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sábado, 29 de outubro de 2011

MH & AH: 1065 páginas.


Até breve...


PS - Aquela coisa do Finkler e do finklarismo tem mesmo piada. Repousou por aqui seis meses e vale mesmo a pena ser aberto e deixá-lo respirar, especialmente devido ao denso e brumoso momento por que passa a nossa vida (bom, diga-se, a minha...) Estrelização próxima, e por muito que custe aos estrelados (e até nem desdenho dos agora escalfados em lume brando) e aos guardiões pretorianos de constelação alheia que, por nebulosa atitude, votam à matéria escura aquele que ousa tão baixo estrelar. (Dou-vos um mandamento novo, contado com o de "amai-vos uns aos outros como...", será o 12.º: Não baixamente estrelarás o teu próximo [leia-se, o meu amigo].)  

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Imaginação Moral

«Ao contrário de muitos críticos contemporâneos que durante os últimos anos adquiriram uma reputação súbita nos Estados Unidos, Steiner não se dispõe a ler para ficar desapontado, e nunca encarou a actividade crítica como uma oportunidade para adoptar posturas profundamente desdenhosas.»
Robert Boyers, “Introdução”, p. 14. In George Steiner, George Steiner em The New Yorker [Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Junho de 2010, 417 pp; tradução de Joana Pedroso Correia e Miguel Serras Pereira; obra original: George Steiner at The New Yorker, 2008.]
Muito haveria para dizer partindo do curto período atrás citado, retirado do prefácio de autoria do coordenador (não, não se trata do eufemista Louçã) da antologia de ensaios escritos para a revista norte-americana The New Yorker por George Steiner e que, com louvor e consideração – não sem uma pequena reprimenda pela contumaz preguiça editorial de marca lusa* –, a Gradiva traduziu e publicou há cerca de um par de semanas em Portugal, sobre a ortodoxia e o reaccionarismo que se apoderou da crítica literária praticada em solo americano e que se estendeu, de forma pandémica, à crítica literária ocidental, inclusivamente nos cantinhos geográficos propensos à expansão da mediocridade dos visionários de um só olho. Discute-se e muito a técnica, ignora-se a estética e exalta-se a ética literárias – por outras palavras, fazendo uso do conhecimento quase científico da primeira, subordina-se a segunda a um conjunto de interesses de índole diversa que se subsumem nos princípios prevalecentes da terceira num dado momento. Descarta-se a imaginação em detrimento de um manual de bons costumes, de uma cartilha que implicitamente homenageia a obtusidade filistina, pois a arte – imaginação, criatividade, integridade estilística – é menorizada em favor de apriorismos políticos pseudoculturais, ou melhor, segue-se uma agenda económica, garroteada pelos subsídio-saqueadores, e, sobretudo, política, travestida de uma verdade oracular pela untuosa eminência auto-alardeada, apoiada pelo inebriante caleidoscópio contemporâneo dos novos canais promocionais – uma espécie de proliferação acelerada de Rui “brilhantina” Santos, ainda de menor calibre, com acesso privilegiado e exclusivo, porém irrestrito, a uma Delfos, que bem pode ser a Amadora ou Gondomar.
Os que confundem este movimento com a democratização da opinião, são os mesmos que, no seu afã libertário (contrário às convicções íntimas), acabam por criar mitos autocráticos, os monstros da opinião postados em torres de marfim, emprenhando um conjunto de seguidores cegos pelo falso brilho do logro bem vendido, e ainda mais medíocres que o justo progenitor, o que é bem mais atentatório para a evangelizada liberdade de expressão – causa arrebatada pela percebida autoridade moral publicitada, que mais não é que um narcisismo degenerado, porque a distorção mental é de tal ordem que não lhes permite sequer divisar a sua própria imagem numa hesitante superfície reflectora.
