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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Gula

Há quem lamente um certo adormecimento do vigor da ficção ultimamente produzida pelo escritor inglês Ian McEwan. Servem-se do seu natural processo de envelhecimento como caixa-de-ressonância dessa inexorabilidade, contribuindo, assim, para a perda de algum do tão característico negrume nas suas obras mais recentes. Porém, até hoje e que se note, esse negrume tão idiossincrático pairou sempre sobre a sua arte de contar histórias, e neste conceito conseguimos facilmente encaixar a sua prosa concisa, furiosa, brutal, de um sadismo muitas vezes concretizado num humor negro subtil (embora pareça um contra-senso, a subtileza desse humor esconde-se nos pormenores da vulgar vastidão das suas paisagens narrativas) ou numa ironia tão fina e penetrante que, sem darmos por isso, nos atira para um labirinto cuja única saída é o assombro e a inquietação que esse espanto provoca.
Expiação (Atonement, 2001) e Solar (2010) são, à primeira vista, os seus romances mais atípicos, porquanto no primeiro se nota a presença de um certo lirismo e de um pathos não existentes nas obras anteriores e logo abandonados nas obras que se lhe seguiram: Sábado (Saturday, 2005) e a novela Na Praia de Chesil (On Chesil Beach, 2007); no segundo a deliberada hiperbolização do grotesco e as passagens de uma hilaridade de levar o leitor às lágrimas parecem fugir ao cânone mcewaniano. Nada de mais enganador, são artifícios que um McEwan mais refinado, e talvez, na aparência, um pouco menos fragoso, foi desenvolvendo com o maturar da sua escrita: as sombras, a perversidade e a perfídia irreparável encontram-se no subtexto, por muito que alguém se queira enganar com as atribulações do romance "Robbie/Cecilia" ou com as peripécias pessoais e profissionais do físico, burlesco e peripatético, "Michael Beard".
Com Mel (Sweet Tooth, 2012; ed. port. Gradiva), McEwan acrescenta à sua ficção, por um lado, a auto-referencialidade e, por outro, a sucessão vertiginosa de factos, pseudo-rupturas, acidentes e peripécias na narrativa, que se consubstanciam numa representação simbólica das famosas caixas chinesas.  
Se, por exemplo, a auto-referencialidade se evidencia sobretudo com a colectânea de contos negros Entre os Lençóis (In Between the Sheets, 1978) – porventura o mais perverso livro de McEwan, cujas histórias servirão como base para a fulgurante estreia literária de "Thomas Haley" –, afigura-se-me como tortuoso, e até de difícil justificação, deixar cair o epíteto de áspero ou negro para caracterizar Mel. A gula tão humana no crisol da sua existência.

Deixando a crítica aos recenseadores ajuramentados da nação lusa, termino com a minha sintética opinião: Mel é mais uma pérola literária do escritor inglês do Hampshire, uma obra-prima. Surpreendente, escrito numa cadência sufocante – à medida que as caixas se vão abrindo –, é mais uma proeza de um virtuoso que parece dispor de recursos infinitos para nos assombrar de uma forma irresistível e, no entanto e por agora, Serena.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Para os Gulosos, estirpe McEwaniana

Eu, pecador, pela gula bibliómana com a marca do mestre de Aldershot, me confesso.

Um mês após o lançamento em Inglaterra, a Gradiva (obrigado!) publica no nosso país Sweet Tooth:



quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Stoppard devora Franzen

Se há expressão corrente que mais me fascina, pela sua pseudo-singeleza metafórica, é aquela que retrata um bibliómano como “um devorador de livros” – sintetizando, um bibliófago –, um vulgar verme que se alimenta de papel. Todavia, este meu indomável fascínio atinge o seu clímax quando, pela metonímia, se antropomorfiza o verme criando um leitor de homens que, embebido na metáfora, se transforma num antropófago.
Na selecção anual dos melhores livros de 2010 pela insuportável equipa de críticos do diário britânico The Guardian, foi pedida a contribuição de autores consagrados, de cineastas e até do público leitor (desconheço, neste último caso, de que forma se revestiu e qual o peso atribuído à participação). Na listagem final o inevitável afilhado de Oprah, o enfatuado, e assumidamente invejoso, Jonathan Franzen, lá conquistou o lugar cimeiro com o calhamaço Freedom – uma pretensa bofetada inglesa aos seus ex-colonos americanos que ousaram em não lhe atribuir o National Book Award – e, depois, verifiquei, alvoraçando-me as entranhas, que até Bret Easton Ellis consta da lista dos 29 melhores, com aquela coisa inenarrável entre a novela e o romance em forma de livro (o que eu já aqui espumei devido à mera existência dessa bagatela literária!) Se fizerem uma simples pesquisa googliana e introduzirem as expressões “snubbed” “freedom” e “franzen” chegam a um resultado próximo das 13.300 páginas. Mas, se substituírem as duas últimas expressões na barra de pesquisa por “solar” e “mcewan” obtém-se um resultado a rondar as 1980 páginas da internet (e na maioria delas o termo “ignorado, com alguma premeditação”, nem está associado aos restantes dois). É triste, e logo na obra mais alegre e desassombrada do, a par de Ishiguro, melhor escritor inglês vivo.
Continuando nas escolhas do Guardian, constatamos que o dramaturgo Tom Stoppard também participou nos jogos florais de fim de ano, e depois de no primeiro parágrafo se haver referido, com alguma ironia, à miríade de livros que leu, logo no dealbar do ano que agora termina, sobre a implosão de Wall Street, abordou a parte mais importante e séria no segundo:
«Também este ano, retirei um enorme prazer das últimas 518 páginas do livro de Jonathan Franzen The Corrections (Fourth Estate)*, que havia posto de parte em 2001 para o ler quando tivesse tempo. Encontro-me agora na página 14 de Freedom. Altamente recomendado.» [tradução livre: AMC; nota minha: *romance publicado em Portugal em 2003 pela Dom Quixote, sob o título Correcções, que na sua 1.ª edição continha 512 páginas; já a versão referida por Stoppard contém 526 páginas (1.ª edição britânica em 2001).]

