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sábado, 29 de outubro de 2011

MH & AH: 1065 páginas.


Até breve...


PS - Aquela coisa do Finkler e do finklarismo tem mesmo piada. Repousou por aqui seis meses e vale mesmo a pena ser aberto e deixá-lo respirar, especialmente devido ao denso e brumoso momento por que passa a nossa vida (bom, diga-se, a minha...) Estrelização próxima, e por muito que custe aos estrelados (e até nem desdenho dos agora escalfados em lume brando) e aos guardiões pretorianos de constelação alheia que, por nebulosa atitude, votam à matéria escura aquele que ousa tão baixo estrelar. (Dou-vos um mandamento novo, contado com o de "amai-vos uns aos outros como...", será o 12.º: Não baixamente estrelarás o teu próximo [leia-se, o meu amigo].)  

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Houellebecq, finalmente

Michel Houellebecq (n. 1956)
Pelo seu romance La Carte et le territoire, num resultado de 7 votos contra 2 [Cinco à maior? Parece-me familiar…] Eis um excerto do romance galardoado, antes que me dê vontade de aqui expor e destapar a verve asinina (e até criminosa, pelas calúnia, difamação e infâmia) daqueles cuja inquestionável meia dezena no bucho não consegue fazer calar (carregar aqui para mais informações sobre a atribuição do prémio):
«Jeff Koons tinha acabado de se levantar do seu assento, os braços projectados para diante num impulso de entusiasmo. Sentado à sua frente numa otomana de couro branco parcialmente coberta de sedas, de certa forma absorto nos seus próprios pensamentos, Damien Hirst parecia encontrar-se prestes a proferir uma objecção – a sua cara estava corada, soturna. Ambos vestiam um fato preto – o de Koons, de riscas finas –, uma camisa branca e uma gravata preta. Entre os dois, na mesa de centro, permanecia um cestinho de frutas cristalizadas que nem um, nem outro, prestou qualquer atenção – Hirst bebia uma Budweiser Light.
»Atrás deles, uma pequena varanda envidraçada abria-se para uma paisagem de prédios altos que formavam uma desordem babilónica de polígonos gigantescos até aos confins do horizonte. A noite estava luminosa, o ar de uma limpidez absoluta. Podiam encontra-se no Catar ou no Dubai. Na realidade, a decoração do quarto tinha-se inspirado numa fotografia publicitária, retirada de uma publicação de luxo alemã, do hotel Emirates em Abu Dhabi.
»A testa de Jeff Koons estava ligeiramente brilhante. Com o pincel, Jed esbateu-a e recuou três passos. Decididamente, havia um problema com Koons. Hirst, no fundo, foi fácil de captar: podemos fazê-lo brutal, cínico, do tipo “eu cago sobre todos vós do alto da minha riqueza”; também se poderia fazer dele um artista revoltado (mesmo continuando rico) porfiando num trabalho angustiante sobre a morte. O seu rosto possuía algo de sanguíneo e grosseiro, tipicamente inglês, que o aproximava de um membro da claque do Arsenal. Em suma, existiam diferentes aspectos, mas que poderiam ser combinados num retrato coerente, representável, de um artista britânico típico da sua geração. Enquanto Koons parecia transmitir qualquer coisa de ambíguo, como uma combinação intransponível entre a manha ordinária de um vendedor e o entusiasmo de um asceta. Com aquela já fazia três semanas que Jed retocava a expressão de Koons a levantar-se do seu assento de braços projectados para diante num impulso de entusiasmo, como se tentasse persuadir Hirst – foi tão difícil como pintar um pornógrafo mórmon.»
Michel Houellebecq, La Carte et le territoire [parágrafos de abertura; tradução livre: AMC, 2010]
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Jogos florais

Em Outubro deste ano apareceu nos escaparates franceses o livro improvável: um livro epistolar que reúne a correspondência trocada entre dois dos mais fervorosos opositores no campo do pensamento, das ideias e da filosofia francesas: Ennemis publics (Inimigos públicos, ed. Flammarion/Grasset).
Eles são o escritor Michel Houellebecq (n. 1956) e o jornalista, ensaísta, pensador e projecto de cineasta Bernard-Henri Lévy (n. 1948), o criador do termo “Nova Filosofia” com a ajuda de Maurice Clavel, que reuniu num só grupo nomes como André Glucksmann ou Jean-Marie Benoist, com o propósito de mediatizar e de aproveitar o espaço comunicacional para difundir as sua ideias filosóficas, acercando-se das fontes de poder.

