Mostrar mensagens com a etiqueta George Steiner. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta George Steiner. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Em colapso

Hoje (ontem) ficou a saber-se que Pedro Mexia, subdirector da Cinemateca Portuguesa, abandonou as coisas muito lá da casa pelos expiatórios motivos pessoais. E não se atrevam a esquadrinhar os fundamentos que conduziram à demissão de Mexia de um cargo público – assuntos pessoais, assunto encerrado. E por favor, que não se aproveite este momento para engendrar a lusa questiúncula da escassez de verbas ou de uma incompatibilidade de carácter, ou até política de dirigente(+)/dirigente(-): um argumento rendilhado, novelesco e com toque melodramático, de conflitos ou de desinteligências com a nova directora (ver o que aqui proferi sobre esta eminência parda) empossada há meio ano – a tal que, por ser amiga pessoal do vulto Bénard, ganhou num ápice o estatuto de cinéfila e de erudita da coisa fílmica, e que o magnânimo aparelho socialista colocou sob o foco ardente do cinematógrafo.
Os motivos foram pessoais e há que aceitá-los porque, desta feita, a sua invocação até pode ser manifestamente verdadeira, e ninguém está disposto a, e com coragem para, contrariar a potencial pátina de verdade.
Como indicou a TSF, a notícia encontrava-se postada, sob a forma de uma singela e lacónica mensagem,  no blogue pessoal do demissionário.
Contudo, não posso negar as evidências e esconder a agitação que abalroou as minhas defesas da emoção desamarrada. A notícia do foro lisboeto-empolado teve uma virtude, a de me poder voltar a inebriar com o Lei Seca – motivos pessoais confessáveis e não financiados pelos impostos da Nação estiveram na sua origem, id est, afastamento da blogosfera, um invencível cansaço intelectual pelas expostas melancolias saturninas e pelos epigramas de índole ciorânica (permita-se-me a colagem ao eminente, e maior polímato vivo, George Steiner, para fazer dele a minha opinião sobre a arengada aforística do romeno da guarda de ferro – cf. “Da Concisão”, George Steiner em The New Yorker, Gradiva, 1.ª edição). Abalançado pela prosa curta, esquadrinhei alguns textos e detive-me nestas duas frases de uma mesma talhada cinéfila, a derrotista e a sentenciosa, respectivamente: «Chegámos a finais de Julho e confirma-se: este ano cinematográfico é fraco» e «Scorsese e von Trier entraram em colapso». Quanto ao dinamarquês, e fazendo uma pequeno esforço de memória sobre a sua filmografia, ele próprio é a personificação do colapso – aquele último onde uma auto-excisão é absurdamente dedicada a Tarkovski... ah, então aquela fantochada de antanho com a gritante (é literal) islandesinha cega é de pôr os cabelos em pé. No que respeita ao italo-americano, faço votos para que continue a colapsar desta forma por muitos e bons anos. E, a talho de foice, deixo aqui ficar o texto de um dos raríssimos críticos cinematográficos cujas críticas me servem de guia – embora, nesta matéria, preserve até ao ridículo do absoluto a minha independência estética. Eis Roger Ebert sobre Shutter Island, apreciação publicada no Chicago Sun-Times a 17 de Fevereiro deste ano:
«“Shutter Island” starts working on us with the first musical notes under the Paramount logo’s mountain, even before the film starts. They’re ominous and doomy. So is the film. This is Martin Scorsese’s evocation of the delicious shuddering fear we feel when horror movies are about something and don’t release all the tension with action scenes. In its own way it’s a haunted house movie, or make that a haunted castle or fortress. Shutter Island, we’re told, is a remote and craggy island off Boston, where a Civil War-era fort has been adapted as a prison for the criminally insane. We approach it by boat through lowering skies, and the feeling is something like the approach to King Kong’s island: Looming in gloom from the sea, it fills the visitor with dread. To this island travel U.S. marshal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) and his partner Chuck Aule (Mark Ruffalo).
It’s 1954, and they are assigned to investigate the disappearance of a child murderer (Emily Mortimer). There seems to be no way to leave the island alive. The disappearance of one prisoner might not require the presence of two marshals unfamiliar with the situation, but we never ask that question. Not after the ominous walls of the prison arise. Not after the visitors are shown into the office of the prison medical director, Dr. Cawley, played by Ben Kingsley with that forbidding charm he has mastered.
It’s clear that Teddy has no idea what he’s getting himself into. Teddy – such an innocuous name in such a gothic setting. Scorsese, working from a novel by Dennis Lehane, seems to be telling a simple enough story here; the woman is missing, and Teddy and Chuck will look for her. But the cold, gray walls clamp in on them, and the offices of Cawley and his colleagues, furnished for the Civil War commanding officers, seem borrowed from a tale by Edgar Allan Poe.
Scorsese the craftsman chips away at reality piece by piece. Flashbacks suggest Teddy’s traumas in the decade since World War II. That war, its prologue and aftermath, supplied the dark undercurrent of classic film noir. The term “post-traumatic shock syndrome” was not then in use, but its symptoms could be seen in men attempting to look confident in their facades of unstyled suits, subdued ties, heavy smoking and fedoras pulled low against the rain. DiCaprio and Ruffalo both affect this look, but DiCaprio makes it seem more like a hopeful disguise.
The film’s primary effect is on the senses. Everything is brought together into a disturbing foreshadow of dreadful secrets. How did this woman escape from a locked cell in a locked ward in the old fort, its walls thick enough to withstand cannon fire? Why do Cawley and his sinister colleague Dr. Naehring (Max von Sydow, ready to play chess with Death) seem to be concealing something? Why is even such a pleasant person as the deputy warden not quite convincingly friendly? (He’s played by John Carroll Lynch, Marge’s husband in “Fargo,” so you can sense how nice he should be.) Why do the methods in the prison trigger flashbacks to Teddy’s memories of helping to liberate a Nazi death camp?
These kinds of questions are at the heart of film noir. The hero is always flawed. Scorsese showed his actors the great 1947 noir “Out of the Past,” whose very title is a noir theme: Characters never arrive at a story without baggage. They have unsettled issues, buried traumas. So, yes, perhaps Teddy isn’t simply a clean-cut G-man. But why are the others so strange? Kingsley in particular exudes menace every time he smiles.
There are thrilling visuals in “Shutter Island.” Another film Scorsese showed his cast was Hitchcock’s “Vertigo,” and we sense echoes of its hero’s fear of heights. There’s the possibility that the escaped woman might be lurking in a cave on a cliff, or hiding in a lighthouse. Both involve hazardous terrain to negotiate, above vertiginous falls to waves pounding on the rocks below. A possible hurricane is approaching. Light leaks out of the sky. The wind sounds mournful. It is, as they say, a dark and stormy night. And that’s what the movie is about: atmosphere, ominous portents, the erosion of Teddy’s confidence and even his identity. It’s all done with flawless directorial command. Scorsese has fear to evoke, and he does it with many notes.
You may read reviews of “Shutter Island” complaining that the ending blindsides you. The uncertainty it causes prevents the film from feeling perfect on first viewing. I have a feeling it might improve on second. Some may believe it doesn’t make sense. Or that, if it does, then the movie leading up to it doesn’t. I asked myself: OK, then, how should it end? What would be more satisfactory? Why can’t I be one of those critics who informs the director what he should have done instead?
Oh, I’ve had moments like that. Every moviegoer does. But not with “Shutter Island.” This movie is all of a piece, even the parts that don’t appear to fit. There is a human tendency to note carefully what goes before, and draw logical conclusions. But – what if you can’t nail down exactly what went before? What if there were things about Cawley and his peculiar staff that were hidden? What if the movie lacks a reliable narrator? What if its point of view isn’t omniscient but fragmented? Where can it all lead? What does it mean? We ask, and Teddy asks, too.»