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um dos melhores romances dos últimos tempos…

…adaptado ao cinema por uma dupla com um passado cinematográfico arrepiantemente inútil e vazio: Romanek & Garland. Sobre este temor pré-visionamento ler o aqui escrevi há mais de dois meses, quando recebi a notícia da pós-produção do filme que se avizinha. Pobre Ishiguro
Tal como referi em 29 de Maio último, na minha memória ainda perduram os malefícios com que, por falta de engenho, a dupla Wright & Hampton ensombrou, sem reparação possível, o meu segundo romance dos últimos tempos: refiro-me, é claro, ao filme Expiação (Atonement, 2007), baseado na obra-prima homónima de 2001 do excelso Ian McEwan.
Resta esperar para ver. Não há outro remédio. Ou então, até à data da sua estreia em Portugal (ainda não marcada), tentar iniciar um exercício de exorcização dos fantasmas de catalogação apriorística – Max von Sydow deixa de jogar xadrez com a morte, desembaraça-te da armadura e veste os paramentos…
No elenco: Keira Knightley, Carey Mulligan, Andrew Garfield, Charlotte Rampling e Sally Hawkins.
Eis o primeiro vídeo de apresentação de Nunca Me Deixes (Never Let Me Go, 2010):

sábado, 29 de maio de 2010

Temor

Ishiguro teve sorte, ou procurou-a, no momento em que vendeu os direitos do seu romance Os Despojos do Dia à indústria cinematográfica. Não sei se os vendeu bem, sei, no entanto que, por mais ou menos ponderado que se haja revestido o seu o acto de cedência, a obra-prima, Booker Prize de 1989, ficou na melhor das mãos; foi arrebatada por uma das uniões mais bem-sucedidas no escasso mundo dos verdadeiros artesãos da sétima arte, a Merchant Ivory: James Ivory realizou e Ruth Prawer Jhabvala escreveu o argumento. Independentemente dos prémios, das críticas e das receitas, Os Despojos do Dia (The Remains of the Day, 1993) – a sua beleza cénica, o seu bem doseado pathos (veja-se a epítome da fleuma e da estrita observância no cumprimento do dever em “James Stevens”), o delicado rendilhado da trama, o par eterno Emma T. & Anthony H. – ficará de forma indelével ligado ao firmamento da indústria cinematográfica. A ele já voltei meia dúzias de vezes sem que se houvesse manifestado em mim qualquer sinal de cansaço.
Kazuo Ishiguro pertence ao pequeno grupo de escritores britânicos nascidos nos anos 40 e 50 do século passado cuja bibliografia dificilmente chegará à dezena nos tempos mais próximos. É um perfeccionista, e essa qualidade detecta-se em todas as suas obras. Entre a publicação das suas histórias, o autor de origem japonesa escreveu dois argumentos para cinema para um filme de Guy Maddin (A Canção Mais Triste do Mundo; The Saddest Music in the World, 2003) e outro para James Ivory (A Condessa Russa; The White Countess, 2005), ambos premiados mas bem longe dos holofotes do sucesso. Hoje, sabe-se que o melhor romance (opinião pessoal) (Nunca Me Deixes; Never Let Me Go, 2005) do mestre Ishiguro está a ser transposto para a sétima arte – encontrando-se já na fase de pós-produção, com estreia marcada nos Estados Unidos para os primeiros dias de Outubro deste ano – pelo génio retorcido do argumentista preferido do “blasonado sem causa” Danny Boyle, Alex Garland (n. 1970). A realização ficou a cargo do norte-americano Mark Romanek (n. 1959), que para além de haver dirigido apenas duas longas-metragens ao longo da sua carreira, que começou com a comédia Static de 1985, e terminou com o mais que medíocre projecto de thriller Câmara Indiscreta (One Hour Photo, 2002), realizou uma série de telediscos para Bowie, Morrisey, Madonna, Janet e Michael Jackson e para bandas como os R.E.M., Weezer, Sonic Youth ou os Red Hot Chili Peppers.
No elenco, já disponível na base de dados do IMDB, constam nomes como Carey Mulligan no papel da doce “Kathy”, Charlotte Rampling (que, atendendo às características da personagem, ficará bem no papel da inescrutável “Miss Emily”), a leighiania Sally Hawkins e a inevitável Keira Knightley, para além do jovem grande actor Andrew Garfield – os sentimentos mistos que me despertaram, também não auguram nada de bom.
Um temor apoderou-se de mim. E é sempre assim, quando uma obra literária que me encheu as medidas é adaptada ao cinema. Ainda bem presente na minha memória está a adaptação desastrosa em 2007 do melhor romance de Ian McEwan, Expiação (Atonement, 2001) pela dupla Joe Wright & Chris Hampton, uma película que parecia filmada com um scanner (remissão para dois textos aqui escritos) que retirou toda a beleza subliminar da já canónica obra de McEwan.
Só me resta esperar para nestas páginas, se ainda por cá andar, poder zurzir na obra fílmica que se anuncia, tal é a energia acumulada pelos sentimentos de temor/cólera. Porém, uma coisa afigura-se-me como certa, nestes casos qualquer lampejo de brilhantismo pode ter o efeito pernicioso de fazer soltar a minha veia encomiástica, tão baixas são as expectativas – pernicioso? Porquê? Se a imagem que possais ter deste que vos escreve não me preocupa…
Nota: no ficheiro fotográfico acima (da esquerda para a direita), Keira Knightley (“Ruth”) e Carey Mulligan (“Kathy”) no local das filmagens.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Lucros Climáticos


«Beard poisou uma mão no braço do amigo, um sinal certo de que tinha ultrapassado bem o seu limite.
– Escute, Toby. Estamos perante uma catástrofe. Esteja descansado.»
Ian McEwan, Solar, p. 259.
[Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Março de 2010, 338 pp.; tradução de Ana Falcão Bastos; obra original: Solar, 2010]
Um exemplar críptico mcewaniano, para leitura, descodificação, compreensão e reflexão.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Novo McEwan

Tal como aconteceu com a extraordinária novela Na Praia de Chesil (On Chesil Beach, 2007), a Gradiva (inexplicavelmente, sem ligação à sua página oficial na Internet), editora portuguesa responsável pela edição da obra do eminente escritor inglês, publica em simultâneo com as edições britânica e norte-americana a mais recente obra de ficção de Ian McEwan: Solar. Felicitações à editora.
Preparo-me, por isso, para largar tudo que vem passando debaixo dos meus olhos em matéria de literatura recreativa, assim que dispuser do exemplar de um dos escritores contemporâneos pertencentes ao meu Olimpo pessoal.
 