É assim a arte na mão dos políticos, burocratas e plutocratas (que proliferam pela actividade dos dois primeiros grupos), roubada aos artistas pelos sequazes da domação da criatividade. Passo a passo vai-se construindo o decálogo de onde emanará a feroz liturgia: e venha a nós a vossa crítica, ó sumo-sacerdote do realismo novecentista, engrandece os livros escritos pelos teus correligionários, publicados pelo grupo editorial da tua mulher e amigos, reprova a abstracção como liberdade criativa. Não denegarás o discurso indirecto livre…
*Nota: a edição lusa deste livro, para além de alguns pecadilhos de tradução detectados logo no primeiro e gigantesco ensaio (por exemplo, troca-se “MI5” por “M15”), enferma do habitual nacional-forretismo, um dos principais derivados do nacional-porreirismo. De facto, os responsáveis da Gradiva não só eliminaram o essencialíssimo “índice remissivo” – peça fundamental em obras com esta configuração –, como também suprimiram um importante “anexo” que continha, na edição original, a listagem completa de todos os artigos publicados por Steiner na icónica revista norte-americana. Assim como, em nenhuma parte do texto em português se faz referência à, jamais negligenciável, data de publicação – percorri o livro de lés a lés e… nada de datas, que permitiriam descortinar a envolvente e o enquadramento histórico no momento em que os escritos foram produzidos e publicados.
Assim sendo, deixo aqui ficar um auxiliar de minha lavra [tudo o que figurar entre parêntesis rectos], para aqueles que fazem tenções de se aventurar na 1.ª edição desta obra (esperando, porventura em vão, uma correcção para a 2.ª):
–––O Sacerdote da traição [sobre Anthony Blunt; “The Cleric of Treason”; 08/12/1980]
–––Wien, Wien, Nur du Allein [sobre Anton Webern & Viena; 25/06/1979]
–––De Profundis [sobre o Volume III do Arquipélago de Gulag de Aleksandr Solzhenitsyn; 04/09/1978]
–––Espiões de Deus [sobre O Factor Humano de Graham Greene; “God’s Spies”; 08/05/1978]
–––Da Casa dos Mortos [sobre Albert Speer; “From the House of the Dead”; 19/04/1976]
–––De Mortuis [sobre Philippe Ariès & O Homem Perante a Morte; 22/06/1981]
–––Mil Anos de Solidão [sobre Salvatore Satta; “One Thousand Years of Solitude”; 19/10/1987]
–––Matar o Tempo [sobre Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell; “Killing Time”; 12/12/1983]
–––Danúbio Negro [sobre Karl Kraus & Thomas Bernhard; “Black Danube”; ”21/07/1986]
–––B. B. [sobre Bertolt Brecht; 10/09/1990]
–––Uneasy Rider [sobre Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas de Robert M. Pirsig; 15/04/1974]
–––Uma Ave Rara [sobre Guy Davenport; “Rare Bird”; 30/11/1981]
–––Cartas Perdidas [sobre John Barth; “Dead Letters”; 31/12/1979]
–––Tigres no Espelho [sobre Jorge Luis Borges; “Tigers in the Mirror”; 20/06/1970]
–––Do Cambiante e do Escrúpulo [sobre Samuel Beckett; “Of Nuance and Scruple”; 27/04/1968]
–––Aos Olhos do Oriente [sobre Aleksandr Solzhenitsyn & outros russos; “Under Eastern Eyes”; 11/10/1976]
–––Homem-Gato [sobre Louis-Ferdinand Céline; “Cat Man”; 24/08/1992]
–––O Amigo de um Amigo [sobre Walter Benjamin & Gershom Scholem; “The Friend of a Friend”; 22/01/1990]
–––Uma Sexta-Feira Má [sobre Simone Weil; “Bad Friday”; 02/03/1992]
–––O Jardim Perdido [sobre Claude Lévi-Strauss; “The Lost Garden”; 03/06/1974]
–––Da Concisão [sobre E.M. Cioran; “Short Shrift”; 16/04/1984]
–––Velhos Olhos Cintilantes [sobre Bertrand Russell; “Ancient Glittering Eyes”; 19/08/1967]
–––Uma História de Três Cidades [sobre as Memórias de Elias Canetti; “A Tale of Three Cities”; 22/11/1982]
–––Le [sic] Morte d’Arthur [sobre Arthur Koestler; “La Morte D’Arthur”; 11/06/1984]
–––As Línguas do Homem [sobre Noam Chomsky; “The Tongues of Man”; 15/11/1969]
–––Uma Morte de Reis [sobre Xadrez; “A Death of Kings”; 07/09/1968]
–––Dar a Palavra [sobre James Murray & o Oxford English Dictionary; “Give the Word”; 21/11/77]
–––Uma Vida Examinada [sobre Robert Hutchins & a Universidade de Chicago; “An Examined Life”; 23/10/1989]

