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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um dos melhores romances dos últimos tempos…

…adaptado ao cinema por uma dupla com um passado cinematográfico arrepiantemente inútil e vazio: Romanek & Garland. Sobre este temor pré-visionamento ler o aqui escrevi há mais de dois meses, quando recebi a notícia da pós-produção do filme que se avizinha. Pobre Ishiguro
Tal como referi em 29 de Maio último, na minha memória ainda perduram os malefícios com que, por falta de engenho, a dupla Wright & Hampton ensombrou, sem reparação possível, o meu segundo romance dos últimos tempos: refiro-me, é claro, ao filme Expiação (Atonement, 2007), baseado na obra-prima homónima de 2001 do excelso Ian McEwan.
Resta esperar para ver. Não há outro remédio. Ou então, até à data da sua estreia em Portugal (ainda não marcada), tentar iniciar um exercício de exorcização dos fantasmas de catalogação apriorística – Max von Sydow deixa de jogar xadrez com a morte, desembaraça-te da armadura e veste os paramentos…
No elenco: Keira Knightley, Carey Mulligan, Andrew Garfield, Charlotte Rampling e Sally Hawkins.
Eis o primeiro vídeo de apresentação de Nunca Me Deixes (Never Let Me Go, 2010):

sábado, 29 de maio de 2010

Temor

Ishiguro teve sorte, ou procurou-a, no momento em que vendeu os direitos do seu romance Os Despojos do Dia à indústria cinematográfica. Não sei se os vendeu bem, sei, no entanto que, por mais ou menos ponderado que se haja revestido o seu o acto de cedência, a obra-prima, Booker Prize de 1989, ficou na melhor das mãos; foi arrebatada por uma das uniões mais bem-sucedidas no escasso mundo dos verdadeiros artesãos da sétima arte, a Merchant Ivory: James Ivory realizou e Ruth Prawer Jhabvala escreveu o argumento. Independentemente dos prémios, das críticas e das receitas, Os Despojos do Dia (The Remains of the Day, 1993) – a sua beleza cénica, o seu bem doseado pathos (veja-se a epítome da fleuma e da estrita observância no cumprimento do dever em “James Stevens”), o delicado rendilhado da trama, o par eterno Emma T. & Anthony H. – ficará de forma indelével ligado ao firmamento da indústria cinematográfica. A ele já voltei meia dúzias de vezes sem que se houvesse manifestado em mim qualquer sinal de cansaço.
Kazuo Ishiguro pertence ao pequeno grupo de escritores britânicos nascidos nos anos 40 e 50 do século passado cuja bibliografia dificilmente chegará à dezena nos tempos mais próximos. É um perfeccionista, e essa qualidade detecta-se em todas as suas obras. Entre a publicação das suas histórias, o autor de origem japonesa escreveu dois argumentos para cinema para um filme de Guy Maddin (A Canção Mais Triste do Mundo; The Saddest Music in the World, 2003) e outro para James Ivory (A Condessa Russa; The White Countess, 2005), ambos premiados mas bem longe dos holofotes do sucesso. Hoje, sabe-se que o melhor romance (opinião pessoal) (Nunca Me Deixes; Never Let Me Go, 2005) do mestre Ishiguro está a ser transposto para a sétima arte – encontrando-se já na fase de pós-produção, com estreia marcada nos Estados Unidos para os primeiros dias de Outubro deste ano – pelo génio retorcido do argumentista preferido do “blasonado sem causa” Danny Boyle, Alex Garland (n. 1970). A realização ficou a cargo do norte-americano Mark Romanek (n. 1959), que para além de haver dirigido apenas duas longas-metragens ao longo da sua carreira, que começou com a comédia Static de 1985, e terminou com o mais que medíocre projecto de thriller Câmara Indiscreta (One Hour Photo, 2002), realizou uma série de telediscos para Bowie, Morrisey, Madonna, Janet e Michael Jackson e para bandas como os R.E.M., Weezer, Sonic Youth ou os Red Hot Chili Peppers.
No elenco, já disponível na base de dados do IMDB, constam nomes como Carey Mulligan no papel da doce “Kathy”, Charlotte Rampling (que, atendendo às características da personagem, ficará bem no papel da inescrutável “Miss Emily”), a leighiania Sally Hawkins e a inevitável Keira Knightley, para além do jovem grande actor Andrew Garfield – os sentimentos mistos que me despertaram, também não auguram nada de bom.
Um temor apoderou-se de mim. E é sempre assim, quando uma obra literária que me encheu as medidas é adaptada ao cinema. Ainda bem presente na minha memória está a adaptação desastrosa em 2007 do melhor romance de Ian McEwan, Expiação (Atonement, 2001) pela dupla Joe Wright & Chris Hampton, uma película que parecia filmada com um scanner (remissão para dois textos aqui escritos) que retirou toda a beleza subliminar da já canónica obra de McEwan.
Só me resta esperar para nestas páginas, se ainda por cá andar, poder zurzir na obra fílmica que se anuncia, tal é a energia acumulada pelos sentimentos de temor/cólera. Porém, uma coisa afigura-se-me como certa, nestes casos qualquer lampejo de brilhantismo pode ter o efeito pernicioso de fazer soltar a minha veia encomiástica, tão baixas são as expectativas – pernicioso? Porquê? Se a imagem que possais ter deste que vos escreve não me preocupa…
Nota: no ficheiro fotográfico acima (da esquerda para a direita), Keira Knightley (“Ruth”) e Carey Mulligan (“Kathy”) no local das filmagens.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Nocturnes, by Ishiguro

