovens adultos da sua comunidade: estudos, pubs, pancadaria, mulheres e um ritual masturbatório de estrita observância.
Florence, filha de pais ricos, vive em Oxford, estuda música e toca violino, havendo terminado o curso no Royal College of Music em Londres e formado um quarteto com três dos melhores alunos da faculdade, o Ennismore Quartet. Vive entre uma mãe filósofa fria e distante, e um pai, um bem-sucedido homem de negócios, desprovido de emoção. Ela própria transporta consigo a frialdade do ambiente familiar, carente de afectos e de manifestações de sentimento.
Ambos assentam que se podiam ter conhecido mais cedo quando em 1959 participaram na mesma manifestação em Londres, na Trafalgar Square, contra a bomba atómica. E é curiosamente a propósito de uma futura reunião do CND – Campaign for Nuclear Disarmament – que se ficam a conhecer, apesar de ambos haverem acorrido ao local por motivos diversos, como uma fuga perante uma agitação momentânea.
É na inusitada conjugação destes dois mundos, o antigo e o moderno, o rebuscado e o rude, o frágil e o duro, Florence e Edward, que McEwan constrói a narrativa. É a história de uma união que se consumou no papel num dos primeiros dias de Julho, no Verão de 1963, entre uma Florence dedicada e subtil, que apenas suporta a tessitura da música clássica, e um Edward, instruído e viril, que pressente, pela música, os ventos de mudança que começam a chegar de quatro rapazes de Liverpool, dos Rolling Stones e dos EUA, Chuck Berry e os pais do rock and roll.

A narrativa inicia-se numa suíte nupcial num hotel contíguo à praia de Chesil, no condado de Dorset, no Sudoeste de Inglaterra.
Encontram-se ambos no quarto, com uma refeição para degustar, servida por dois rapazes empregados do hotel, esperando pelo momento da consumação do casamento, onde se entrecruzam os sentimentos de horror e de exasperação, por um acto tão simples como amar, que se exige sem qualquer tipo de amargura e de pudor, sob pena de se viver nos escombros de uma vida arruinada.

(O relato dos acontecimentos da Praia de Chesil foi propositadamente evitado para com ele não estragar o prazer da descoberta a quem, com muita paciência, digeriu este texto e ainda não leu, mas tenciona ler, o romance de McEwan.)

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Ian McEwan, Na Praia de Chesil. Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Abril de 2007, 129 pp. (tradução de Ana Falcão Bastos; obra original: On Chesil Beach, 2007).


Nota: curioso o aviso final (pág. 129) escrito pelo próprio autor, ainda torturado com a infâmia que uma aproveitadora lhe lançou acerca da sua melhor obra de sempre: Expiação.

terça-feira, 1 de maio de 2007

BHL - 4 [actualizado]

Bem, depois disto (e dos restantes apêndices neste blogue), nada melhor do que ouvir Bernard-Henri Lévy a propósito do lançamento do seu livro Vertigem Americana em Portugal, no Palácio Fronteira, em Lisboa, num debate moderado por Pacheco Pereira...

(Como a empresa Sapo do Sr. Bava, grupo PT, resolveu excluir os não-clientes do seu paupérrimo serviço de internet – do qual, felizmente, já me desintoxiquei –, o vídeo que aqui postei deixou de estar disponível).

Assim, em jeito de substituição para muito melhor – Postiga por Anderson, Jesualdo! –, deixo aqui ficar uma entrevista concedida por BHL ao notável Charlie Rose em 27 de Janeiro de 2006:






Nota: Charlie Rose também é mencionado no livro de BHL, é parte integrante de um nostálgico e delicioso episódio onde Rose regressa à sua terra natal, Henderson, na Carolina do Norte. O episódio (subcapítulo) intitula-se "Home with the wind" (BHL, Vertigem americana, ..., pp. 227-230, op. cit.)

O Fim da História e o Choque das Civilizações

Vertigem Americana: Uma viagem pela América profunda seguindo os passos de Tocqueville, é um retrato da América dos nossos dias vista pelos olhos de Bernard-Henri Lévy.