Nota: Já agora, eis as minhas breves impressões deixadas neste blogue sobre o mesmo filme.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Imaginação Moral

«Ao contrário de muitos críticos contemporâneos que durante os últimos anos adquiriram uma reputação súbita nos Estados Unidos, Steiner não se dispõe a ler para ficar desapontado, e nunca encarou a actividade crítica como uma oportunidade para adoptar posturas profundamente desdenhosas.»
Robert Boyers, “Introdução”, p. 14. In George Steiner, George Steiner em The New Yorker [Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Junho de 2010, 417 pp; tradução de Joana Pedroso Correia e Miguel Serras Pereira; obra original: George Steiner at The New Yorker, 2008.]
Muito haveria para dizer partindo do curto período atrás citado, retirado do prefácio de autoria do coordenador (não, não se trata do eufemista Louçã) da antologia de ensaios escritos para a revista norte-americana The New Yorker por George Steiner e que, com louvor e consideração – não sem uma pequena reprimenda pela contumaz preguiça editorial de marca lusa* –, a Gradiva traduziu e publicou há cerca de um par de semanas em Portugal, sobre a ortodoxia e o reaccionarismo que se apoderou da crítica literária praticada em solo americano e que se estendeu, de forma pandémica, à crítica literária ocidental, inclusivamente nos cantinhos geográficos propensos à expansão da mediocridade dos visionários de um só olho. Discute-se e muito a técnica, ignora-se a estética e exalta-se a ética literárias – por outras palavras, fazendo uso do conhecimento quase científico da primeira, subordina-se a segunda a um conjunto de interesses de índole diversa que se subsumem nos princípios prevalecentes da terceira num dado momento. Descarta-se a imaginação em detrimento de um manual de bons costumes, de uma cartilha que implicitamente homenageia a obtusidade filistina, pois a arte – imaginação, criatividade, integridade estilística – é menorizada em favor de apriorismos políticos pseudoculturais, ou melhor, segue-se uma agenda económica, garroteada pelos subsídio-saqueadores, e, sobretudo, política, travestida de uma verdade oracular pela untuosa eminência auto-alardeada, apoiada pelo inebriante caleidoscópio contemporâneo dos novos canais promocionais – uma espécie de proliferação acelerada de Rui “brilhantina” Santos, ainda de menor calibre, com acesso privilegiado e exclusivo, porém irrestrito, a uma Delfos, que bem pode ser a Amadora ou Gondomar.
Os que confundem este movimento com a democratização da opinião, são os mesmos que, no seu afã libertário (contrário às convicções íntimas), acabam por criar mitos autocráticos, os monstros da opinião postados em torres de marfim, emprenhando um conjunto de seguidores cegos pelo falso brilho do logro bem vendido, e ainda mais medíocres que o justo progenitor, o que é bem mais atentatório para a evangelizada liberdade de expressão – causa arrebatada pela percebida autoridade moral publicitada, que mais não é que um narcisismo degenerado, porque a distorção mental é de tal ordem que não lhes permite sequer divisar a sua própria imagem numa hesitante superfície reflectora.
É assim a arte na mão dos políticos, burocratas e plutocratas (que proliferam pela actividade dos dois primeiros grupos), roubada aos artistas pelos sequazes da domação da criatividade. Passo a passo vai-se construindo o decálogo de onde emanará a feroz liturgia: e venha a nós a vossa crítica, ó sumo-sacerdote do realismo novecentista, engrandece os livros escritos pelos teus correligionários, publicados pelo grupo editorial da tua mulher e amigos, reprova a abstracção como liberdade criativa. Não denegarás o discurso indirecto livre…
