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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mia Couto // A Biblioteca de Babel [pub]

O autor moçambicano Mia Couto estará na Livraria Pára e Lê, em Vila Praia de Âncora, no próximo dia 12 de Junho (quinta-feira) pelas 18 horas, para uma sessão de autógrafos no âmbito do seu novo livro Venenos de Deus, Remédios do Diabo.

Livraria Pára e Lê // Rua 31 de Janeiro 47-A // 4910-455 Vila Praia de Âncora

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Saiu para o mercado mais um livro da colecção A Biblioteca de Babel de literatura fantástica, organizada por Jorge Luis Borges (1899-1986) com editor italiano Franco Maria Ricci (n. 1937) e publicada em Portugal pela Editorial Presença:
Edgar Allan Poe, A Carta Roubada (A Biblioteca de Babel n.º 8)

Do prefácio de Borges:
«As neuroses e a pobreza de Poe foram grandes desgraças, sem dúvida alguma, mas a vida reservou-lhe uma felicidade sem fim: a invenção e a realização de uma obra esplêndida. Poderia acrescentar-se que a desgraça foi o instrumento necessário dessa obra.
Há cerca de setenta anos, sentado no último degrau de uma escada que já não existe, li "The pit and the pendulum"; já me esqueci das vezes que, depois, o li, reli ou pedi que mo lessem; sei que ainda não cheguei à última vez e que voltarei ainda à prisão quadrangular que se vai comprimindo e ao abismo sem fundo.»

[Números anteriores: 1 – Gustav Meyrink, O Cardeal Napellus; 2 – Pedro Antonio de Alarcón, O Amigo da Morte; 3 – Giovanni Papini, O Espelho que foge; 4 – Henry James, Os Amigos dos Amigos; 5 – Arthur Machen, A Pirâmide de Fogo; 6 – Villiers de l'Isle-Adam, O Convidado das Últimas Festas; 7 – G.K. Chesterton, O Olho de Apolo.]

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Ruínas – (VnS IV, epílogo)

Quatro citações, ou melhor, três possíveis epígrafes e uma citação deliberada. A segunda serviu de epígrafe ao texto de onde foi retirada a primeira. O autor da terceira influenciou decisivamente os labirintos narrativos do autor da primeira, a quem este chamou em “El conto policial” de o Pai da literatura do género, criando com Os Crimes da Rua Morgue o primeiro mistério do quarto fechado – um crime é cometido dentro de um quarto onde aparentemente ninguém pôde entrar, sendo, ademais, descartada a hipótese de suicídio – e ambos são, declaradamente, duas fontes de inspiração primordiais para o autor da quarta citação.

«Com alívio, com admiração, com terror, compreendeu que ele próprio também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo.»
Jorge Luís Borges, “As Ruínas Circulares”, Ficções (Ficciones, 1944)

«E se ele deixasse de sonhar contigo, onde pensas que estarias?»
Lewis Carroll, Alice do outro lado espelho (Through the Looking Glass, 1871)

«Is all that we see or seem / But a dream within a dream?»
Edgar Allan Poe, A Dream within a Dream (1849)

«Não vai acabar nunca. Porque Mr. Blank é um de nós agora, e, por muito que se debata para compreender a sua provação, acabará sempre por se sentir perdido. […] Sem ele nós não somos nada, mas o paradoxo é que nós, as criaturas imaginadas por uma outra mente, sobreviveremos à mente que nos criou, já que, a partir do momento em que somos lançadas no mundo, continuamos a existir para sempre, e as nossas histórias continuam a ser contadas, mesmo depois da nossa morte.»
Paul Auster, Viagens no Scriptorium, pág. 114.


