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sábado, 17 de outubro de 2009

João Tordo, com todo o mérito

É oficial, João Tordo é o vencedor do Prémio Literário José Saramago (de periodicidade bienal) de 2009 (que, segundo o blogue da revista Ler, passará a anual a partir deste ano, com a atribuição seguinte a ocorrer já em 2010) pelo seu magnífico romance As Três Vidas, publicado em 2008 pela editora matosinhense QuidNovi – a talho de foice, refira-se que é a segunda vez (e consecutiva) que o prémio galardoa uma obra publicada por esta editora.
Fiquei duplamente satisfeito com a notícia. No que respeita ao primeiro motivo poder-me-ão apontar alguma vacuidade (como se me importasse), pela vaidade, porquanto assenta no orgulho da confirmação de um dos meus livros preferidos editados em 2008, que mereceu neste mesmo espaço a minha apreciação, em jeito de recensão: fôlego, dizia eu.
Em segundo lugar, e apesar de não conhecer pessoalmente o João Tordo, esta realidade alternativa a que convencionámos chamar de blogosfera, teve o condão de me fazer aproximar do João através da palavra impressa em hipertexto. Embora, muitos desses encontros se hajam declarado em encarniçados recontros clubísticos. O João tem o terrível defeito de amar o vermelho das papoilas saltitantes – para saúde dele, espero que expurgadas do leite modorrento que lhes corre pelos veios, meio metafórico pelo uso deliberado da mentira sobre o povo, segundo os íntegros e translúcidos dirigentes soviéticos de 1917 até 1989 –, por aqui, como é sabido, a chama do dragão continua a manter intacto um horizonte de esperança sob a óptica do vencedor.

Parabéns, João.

Para os mais preguiçosos na activação da ligação supracitada, aqui fica um excerto do que escrevi, há quase um ano, a propósito da leitura de As Três Vidas, um panegírico envolvendo Borges e Kafka (João em boa companhia):
«As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.»
Lista dos vencedores do Prémio Literário José Saramago desde a sua fundação:
2007 – valter hugo mãeO remorso de Baltasar Serapião (QuidNovi)
2005 – Gonçalo M. TavaresJerusalém (Caminho)
2003 – Adriana LisboaSinfonia em Branco (Temas e Debates)
2001 – José Luís PeixotoNenhum Olhar (Temas e Debates)
1999 – Paulo José MirandaNatureza Morta (Cotovia)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Fôlego

Foi a palavra que me surgiu de forma espontânea, tremulando com toda a sua carga polissémica, assim que abri a página em branco do processador de texto, à laia da libertação automática de impulsos de Breton, para escrever alguma coisa e tentar caracterizar a obra de ficção literária que acabara de desfrutar por completo havia pouco mais de vinte e quatros horas.

[Este texto permaneceu encerrado na pasta de arquivo “não publicado”, que guarda os inúmeros ficheiros reprimidos deste blogue, há quase uma semana; um terrível ataque de pudor sem origem e razão certas, levaram-me a este indescritível aferrolhamento; bom, angústia, talvez advinda de uma lesadíssima auto-estima, ultrapassada].

A obra. Trata-se de As Três Vidas, o último romance publicado pelo jovem escritor lisboeta João Tordo (n. 1975) – o seu terceiro, depois de O Livro dos Homens sem Luz (2004) e do fascinante Hotel Memória (2007).
Fôlego: desmedido, em termos literários, em inspiração; meticuloso, ritmos narrativos bem medidos, uma urdidura tecida em filigrana, extraordinária gestão de expectativas; exigência, sem intervalos e outros intoxicantes, de uma leitura atenta, de uma paz de espírito que nos retire o complexo de culpa do consumo de tempo originado por uma vontade voraginosa de o ler de uma só assentada.
Uma abertura suficientemente cativante, auxiliada por um frontispício denodadamente ilusório:

«Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espectáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambulismo.» (pág. 11)

