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terça-feira, 28 de outubro de 2008

Fôlego

Foi a palavra que me surgiu de forma espontânea, tremulando com toda a sua carga polissémica, assim que abri a página em branco do processador de texto, à laia da libertação automática de impulsos de Breton, para escrever alguma coisa e tentar caracterizar a obra de ficção literária que acabara de desfrutar por completo havia pouco mais de vinte e quatros horas.

[Este texto permaneceu encerrado na pasta de arquivo “não publicado”, que guarda os inúmeros ficheiros reprimidos deste blogue, há quase uma semana; um terrível ataque de pudor sem origem e razão certas, levaram-me a este indescritível aferrolhamento; bom, angústia, talvez advinda de uma lesadíssima auto-estima, ultrapassada].

A obra. Trata-se de As Três Vidas, o último romance publicado pelo jovem escritor lisboeta João Tordo (n. 1975) – o seu terceiro, depois de O Livro dos Homens sem Luz (2004) e do fascinante Hotel Memória (2007).
Fôlego: desmedido, em termos literários, em inspiração; meticuloso, ritmos narrativos bem medidos, uma urdidura tecida em filigrana, extraordinária gestão de expectativas; exigência, sem intervalos e outros intoxicantes, de uma leitura atenta, de uma paz de espírito que nos retire o complexo de culpa do consumo de tempo originado por uma vontade voraginosa de o ler de uma só assentada.
Uma abertura suficientemente cativante, auxiliada por um frontispício denodadamente ilusório:

«Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espectáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambulismo.» (pág. 11)

O protagonista, narrador omnipresente de uma história pontualmente feliz, matizada de uma pungente e indelével inquietude, uma pátina de melancolia, vivida durante um quarto de século, é um banal jovem lisboeta nascido em 1960, que terminando o liceu no início da década de 1980, procura emprego, após um hiato estival de indolência, como meio de ajudar a mãe, mentalmente perturbada após a morte prematura e trágica do pai, e a irmã de dezoito anos. Encontra-o, num anúncio de jornal. Irá trabalhar na Quinta do Tempo, situada nas cercanias de Santiago do Cacém, onde o espera um jardineiro muito especial, Artur, e um patrão esquivo e enigmático, de seu nome António Augusto Millhouse Pascal.
O trabalho é suficientemente repetitivo e enfadonho, que um cheque chorudo no final do mês não dá azo à desistência; catalogar e indexar as fichas de uma série de clientes que frequentam a Quinta, desconhecendo-se o objecto e a missão dos serviços que lhes são prestados.
Intercalada com o entra e sai de pessoas misteriosas de todas as nacionalidades, que de certa forma parecem ter estado ligadas a um passado brutal, surge a história dos três netos de Millhouse Pascal que calcorreiam os jardins da casa aos fins-de-semana – estudam em Cascais durante a semana num colégio inglês – de onde se destaca a jovem Camila, que depois da centelha inicial, despertou um fogo impetuoso e inextinguível no coração do pobre narrador, a que se junta o estranho desaparecimento de Adriana, a filha do patrão, que, segundo a própria filha Camila, apesar da integral perda de contacto com a progenitora, se encontra em Nova Iorque a praticar funambulismo.
Está dado o mote para o desenvolvimento de uma narrativa que, com a seus momentos decisivos, fatalmente directores das vidas dos personagens e do próprio local de todos os mistérios no Alentejo, conduzem o leitor a um labirinto emblematicamente borgiano, tão bem utilizado por Auster nas suas narrativas do acaso, a que se junta o insólito arrevesado tipicamente kafkiano; a obstinação sem fim à vista.