Excerto (1.º parágrafo):

«Ele pertencia a essa classe de homens — de aparência vagamente desagradável, muitas vezes calvos, baixos, gordos, inteligentes — que são inexplicavelmente atraentes para certas mulheres belas. Ou ele julgava que o era, e pensá-lo parecia fazer com que assim fosse. E ajudava o facto de certas mulheres estarem convencidas de que ele era um génio a precisar que o socorressem. Mas o Michael Beard dessa época era um homem mentalmente diminuído, anedónico, monotemático, devastado. O seu quinto casamento estava a desintegrar-se, e ele devia ter sabido como comportar-se, pensar a longo prazo, arcar com as culpas. Os casamentos, os seus casamentos, não se assemelhariam a marés, com um a recuar para o largo imediatamente antes de o outro vir dar à praia? Mas este era diferente. Ele não sabia como comportar-se, pensar a longo prazo fazia-o sofrer e, por uma vez, não lhe parecia haver culpas com que arcar. Era a mulher dele que estava a ter um caso, e a tê-lo de uma forma flagrante, punitiva, seguramente sem remorsos. Ele descobria no seu íntimo, por entre uma série de emoções, momentos intensos de vergonha e nostalgia. Patrice andava com um empreiteiro, o empreiteiro que trabalhava para eles, que lhes tinha rebocado a casa, equipado a cozinha, posto azulejos novos na casa de banho, o mesmo sujeito corpulento que, certa vez, durante a pausa do chá, mostrara a Beard uma fotografia da sua casa Tudor de imitação, renovada e tudorizada por suas próprias mãos, com um barco atrelado a um reboque por baixo de um candeeiro de estilo vitoriano no caminho de acesso cimentado e espaço suficiente para pôr de pé uma cabine telefónica vermelha desafectada. Beard ficou surpreendido ao descobrir como era complicado ser o marido enganado. A desventura não era simples. Que ninguém dissesse que nessa fase avançada da vida ele era imune a novas experiências.»
Ian McEwan, Solar, pp. 11-12
[Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Março de 2010, 338 pp.; tradução de Ana Falcão Bastos; obra original: Solar, 2010]

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A escolha dos livreiros

Por vezes no afã de criticar duramente as coisas que diante dos nossos olhos vão mal no nosso país, numa espécie de umbiguismo quase autista, esquecemo-nos de reparar naquilo que, potencialmente, será criticável noutros países, até nos geograficamente próximos, mesmo com níveis de desenvolvimento e de literacia superiores aos nossos.
Enquanto consultava a página da Internet da revista francesa Le Magazine Littéraire, saltou-me à vista, seguindo os meus instintos de listómano – e para além do apelativo dossier mensal, que desta feita versa sobre o marxismo e o inusitado ressurgimento comercial dos livros do barbudo alemão no mercado literário francês, provavelmente correlacionável com o ambiente económico-financeiro onde predomina um sentimento cataclísmico –, mas dizia, instigou-me uma lista de livros que será elaborada mensalmente, em colaboração com os responsáveis do sítio Le choix des libraires – os ideólogos da referida lista –, sobre as preferências dos livreiros no mercado editorial francês.
Na lista dos 20+ deste mês, um pouco chauvinista… ou melhor francesa – arrisco, porventura, são adjectivos intermutáveis –, para além de figurarem os nomes do inglês de Birmingham David Lodge, da irlandesa Nuala O’Faolain, da australiana Julia Leigh e do afegão Atiq Rahimi, com os seus mais recentes romances – ainda inéditos em Portugal –, todos os outros são franceses ou francófonos, não se incluindo, como é óbvio, o primeiro da lista – top of the list, king of the hill, a number one... perdoem-me a sinatrada – um dos melhores escritores britânicos da actualidade, Ian McEwan.
É verdade, McEwan surge no topo das preferências dos 113 livreiros franceses consultados, com o seu novo romance Sur la plage de Chesil, editado pela insigne Gallimard em meados de Setembro.
Só para recordar, o romance Na Praia de Chesil (On Chesil Beach, 2007), editado em Portugal pela Gradiva, teve, honra lhe seja feita, estreia mundial simultânea no Reino Unido e em Portugal, algures pelo mês de Abril do ano passado. A edição francesa demorou quase um ano e meio – toma lá esta! [as minhas desculpas, este blogue vai de mal a pior.]
Esquecendo todos os outros factores como o da primazia na edição para os autores de língua francesa ou o da francofilia cega, em conformidade com uma razoável anglofobia, por esta amostra a edição literária em Portugal recomenda-se e respira saúde…
Bom, mas não nos entusiasmemos…
Ainda na dita lista de preferências, figura na 18.ª posição o mais recente romance do escritor francês, natural de Le Mans, François Vallejo (n. 1960), L’Incendie du Chiado, história, como o título indica, tem por base o fatal dia 25 de Agosto de 1988 em Lisboa. Ainda assim, a obra não tem edição marcada em Portugal.

Trata-se, uma vez mais, da consagração do velho adágio (em versão pós-moderna): Quem com ferros mata, não atira pedras ao vizinho.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Filmar com scanner (II)


Diversão ingrata, esta, a que se materializa na tarefa de o admirador incondicional da obra literária ter de observar a sua transposição para o grande ecrã. Depois da sua concretização já nada do que até aí se alcançou de satisfação interior, de prazer estético, da doce saudade dos momentos de leitura, se detém nos anteriores lugares da memória, virgem, intocado, despoluído.
Em 2002, a editora Gradiva publicava a versão de Atonement para a nossa língua, obra-prima do portentoso escritor inglês Ian McEwan. Deu-lhe o título de Expiação, designativo que foi transposto para o filme de 2007, dirigido pelo realizador inglês Joe Wright, com estreia mundial em Novembro passado (antestreia no local de origem em Setembro) e já vencedor de numerosos prémios, entre eles o Globo de Ouro para Melhor Filme (Drama), recebeu 14 nomeações para os BAFTA 2008, fazendo-se uma extrapolação vitoriosa para os Óscares da Academia, cujas nomeações serão anunciadas na próxima terça-feira (quarta-feira de madrugada em Portugal).
Amesterdão (Amsterdam, 1998) venceu o Booker Prize, Expiação foi finalista vencido do mesmo prémio em 2001 (conquistado pela obra genial A Verdadeira História de Ned Kelley do escritor australiano Peter Carey), e são ambas, na minha opinião pessoal, embora estruturalmente diferentes, as suas melhores obras – já o referi dúzias vezes e não me cansarei de o repetir outras tantas, sempre que a ocasião se proporcionar, convém vincar a posição dada a constatada volatilidade de leitores assíduos deste blogue.
Porquê Expiação?
«Ao longo destes cinquenta e nove anos [1940-1999], o problema tem sido este: como pode uma escritora expiar os seus crimes se, com o poder absoluto de decidir o final, é em certa medida Deus? […] É uma tarefa impossível, e a questão foi precisamente essa. O que conta é a tentativa.
[…]
Dei-lhes a felicidade, mas não fui prestável ao ponto de permitir que me perdoassem.
»
(Expiação, Ian McEwan. Gradiva, 2.ª ed., 2005, pp. 417-418, trad. Maria do Carmo Figueira).
A realidade, dura, implacável, pode ser mais tenebrosa e sombria que a ficção:
«Se eu a entendi correctamente, você levantou uma suspeita tão medonha que eu mal tenho palavras para a descrever» (palavras dirigidas por Henry Tilney a Catherine Morland sobre as suspeitas macabras que esta levantou sobre o pai do primeiro, General Tilney, a propósito da morte da sua mulher Mrs. Tilney, in Jane Austen, Northanger Abbey, 1817; tradução livre: AMC). Estas são as escassas linhas que faltam à passagem do romance de Austen citada em epígrafe no livro Expiação de Ian McEwan.
Os anais da História da Literatura contam que Northanger Abbey surgiu como uma paródia ao movimento da literatura gótica, que despontava pelas mãos de autores como Ann Radcliffe, designadamente pela sua obra de 1794 The Mysteries of Udolpho (publicada em Portugal como Os Mistérios do Castelo de Udolfo). Austen pretendia desmistificar a literatura da ilusão, da substituição de uma realidade pelo delírio ficcionado – a miscigenação do sagrado e do profano –, que, apesar de tudo, no próprio romance de Austen, acaba por não ser menos violenta – a cupidez e a frivolidade da classe alta inglesa expia o pecado da vil difamação.
Em Expiação a realidade de Briony é mais brutal que o romance engendrado ao longo de toda uma vida: «Não há ninguém, nenhuma entidade, nenhum ser superior a quem ela possa apelar, com quem possa reconciliar-se ou que possa perdoar-lhe.» (pág. 417)
A culpa não morre. O processo de expiação é permanente, sem hipótese alguma de reparação do mal causado por um acto irreflectido perpetrado décadas antes.