*Nota: a edição lusa deste livro, para além de alguns pecadilhos de tradução detectados logo no primeiro e gigantesco ensaio (por exemplo, troca-se “MI5” por “M15”), enferma do habitual nacional-forretismo, um dos principais derivados do nacional-porreirismo. De facto, os responsáveis da Gradiva não só eliminaram o essencialíssimo “índice remissivo” – peça fundamental em obras com esta configuração –, como também suprimiram um importante “anexo” que continha, na edição original, a listagem completa de todos os artigos publicados por Steiner na icónica revista norte-americana. Assim como, em nenhuma parte do texto em português se faz referência à, jamais negligenciável, data de publicação – percorri o livro de lés a lés e… nada de datas, que permitiriam descortinar a envolvente e o enquadramento histórico no momento em que os escritos foram produzidos e publicados.
Assim sendo, deixo aqui ficar um auxiliar de minha lavra [tudo o que figurar entre parêntesis rectos], para aqueles que fazem tenções de se aventurar na 1.ª edição desta obra (esperando, porventura em vão, uma correcção para a 2.ª):
–––O Sacerdote da traição [sobre Anthony Blunt; “The Cleric of Treason”; 08/12/1980]
–––Wien, Wien, Nur du Allein [sobre Anton Webern & Viena; 25/06/1979]
–––De Profundis [sobre o Volume III do Arquipélago de Gulag de Aleksandr Solzhenitsyn; 04/09/1978]
–––Espiões de Deus [sobre O Factor Humano de Graham Greene; “God’s Spies”; 08/05/1978]
–––Da Casa dos Mortos [sobre Albert Speer; “From the House of the Dead”; 19/04/1976]
–––De Mortuis [sobre Philippe Ariès & O Homem Perante a Morte; 22/06/1981]
–––Mil Anos de Solidão [sobre Salvatore Satta; “One Thousand Years of Solitude”; 19/10/1987]
–––Matar o Tempo [sobre Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell; “Killing Time”; 12/12/1983]
–––Danúbio Negro [sobre Karl Kraus & Thomas Bernhard; “Black Danube”; ”21/07/1986]
–––B. B. [sobre Bertolt Brecht; 10/09/1990]
–––Uneasy Rider [sobre Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas de Robert M. Pirsig; 15/04/1974]
–––Uma Ave Rara [sobre Guy Davenport; “Rare Bird”; 30/11/1981]
–––Cartas Perdidas [sobre John Barth; “Dead Letters”; 31/12/1979]
–––Tigres no Espelho [sobre Jorge Luis Borges; “Tigers in the Mirror”; 20/06/1970]
–––Do Cambiante e do Escrúpulo [sobre Samuel Beckett; “Of Nuance and Scruple”; 27/04/1968]
–––Aos Olhos do Oriente [sobre Aleksandr Solzhenitsyn & outros russos; “Under Eastern Eyes”; 11/10/1976]
–––Homem-Gato [sobre Louis-Ferdinand Céline; “Cat Man”; 24/08/1992]
–––O Amigo de um Amigo [sobre Walter Benjamin & Gershom Scholem; “The Friend of a Friend”; 22/01/1990]
–––Uma Sexta-Feira Má [sobre Simone Weil; “Bad Friday”; 02/03/1992]
–––O Jardim Perdido [sobre Claude Lévi-Strauss; “The Lost Garden”; 03/06/1974]
–––Da Concisão [sobre E.M. Cioran; “Short Shrift”; 16/04/1984]
–––Velhos Olhos Cintilantes [sobre Bertrand Russell; “Ancient Glittering Eyes”; 19/08/1967]
–––Uma História de Três Cidades [sobre as Memórias de Elias Canetti; “A Tale of Three Cities”; 22/11/1982]
–––Le [sic] Morte d’Arthur [sobre Arthur Koestler; “La Morte D’Arthur”; 11/06/1984]
–––As Línguas do Homem [sobre Noam Chomsky; “The Tongues of Man”; 15/11/1969]
–––Uma Morte de Reis [sobre Xadrez; “A Death of Kings”; 07/09/1968]
–––Dar a Palavra [sobre James Murray & o Oxford English Dictionary; “Give the Word”; 21/11/77]
–––Uma Vida Examinada [sobre Robert Hutchins & a Universidade de Chicago; “An Examined Life”; 23/10/1989]