Borges, um leitor atento e apreensivo de Kafka, referia-se-lhe como o escritor da postergação infinita – aludindo ao paradoxo de Zenão de “Aquiles e a Tartaruga”, da busca perpétua –, cuja presença o autor argentino identificava com maior acuidade em dois dos seus três (inacabados) romances, O Castelo (Das Schloss, 1925) e O Processo (Der Prozess, 1925), e em alguns dos seus contos, onde aquele destacava a narrativa curta “A construção da muralha da China” (Beim Bau der Chinesischen Mauer, pub. 1931) como o paradigma dessa postergação, de infinito múltiplo.
As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.
A subordinação concentrada no personagem aglutinador de toda a trama, o misterioso António Augusto Millhouse Pascal, leva o narrador a uma viagem detectivesca no espaço e no tempo, ou seja, servindo-se do cruzamento das duas dimensões para tentar entender o alvoroço da sua situação presente. Todavia, mesmo que surjam as respostas para as suas inquietações através do achamento de determinadas pontas soltas, a que o narrador atribui a autoria ao mero acaso, a insatisfação subsiste, o convencimento da insignificância da sua existência é o obstáculo para a obtenção de uma visão geral multifacetada, que lhe escorre por entre os dedos como água, sem hipótese de a deter.
Em João Tordo, ou na sua obra, que uma simples releitura de Hotel Memória pode confirmar, não há soluções finais, nem desenlaces; existe antes a aparência de um fim, como uma imagem para dúvida existencial, para o desassossego, para a contínua dilaceração da alma.

«Se eu fosse um homem diferente, com mais imaginação, talvez pudesse acreditar – e fazer-vos acreditar – que os mistérios que perpassaram esta narrativa irão, um dia, encontrar a sua resposta; estou convencido, contudo, de que muitas coisas permanecem eternamente veladas e, com o passar do tempo, aprendi a viver com esta resignação. Por vezes, claro, é impossível evitar os enigmas que me atormentam (…); e, ao desejar sarar as minhas feridas com a lógica absurda deste mundo que, a cada hora que passa, me parece mais distante, zombando dos espíritos que ousam desafiá-lo, compreendo a inutilidade desta empreitada.» (pág. 301)

E não é este o mistério da vida?

Que se me perdoe o ar de graça com a hipérbole paradoxal, As Três Vidas é uma obra de um sufocante fôlego literário.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo
, As Três Vidas. Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Setembro de 2008, 304 pp.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

0. Intróito: preliminares entomológicos

Gregor transformou-se em barata* gigante.
Eu não: fiz-me aranhiço,
tão leve que uma leve brisa o faz
oscilar no seu fio de baba lisa.
Até que, contra a lei da natureza,
creio que tenho peso negativo,
e me elevo no ar se me não prendo
ao canto mais escuro desta ilha.
Quando descer à teia derradeira
não se verá no mundo alteração, ou só
talvez alguma mosca mais contente.
Em noites de luar, na alta esquina,
ficará a brilhar, mas sem ser vista,
a estrela que tracei como armadilha.

António Franco Alexandre, Aracne (2004)



Notas anódinas:
*Vladimir Nabokov, conhecido entomólogo e lepidopterologista, actividades que exercia para além da sua ímpar carreira literária – na minha modesta opinião, a par de Borges, o melhor escritor do século XX, curiosamente nascidos no mesmo ano, 1899, e sem qualquer reconhecimento da heteróclita Academia Sueca –, refuta a ideia quase generalizada, nunca referenciada na novela de Kafka**, de o insecto, em que, naquela manhã ao acordar no seu quarto Gregor Samsa se metamorfoseou, se tratar de uma barata:
«Os comentadores dizem [que é uma] barata, mas é óbvio que isso não faz sentido. A barata é um insecto de forma chata com grandes pernas, e Gregor é tudo menos chato: é convexo dos dois lados, o abdominal e o dorsal, as suas patas são pequenas. Parece-se com uma barata só num aspecto: a cor castanha.» Vladimir Nabokov, Aulas de Literatura, pág. 299 (Lisboa: Relógio D’Água, Fevereiro de 2004, 449 pp.; tradução de Salvato Telles de Menezes; obra original: Lectures on Literature, 1980).

**Aliás, o autor checo preocupou-se em afastar a possível especulação sobre a tipologia do invertebrado, para não prejudicar a narrativa com descrições supérfluas, chegando ao pormenor de indicar ao seu editor que a capa para a primeira publicação (1915) jamais deveria incluir qualquer tipo de insecto, mesmo que este surgisse num plano secundário.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O pirómano relutante

(continuando a série: EA Sports to the game!)