Imagem: (cf. Metamorfoses de Ovídio) reprodução de Eco e Narciso, de Nicolas Poussin (1594-1665), circa 1630, óleo sobre tela (Museu do Louvre, Paris).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Amizade Volúvel

Uma sucessão de repetições, de signos, de argumentos estafados que permitam sustentar uma justificação para algo que nem eu próprio consigo compreender: a manutenção deste blogue. Começou como um vício entendido como uma amálgama de paixão pela arte de escrever e uma imperiosa necessidade de catarse, e que agora se arrasta pela rede como um tormento, em que um título de um radicalismo inusitado emerge como um combatente obstinado frente a uma vontade persistente de encerramento definitivo. Voltar ao anonimato da vidinha enfadonha – talvez seja esse o obstáculo, mesmo conhecendo o pequeníssimo alcance dos escritos aqui produzidos. Não é um lamento, nem uma falsa modéstia, é uma constatação empírica, que tarda em ser racionalizada, derrotando as emoções, essas vadias que me vão deixando nu perante o mundo.
Volto a repetir-me. Nunca mais. É o terceiro título que aponho a este blogue desde que, em 17 de Dezembro de 2005, iniciei a minha viagem quase solitária pela blogosfera – sem compromissos, vínculos, reservas e obediências, senão à minha consciência, manifestação da minha liberdade individual jamais coarctada ou circunscrita a qualquer directório.
Volto a pisar os passos históricos destes quase cinco anos. Todos os títulos tiveram a sua origem em Sophia, sempre fundamentados em estados de espírito, de cuja incansável e persistente indagação sobre a obra poética da minha autora de eleição possibilitou que pressentisse a emergência de uma harmonia perfeita entre aqueles e os poemas escolhidos que foram figurando neste espaço.
Nunca mais, bem poderia ser um título interjectivo como reacção à sentida necessidade de isolamento – uma demanda pela integridade da minha consciência, pela minha liberdade intelectual. Por vezes invejando a coragem de um eremita, outras lastimando um destino que me impuseram como forma de luta perante o fingimento, a desconsideração episódica, o desprezo intermitente, o sórdido jogo de interesses a que nenhuma amizade deveria resistir, sob pena de se transformar numa relação parasitária, aviltante e potencialmente destrutiva: a insistência na sua manutenção – por indolência, apatia ou até pelas grilhetas da mais sórdida subjugação –, vai contribuindo de forma subliminar para a alienação total do eu.
A conclusão pela interjeição, agora realizada, serve-me de argumento quase perfeito para defender que o processo corrosivo de uma convivência insana se transforme num facto irreparável – som estrídulo que me mantém alerta –, permanente, sem remissão, de pura e simples abdicação, de aprovação sem resistência de um método de tortura auto-infligida. Mas, já não são eles, somos nós o nosso inferno, em que a misantropia abusando da sua simplicidade – como é fácil desprezar os outros – se vai hospedando nos interstícios dessa fragilidade, o “nunca mais” absolutiza-se e daí a interrogação de DeLillo que decora, como epígrafe, a parte cimeira deste blogue: até onde? Qual é a chave para encontrar o equilíbrio entre a cedência desmedida inculcadora de infelicidade e o isolamento como busca da felicidade? Perante a ubiquidade do inferno, em nós, nos outros, que caminho escolher? Haverá neste caso um jogo iterativo de escolha do “mal menor” que se renova a cada segundo que passa? Para que fogueira deveremos arremessar os toros de madeira lúbrica à espera de ser lambida? Sustentar o fogo de uma amizade volúvel ou avivar lume cujas labaredas são meras manifestações de uma angústia que advém da terrível agnição dos nossos medos e distorções do espírito, outrora em estado latente, hoje alimentadas pelo rugido do silêncio do isolamento?
Abro livros com uma avidez estonteante para neles encontrar as chaves que permitam descodificar e validar o meu estado de alma, como se um todo emaranhado de caracteres se combinasse no momento exacto em que os meus olhos indagadores cruzam vorazmente esse conjunto estruturado de palavras. Recorro, pois, a Orwell e ao seu extraordinário ensaio “A Prevenção da Literatura” (1946), que parte da discussão da Areopagitica (1644) de Milton, como denúncia de todas as formas de totalitarismo que cerceiam a liberdade de expressão, intelectual e criativa. Volvidas as primeiras páginas, Orwell cita o refrão de um velho hino religioso da América puritana composto em 1873 por Philip P. Bliss (1838-1876), para demonstrar mais adiante o processo em curso da colectivização do eu, que aniquila, acima das outras artes, a literatura enquanto exercício puro dessas liberdades. O hino oitocentista baseou-se na personagem bíblica de Daniel, condenado à cova dos leões por desafiar as ordens iníquas do seu rei, Dario: «Ousa ser um Daniel, / Ousa erguer-te só; / Ousa o teu fito vincar, / Ousa dar-lhe voz.» Orwell acusa: «Para tornar este hino actual, teríamos de iniciar cada verso com a expressão “Não ouses”, já que a nossa época possui como traço peculiar o facto de os rebeldes contra a ordem vigente […] se oporem também à ideia de integridade individual.» (in George Orwell, “A Prevenção da Literatura”, Livros & Cigarros. Lisboa: Antígona, 2010, trad. Paulo Faria, p. 44).
E prossigo com Enrique Vila-Matas quando este regista no seu volúvel caderno do “deve e haver” o regresso insólito de alguém que julgara haver perdido para sempre:

«O amigo que regressou depois de um ano de ausência. Liga cá para casa só para cumprimentar e quase sem ocultar que o faz por puro compromisso. Está mais calculista do que nunca. E eu, seja como for, não faço parte do seu campo de interesses. Creio perceber que não gosta nada de mim. […] Trata-se apenas que me tem um certo afecto, mas não está interessado em mim e é muito possível que, na realidade, eu nunca tenha tido qualquer interesse para ele. Talvez se sinta melhor com gente que o admira, ou talvez melhor com outros, apenas. Não tem importância, digo para comigo. Não vejo por que razão as amizades haveriam de durar mais do que as paixões.»
Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel, p. 250 [Lisboa: Teorema, Fevereiro de 2010, 287 pp; tradução de Jorge Fallorca; obra original: Dietario Voluble, 2008].

A descoberta das marcas já profundas de uma amizade falhada que se foi alimentando de bons momentos – que, todavia, serviram para toldar equívocos, faltas de respeito e ataques implacáveis à nossa auto-estima –, tal como o fim abrupto de uma paixão, é susceptível de infundir no nosso espírito a inevitabilidade (como um pesadelo que se repete ab aeterno) de uma longa travessia por campos de destruição surrados e sombrios, que só o será – a dura constatação desse malogro – se não assumirmos uma ruptura definitiva, sem meias medidas e dando por esgotado o crédito de sucessivos pedidos de clemência, como o fogo passional que se extinguiu, cujos agravos o tempo se encarregará de dissolver pelos difusos refúgios da memória. Para isso, para evitar esse sofrimento que não se cala com um mero pedido de explicações, oriento a minha vida para um rotundo, definitivo, interjectivo e irreversível: partir, sempre; regressar, na sua significação de retroceder, calcar os caminhos já trilhados, “nunca mais!
Ah, como era sábio Antonio Machado.
Nota: na imagem acima, reprodução de Daniel na Cova dos Leões, de Peter Paul Rubens (1577-1640), circa 1615, óleo sobre tela.