A Harper’s deste mês publicou um excerto da troca epistolar, sob a denominação Náusea (não sem uma certa ambiguidade, trata-se do título do primeiro trabalho ficcional de Sartre, a base da sua criação filosófica no campo do existencialismo), que reproduzo aqui uma parte. Um excerto de um excerto para não transformar a leitura da pessoa e meia que lê este blogue numa sensação desagradável ou enjoativa, como se houvesse ingerido um Roquefort inteiro, não esquecendo a fase que, de forma inelutável, antecede a degustação, o suplício odorífero.

«Bruxelas, 26 de Janeiro de 2008

Caro Bernard-Henri Lévy,

Tudo, como se diz, nos separa – com a excepção de um ponto fundamental: somos tanto um como o outro indivíduos assaz desprezíveis.
Especialista em golpes baixos e intrujices mediáticas, você até com as camisas brancas que veste consegue desonrar-se. Um confidente dos poderosos, elanguescendo desde a infância numa riqueza obscena, você é um exemplo acabado do que determinadas revistas de terceira categoria como a
Marianne considera a “esquerda-caviar” e que os jornalistas alemães, de forma mais elegante, chamam de Toskana-Fraktion. Filósofo sem pensamento mas não sem ligações, você é, além disso, o autor do filme mais ridículo da história do cinema*.
[Chama-me] Niilista, reaccionário, cínico, racista e um misógino vergonhoso – ainda assim, ser colocado nas posições repugnantes da direita anarquista seria uma honra injustificada, porque, fundamentalmente, eu sou apenas um bronco. Um autor insípido e sem estilo, alcancei notoriedade literária somente depois de um improvável erro de gosto cometido por críticos desorientados. Felizmente, as minhas provocações arquejantes deixaram, desde então, de os aborrecer.
Para ambos, simbolizamos perfeitamente a horrível deformação da cultura e da inteligência francesas, recentemente retratada, com severidade, no entanto justa, pela revista
Time.
Nós não contribuímos com nada de novo para o panorama da música electrónica francesa. Nem sequer aparecemos nos créditos do
Ratatui.
Estão reunidas as condições do debate.


Paris, 27 de Janeiro

O debate?
Três vias possíveis, caro Michel Houellebecq.
Via número um: Bravo. Está tudo aí. A sua mediocridade. A minha irrelevância. O vazio reverberante que domina o nosso pensamento. O gosto que temos pela comédia quando não é simples impostura. Durante trinta anos tenho-me perguntado a mim próprio como é que um tipo como eu conseguiu, e ainda consegue, criar tais ilusões. Trinta anos que, cansado de esperar pelo bom leitor que saberá desmascarar-me, eu prolongo as autocríticas cobardes, sem talento, inofensivas. E aqui estamos nós. Com a sua ajuda, sou capaz de o conseguir fazer. A sua e a minha vaidade. A minha imoralidade e a sua. Como diria outro degenerado – embora um eminente degenerado –, você mostra o seu jogo, eu mostro o meu – que alívio!
Via número dois: Você, tudo bem. Mas porquê eu? Porque é que, apesar de tudo, hei-de eu participar neste exercício de autodenigração? E porque hei-de eu segui-lo nesse gosto que você manifesta pela autodestruição fulminante, pejorativa e mortificante? Eu não gosto do niilismo. Eu odeio o ressentimento e a melancolia que vêm com ele. Penso que a literatura é a única coisa a combater este
depressionismo que, mais do que nunca, é a palavra-chave do nosso tempo. Eu posso devotar-me, nesse caso, à explicação de que há trabalhos mais prazenteiros, obras mais bem sucedidas, vidas mais harmoniosas que os desmancha-prazeres que nos detestam poderão pensar. Eu ficarei com o mau papel, aquele de Filinto contra Alceste**, e contribuirei com um aceitável tributo aos seus livros e, enquanto estiver nisso, para os meus.
Finalmente, a terceira via. Respostas à questão que formulou naquele serão no restaurante, quando a ideia deste diálogo surgiu. Porquê tanto ódio? De onde vem esse ódio?*** E donde ele vem que adquire, quando se trata de escritores, uma tonalidade, uma virulência sem extremos. Você, com efeito. Eu. Mas bem mais sério, o caso de Sartre, vomitado pelos seus contemporâneos… O de Cocteau que nunca podia ver um filme até ao fim porque tinha sempre alguém à sua espera, para lhe partir a cara, à saída… Pound dentro da sua cela… Camus dentro da sua caixa… Baudelaire a descrever, numa caligrafia terrível,
“a raça humana” conluiada contra ele… a lista seria longa. Porquanto é a história da literatura que deverá reunir tudo isso na íntegra. E possivelmente – essa é a minha tese – o próprio desejo dos escritores que deveríamos tentar compreender. Que desejo? O desejo de desagradar, veremos. O gosto da rejeição. A vertigem, o gozo, na infâmia. Você escolhe.» (p. 21) [tradução a partir do inglês, com revisão em francês (texto original): AMC]
in Harper’s, “Nausea”, December 2008, pp. 21-24.
[Michel Houellebecq e Bernard-Henri Lévy, Ennemis publics. Paris: Flammarion/Grasset, octobre, 2008, 332 pp.]