O protagonista, narrador omnipresente de uma história pontualmente feliz, matizada de uma pungente e indelével inquietude, uma pátina de melancolia, vivida durante um quarto de século, é um banal jovem lisboeta nascido em 1960, que terminando o liceu no início da década de 1980, procura emprego, após um hiato estival de indolência, como meio de ajudar a mãe, mentalmente perturbada após a morte prematura e trágica do pai, e a irmã de dezoito anos. Encontra-o, num anúncio de jornal. Irá trabalhar na Quinta do Tempo, situada nas cercanias de Santiago do Cacém, onde o espera um jardineiro muito especial, Artur, e um patrão esquivo e enigmático, de seu nome António Augusto Millhouse Pascal.
O trabalho é suficientemente repetitivo e enfadonho, que um cheque chorudo no final do mês não dá azo à desistência; catalogar e indexar as fichas de uma série de clientes que frequentam a Quinta, desconhecendo-se o objecto e a missão dos serviços que lhes são prestados.
Intercalada com o entra e sai de pessoas misteriosas de todas as nacionalidades, que de certa forma parecem ter estado ligadas a um passado brutal, surge a história dos três netos de Millhouse Pascal que calcorreiam os jardins da casa aos fins-de-semana – estudam em Cascais durante a semana num colégio inglês – de onde se destaca a jovem Camila, que depois da centelha inicial, despertou um fogo impetuoso e inextinguível no coração do pobre narrador, a que se junta o estranho desaparecimento de Adriana, a filha do patrão, que, segundo a própria filha Camila, apesar da integral perda de contacto com a progenitora, se encontra em Nova Iorque a praticar funambulismo.
Está dado o mote para o desenvolvimento de uma narrativa que, com a seus momentos decisivos, fatalmente directores das vidas dos personagens e do próprio local de todos os mistérios no Alentejo, conduzem o leitor a um labirinto emblematicamente borgiano, tão bem utilizado por Auster nas suas narrativas do acaso, a que se junta o insólito arrevesado tipicamente kafkiano; a obstinação sem fim à vista.

Borges, um leitor atento e apreensivo de Kafka, referia-se-lhe como o escritor da postergação infinita – aludindo ao paradoxo de Zenão de “Aquiles e a Tartaruga”, da busca perpétua –, cuja presença o autor argentino identificava com maior acuidade em dois dos seus três (inacabados) romances, O Castelo (Das Schloss, 1925) e O Processo (Der Prozess, 1925), e em alguns dos seus contos, onde aquele destacava a narrativa curta “A construção da muralha da China” (Beim Bau der Chinesischen Mauer, pub. 1931) como o paradigma dessa postergação, de infinito múltiplo.
As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.
A subordinação concentrada no personagem aglutinador de toda a trama, o misterioso António Augusto Millhouse Pascal, leva o narrador a uma viagem detectivesca no espaço e no tempo, ou seja, servindo-se do cruzamento das duas dimensões para tentar entender o alvoroço da sua situação presente. Todavia, mesmo que surjam as respostas para as suas inquietações através do achamento de determinadas pontas soltas, a que o narrador atribui a autoria ao mero acaso, a insatisfação subsiste, o convencimento da insignificância da sua existência é o obstáculo para a obtenção de uma visão geral multifacetada, que lhe escorre por entre os dedos como água, sem hipótese de a deter.
Em João Tordo, ou na sua obra, que uma simples releitura de Hotel Memória pode confirmar, não há soluções finais, nem desenlaces; existe antes a aparência de um fim, como uma imagem para dúvida existencial, para o desassossego, para a contínua dilaceração da alma.

«Se eu fosse um homem diferente, com mais imaginação, talvez pudesse acreditar – e fazer-vos acreditar – que os mistérios que perpassaram esta narrativa irão, um dia, encontrar a sua resposta; estou convencido, contudo, de que muitas coisas permanecem eternamente veladas e, com o passar do tempo, aprendi a viver com esta resignação. Por vezes, claro, é impossível evitar os enigmas que me atormentam (…); e, ao desejar sarar as minhas feridas com a lógica absurda deste mundo que, a cada hora que passa, me parece mais distante, zombando dos espíritos que ousam desafiá-lo, compreendo a inutilidade desta empreitada.» (pág. 301)

E não é este o mistério da vida?