Joe Wright, através do argumento de Christopher Hampton, transcreve literalmente para o ecrã o romance de McEwan – já aqui me havia referido à crítica na The New Republic por Christopher Orr, onde este falava do tal “livro filmado”.
Em boa verdade, se exceptuarmos a parte final, em que uma nada convincente Vanessa Redgrave encarna o papel de Briony Tallis aos 77 anos (em Londres, 1999) para, perante as câmaras de um estúdio televisivo – no romance trata-se apenas de um amargo e culpado monólogo interior –, contar a verdade nua e crua sobre as personagens Robbie Tuner (James McAvoy), o rapaz humilde, filho da governanta, que cresceu no seio da aristocrática família Tallis, e a sua irmã Cecilia (Keira Knightley), Wright segue fielmente a obra de McEwan com os constrangimentos imagéticos e de tempo que a adaptação de uma obra literária ao grande ecrã exige – a obra de McEwan, na edição portuguesa da Gradiva, dispões de 418 páginas. Wright cria assim a sua própria armadilha e que se reflecte, por exemplo, na necessária redução da deambulação de Robbie por território francês no início da II Guerra Mundial como soldado ao serviço do exército britânico (corresponde a mais de uma quinta parte do livro), que culmina com a violenta retirada deste último por via marítima nas desoladoras praias de Dunquerque no nordeste da França, junto à fronteira belga, enquanto os homens aguardavam a salvação eram impiedosamente bombardeados pela Luftwaffe e pela divisão Panzer. A espera em Dunquerque vê-se como uma enorme alegoria para a maldade humana materializada na guerra, que, por um lado, reforça a cadeia de acontecimentos provocadas por um acto irreflectido de uma jovem pré-púbere de 13 anos e, por outro, mostra a dureza de uma realidade bélica, comprovada factualmente nas atrocidades cometidas entre Homens no conflito mundial. Por outro lado, Wright reduz a quase nada a última parte (por sua vez subdividida em duas: (1) a narração dos factos ocorridos em 1940 por Briony aos 18 anos como principiante na prática de enfermagem; (2) a revelação da realidade por Briony, sozinha em Londres, no dia em que fez 77 anos).
Com interpretações seguras de McAvoy e de Knightley, e um soberbo desempenho da jovem actriz norte-americana Saoirse Ronan (de apenas 13 anos) na pele de Briony, com uma mais do que razoável banda sonora a cargo de Dario Marianelli (vencedor do Globo de Ouro para Melhor BSO), com um argumento difícil de avaliar dado o perceptível esforço da textualidade e, por último, com uma realização firme no início que, a partir dos acontecimentos narrados em 1940, se vai desmoronando de cliché em cliché – seguindo o movimento aparente da obra, como se a sua elaboração seguisse a sequência dos factos narrados, à medida que o filme se aproxima do fim assalta-nos a sensação de que Wright foi perdendo o fôlego, cedendo, esgotado de energia e de ideias, a um academismo artificioso, vide, entre muitas outras que abundam na parte final, a cena em que Briony de 18 anos se dá a conhecer como aprendiz de enfermeira... é, simplesmente, kitsch –, Expiação não consegue encher as medidas, carece de um toque de génio para se tornar num “grande filme”.
Trata-se de um melodrama, é certo, com todas as inferências menos abonatórias que o género pode trazer, que, aqui sim, não encaixa com o tom da obra de base. E esta dissonância, que à primeira vista poderia consubstanciar-se numa questão meramente formal, é o principal defeito do filme: está longe de captar a verdadeira essência da obra, a crueza realista e sem contemplações líricas da narrativa mcweaniana e dos seus personagens. Trata-se, em suma, sem ser um mau filme, longe disso até – dar-lhe-ia entre 7 a 8 pontos em 10 possíveis –, do cometimento cinematográfico de um pecado capital sobre o brilhantismo de uma obra que, tenho a certeza, perdurará no Olimpo literário por mais alguns séculos.
No entanto, os prémios estão aí, as previsões laudatórias têm-se vindo a confirmar, o que demonstra que para o todo o pecado, mesmo que capital, há pelo menos uma hipótese de redenção...
«Mas agora tenho de dormir.»