Notas do excelso tradutor deste excerto:
*Referência ao filme Le jour et la nuit de 1997, escrito e realizado por BHL, com Alain Delon e Lauren Bacall, entre outros, com uma misérrima interpretação do primeiro – críticos mais contundentes dizem que o declínio do charmoso actor francês começou, qual maldição, com este filme –, tendo sido fortemente pateado na sua estreia em Cannes, visto como o exemplo acabado de “como não fazer um filme”.
**Personagens de O Misantropo de Molière (Le Misanthrope ou l'Atrabilaire amoureux, 1666).
***A partir deste ponto, traduzido a partir do texto original em francês.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Literatura e o Mundo

Três pequenos apontamentos das relações, vulgarmente apontadas como perigosas, entre a arte literária e a política, ou a cultura como meio privilegiado para se reconquistar uma hegemonia que se perdeu.

Não é difícil de adivinhar com quem Gabriel García Márquez, o escritor colombiano semper fidelis,
resolveu comemorar o seu 80.º cumple años, fugindo dos que lhe deram a prerrogativa, através da merecida deificação da sua escrita, para cometer de forma livre estes desvarios, com um ligeiro aroma (não da goiaba, mas) da democracia professada mas não praticada. Democracia, esse conceito tão difuso e conformável às necessidades. Mas, não houve Ezra Pound, por um lado, e George Bernard Shaw, por outro? E tantos outros...

Formou-se um grupo de 44 escritores francófonos para a elaboração de um manifesto que exige uma mudança do centro geodésico da língua francesa, até hoje concentrada na Metrópole, para outros cantos do mundo onde se fala francês, como África e Caraíbas. No entanto, a chamada de atenção para os escritores francófonos fora do pentágono gaulês redunda, de forma cómica, em exemplos dessa descentralização na literatura de língua… inglesa! São apontados como exemplo a seguir nomes como Rushdie (nascido na Índia e naturalizado inglês), Ishiguro (nascido no Japão e naturalizado inglês) ou Ondaatje (nascido no Sri Lanka e naturalizado canadiano) e esquecem-se de referir quais os francófonos que poderiam ser a voz dessa mudança. Talvez eu, um lusófono não pertencente ao mundo das letras, proponha Houellebecq que nasceu na ilha de Reunião, escreve em francês e vive em Espanha; ou então a jovem esperança Jonathan Littell que, apesar de americano, vive em Espanha, casou com uma belga e publica em francês.