Que se me perdoe o ar de graça com a hipérbole paradoxal, As Três Vidas é uma obra de um sufocante fôlego literário.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo
, As Três Vidas. Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Setembro de 2008, 304 pp.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Terapia

«Ainda hoje não sei o que penso da literatura, não tenho opinião formada. Creio que serve o seu propósito de maneira diferente para pessoas diferentes. No meu caso, a literatura foi sempre um bálsamo, um plano de fuga, presente nas alturas de maior necessidade. Em última análise, seria ainda um instrumento para veicular a verdade, se nos encontrássemos perante a necessidade de o fazer e possuíssemos o talento necessário.»
João Tordo, As Três Vidas, pág. 244.
[Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Setembro de 2008, 304 pp.]

Um exercício de verdade: a fuga… maldita e cara fuga.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Escolhas [actualizado]

Na edição n.º 960 do JL (a última nas bancas) João Tordo e José Luís Peixoto postam, sem mais comentários, as suas preferências literárias – secção “os livros da minha vida” – subdivididas por duas tabelas de dez entradas cada: (1) obras de autores portugueses e (2) obras de autores estrangeiros.
Deixando de parte as escolhas nacionais, onde constam nomes como Vergílio Ferreira, Aquilino, Torga e Cardoso Pires para Tordo e Raul Brandão, Herberto Hélder, Herculano, Soeiro Pereira Gomes e Ruy Belo para Peixoto, unindo-os autores como os imprescindíveis Eça, Saramago, Lobo Antunes e Pessoa – não lhes perdoando, apenas, o pecadilho de não haverem incluído, pelo menos, uma obra de Agustina–, são mais interessantes as escolhas de obras de autores estrangeiros, desde logo porque, pela primeira vez, desde que o JL publica a referida secção, com elas irmano os meus gostos literários.
Embora não tema o costumeiro e blogosférico apodo de intruso no campo das letras, atrevo-me a asseverar que, tanto João Tordo (n. 1975), como José Luís Peixoto (n. 1974) são já, no ano da Graça de 2007, valores seguros da literatura nacional, prometendo, se a vida lhes permitir, o não fenecimento de um género literário que muito me agrada e que muitos rotulam, jocosamente, de pós-modernista.
Ao contrário dos rotuladores do regime, não entendo, por um lado, em toda a sua plenitude semântica, o conceito de pós-modernismo; descortino-lhe alguns traços, porém não lhe vislumbro uma estrutura sólida, hermética, com objecto, missão, meios e, talvez, alvos pré-definidos. Por outro lado, se ser pós-modernista permite dá o direito ao autor de se incluir num grupo constituído por Beckett, Pynchon, Ishiguro, Borges, McEwan, DeLillo, Bellow, Auster ou Philip Roth, então, quem tem medo do pós-modernismo?

Eis a selecção oficial (efectuei algumas correcções e acrescentei a editora, no caso de a obra se encontrar editada em Portugal):

João Tordo
  • Edgar Allen Poe – Histórias Completas (Arcádia);
  • Javier Cercas – O Inquilino (Asa);
  • William S. Burroughs – Junky (Editorial Notícias);
  • Ian McEwan – Expiação (Gradiva);
  • Patrick McGrath – Spider, A Teia da Loucura (Presença);
  • George Orwell – Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (Antígona);
  • Paul Auster – A Trilogia de Nova Iorque (Asa);
  • Fiodor Dostoievski – Crime e Castigo (Presença);
  • Herman Melville – Moby Dick (Relógio D’Água);
  • James Joyce – Gente de Dublin (Livros do Brasil).

José Luís Peixoto

  • Walt Whitman – Canto de Mim Mesmo (Assírio & Alvim);
  • Albert Cohen – Bela do Senhor (Círculo de Leitores);
  • William Faulkner – O Som e a Fúria (Dom Quixote);
  • Fiodor Dostoievski – O Idiota (Presença);
  • Marguerite Yourcenar – Memórias de Adriano (Ulisseia);
  • Juan Rulfo – Pedro Páramo (Cavalo de Ferro);
  • Charles Bukowski – Ham on Rye;
  • L.F. Céline – Viagem ao Fim da Noite (Ulisseia);
  • Dave Eggers – What is the What;
  • Peter Singer – Ética Prática (Gradiva).

Eu (n. 1972) identifico-me com esta geração. Para além das obras de sua autoria, a quase totalidade dos seus 20 livros faz parte de Os Meus Livros.