«Brod em lágrimas, numa noite chuvosa, na rua dos ourives e alquimistas por baixo do castelo de Praga. Cruza-se com um livreiro muito conhecido: “Por que [sic] choras, Max?” “Acabo de saber que Franz Kafka morreu.” “Oh, lamento muito. Sei da tua estima pelo moço.” “Não compreendes. Ele ordenou-me que queimasse os seus manuscritos.” “Nesse caso terás de o fazer, pela tua honra.” “Não compreendes. Franz foi um dos maiores escritores da língua alemã.” Um momento de silêncio: “Max, tenho a solução. Por que [sic] não queimas antes os teus próprios livros?”»
In George Steiner, As Lições dos Mestres.

[Lisboa: Gradiva, 2.ª edição, Outubro de 2005, pág. 69; tradução de Rui Pires Cabral; obra original: Lessons of the Masters, 2003]


A comparação do incomparável: Brod e Kafka; Virgílio e Varius; Escritório de Lourenço Pinto e Carolina Salgado

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Nabokov on Kafka

Vladimir NabokovNão, não vou falar sobre o tema recorrente das injustiças cometidas pela Academia Sueca na atribuição dos prémios Nobel da Literatura. É certo que juntei, num deslumbrante e complexo par, os imortais Vladimir Nabokov (1899-1977) e Franz Kafka (1883-1924), mas nem o primeiro publicou em vida material suficiente para despertar a atenção do ininteligível grupo de nórdicos – note-se que os seus três romances O Processo (Der Prozeß, 1925), O Castelo (Das Schloß, 1926) e América (Amerika / Der Verschollene, 1927) foram publicados postumamente pelo seu amigo Max Brod, felizmente um mau executor enquanto testamenteiro –, nem o segundo era politicamente correcto, como russo branco: ele e a família fugiram de São Petersburgo após a subida ao poder do regime bolchevique em 1917, exilando-se em Inglaterra em 1919 e posteriormente na Alemanha, seguindo-se em 1937 a França; mudou-se para os Estados Unidos em 1940 com a entrada dos nazis em Paris; deixou a América em 1960, instalando-se definitivamente em Montreux, na Suíça, onde morreu em 1977.

Mas, o que me trouxe aqui, a estas curtas linhas de quase divagação, foi a descoberta de um tesouro no imenso oceano videográfico do YouTube. Trata-se de um curto programa televisivo de 1989, realizado pelo húngaro Peter Medak, que recria a prelecção de Nabokov na Cornell University na Califórnia sobre a obra-prima A Metamorfose (Die Verwandlung, 1915) de Franz Kafka, inserida nas suas famosas e publicadas Aulas de Literatura*.
No papel de Nabokov vemos Christopher Plummer que, aparentemente, bem vestido e caracterizado para o efeito, se assemelha na indumentária e em alguns traços fisionómicos ao escritor russo-americano. Mas conta quem o ouviu e/ou assistiu às suas aulas que tanto a dicção como a postura e o temperamento – cínico, sobranceiro e verrinoso – foram fielmente reproduzidos por Plummer, como se nele houvesse encarnado o espectro do rutilante autor de Lolita e de Fogo Pálido.

Para os fãs, os mais atentos às paixões e ódios de Nabokov, a frase que se segue encaixa nas suas Opiniões Fortes e na imperativa Speak, MemoryNa Outra Margem da Memória, em Portugal:

«[Kafka] is the greatest German writer of our times. Yes, yes (…) such poets as Rilke or such novelists as Thomas Mann are dwarfs and plaster saints in comparison to him.»
(Como foi possível Nabokov, mesmo em duas curtas frases, não haver introduzido o nome do Bruxo Vienense ou um epíteto deste género?)



Carregar aqui para ver a 2.ª parte do vídeo.
Falta a 3.ª parte, resta esperar e apelar à indulgência do utilizador do YouTube que colocou as partes anteriores.