Finalmente, o escritor peruano Mario Vargas Llosa (meu colega de doutoramento… em matérias e épocas diferentes, porém no mesmo local) emite a sua opinião sobre a libertação de Ignacio de Juana e para o perigo de desmoronamento daquilo que o país conquistou com a denominada Transição Pacífica – que, acrescento, foi o factor que esteve na génese do contínuo afastamento do nosso país do vigor económico, social, tecnológico e cultural espanhol.

quarta-feira, 7 de março de 2007

O mundo, esse que nos inspira uma náusea manifesta

Il est vrai

Il est vrai que ce monde où nous respirons mal
N'inspire plus en nous qu'un dégoût manifeste,
Une envie de s'enfuir sans demander son reste,
Et nous ne lisons plus les titres du journal.

Nous voulons retourner dans l'ancienne demeure
Où nos pères ont vécu sous l'aile d'un archange,
Nous voulons retrouver cette morale étrange
Qui sanctifiait la vie jusqu'à la dernière heure.

Nous voulons quelque chose comme une fidélité,
Comme un enlacement de douces dépendances,
Quelque chose qui dépasse et contienne l'existence ;
Nous ne pouvons plus vivre loin de l'éternité.

La poursuite du bonheur (poèmes), por Michel Houellebecq (1992)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Venham mais quatro… (IV)

Finalmente, a quarta leitura de Janeiro de livros de 2006. Tratou-se do último romance de Michel Houellebecq, A Possibilidade de Uma Ilha (Dom Quixote). Vencedor do prestigiado Prix Interallié de 2005, atribuído preferencialmente a obras de ficção escritas por jornalistas.

Em 1932, o imortal escritor britânico Aldous Huxley publicou um livro, em jeito de romance distópico, que abalou o mundo; tratava-se do fabuloso Brave New World (Admirável Mundo Novo), onde se retratava uma sociedade cuja individualidade dos seus elementos havia sido suprida pelo autoritarismo do bem supremo social, baseado nos princípios de organização industrial de Henry Ford da massificação, da produção em série e o do primado da tecnologia sobre o ser humano. Vivia-se na era d.F., depois de Ford, o sofrimento e a infelicidade seriam abolidos; a gestação do próprio ser humano deixou de pertencer ao domínio da decisão individual para obedecer a uma lógica produtiva das necessidades de uma sociedade fortemente hierarquizada em castas de Alfas-mais até Epsilones – respectivamente, dos mais dotados e com mais direitos aos menos dotados e a quem cabia o consentido trabalho escravo. O mundo passou a ser habitado por uma sociedade meramente hedonista, onde um centro de condicionamento era responsável pela reprodução de embriões humanos e o sexo promíscuo não só era consentido como incentivado: Orgia, folia! Os problemas que inquietavam a sociedade até à revolução mundial do então longínquo século XXI foram ultrapassados através da toma de doses maciças de uma droga indutora da felicidade, a Soma, que contribui para a eliminação dos males que se soltaram no mundo assim que se abriu a Caixa de Pandora.

Houellebecq segue o rumo de Huxley e de outros eminentes romances distópicos da época – não esquecendo Orwell ou Bradbury – introduzindo o elemento novo da imortalidade através da possibilidade oferecida pela evolução da ciência genética na perpetuação indefinida do próprio indivíduo.
A Possibilidade de Uma Ilha é a história narrada por Daniel e pelos seus sucedâneos, que explicam a evolução da sociedade como hoje a conhecemos até a um aglomerado de individualidades de neo-humanos que dispensam o contacto físico e a socialização como forma de perpetuação da espécie, individualista, sem os desnecessários afectos, cujo amor, há muito dispensável por uma mentalidade hedonista cultivada a partir do finais do século XX e que resultou de uma crescente dissociação entre este e o sexo, poderia ser sentido mas não compreendido.
Aparentemente aparece-nos um Houellebecq rendido ao lirismo ao eleger o amor – o sentimento indutor da (in)felicidade e carente da reciprocidade entre dois seres humanos –, mesmo que surja, aqui e ali, de forma subentendida, como tema central da sua obra, mas que é destruído pela frialdade inerente à globalização presente das relações humanas, dominadas pelo consumismo, o egoísmo e pela busca última do prazer dissociado do efeito provocado na contraparte, apenas entendida como objecto da nossa auto-satisfação.
Mas qual é a origem da destruição do Homem como hoje o conhecemos? Que mudança comportamental fomentou até ao limite a aniquilação da condição humana?
Houellebecq fala-nos do seu princípio, da revolução sexual e da emancipação do sexo discricionário desprovido de um sentimento mais profundo, onde a dita seita eloimita funda a sua tese de perpetuação do ser humano como objecto de prazer, levando à extinção das religiões quer através da realização de OPA's, quer através do esvaziamento do seu fundamento.
Em dado momento, após o estabelecimento da carnal e animalesca relação entre Daniel e a bela e sedutora Esther, aquele rende-se à superfluidade reinante, culminado com dois dias quentes de Agosto em Madrid, plenos de lubricidade, que resultam no doloroso ponto de viragem da narrativa, na tomada de consciência do rumo que o mundo segue de forma inexorável:

«Toda a energia é de ordem sexual, não principalmente mas exclusivamente, e quando um animal não serve para se reproduzir não serve para mais nada. Acontece o mesmo com os homens; quando o instinto sexual morre, escreve Schopenhauer, está consumido o verdadeiro núcleo da vida; assim, observa ele numa metáfora de uma violência aterradora, “a existência humana assemelha-se a uma representação teatral que, iniciada por actores vivos, terminasse com autómatos vestidos com os mesmos trajes”. Eu não queria tornar-me um autómato, e fora isso, essa presença real, esse sabor da vida viva, como diria Dostoievski, que Esther me restituíra. Para quê manter em funcionamento um corpo no qual ninguém toca? E por que razão escolher um bom quarto de hotel se for para dormir sozinho? Após tantos outros afinal derrotados, apesar do escárnio e da ironia, restava-me apenas render-me: imensa e admirável, decididamente, a força do amor.» (pág. 183)

Dois dias, de muitas horas roubadas ao sono retemperador, foi o tempo que demorei a deglutir as quase 400 páginas que compõem o romance. Houellebecq tem esse dom de prender o leitor do princípio ao fim do livro. Afinal não será essa a mestria que se exige ao escritor? O puro prazer da leitura…

Classificação: ***** (Muito Bom)

domingo, 10 de dezembro de 2006

Extensão do Domínio da Luta

Decididamente, o escritor francês Michel Houellebecq*, hoje com 48 anos (nascido na Ilha de Reunião em Fevereiro de 1958), produz com os seus escritos um efeito de ambivalência modelarmente antagónica na vasta comunidade literária: ou se venera – roçando os níveis da idolatria – ou se detesta – atingindo-se a intensidade do insulto impudico e gratuito** –, sem que se consiga formular uma razão simples, iniludível e aparente que possa explicar este paroxismo afectivo provindo, designadamente, da numerosa massa leitora.
A Quasi – honra lhe seja feita – editou em Outubro passado o primeiro romance da carreira literária de Houellebecq: Extensão do domínio da luta (Extension du domaine de la lutte, 1994). Assim, resta a tradução da obra de ficção Lanzarote para que se complete, em Portugal, a edição da bibliografia (na categoria “romance”) do autor francês. Assim, em Portugal já se encontram disponíveis os títulos As Partículas Elementares (Temas e Debates, 2000; Les Particules élémentaires, 1998), Plataforma (Bertrand, 2002; Plateforme, 2001) e A Possibilidade de Uma Ilha (Dom Quixote [Salgado], 2006; La Possibilité d'une île, 2005).