[Adenda, às 23:24]: a (minha) identificação atrás referida, parte do princípio (talvez erróneo) que os autores procuraram construir as suas listas seleccionando, na sua maioria, obras pertencentes à literatura contemporânea de ficção. Como notou o Henrique, com algumas excepções, faltam os grandes clássicos e as grandes obras ou tratados filosóficos. Suponho não ter sido esse o espírito do desafio. Mas como referi, trata-se apenas de uma suposição minha… talvez, crédula e pueril, porém, válida.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Memória

Fosse porventura um crítico literário – que com alguma (des)ventura não sou, nem anseio ser, talvez pelo perigo que representa transformar o objecto do meu prazer num melancólico instrumento de trabalho – cuja recensão decidisse o destino da obra analisada, João Tordo (n. 1975) ter-me-ia apanhado à 5.ª página, pela epígrafe de Hotel Memória:
«Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios.»
Por um díspar acaso quis a púbere vontade aliada às contingências da vida que não o fosse. E se o tivesse sido, percorrendo os atalhos que tentadoramente os outros nos vão colocando na inevitável interacção social, possivelmente a marca Auster não pudesse ser ostentada com tanta veemência para seguir os firmes cânones da isenção e quiçá da erudição, da estranha convenção de pós-modernista aposta ao poeta do acaso.
Recenseia, mas não te deixes apanhar nas malhas do minimalismo literário e pelos labirintos desassossegados da memória, onde a sombra de um beco parece espreitar a cada esquina dobrada sem que se vislumbre o fim.
A metadiegese é um dos recursos literários de eleição do escritor norte-americano. Aliás, embora não possa ser considerado o pioneiro na área – lembremo-nos de Edgar Allan Poe ou de Jorge Luis Borges –, Auster é hoje considerado como ficcionista ímpar no emprego desse recurso tantas vezes repudiado pela crítica e mais vezes repreendido pelo público que se perde nos tais labirintos narrativos.

Por muito que se tente repudiar, ou até negar, numa recalcitrante escassez de abertura à liberdade criativa, austeriano será em breve um adjectivo que o crescente uso consagrará no vocabulário dos vários idiomas, como se pode constatar, por exemplo, através de uma simples busca do termo nos motores de pesquisa à disposição do utilizador na internet.
Hotel Memória é um romance austeriano por excelência, não só pelo uso da distintiva metadiegese, mas também pelo papel primordial desempenhado pelo acaso nas intrincadas linhas com que se vai cosendo a narrativa. Porém, o romance também transpira Melville não só através das directas alusões às obras de que o protagonista se servirá nas mais diversas ocasiões, como Moby Dick e Bartleby – este último será o apelido que irá adoptar nas suas labirínticas deambulações nova-iorquinas – como na perceptível estrutura existencialista da própria obra, quer na demanda obsessiva por respostas, quer na angustiante busca pela redenção.
Depois, para além de um Bartleby obsessivo, há Samuel, Daniel e Russell: Tratem-me por Ismael (a famosa frase de abertura de Moby Dick, e presumivelmente a voz do próprio Melville, uma alegoria bíblica, o símbolo dos desgarrados deste mundo).
Com a epígrafe e as referências literárias que vão sendo feitas ao longo do romance, Tordo não nega a inspiração e as influências na construção da história. Trata-se de uma brilhante associação Auster/Melville, sabendo-se que o primeiro nunca negou as grandes influências do segundo no seu trabalho (aliás, o contrário seria verdadeiramente impossível).
De linguagem firme, decidida, sem arabescos e com diálogos curtos e incisivos, Hotel Memória prende o leitor pela surpreendente cadência dos acontecimentos. Tal como o inspirador, o inspirado – João Tordo – conseguiu levar-me a momentos de puro choque, sem dramas gratuitos e sensacionalistas, mas pela verosimilhança, pela dura realidade que poderá surgir a qualquer momento e na imperceptível, porém curta, distância do limite de uma existência feliz ao abismo do sofrimento, da solidão, do desespero e da indigência humana.
A luta. Esta constante luta.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo, Hotel Memória. Lisboa: QuidNovi, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 221 pp.