domingo, 9 de dezembro de 2007

Filmar com... scanner

Christopher Orr, crítico de cinema da The New Republic, escreve sobre a adaptação cinematográfica de um dos melhores romances de sempre – opinião pessoal e dificilmente alterável por mais tempo que a vida me reserve. Atonement de Ian McEwan estreou ontem no grande ecrã nos Estados Unidos, realizado por Joe Wright, com argumento a cargo do luso-britânico Christopher Hampton e com as interpretações da insossa delicodoce Keira Knightley (no papel de Cecilia Tallis), do ainda duvidoso James McAvoy (no papel de Robbie Turner) e com Vanessa Redgrave (interpretando Briony Tallis na sua fase mais angustiante e dilacerante, e isto aplica-se a qualquer leitor com um mínimo de sensibilidade, ou seja, "acima da Stallone").
Orr começa o seu artigo de forma irónica, embora formalmente errada pela contagem de palavras que “1935”, um número, atrapalha: «Atonement opens in 1935, at a stately manor in the English countryside. (Have I just explained in a dozen words why it will be nominated for Best Picture? Perhaps I have.)» (dispenso-me à tradução).
Possivelmente, vem aí uma decepção para os mcewanianos (grupo em que me incluo sem reservas) ou para os avassalados por Expiação.
Sem querer passar por um agoirento de quinta categoria, ou então, um daqueles que esperam por opinião validada para conformar a sua, cedo desconfiei deste produto cinematográfico: Wright e Knightley, Orgulho e Preconceito, pretensão de chegar ao “patamar Ivory” num filme de época baseado numa obra de romancista consagrado, apesar de Hampton. Em suma, muita beijoquice e toque sensual reprimido, com guarda-roupa a puxar à memória o horrível odor a naftalina, de elocução quase shakespeariana, em jardins soalheiros e luxuriantes.
No subtítulo, Orr diz que «a fidelidade canina [do realizador] a um grande livro não faz um grande filme». E mais adiante, no corpo do artigo, explica: «O que falta ao filme é a prosa e a ingenuidade de McEwan, cujo literalismo de Wright não consegue alcançar. Ele transcreve fielmente o romance para o ecrã, mas nunca encontra uma linguagem cinematográfica – não, o martelar da máquina de escrever não conta – que poderia fazer do filme algo mais que uma obra de arte em segunda mão, um livro filmado.» [tradução: AMC]

E voltamos uma vez mais ao tema quente da interpenetração da Literatura e do Cinema – o substantivo empregado é o correcto, dada a bidireccionalidade relacional, apesar de aqui se invocar apenas uma das vertentes –, dos graus de liberdade na adaptação de uma obra consagrada ao grande ecrã, redundando sempre no preso por ter cão

Se assim é, é uma pena. E depois, transformar a culpa íntima e perpétua, profunda e pungente, de Briony, a alma da obra-prima de McEwan, num processo expiatório dentro de um talk show televisivo é no mínimo burlesco, para não dizer profano, especialmente quando se abusa do literalismo adaptativo.

Entretanto, as vacas, esses bichos ruminantes impenitentes, continuarão a pastar celulóide nas colinas de Hollywood.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

McEwan versus Jones

Os dois favoritos entre seis finalistas, e o vencedor será…
Ou haverá lessing? (novo vocábulo da língua inglesa que designa a "atribuição de um prémio literário ao menos provável dos autores; erro clamoroso de prognóstico por comportamento volátil de outrem; (figurado) travessura sueca")
Logo, pelas 22 horas, hora de Lisboa, será anunciado numa cerimónia que decorrerá no Guildhall de Londres o
Booker Prize de 2007.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Só mais um esforço, Ian

Ian McEwan
Acaba de ser anunciada a lista de finalistas do mais prestigiado prémio literário a galardoar uma obra de ficção em terras de Sua Majestade mais a Irlanda.
Falo, claro, do Man Booker Prize for Fiction.

O favorito para 2007 mantém-se na corrida: Ian McEwan com o seu arrasador Na Praia de Chesil (On Chesil Beach), romance que foi publicado simultaneamente em Portugal (Gradiva) e no Reino Unido (Jonathan Cape).

Eis os seis finalistas – três das obras já se encontram editadas em Portugal:

  • Darkmans, de Nicola Barker;
  • The Gathering, de Anne Enright;
  • O Fundamentalista Relutante, de Mohsin Hamid, Civilização (The Reluctant Fundamentalist);
  • Mr. Pip, de Lloyd Jones, Estampa (Mister Pip);
  • Na Praia de Chesil, de Ian McEwan, Gradiva (On Chesil Beach);
  • Animal’s People, de Indra Sinha.

McEwan venceu, merecidamente, o Booker Prize em 1998 com o seu romance Amesterdão e foi finalista vencido em mais três ocasiões: em 1981 com a obra Estranha Sedução (The Comfort of Strangers, adaptado ao cinema por Harold Pinter num filme de 1990 do realizador norte-americano Paul Schrader); em 1992 com o fabuloso romance Cães Pretos (Black Dogs); e em 2001 com Expiação (Atonement, romance adaptado este ano ao grande ecrã pelo dramaturgo e argumentista luso-britânico Christopher Hampton – responsável, entre outras, pela adaptação ao cinema da obra de Choderlos de Laclos, Ligações Perigosas, magistralmente dirigido por Stephen Frears –, realizado pelo inglês, meu coetâneo, Joe Wright). Expiação é, no meu entender, a obra-prima de McEwan e uma das melhores obras da literatura britânica contemporânea.

Se McEwan vencer o Booker de 2007, juntar-se-á ao grupo restrito de escritores que desde 1969 – data de fundação do prémio – o venceram por duas vezes:

  • J. M. Coetzee, com A Vida e o Tempo de Michael K (Life & Times of Michael K) em 1983 e Desgraça (Disgrace) em 1999;
  • Peter Carey, com Oscar e Lucinda (Oscar and Lucinda) em 1988 e A Verdadeira História de Ned Kelly (True Story of Kelly Gang) em 2001.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Ainda McEwan

Christopher HitchensNo último número (Julho/Agosto) da revista norte-americana The Atlantic (anteriormente designada por The Atlantic Monthly), o escritor, crítico e colunista britânico, residente nos Estados Unidos, Christopher Hitchens escreve sobre o último trabalho do seu eminente compatriota Ian McEwan, Na Praia de Chesil, e a consagração deste último como o escritor nacional“Think of England”.
Entre outros assuntos conexos, Hitchens, tal como fizeram alguns críticos literários antes dele, fala da coincidência histórica entre a novela de McEwan e o célebre poema de Philip Larkin (1922-1985) “Annus Mirabilis”, escrito em 1967 – trezentos anos após o poema épico homónimo de John Dryden que narra os acontecimentos do Grande Incêndio de Londres (entre 2 e 5 de Setembro de 1666) e, segundo se supõe, atribuindo-lhe uma natureza miraculosa ou decorrente da vontade divina devido ao pequeno número de baixas; assim como a vitória esmagadora da armada inglesa sobre os holandeses na Batalha de Lowestoft a 13 de Junho do mesmo ano, o ano da besta do 2.º milénio.

