«As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.»
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
sábado, 17 de outubro de 2009
João Tordo, com todo o mérito
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Fôlego
A obra. Trata-se de As Três Vidas, o último romance publicado pelo jovem escritor lisboeta João Tordo (n. 1975) – o seu terceiro, depois de O Livro dos Homens sem Luz (2004) e do fascinante Hotel Memória (2007).
Fôlego: desmedido, em termos literários, em inspiração; meticuloso, ritmos narrativos bem medidos, uma urdidura tecida em filigrana, extraordinária gestão de expectativas; exigência, sem intervalos e outros intoxicantes, de uma leitura atenta, de uma paz de espírito que nos retire o complexo de culpa do consumo de tempo originado por uma vontade voraginosa de o ler de uma só assentada.
Uma abertura suficientemente cativante, auxiliada por um frontispício denodadamente ilusório:
«Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espectáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambulismo.» (pág. 11)
Intercalada com o entra e sai de pessoas misteriosas de todas as nacionalidades, que de certa forma parecem ter estado ligadas a um passado brutal, surge a história dos três netos de Millhouse Pascal que calcorreiam os jardins da casa aos fins-de-semana – estudam em Cascais durante a semana num colégio inglês – de onde se destaca a jovem Camila, que depois da centelha inicial, despertou um fogo impetuoso e inextinguível no coração do pobre narrador, a que se junta o estranho desaparecimento de Adriana, a filha do patrão, que, segundo a própria filha Camila, apesar da integral perda de contacto com a progenitora, se encontra em Nova Iorque a praticar funambulismo.
Está dado o mote para o desenvolvimento de uma narrativa que, com a seus momentos decisivos, fatalmente directores das vidas dos personagens e do próprio local de todos os mistérios no Alentejo, conduzem o leitor a um labirinto emblematicamente borgiano, tão bem utilizado por Auster nas suas narrativas do acaso, a que se junta o insólito arrevesado tipicamente kafkiano; a obstinação sem fim à vista.
Borges, um leitor atento e apreensivo de Kafka, referia-se-lhe como o escritor da postergação infinita – aludindo ao paradoxo de Zenão de “Aquiles e a Tartaruga”, da busca perpétua –, cuja presença o autor argentino identificava com maior acuidade em dois dos seus três (inacabados) romances, O Castelo (Das Schloss, 1925) e O Processo (Der Prozess, 1925), e em alguns dos seus contos, onde aquele destacava a narrativa curta “A construção da muralha da China” (Beim Bau der Chinesischen Mauer, pub. 1931) como o paradigma dessa postergação, de infinito múltiplo.
As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.
A subordinação concentrada no personagem aglutinador de toda a trama, o misterioso António Augusto Millhouse Pascal, leva o narrador a uma viagem detectivesca no espaço e no tempo, ou seja, servindo-se do cruzamento das duas dimensões para tentar entender o alvoroço da sua situação presente. Todavia, mesmo que surjam as respostas para as suas inquietações através do achamento de determinadas pontas soltas, a que o narrador atribui a autoria ao mero acaso, a insatisfação subsiste, o convencimento da insignificância da sua existência é o obstáculo para a obtenção de uma visão geral multifacetada, que lhe escorre por entre os dedos como água, sem hipótese de a deter.
Em João Tordo, ou na sua obra, que uma simples releitura de Hotel Memória pode confirmar, não há soluções finais, nem desenlaces; existe antes a aparência de um fim, como uma imagem para dúvida existencial, para o desassossego, para a contínua dilaceração da alma.
«Se eu fosse um homem diferente, com mais imaginação, talvez pudesse acreditar – e fazer-vos acreditar – que os mistérios que perpassaram esta narrativa irão, um dia, encontrar a sua resposta; estou convencido, contudo, de que muitas coisas permanecem eternamente veladas e, com o passar do tempo, aprendi a viver com esta resignação. Por vezes, claro, é impossível evitar os enigmas que me atormentam (…); e, ao desejar sarar as minhas feridas com a lógica absurda deste mundo que, a cada hora que passa, me parece mais distante, zombando dos espíritos que ousam desafiá-lo, compreendo a inutilidade desta empreitada.» (pág. 301)
Que se me perdoe o ar de graça com a hipérbole paradoxal, As Três Vidas é uma obra de um sufocante fôlego literário.