Em Extensão do domínio da luta, Houellebecq, transmutado num engenheiro informático – profissão que desempenhava na realidade – que incidentalmente se vê envolvido com Ministério da Agricultura francês, revela à priori os seus já bem conhecidos traços idiossincráticos enquanto autor de literatura de ficção, por exemplo, quando confessa que frequenta “muito pouco a natureza humana, e isto a propósito do excesso de densidade descritiva dos traços de personalidade dos personagens que se entrecruzam nos romances de outros autores, num mundo que, segundo o narrador (Houellebecq) as relações humanas” se tornam “progressivamente impossíveis. Logo há que destruir a “camada de pormenores, um por um”, havendo revelado que seria preferível “observar os lavagantes a pisarem-se uns aos outros dentro de um aquário (basta ir a uma marisqueira)” a ter de seguir esse caminho de desperdício de talento (pág. 17).
Depois, a narrativa flui pela itinerância forçada que o narrador terá de fazer pela França agrícola, onde os episódios picarescos se vão sucedendo a uma cadência de tal forma inebriante que nem damos conta da iminente chegada ao fim do livro.
Das reuniões iniciais no Ministério da Agricultura, nas quais podemos vislumbrar personagens que connosco se cruzam no dia-a-dia, há a destacar o teórico (pág. 30) – cujas “intervenções serão tanto para manter a ordem sobre a importância da metodologia como, de um modo geral, para apelar à reflexão preliminar à acção” – e os manuais de procedimentos, tendo por epítome as “Directivas do plano informático do Ministério da Agricultura” que são, por exemplo, um espelho da tecnocracia do teórico modelado no regalo meta linguístico em frases como (pp. 26-27):
«O nível estratégico consiste na realização de um sistema de informação global assente na integração de subsistemas heterogéneos distribuídos»;
Onde se acrescenta esta:
«Parece ser urgente validar um modelo relacional canónico numa dinâmica organizacional simplificado a meio termo numa base de dados orientado para um fim».
Porém, a extensão do domínio da luta só se define cabalmente a meio do livro, quando o narrador refere (pág. 79)***:
«Decididamente, pensava eu, nas nossas sociedades, o sexo representa o belo, segundo um sistema de diferenciação, completamente independente do dinheiro; comporta-se como um sistema de diferenciação impiedoso. Os efeitos destes dois sistemas são pelo menos estritamente equivalentes. Tal como o liberalismo económico sem entrave e por razões análogas, o liberalismo sexual produz os fenómenos de pauperização absoluta. Alguns fazem amor todos os dias; outros, cinco ou seis vezes na vida inteira, ou então nunca. Alguns fazem amor com meia dúzia de mulheres; outros com nenhuma. É aquilo a que chamamos a “lei do mercado”. No sistema económico onde o licenciamento é proibido, cada um consegue de uma maneira ou de outra encontrar o seu lugar. Num sistema sexual onde o adultério é proibido, ninguém consegue, de uma maneira ou de outra, encontrar a sua companhia na cama. Num sistema económico perfeitamente liberal, alguns acumulam fortunas consideráveis; outros improdutivos estão no desemprego e na miséria. Num sistema sexual perfeitamente liberal, alguns têm uma vida exótica e excitante; outros estão reduzidos à masturbação e à solidão. O liberalismo económico é uma extensão do domínio da luta, a sua extensão a todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade. Do mesmo modo que o liberalismo sexual é a extensão do domínio da luta, a sua extensão acontece em todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade. No plano económico, Raphaël Tisserand [o seu colega de trabalho, feiíssimo, e companheiro nas viagens profissionais pela França], pertence à classe dos vencedores; no plano sexual, à dos vencidos. Há quem ganhe em ambos os lados, há também quem perca nos dois. As empresas disputam entre si alguns jovens licenciados; as mulheres disputam alguns jovens homens; os homens disputam algumas mulheres; o problema e a agitação são consideráveis.»

Sem ser uma obra-prima, considero o primeiro romance de Houellebecq como globalmente bom e acima de tudo divertido. As suas bem características crueza, insensibilidade e misoginia normalmente bem impressas na narrativa ainda se encontravam aqui na sua fase de incubação, não alcançando a violência dos romances seguintes, que lhe atraiu uma horda de inimigos.

No blogue
Lauro António Apresenta… existe informação mais detalhada sobre este romance e sobre o autor e as outras obras.

Notas:
* Para mais informação sobre a actualidade houellebecquiana veja-se o
blogue do autor (embora a última entrada date de 5 de Setembro deste ano).
**Veja-se a página na Internet da
Associação (intergaláctica) dos Inimigos dos Amigos de Michel Houellebecq (A.E.A.M.H.)
***Hoje, através das
mini-entrevistas do Luís Carmelo, fiquei a saber que Lauro António tem um blogue e que, curiosamente, há uma semana havia efectuado a transcrição desta parte do texto de Michel Houellebecq. Ele há coisas fantásticas, não há!?

Referência bibliográfica:
Michel Houellebecq, Extensão do domínio da luta. V. N. Famalicão: 1.ª edição, Outubro de 2006, 123 pp. (tradução de Paula Lourenço)