BHL, empresário, escritor e filósofo francês, nascido na Argélia em 1948, de ascendência judaica, aluno de Derrida e de Althusser na École Normale Supérieure em Paris, é considerado o pai do movimento dos “Novos Filósofos”, surgido no início dos anos 70 do século passado em Paris, incluindo nomes como André Glucksmann ou Christian Jambet, entre outros, que, pretendendo romper com a tendência marxista (o capitalismo era tido como a origem de todos os males) dos seus antecessores pós-estruturalistas (e.g. Derrida, Foucault, Deleuze) fortemente arreigada na ideologia de base de regimes totalitários e afastando-se das suas nefastas sequelas sobre a realidade humana envolvente, denuncia o afastamento daquelas escolas do pensamento de uma necessária e inevitável abordagem centrada no indivíduo, de uma ligação mais concreta ao cenário internacional e de uma maior visibilidade do pensamento filosófico através dos meios de comunicação social.
A Nova Filosofia, mereceu como é óbvio a forte contestação do establishment do pensamento filosófico francês, entre os principais críticos destaque-se Gilles Deleuze que, em entrevista concedida à revista Minuit de Maio de 1977, chega a afirmar que para ele os Novos Filósofos «nada» representam, acrescentando que crê «que o pensamento deles é nulo.» Lançando de seguida fortes ataques a BHL, em jeito de resposta a ideias por ele professadas: «Ele diz que existe uma ligação profunda entre o Anti-Édipo e “a apologia do podre perante a miséria da decadência” (e é assim que ele o diz), uma ligação profunda entre o Anti-Édipo e os consumidores de drogas. Pelo menos, isto fará rir os drogados. Ele diz, também, que o CERFI [Centre d’études, de recherches et de formation institutionnelles, fundado por Félix Guattari, do qual fez parte Deleuze, e co-autor de O Anti-Édipo] é racista: ora isso é ignóbil.»
Enfim, pretendeu-se aqui dar apenas uma pequena amostra da truculência opinativa, e da instabilidade provocada, de BHL na difícil interacção com o seu meio de explanação intelectual, que, de todo, não é o assunto principal deste texto.

BHL, a convite da revista norte-americana Atlantic Monthly percorreu durante um ano o território americano, 170 anos depois do seu compatriota Alexis de Tocqueville haver imergido na América profunda, por ofício do Governo francês, com o objectivo inicial de estudar o sistema prisional americano. Porém, Tocqueville, na companhia de Beaumont, acabou por ir mais além e desenvolver o fabuloso e celebérrimo tratado Da Democracia na América.

O livro, para além do prefácio de Freitas do Amaral na edição portuguesa, está dividido em três partes fundamentais: a primeira trata das expectativas e dos preparativos para viagem de BHL; a segunda, que ocupa grande parte do livro, dedica-se aos relatos da viagem (dividida em 7 partidas); e a terceira e última, o epílogo, a que o autor dedica uma aprofundada análise filosófica, baseada na experiência, sobre o conceito de se ser americano; sobre a ideologia americana e a sua relação com emergência do terrorismo após o 11 de Setembro de 2001; e uma reflexão sobre a essência da América, sobre os estereótipos do imperialismo, do fundamentalismo e do neoconservadorismo; para além de um post-scriptum sobre o furacão Katrina e das longas fracturas reveladas da sociedade americana, já quando BHL havia concluído a sua viagem e se encontrava a elaborar os remates finais do livro.

América, terra de contrastes (não é novidade). Local onde coabitam numa estranha harmonia o maior dos sonhos, o idílio de uma vida dourada, e o mais negro dos pesadelos, a pobreza e a exclusão (também aqui não resulta nada de novo para os nossos estafados ouvidos europeus). Caldeirão de culturas, de religiões e de raças (idem). A venda livre de armas, a mercantilização da religião e dos seus templos, o endeusamento da iniciativa privada e da privatização dos serviços públicos e das funções do Estado (designadamente da Saúde, da Segurança Social e até de parte do sistema prisional), …
Tudo isto não é novo, porém a beleza da obra resulta das reflexões de BHL que se entrecruzam nos diversos relatos; no seu esforço de se desintoxicar dos apriorismos de um francês cultivado de lugares-comuns antiamericanos; em suma, procura desempenhar o papel de observador neutro e descomplexado para captar a verdadeira essência daquele todo social, sobre a qual, a pedra angular, se constrói aquela babilónia de formas de pensar, de sentir e de agir e que se consubstancia num padrão comportamental social único, por vezes ininteligível para o cidadão europeu.
De Newport a Des Moines, passando por Montana, de Seattle a San Diego, de Las Vegas a Tempe, de Austin (capital do Texas) a Little Rock, de Miami a Pittsburgh, passando por Washington, D. C. e terminando em Cape Cod, ficam as marcas em: a descrição do sistema prisional, onde Guantánamo é uma síntese daquilo que pôde observar no resto do país; as cidades desproporcionalmente grandes para as necessidades da comunidade; o estado de abandono de Detroit (outrora a sede de uma indústria automóvel em expansão) e as cidades fantasma; a incomensurabilidade de Los Angeles (a anti-cidade, sem um centro de referência) que se estende desde a costa do Pacífico por 70 km para Leste e cerca de 80 km para Sul desde o ponto mais a norte; a sua paixão por cidades como Seattle, Savannah, Nova Orleães e Boston, cidades que escolheria para viver se emigrasse para os EUA; os republicanos que votaram Kerry em 2004 e os democratas (e extremistas de esquerda) que votaram Bush; o encantamento pela mente esclarecida de Warren Beatty, por Woody Allen e a sua paixão pelo seu clarinete; uma certa decepção com Kerry e a sua comitiva; a conversa com Norman Mailer; as conspirações sobre o suicídio de Hemingway; os índios republicanos e anti-semitas; a exagerada propensão para a entronização da banalidade em museus (o exemplo picaresco da tábua de queijos como obra de arte em exposição); as comunidades herméticas de velhos reformados onde não é autorizada a permanência a menores de 55 anos, onde apenas se subsiste contando os dias para o fim da vida numa condição quase que pueril (aquilo que BHL designa como o apartheid dourado); as feiras de armamento abertas ao público, onde BHL foi revistado à entrada enquanto casais, tipicamente pertencentes à classe média, saíam com espingardas a tiracolo; a imensa mole de cubanos cristalizados no tempo que ocupam grande parte da cidade de Miami; a forma peculiar de conservação da natureza, que se pode encontrar nos pântanos do Everglades; a história tenebrosa por detrás do icónico Mount Rushmore; a vigilância da fronteira com o México e a política de recrutamento dos guardas fronteiriços; a emergência do criacionismo e a sua influência, por exemplo, na formação do Grand Canyon; os mórmones, os quakers e as seitas apocalípticas.
Enfim, uma multiplicidade de encontros e desencontros com as práticas civilizacionais europeias.