Da leitura do artigo, passando por uma releitura das sinopses fornecidas pela editora e até de algumas críticas, concluí que existe uma disfuncionalidade cronológica entre o autor, a editora e as inúmeras recensões publicadas na imprensa de língua inglesa antes da publicação da obra, alastrando-se, de forma pandémica, aos textos que se seguiram – virulência assaz frequente no crítico profissional que não lê a obra recenseada e que, imbuído de um curioso espírito de solidariedade profissional, vulgo engenho mimético, acaba por cair no mesmo erro, embora, por um zelo singular, a exegese surja sempre num estilo mui íntimo, revelador da erudição e da cientificidade literária do autor.
Bem, ou então… tudo está correcto, McEwan desfruta da companhia do seu meio-irmão recentemente descoberto, enquanto esboça a próxima obra, e o mundo, na sua inexorabilidade, pula e avança… e eu, na minha eventual neurose obsessivo-compulsiva, que se manifesta por um putativo rigor anacrónico, insisto num pormenor decerto obviável – e não recebo nada por isso.

Para que se possa entender o propósito desta torturante, quiçá tortuosa, arguição, convém delinear um fio condutor que, pelo menos, permita um pequeno vislumbre da sua finalidade (inutilidade), seguindo, para o efeito, um método por etapas.
Em primeiro lugar, é de todo aconselhável começar com o tal poema de Larkin:

Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(which was rather late for me) –
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.

Up to then there'd only been
A sort of bargaining,
A wrangle for the ring,
A shame that started at sixteen
And spread to everything.

Then all at once the quarrel sank:
Everyone felt the same,
And every life became
A brilliant breaking of the bank,
A quite unlosable game.

So life was never better than
In nineteen sixty-three
(Though just too late for me) –
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.


Philip Larkin, “Annus Mirabilis”, (1967)

(Segundo Hitchens – merecendo inclusive nota de destaque na revista:
«Somente Philip Larkin logrou descrever o sexo de forma ainda mais crua em comparação com a que aqui [Na Praia de Chesil] faz McEwan. Não houve imperícia, falhanço ou desgraça que tivesse ficado por revelar.» [Tradução Livre: AMC])

Em segundo lugar, se dispuserem de alguma reserva mental que vos permita ler, ou então reler – podendo, neste último caso, redundar num processo autopunitivo mais severo –, qualquer texto por mim escrito e publicado neste blogue, escrevi no passado dia 2 de Maio
este texto – também indicado na coluna da direita – sobre a minha experiência de leitura desta pequena obra-prima de McEwan.

Em terceiro lugar, Hitchens, as sinopses das edições inglesa e portuguesa do livro de McEwan e a generalidade dos críticos afirmam, de forma categórica e inequívoca, que a acção principal de Na Praia de Chesil – a famosa noite de núpcias – decorre no Verão de 1962. Ora, no caso do meu estimado leitor haver arriscado o esgotamento da sua paciência lendo
o meu texto de pseudo-recensão – e se chegou até aqui, por que não dar o benefício da dúvida e fazer mais um esforço –, certamente verificou que situo a dita acção no Verão de 1963.

Hipótese nula: a acção de Na Praia da Chesil ocorre no dealbar do coito como forma de expressão sexual.

Ou seja, rejeitar a Hipótese Pré-Larkin, em detrimento da Hipótese, mais poética, de coetaneidade.

Começando pela análise do poema de Larkin, consegue-se, facilmente, delimitar um período para o alvor da explicitação sexual:

  • the end of the Chatterley ban”, fim do processo judicial que visava proibir a venda do romance O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence: 2 de Novembro de 1960;
  • the Beatles' first LP”, estreia do primeiro L.P. dos BeatlesPlease Please Me, editado pela Parlophone (empresa subsidiária da EMI): 22 de Março de 1963.

Outros factos históricos:

  • os Beatles assinam o primeiro contrato com a EMI a 6 de Junho de 1962, nos famosos estúdios de Abbey Road, Londres, e publicam o primeiro single “Love Me Do” em 5 de Outubro de 1962, que integrava a canção “P.S. I Love You”. Segundo as inúmeras biografias e artigos de enciclopédia, o primeiro single teve um sucesso moderado, atingindo apenas a 17.ª posição no top de vendas do Reino Unido. O segundo single – que iria emprestar o nome ao primeiro álbum – “Please Please Me” é lançado no mercado britânico a 11 de Fevereiro de 1963 – foi primeiro grande sucesso dos Beatles, atingiu as 2.ª e 3.ª posições nos tops de vendas do Reino Unido e dos Estados Unidos, respectivamente.

Factos apontados no enredo da novela Na Praia de Chesil de Ian McEwan:
Edward Mayhew [destaques meus]:

  • «[Edward] Tinha nascido em 1940, demasiado tarde no século, para acreditar que estava a maltratar o corpo» (pág. 21).
  • «Naquela manhã, enquanto se vestia para o casamento […] decidira que nenhuma das figuras da sua lista poderia ter conhecido aquele tipo de satisfação […] Ali estava ele [Edward], um homem magnificamente realizado, ou quase realizado. Com vinte e três anos, já quase os tinha superado a todos.» (pp. 15-16)
  • «Ele [Edward] tinha nascido em Julho de 1940, na semana em que começou a batalha de Inglaterra.» (pág. 51). A batalha de Inglaterra, refere-se às hostilidades entre a Luftewaffe e a R.A.F. pelo domínio dos céus e pela supremacia aérea, iniciou-se a 10 de Julho de 1940 (quarta-feira).
  • «O Casal […] chegara ao entardecer ao hotel na costa de Dorset com um tempo que não era perfeito para meados de Julho» (pp. 7-8).
  • Seguindo as regras da aritmética mais simples, se o nosso herói nasceu em Julho de 1940, entre os dias 7 (domingo) e 13 (sábado), e se contava 23 anos, a acção desenrola-se, fatalmente, no ano de 1963, mais concretamente no Verão desse ano.

Referências musicais:

  • «Ele fê-la ouvir interpretações “desajeitadas mas respeitáveis” das canções do Chuck Berry pelos Beatles e os Rolling Stones.» (pág. 100). O primeiro single dos Rolling Stones saiu para o mercado a 7 de Junho de 1963, tratava-se de “Come On”, uma cover de uma canção de Chuck Berry. Todavia, segundo o The Complete Works of the Rolling Stones 1962 - 2007, entre 1962 e 1963, os Rolling Stones já tinham no seu repertório algumas canções de Chuck Berry: Brown-Eyed Handsome Man, Childhood Sweetheart, Don’t Lie To Me, Jaguar and Thunderbird, Johnny B. Goode, Little Queenie, No Money Down, Our Little Rendezvous e Sweet Little Sixteen. O período retratado nesta fase do livro, refere-se à fase do conhecimento mútuo pré-matrimónio, e neste caso relata os antagónicos gostos musicais de ambos. Episódio ocorrido, pelo menos, um ano antes do casamento.