À atenção da Gradiva (editora portuguesa que publicou quatro dos seis romances do autor anglo-nipónico, que poderia ser tão expedita como o foi na publicação do último trabalho de Ian McEwan, Na Praia de Chesil):


Data de publicação no Reino Unido: 7 de Maio de 2009 (Faber and Faber).

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Kazuo regressa

Kazuo IshiguroO não prolífico escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro regressa ao mercado editorial com um inédito na sua bibliografia, um livro de contos – em 1981 publicou três contos em Introductions 7: Stories by New Writers.
Depois do extraordinário e avassalador Nunca Me Deixes (Never Let Me Go, 2005), e cumprindo de forma quase escrupulosa o seu tempo médio de publicação de obras de ficção de sua autoria (calculado em 4 anos, 7 meses e 6 dias), a
Faber and Faber (a sua editora de sempre) anunciou em circuito fechado o lançamento para Maio de 2009 de:
Nocturnes: Five Stories of Music and Nightfall, que na edição canadiana da Random House disporá de 224 páginas.

Todas as obras de ficção de Ishiguro foram publicadas em Portugal, apesar de metade delas se encontrarem esgotadas há anos:

  • As Colinas de Nagasáqui, romance editado pela Relógio D’Água em 1990 (A Pale View of Hills, 1982);
  • Um artista do mundo transitório, romance editado pela Livro Aberto em 1990 (An Artist of the Floating World, 1986) – ESGOTADO;
  • Os Despojos do Dia, romance editado pela Gradiva em 1991 (The Remains of the Day, 1989) – ESGOTADO;
  • Os Inconsolados, romance editado pela Gradiva em 1995 (The Unconsoled, 1995) – ESGOTADO;
  • Quando Éramos Órfãos, romance editado pela Gradiva em 2000 (When We Were Orphans, 2000);
  • Nunca Me Deixes, romance editado pela Gradiva em 2005 (Never Let Me Go, 2005).

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Prova de Vida

Kazuo IshiguroAfinal o prodigioso criador de Despojos do Dia (The Remains of the Day, 1989; Booker Prize), Quando Éramos Órfãos (When We Were Orphans, 2000; finalista do Booker Prize) e de Nunca Me Deixes (Never Let Me Go, 2005; finalista do Booker Prize) e de mais três romances anteriores aos mencionados, nascido em 1954 em Nagasáqui no Japão, residente em Inglaterra desde 1960, de seu nome Kazuo Ishiguro deu sinais de vida, ao ser o protagonista número 196 das célebres entrevistas The Art of Fiction publicadas na revista literária The Paris Review* (n.º 184, Spring 2008).
De qualquer modo, apesar deste ligeiro protesto em tom de exultação na qualidade de admirador da obra, é bom que se diga em prol do rigor, que Ishiguro nunca foi um escritor prolífico. Desde 1982 com a publicação do seu primeiro romance As Colinas de Nagasáqui (A Pale View of Hills) apenas se lhe sucederam mais cinco até ao ano de 2005 (o último, Nunca Me Deixes), o que perfaz um período médio “entre publicações” de 4 anos, 7 meses e 6 dias. Assim, fazendo fé nos dados obtidos pela estatística descritiva, haverá novo romance lá para o final de 2009, início de 2010 – e isto, se as derivas de argumentista para o grande ecrã não atrasarem ainda mais a publicação de nova obra de ficção…
Da entrevista, a edição da Paris Review dá destaque a um excerto:

«Nunca senti que dispusesse de um talento particular para escrever uma prosa apelativa. Eu escrevo prosa quase mundana. Julgo que sou bom entre os rascunhos. Posso olhar para um rascunho e dispor de um sem-número de boas ideias para o que irei fazer com o próximo.» [tradução livre: AMC]


Há quem diga que a humildade é a pior forma de manifestação de orgulho. Sinceramente, não creio ser esse o caso, embora essa quase certeza não se baseie num conhecimento rigoroso, no espaço e no tempo, do grau de auto-estima do escritor anglo-nipónico, que até pode dar a ler os seus manuscritos ao canalizador Fortunato (peço desculpa, pela transição abrupta para outra dimensão da divagação literária; ou cinematográfica?) antes de os entregar ao seu editor. Admiro a simplicidade da sua prosa: Ishiguro tem o dom raro de expor as grandes ideias da sua obra através de um estilo de narrativa não artificioso, cuja desafectação linguística é a sua principal característica (entenda-se, por exemplo, em nada circunloquial, contemplativa, devaneante e exageradamente descritiva), sem jamais abdicar de algum esteticismo ou cair num minimalismo grosseiro, ou até numa leveza de linguagem de romance de venda directa, com promoção, em supermercado – convém recordar que Ishiguro teve em Angela Carter (1940-1992) a sua mentora e principal guia literária, assim como em Malcolm Bradbury (1932-2000) o mestre de iniciação aos estudos pós-graduados em Literatura na Universidade de East Anglia.

Notas:
* A série de entrevistas The Art of Fiction (adiante, por mera comodidade, designada pela sigla taof) iniciou-se com a fundação da revista em 1953, cabendo o privilégio inaugural, na qualidade de entrevistado a E.M. Forster (taof n.º 1), seguindo-se o autor francês, Nobel da Literatura em 1952, François Mauriac (taof n.º 2, Summer 1953) e o britânico Graham Greene (taof n.º 3, Autumn 1953). José Saramago foi o único português que teve honras de entrevista no referido periódico (taof n.º 155, n.º 149, Winter 1998), no ano em que venceu o Nobel da Literatura.
** Se houver uma alma caridosa que, na sua qualidade de assinante da dita revista, possua a versão integral digitalizada da entrevista… o meu endereço de e-mail está mesmo ali ao lado, no meu perfil – as bases de dados não a dispõem em texto completo desde o ano 2000.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Literatura e o Mundo

Três pequenos apontamentos das relações, vulgarmente apontadas como perigosas, entre a arte literária e a política, ou a cultura como meio privilegiado para se reconquistar uma hegemonia que se perdeu.

Não é difícil de adivinhar com quem Gabriel García Márquez, o escritor colombiano semper fidelis,
resolveu comemorar o seu 80.º cumple años, fugindo dos que lhe deram a prerrogativa, através da merecida deificação da sua escrita, para cometer de forma livre estes desvarios, com um ligeiro aroma (não da goiaba, mas) da democracia professada mas não praticada. Democracia, esse conceito tão difuso e conformável às necessidades. Mas, não houve Ezra Pound, por um lado, e George Bernard Shaw, por outro? E tantos outros...

Formou-se um grupo de 44 escritores francófonos para a elaboração de um manifesto que exige uma mudança do centro geodésico da língua francesa, até hoje concentrada na Metrópole, para outros cantos do mundo onde se fala francês, como África e Caraíbas. No entanto, a chamada de atenção para os escritores francófonos fora do pentágono gaulês redunda, de forma cómica, em exemplos dessa descentralização na literatura de língua… inglesa! São apontados como exemplo a seguir nomes como Rushdie (nascido na Índia e naturalizado inglês), Ishiguro (nascido no Japão e naturalizado inglês) ou Ondaatje (nascido no Sri Lanka e naturalizado canadiano) e esquecem-se de referir quais os francófonos que poderiam ser a voz dessa mudança. Talvez eu, um lusófono não pertencente ao mundo das letras, proponha Houellebecq que nasceu na ilha de Reunião, escreve em francês e vive em Espanha; ou então a jovem esperança Jonathan Littell que, apesar de americano, vive em Espanha, casou com uma belga e publica em francês.

Finalmente, o escritor peruano Mario Vargas Llosa (meu colega de doutoramento… em matérias e épocas diferentes, porém no mesmo local) emite a sua opinião sobre a libertação de Ignacio de Juana e para o perigo de desmoronamento daquilo que o país conquistou com a denominada Transição Pacífica – que, acrescento, foi o factor que esteve na génese do contínuo afastamento do nosso país do vigor económico, social, tecnológico e cultural espanhol.