*Livro editado em Portugal: Vladimir Nabokov, Aulas de Literatura. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, 2004, 446 pp. (tradução de Salvato Telles de Menezes; introdução e posfácio de Helena Ayala Botto (ed. port.); introdução de John Updike; obra original: Lectures on Literature, 1980).

sábado, 12 de maio de 2007

Dr. K. e M. Beyle

Quando em 2004 a Editorial Teorema deu início à publicação da curta obra deixada por Winfried Georg Maximilian Sebald (1944-2001), mais conhecido nos meios literários por W. G. Sebald, começou precisamente pela sua obra mais aclamada e a última publicada em vida, Austerlitz (2001), um romance deambulatório, onde se entrecruzam, como em toda a sua obra, o campo ficcional e a realidade, retratando as peregrinações do personagem epónimo e das suas curiosas relações com o autor.
Em Portugal assistiu-se a uma verdadeira febre sebaldiana despoletada pelas palavras de exultação estética dos ditos intelectuais deste ínfimo país ainda mais parco, pela baixíssima fasquia intelectual, de cabeças pensantes.
Poder-se-ia considerar que o atractivo, que normalmente engrandece a obra do autor, residiu no seu fim trágico. Com efeito, Sebald faleceu num acidente de automóvel em Norwich, Inglaterra – país onde residia desde 1970 –, no dia 14 de Dezembro de 2001. Todavia, arrisco que um dos factores que esteve na origem da admiração incondicional pode ter tido que ver com a putativa hermeticidade da narrativa aos não iniciados da corrente literário-intelectual lusa, ou seja, inalcançável aos espíritos mais obtusos da miserável plebe.
Eu explico-me. Sebald passou a ser entendido como uma marca distintiva, a fronteira entre a afirmação da intelectualidade e o simples gosto, meramente romanesco, de certa forma frívolo e superficial, pela Literatura. Em suma, eu sebaldo, logo tenho autoridade literária.

De todas as obras do escritor germânico e publicadas em Portugal, confesso que entre as que menos apelaram a uma certeza de encanto ou à minha exteriorização, sob que forma fosse, de um fascínio literário conta-se, precisamente, Austerlitz. Todavia, seria deveras indecente e falacioso afirmar que não gostei do romance na sua totalidade, mas também não tenho qualquer pejo em asseverar que a dita obra em nada contribuiu para o engrandecimento da minha cultura literária – ou o que se lhe quiser chamar.
Por outro lado, a obra Os Anéis de Saturno, publicada em 2006 pela Teorema, é de um enfado e de uma banalidade auto-indulgente, pontuada, no entanto, por algumas passagens reconhecidamente brilhantes. No mesmo ano, a mesma editora publicou a extraordinária História Natural da Destruição, de tom eminentemente ensaísta, Sebald percorre os horrores da II Guerra Mundial não se furtando à análise da devastação infligida pela força aérea dos Aliados em cidades alemãs como Hamburgo e Dresden, para além de fazer um minucioso retrato dos autores e da Literatura alemã durante e após o conflito.
Finalmente, não li Os Emigrantes.
Em Vertigens. Impressões, Sebald, parte de personagens reais como Franz Kafka e Stendhal (Henri Beyle), através das viagens que empreendeu na década de 1980 por Viena, Veneza, Verona, Riva e até uma deliciosa história sobre a sua estância nas margens do lago Garda, para terminar com uma brilhante narração da deambulação pela sua terra natal Wertach, na Baviera, e das pungentes reminiscências, indelevelmente marcadas na sua memória, assim como a do seu confronto com a realidade, a luta entre o retrato que os sentidos nela gravaram e aquilo que eles agora transmitem que, quer por corroboração, quer por uma dolorosa refutação, têm a capacidade de agitar o fundo daquilo que julgáramos ser, sob a forma de uma vertigem que simultaneamente nos paralisa e angustia.

«Por isso, aconselha Beyle, não devemos comprar gravuras com as lindas vistas ou perspectivas que observamos em viagem. É que uma gravura depressa ocupa por inteiro o lugar da lembrança que temos das coisas, pode-se até dizer que acaba por a destruir.» (pág. 11)

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
W.G. Sebald, Vertigens. Impressões. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 202 pp. (tradução de Telma Costa; obra original: Schwindel. Gefühle, 1990).


Nota: Para uma descrição mais pormenorizada da obra consultar a crítica “
De Viena a Verona, na pista de Stendhal e Franz Kafka” de José Mário Silva (a crítica a seu dono) publicada no Diário de Notícias em 28 de Abril último.