Depois do mais dissemelhante de todos os seus romances, As Loucuras de Brooklyn (Brooklyn Follies, 2005), Auster regressa à prosa metaficcional com Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007).
«O velho está sentado na beira da cama estreita, mão abertas fincadas nos joelhos, cabeça baixa, olhos fixos no chão.» (frase de abertura da obra, pág. 7).
O velho é Mr. Blank, um homem confuso, «encalhado no meio das criaturas que povoam a sua imaginação». Mr. Blank encontra-se fechado num quarto de uma só janela com a cortina corrida. Não sabe se a porta está trancada, não sabe se para lá da cortina poderá ver o mundo – que mundo? – enquanto ouve, lá fora, «o grito esbatido de um pássaro». Mas, de momento, aquilo que o atormenta é o não saber responder à pergunta primordial que abre todo um universo repleto de novas perguntas: «Quem é ele? Que faz aqui? Quando chegou e quanto tempo permanecerá aqui?» (pág. 7)
Blank não sabe, mas sobre si existe um mecanismo de vigilância que escrutina todos os seus movimentos. A tangibilidade resume-se a um conjunto de objectos, sobre os quais estão apostos rótulos com os seus respectivos nomes: um candeeiro, uma cama, uma secretária com um manuscrito nela pousado, uma cadeira, onde se senta e balança o corpo, e, de repente, sem o mínimo esforço, surge-lhe a primeira revelação, embora difusa, obscurecida, distante sem que consiga mensurar essa distância, fraca para responder às perguntas que o atormentam. Sobre o seu passado ocorre-lhe uma vaga memória de um cavalo de balouço, Whitey, «e que, na mente da criança que Mr. Blank foi, não era um objecto de madeira pintado de branco, mas um ser vivo, um cavalo de verdade», onde no seu dorso percorria os caminhos traçados pela sua imaginação. A imaginação como construtora da realidade.
A partir deste ponto ao quarto acorrerá um conjunto de pessoas diferentes entre si, cada um por sua vez, umas que o ajudam nas tarefas diárias, físicas e fisiológicas, essenciais à sua sobrevivência, e outras que, munidas de uma autoridade cujas origem e legitimidade não compreende, lhe recordam a árdua tarefa que tem pela frente, como uma pena que terá de cumprir pelo mal que lhes infligiu no passado.
Em Viagens no Scriptorium temos Auster numa reflexão profunda, apesar da enganosa superficialidade, talvez provinda de uma leitura negligente ou até intencionalmente desvirtuada, sobre a literatura e a arte de contar histórias, sobre o criador e a intertextualidade da sua obra, sobre a zona nebulosa entre a realidade e a ficção, o sonho e a verdade.
Nesta obra reencontramos Auster no seu campo predilecto, a navegar em territórios que só ele, de momento, sabe explorar: a efabulação metadiegética, quem manipula quem, quem conta a história, o confronto entre o criador e os sujeitos da sua criação, o epítome da narrativa circular que nesta obra é provida de personagens pertencentes a obras anteriores, aqui como lá forjadas pelo potencial onírico de um homem que quis contar histórias a um público ávido de ilusão, de um inebriamento provocado por uma sensação de plausibilidade ou de verosimilhança da sua mais arreigada utopia.
Não erro se disser que esta é uma obra do autor para os seus leitores mais fiéis. Auster completou 60 anos no ano de estreia de Viagens no Scriptorium, e os seus fãs agradecem-lhe, à laia de comemoração, o engenhoso desfile de personagens que povoaram os seus imaginários pelo acto, puro e simples, de leitura das suas obras de ficção que, para um austeriano, se conseguem identificar com alguma facilidade no decurso da narrativa: No País das Últimas Coisas, A Trilogia de Nova Iorque, A Noite do Oráculo, Palácio da Lua, Leviathan ou O Livro das Ilusões.
Auto-indulgente? Auto-referencial? Manipula sem critério os seus personagens, e com isso os seus leitores, julgando dispor de um poder especial de emanação divina?
Deixem-me sonhar, porque é com o sonho que me alento perante a realidade e com a criação artística que vou descobrindo a verdade.
Se parares de sonhar…
Escuro.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Paul Auster, Viagens no Scriptorium. Porto: Asa, 1.ª edição, Setembro de 2007, 115 pp. (tradução de José Vieira de Lima; obra original: Travels in the Scriptorium, 2007).