Classificação: ***** (Muito Bom)
Referência bibliográfica:
João Tordo, As Três Vidas. Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Setembro de 2008, 304 pp.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Terapia
«Ainda hoje não sei o que penso da literatura, não tenho opinião formada. Creio que serve o seu propósito de maneira diferente para pessoas diferentes. No meu caso, a literatura foi sempre um bálsamo, um plano de fuga, presente nas alturas de maior necessidade. Em última análise, seria ainda um instrumento para veicular a verdade, se nos encontrássemos perante a necessidade de o fazer e possuíssemos o talento necessário.»
João Tordo, As Três Vidas, pág. 244.
[Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Setembro de 2008, 304 pp.]
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Escolhas [actualizado]
Deixando de parte as escolhas nacionais, onde constam nomes como Vergílio Ferreira, Aquilino, Torga e Cardoso Pires para Tordo e Raul Brandão, Herberto Hélder, Herculano, Soeiro Pereira Gomes e Ruy Belo para Peixoto, unindo-os autores como os imprescindíveis Eça, Saramago, Lobo Antunes e Pessoa – não lhes perdoando, apenas, o pecadilho de não haverem incluído, pelo menos, uma obra de Agustina–, são mais interessantes as escolhas de obras de autores estrangeiros, desde logo porque, pela primeira vez, desde que o JL publica a referida secção, com elas irmano os meus gostos literários.
Embora não tema o costumeiro e blogosférico apodo de intruso no campo das letras, atrevo-me a asseverar que, tanto João Tordo (n. 1975), como José Luís Peixoto (n. 1974) são já, no ano da Graça de 2007, valores seguros da literatura nacional, prometendo, se a vida lhes permitir, o não fenecimento de um género literário que muito me agrada e que muitos rotulam, jocosamente, de pós-modernista.
Ao contrário dos rotuladores do regime, não entendo, por um lado, em toda a sua plenitude semântica, o conceito de pós-modernismo; descortino-lhe alguns traços, porém não lhe vislumbro uma estrutura sólida, hermética, com objecto, missão, meios e, talvez, alvos pré-definidos. Por outro lado, se ser pós-modernista permite dá o direito ao autor de se incluir num grupo constituído por Beckett, Pynchon, Ishiguro, Borges, McEwan, DeLillo, Bellow, Auster ou Philip Roth, então, quem tem medo do pós-modernismo?
Eis a selecção oficial (efectuei algumas correcções e acrescentei a editora, no caso de a obra se encontrar editada em Portugal):
João Tordo
- Edgar Allen Poe – Histórias Completas (Arcádia);
- Javier Cercas – O Inquilino (Asa);
- William S. Burroughs – Junky (Editorial Notícias);
- Ian McEwan – Expiação (Gradiva);
- Patrick McGrath – Spider, A Teia da Loucura (Presença);
- George Orwell – Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (Antígona);
- Paul Auster – A Trilogia de Nova Iorque (Asa);
- Fiodor Dostoievski – Crime e Castigo (Presença);
- Herman Melville – Moby Dick (Relógio D’Água);
- James Joyce – Gente de Dublin (Livros do Brasil).
José Luís Peixoto
- Walt Whitman – Canto de Mim Mesmo (Assírio & Alvim);
- Albert Cohen – Bela do Senhor (Círculo de Leitores);
- William Faulkner – O Som e a Fúria (Dom Quixote);
- Fiodor Dostoievski – O Idiota (Presença);
- Marguerite Yourcenar – Memórias de Adriano (Ulisseia);
- Juan Rulfo – Pedro Páramo (Cavalo de Ferro);
- Charles Bukowski – Ham on Rye;
- L.F. Céline – Viagem ao Fim da Noite (Ulisseia);
- Dave Eggers – What is the What;
- Peter Singer – Ética Prática (Gradiva).
Eu (n. 1972) identifico-me com esta geração. Para além das obras de sua autoria, a quase totalidade dos seus 20 livros faz parte de Os Meus Livros.