Será que, através desta análise em solo americano, poderemos vislumbrar o fim da História (Hegel ou Marx, ou…)? Ou pelo contrário, ela sobrevive pelo iminente e inevitável choque civilizacional?
Numa interessante análise final, BHL parte de dois paradigmas e aplica-os à situação corrente da maior potência mundial:
Francis Fukuyama vs. Samuel Huntington.
O fim da História por Fukuyama, a era da pós-historia, pela queda do comunismo, pelo esboroamento das ideologias fundadas na dicotomia capitalismo (por oposição) versus comunismo e pela emergência (vitória) da democracia liberal (economia neoliberal) como único sistema sem contraditório porque vazia de ideias sujeitas a discussão, desempenhando a política uma função meramente administrativa.
A refutação desse fim anunciado, onde Huntington professa que finda a guerra das ideologias, ela será de imediato substituída pelo choque de civilizações que forçosamente manterão viva a História, embora esse prognóstico sirva de instrumento teórico, como refere BHL, para a barbárie contra a grande comunidade hispânica (e não só) nos EUA, tal como sucedeu no início do século XX, segundo Huntington: «“a plebe amorfa multicolor” de “eslavo-latinos” e de “judeus do oriente” que vinham corromper “a personalidade política e moral dos Estados Unidos”» havendo-se perdido «o credo britânico que fez a nossa boa e bela nação» (pág. 287).

Por outro lado, são também interessantes as teses da putativa propensão americana para a subjugação imperial dos povos através da sua política externa, que BHL refuta recorrendo à velha noção de império e do autoritarismo imanente que de facto não existe. Ademais, BHL defende que a forma como os sucessivos governos norte-americanos olham para o exterior não assenta num princípio que permita divisar a forte segmentação entre a direita e a esquerda, entre republicanos e democratas. Para isso, e de modo simplista (como ele próprio define) BHL divide o intervencionismo americano no exterior em quatro correntes distintas, partindo da dicotomia intervencionista/isolacionista: jeffersoniana (talvez a única com um pendor marcadamente partidário, a extrema direita republicana e cujo nome decorre do isolacionismo preconizado pelo terceiro presidente americano, Thomas Jefferson, defendida por exemplo por James Baker aquando da intervenção dos EUA na Bósnia, que não vislumbrava algum interesse imediato na participação dos americanos no conflito dos Balcãs), a hamiltoniana (oriunda do Pai Fundador Alexander Hamilton, que preconizava a intervenção no exterior apenas em defesa dos interesses económicos e comerciais dos EUA), a jacksoniana (decorrente do 7.º presidente dos Estados Unidos Andrew Jackson, que defende a intervenção só quando os interesses vitais americanos – de todo o tipo – estiverem em jogo, sendo que a intervenção deveria ser rápida, seguir a forma do “hit and run”) e, finalmente, porventura a mais conhecida, a wilsoniana (decorrente do 28.º presidente norte-americano Woodrow Wilson, apologista do intervencionismo puro e duradouro, política que esteve na génese da decisão de entrada dos EUA em 1916 na 1.ª Guerra Mundial, quando Wilson verificou que seria inútil e uma mera perda de tempo, com consequências nefastas, a tentativa de se estabelecer um acordo de paz entre as partes).
BHL, por fim deixa nas entrelinhas e sobre a forma interrogativa pistas que nos dão a ideia dos EUA como um país laico e de pendor não imperialista, ao contrário dos preconceitos dos seus preclaros concidadãos europeus.
Vertigem Americana é um bom livro (embora entediante a espaços, por exemplo quando o autor parece perder-se em algumas divagações filosóficas), que se segue com interesse pela quase inatingível capacidade enciclopédica ao abarcar o mosaico social multicolor de um país que continua, hoje em dia, a despertar o maior dos fascínios ao cidadão estrangeiro, mesmo naqueles que, de forma categórica, exprobram a sua bandeira, as suas cores, enfim, the american way of life.
E não será essa execração antiamericana uma forma de fascínio?

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Bernard-Henri Lévy, Vertigem Americana. Porto: Caderno (Asa), 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 366 pp. (tradução de Carlos Aboim de Brito; obra original: American Vertigo, 2006).



Nota: ler o que já referi aqui e aqui a propósito deste livro e que me escusei a repetir neste texto.