Referências políticas:

  • «E ele [MacMillan] tinha despedido um terço do seu gabinete na “noite das facas longas”, o que exigia coragem. Mac the Knife, chamava-lhe um cabeçalho, Macbeth!, dizia outro.» (pág. 30). Nesta parte da narrativa, Edward tenta ocupar a sua mente com assuntos políticos para evitar ejacular precocemente, enquanto abraça Florence e ambos se beijam freneticamente. A “noite das facas longas” refere-se ao despedimento compulsivo de cerca de um terço dos membros do Governo pelo Primeiro-Ministro britânico Harold MacMillan numa só noite: 13 de Julho de 1962.

Conclusão: hipótese nula não rejeitada. Rectifica lá as datas, Hitchens. A acção principal da novela Na Praia de Chesil não decorre na fase pré-coito, ou se se preferir, na fase pré-Larkin, mas, impudicamente, durante o coito (ou a faso do).

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Florence & Edward

Não sei por onde começar, e muito menos como este texto poderá acabar. Dou, portanto, livre curso às palavras que se sucedem num ritmo ditado por um raciocínio não repisado, apenas animado pela leitura terminada há quatro dias, deixando que alguma da emoção ganhe corpo nas breves linhas que se seguem.
Há uns dias, quando soube da iminência da estreia do novo trabalho do autor inglês Ian McEwan, escrevi
isto, tentando dar uma perspectiva evolucionista, onde não faltava o processo de selecção natural, da sua já extensa bibliografia.
Sinceramente, não sei se tudo o que proferi naquele texto foi entretanto derrogado por este último trabalho. Porém, essa tal derrogação, um processo súbito de nulidade da minha divagação de diletante, a ter ocorrido só veio demonstrar quão bela é, para nós leitores – receptores passivos –, esta arte de escrever. Arte a que se convencionou chamar de Literatura: imprevisível, arrebatadora, sufocante e verdadeiramente deslumbrante quando as palavras e as ideias, como uma amálgama de barro em bruto em cima da pedra do oleiro, são trabalhadas, quiçá, por inspiração divina, por um misterioso sopro etéreo ininteligível e jamais acessível ao comum dos mortais. Essa é, decerto, a maneira mais cómoda para catalogar a genialidade de alguém que dos caracteres – tão à nossa mão – engendra a beleza e, de forma indelével, transporta o seu nome para o Olimpo das letras.

Depois de escritos e de lidos os parágrafos anteriores, constato que estes não surgiram sem causa aparente. Transmitiram, na verdade, o que me ia na alma quando me atrevi a falar de Ian McEwan e do seu último romance – novela? – Na Praia de Chesil.
Quem são Florence e Edward? Ou melhor, o que representa esse conúbio de nomes próprios?

«Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.» (pág. 7)

Não, não vou voltar a falar da importância de uma boa abertura de uma obra de ficção para o conjunto da obra. No entanto, toda o romance, de escassas 129 páginas na versão portuguesa, parece subsumido, numa perspectiva aglutinadora, por esta primeira frase.

A época
A parte principal da narrativa decorre em 1963, época definida em termos históricos como prenunciadora das grandes convulsões sociais, precisamente encaixada no interstício entre a cura das feridas abertas pelo conflito mundial de 39-45 pela sociedade britânica do pós-guerra e os primeiros sinais da revolução cultural – incluindo a libertação sexual – que iria transformar o mundo ocidental na década 60 do século XX. Trata-se do período histórico da consciencialização social e da materialização do hiato geracional que divide, num antagonismo difícil de não sobrevir à luz do dia, os fazedores e os filhos da guerra. Entre o pragmatismo marcial de defesa dos valores ancestrais de um povo e o idealismo humanista, um grito de alerta perante a constatação das debilidades de uma estrutura social vetusta e corrompida, descentrada do género humano, dos seus anseios mais prementes, e voltada para um paradoxo concretizado na febre securitária na corrida ao armamento, potencialmente aniquiladora do género humano.
Era o tempo do Primeiro-Ministro britânico Harold Macmillan e dos seus esforços para que o Reino Unido integrasse a, à época, recentemente formada CEE, contemporâneo do presidente norte-americano John Fitzgerald Kennedy – e não sei se se trata de uma mera coincidência, mas a acção principal decorre em meados do Verão de 63, sendo que JFK foi assassinado em Dallas a 22 de Novembro desse ano – e de Nikita Khrushchev como secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética.

Jovens diplomados e virgens
Florence e Edward simbolizam a tão mcewaniana tensão sexual que dá impulso ao mundo e que, posteriormente, depois de libertada, o cobre de uma mancha indestrutível, a inocência definitivamente perdida e a frustração advinda dessa perda.
Dois jovens que se conhecem, segundo eles, num conjunto de acasos ordenados por uma entidade superior e cujo destino se precipita para o, aparentemente, inevitável enlace conjugal.
Edward, filho de um professor e de uma mulher que, de forma insólita – um misterioso viajante da City, sem tempo a perder, abre a porta do comboio, ainda em andamento, que a atinge na cabeça enquanto esta, grávida de gémeos, espera pelo marido, regressado da guerra, no cais de embarque da estação de comboios –, se vê definitivamente aprisionada dentro da casa de gritos que é a sua própria mente, deixando entregues ao cuidado do pai os afazeres domésticos, para além da árdua tarefa de sustentar com os seus proventos a educação dos filhos. Edward licencia-se em História, com menção de honra, no University College de Londres. Leva uma vida perfeitamente vulgar e comum à maioria dos jovens adultos da sua comunidade: estudos, pubs, pancadaria, mulheres e um ritual masturbatório de estrita observância.
Florence, filha de pais ricos, vive em Oxford, estuda música e toca violino, havendo terminado o curso no Royal College of Music em Londres e formado um quarteto com três dos melhores alunos da faculdade, o Ennismore Quartet. Vive entre uma mãe filósofa fria e distante, e um pai, um bem-sucedido homem de negócios, desprovido de emoção. Ela própria transporta consigo a frialdade do ambiente familiar, carente de afectos e de manifestações de sentimento.
Ambos assentam que se podiam ter conhecido mais cedo quando em 1959 participaram na mesma manifestação em Londres, na Trafalgar Square, contra a bomba atómica. E é curiosamente a propósito de uma futura reunião do CND – Campaign for Nuclear Disarmament – que se ficam a conhecer, apesar de ambos haverem acorrido ao local por motivos diversos, como uma fuga perante uma agitação momentânea.
É na inusitada conjugação destes dois mundos, o antigo e o moderno, o rebuscado e o rude, o frágil e o duro, Florence e Edward, que McEwan constrói a narrativa. É a história de uma união que se consumou no papel num dos primeiros dias de Julho, no Verão de 1963, entre uma Florence dedicada e subtil, que apenas suporta a tessitura da música clássica, e um Edward, instruído e viril, que pressente, pela música, os ventos de mudança que começam a chegar de quatro rapazes de Liverpool, dos Rolling Stones e dos EUA, Chuck Berry e os pais do rock and roll.