Já a seguir: Men in the Dark.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Memória

Fosse porventura um crítico literário – que com alguma (des)ventura não sou, nem anseio ser, talvez pelo perigo que representa transformar o objecto do meu prazer num melancólico instrumento de trabalho – cuja recensão decidisse o destino da obra analisada, João Tordo (n. 1975) ter-me-ia apanhado à 5.ª página, pela epígrafe de Hotel Memória:
«Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios.»
Por um díspar acaso quis a púbere vontade aliada às contingências da vida que não o fosse. E se o tivesse sido, percorrendo os atalhos que tentadoramente os outros nos vão colocando na inevitável interacção social, possivelmente a marca Auster não pudesse ser ostentada com tanta veemência para seguir os firmes cânones da isenção e quiçá da erudição, da estranha convenção de pós-modernista aposta ao poeta do acaso.
Recenseia, mas não te deixes apanhar nas malhas do minimalismo literário e pelos labirintos desassossegados da memória, onde a sombra de um beco parece espreitar a cada esquina dobrada sem que se vislumbre o fim.
A metadiegese é um dos recursos literários de eleição do escritor norte-americano. Aliás, embora não possa ser considerado o pioneiro na área – lembremo-nos de Edgar Allan Poe ou de Jorge Luis Borges –, Auster é hoje considerado como ficcionista ímpar no emprego desse recurso tantas vezes repudiado pela crítica e mais vezes repreendido pelo público que se perde nos tais labirintos narrativos.

Por muito que se tente repudiar, ou até negar, numa recalcitrante escassez de abertura à liberdade criativa, austeriano será em breve um adjectivo que o crescente uso consagrará no vocabulário dos vários idiomas, como se pode constatar, por exemplo, através de uma simples busca do termo nos motores de pesquisa à disposição do utilizador na internet.
Hotel Memória é um romance austeriano por excelência, não só pelo uso da distintiva metadiegese, mas também pelo papel primordial desempenhado pelo acaso nas intrincadas linhas com que se vai cosendo a narrativa. Porém, o romance também transpira Melville não só através das directas alusões às obras de que o protagonista se servirá nas mais diversas ocasiões, como Moby Dick e Bartleby – este último será o apelido que irá adoptar nas suas labirínticas deambulações nova-iorquinas – como na perceptível estrutura existencialista da própria obra, quer na demanda obsessiva por respostas, quer na angustiante busca pela redenção.
Depois, para além de um Bartleby obsessivo, há Samuel, Daniel e Russell: Tratem-me por Ismael (a famosa frase de abertura de Moby Dick, e presumivelmente a voz do próprio Melville, uma alegoria bíblica, o símbolo dos desgarrados deste mundo).
Com a epígrafe e as referências literárias que vão sendo feitas ao longo do romance, Tordo não nega a inspiração e as influências na construção da história. Trata-se de uma brilhante associação Auster/Melville, sabendo-se que o primeiro nunca negou as grandes influências do segundo no seu trabalho (aliás, o contrário seria verdadeiramente impossível).
De linguagem firme, decidida, sem arabescos e com diálogos curtos e incisivos, Hotel Memória prende o leitor pela surpreendente cadência dos acontecimentos. Tal como o inspirador, o inspirado – João Tordo – conseguiu levar-me a momentos de puro choque, sem dramas gratuitos e sensacionalistas, mas pela verosimilhança, pela dura realidade que poderá surgir a qualquer momento e na imperceptível, porém curta, distância do limite de uma existência feliz ao abismo do sofrimento, da solidão, do desespero e da indigência humana.
A luta. Esta constante luta.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo, Hotel Memória. Lisboa: QuidNovi, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 221 pp.