[Adenda, às 23:24]: a (minha) identificação atrás referida, parte do princípio (talvez erróneo) que os autores procuraram construir as suas listas seleccionando, na sua maioria, obras pertencentes à literatura contemporânea de ficção. Como notou o Henrique, com algumas excepções, faltam os grandes clássicos e as grandes obras ou tratados filosóficos. Suponho não ter sido esse o espírito do desafio. Mas como referi, trata-se apenas de uma suposição minha… talvez, crédula e pueril, porém, válida.
quarta-feira, 28 de março de 2007
Memória
Fosse porventura um crítico literário – que com alguma (des)ventura não sou, nem anseio ser, talvez pelo perigo que representa transformar o objecto do meu prazer num melancólico instrumento de trabalho – cuja recensão decidisse o destino da obra analisada, João Tordo (n. 1975) ter-me-ia apanhado à 5.ª página, pela epígrafe de Hotel Memória:«Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios.»
Por um díspar acaso quis a púbere vontade aliada às contingências da vida que não o fosse. E se o tivesse sido, percorrendo os atalhos que tentadoramente os outros nos vão colocando na inevitável interacção social, possivelmente a marca Auster não pudesse ser ostentada com tanta veemência para seguir os firmes cânones da isenção e quiçá da erudição, da estranha convenção de pós-modernista aposta ao poeta do acaso.
Recenseia, mas não te deixes apanhar nas malhas do minimalismo literário e pelos labirintos desassossegados da memória, onde a sombra de um beco parece espreitar a cada esquina dobrada sem que se vislumbre o fim.
A metadiegese é um dos recursos literários de eleição do escritor norte-americano. Aliás, embora não possa ser considerado o pioneiro na área – lembremo-nos de Edgar Allan Poe ou de Jorge Luis Borges –, Auster é hoje considerado como ficcionista ímpar no emprego desse recurso tantas vezes repudiado pela crítica e mais vezes repreendido pelo público que se perde nos tais labirintos narrativos.
Por muito que se tente repudiar, ou até negar, numa recalcitrante escassez de abertura à liberdade criativa, austeriano será em breve um adjectivo que o crescente uso consagrará no vocabulário dos vários idiomas, como se pode constatar, por exemplo, através de uma simples busca do termo nos motores de pesquisa à disposição do utilizador na internet.
Hotel Memória é um romance austeriano por excelência, não só pelo uso da distintiva metadiegese, mas também pelo papel primordial desempenhado pelo acaso nas intrincadas linhas com que se vai cosendo a narrativa. Porém, o romance também transpira Melville não só através das directas alusões às obras de que o protagonista se servirá nas mais diversas ocasiões, como Moby Dick e Bartleby – este último será o apelido que irá adoptar nas suas labirínticas deambulações nova-iorquinas – como na perceptível estrutura existencialista da própria obra, quer na demanda obsessiva por respostas, quer na angustiante busca pela redenção.
Depois, para além de um Bartleby obsessivo, há Samuel, Daniel e Russell: Tratem-me por Ismael (a famosa frase de abertura de Moby Dick, e presumivelmente a voz do próprio Melville, uma alegoria bíblica, o símbolo dos desgarrados deste mundo).
Com a epígrafe e as referências literárias que vão sendo feitas ao longo do romance, Tordo não nega a inspiração e as influências na construção da história. Trata-se de uma brilhante associação Auster/Melville, sabendo-se que o primeiro nunca negou as grandes influências do segundo no seu trabalho (aliás, o contrário seria verdadeiramente impossível).
De linguagem firme, decidida, sem arabescos e com diálogos curtos e incisivos, Hotel Memória prende o leitor pela surpreendente cadência dos acontecimentos. Tal como o inspirador, o inspirado – João Tordo – conseguiu levar-me a momentos de puro choque, sem dramas gratuitos e sensacionalistas, mas pela verosimilhança, pela dura realidade que poderá surgir a qualquer momento e na imperceptível, porém curta, distância do limite de uma existência feliz ao abismo do sofrimento, da solidão, do desespero e da indigência humana.
A luta. Esta constante luta.
Classificação: **** (Bom)
Referência bibliográfica:
João Tordo, Hotel Memória. Lisboa: QuidNovi, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 221 pp.