Imagem: (cf. Metamorfoses de Ovídio) reprodução de Eco e Narciso, de Nicolas Poussin (1594-1665), circa 1630, óleo sobre tela (Museu do Louvre, Paris).

quarta-feira, 5 de março de 2008

Sem paciência

Sem a mínima pachorra para as habituais pseudo-recensões – ao contrário de outros apocalípticos, este blogue segue inexoravelmente para implosão, leia-se mente arrevesada que não sabe o quer – aqui ficam três imagens de três livros que li nas últimas semanas, unindo-os a publicação em 2008 no mercado português dos livros.
As respectivas notas de apreciação seguem, como é hábito – homessa, alguns hábitos são difíceis de extinguir, mesmo recorrendo ao rapazinho nuclear – directamente para a coluna do lado direito dedicada aos livros editados este ano.
Extraordinariamente tocante (atendendo à idiossincrasia do alter-ego literário), fina ironia (as provas) e erudição (nas parábolas), e a tal que supostamente era mas não passou da prima-do-mestre-de-obras (literatura regional e do usurpado, tirada semi-nabokoviana), e isto, respectivamente (já não sei de quê):



Nota: amanhã, talvez (Doce?, e se tiver paciência, lá está?) postarei aqui um grupo de 50 obras de pressão (incentivado por um comentário da Cristina ao texto anterior).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O pirómano relutante

(continuando a série: EA Sports to the game!)

«Brod em lágrimas, numa noite chuvosa, na rua dos ourives e alquimistas por baixo do castelo de Praga. Cruza-se com um livreiro muito conhecido: “Por que [sic] choras, Max?” “Acabo de saber que Franz Kafka morreu.” “Oh, lamento muito. Sei da tua estima pelo moço.” “Não compreendes. Ele ordenou-me que queimasse os seus manuscritos.” “Nesse caso terás de o fazer, pela tua honra.” “Não compreendes. Franz foi um dos maiores escritores da língua alemã.” Um momento de silêncio: “Max, tenho a solução. Por que [sic] não queimas antes os teus próprios livros?”»
In George Steiner, As Lições dos Mestres.

[Lisboa: Gradiva, 2.ª edição, Outubro de 2005, pág. 69; tradução de Rui Pires Cabral; obra original: Lessons of the Masters, 2003]


A comparação do incomparável: Brod e Kafka; Virgílio e Varius; Escritório de Lourenço Pinto e Carolina Salgado