A narrativa inicia-se numa suíte nupcial num hotel contíguo à praia de Chesil, no condado de Dorset, no Sudoeste de Inglaterra.
Encontram-se ambos no quarto, com uma refeição para degustar, servida por dois rapazes empregados do hotel, esperando pelo momento da consumação do casamento, onde se entrecruzam os sentimentos de horror e de exasperação, por um acto tão simples como amar, que se exige sem qualquer tipo de amargura e de pudor, sob pena de se viver nos escombros de uma vida arruinada.

(O relato dos acontecimentos da Praia de Chesil foi propositadamente evitado para com ele não estragar o prazer da descoberta a quem, com muita paciência, digeriu este texto e ainda não leu, mas tenciona ler, o romance de McEwan.)

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Ian McEwan, Na Praia de Chesil. Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Abril de 2007, 129 pp. (tradução de Ana Falcão Bastos; obra original: On Chesil Beach, 2007).


Nota: curioso o aviso final (pág. 129) escrito pelo próprio autor, ainda torturado com a infâmia que uma aproveitadora lhe lançou acerca da sua melhor obra de sempre: Expiação.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

McEwan

Como diz (e faz) o outro, ele já anda por aí.

Estreia simultânea em Portugal e no Reino Unido (uma raridade!)

«Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.»

Abertura de Na Praia de Chesil (pág. 7; tradução de Ana Falcão Bastos).

sábado, 7 de abril de 2007

O Regresso de McEwan

É verdade, os meus autores favoritos já se encontram a viver para além da sua quinta década de deambulação pelo mundo. Ian McEwan, nascido em Aldershot, Inglaterra, em Junho de 1948, prepara-se para ver lançada para o mercado a sua última obra, o romance On Chesil Beach que, segundo pude ler numa curta sinopse para não utilizadores do jornal Público, será simultaneamente editado em língua portuguesa – provavelmente pela detentora dos direitos de autor em Portugal, a editora Gradiva –, facto inédito que só é de saudar.
Das ilhas britânicas o trio anglo-irlandês McEwan, Banville e Tóibín sempre me encheu as medidas estético-literárias, a que se podem juntar os miscigenados Ishiguro e Rushdie e o fleumático, estirpe Oxford, Martin Amis.
Porém, foi para McEwan a minha primeira contemplação de puro encantamento quando há uns bons anos li Cães Pretos e pensei ter intuído a sua simbologia, os fantasmas que, apesar de julgarmos possuir todos os meios que permitem vislumbrar o caminho para a felicidade, nos turvam a mente – esse ser insondável que se confunde com a alma.
Desde logo estabeleci uma regra que me permitisse desvendar aos poucos um fio condutor na carreira literária do notável autor inglês: seguiria cronologicamente a sua obra.
Foi que fiz com a excepção de duas obras editadas na nossa língua que, apesar de as deter na minha estante, por motivos diversos ainda não li: O Sonhador (The Daydreamer, 1994) e O Inocente (The Innocent, 1990), esta última não leitura motivada pela paupérrima adaptação do romance para o filme de 1993 de John Schlesinger, com Anthony Hopkins e Isabella Rossellini – que como irei demonstrar não serviu de critério noutro caso semelhante.

Ian McEwanAs colecções de contos Primeiro Amor, Últimos Ritos (First Love, Last Rites, 1975) e Entre os Lençóis (In Between the Sheets, 1978) são um fascínio pela tortuosidade que McEwan confere aos seus personagens. São histórias negras que revelam a perversidade da mente humana, o frágil ponto de equilíbrio que se rompe e transforma a vida de um banal ser humano, nesta indigente sociedade contemporânea, num animal grotesco ornado dos seus instintos mais primários. Contudo, não são contos imorais e muito menos amorais, embora estes não encerrem uma moralidade mais ou menos subentendida, à laia de guia prático do comportamento humano. Os primeiros contos de McEwan são antes histórias que, pelo simples factos de a informação nos assaltar todos os dias no conforto do nosso lar, são brutalmente verosímeis e por isso de certa forma angustiantes. Neles se relata a depravação sexual, a perversidade, a perda da inocência e a indigência intelectual do indivíduo numa sociedade implacável e que se metamorfoseia em ritmo acelerado rumo a nenhures ou, pelo menos, a um destino não imediatamente intuído. Por elas McEwan foi notabilizado – havendo vencido com a primeira obra o Somerset Maugham Award –, todavia não se livrou de que alguns o rotulassem de escritor negro, sinuoso e até vicioso.
No entanto, McEwan seguiu o seu caminho e em 1978 publicou uma das suas melhores obras, O Jardim de Cimento (The Cement Garden). O autor voltou às luzes da ribalta pela distorção dos moralistas do regime, que destacaram a utilização abusiva pelo autor do último dos tabus, o incesto. Esta será, contudo, uma das muitas histórias que se poderá enquadrar no conjunto de anátemas com que alguns dos habituais críticos pretendem ensombrar o processo criativo de outrem. Em O Jardim de Cimento o incesto é um mero acessório que apenas serve de alerta – se é que, na realidade, se trata de um pretendido alerta – para o perigo da propensão do homem contemporâneo para o orgulhoso isolamento intelectual e para as densas fortificações que a própria mente erige, conferindo-nos a sensação de existir a real possibilidade de uma revigorante sobrevivência sem o contacto com o exterior, sem interacção, os tais reinos de Camelot para que vamos lentamente imergindo e que nos vão apartando do relacionamento com os outros, da sinergia que pulula por sobre as nossas cabeças, como o pólen das flores no viço da Primavera, que já não conseguimos captar, confinando-nos a uma masmorra cujas paredes lúgubres e viscosas presenciarão, mais cedo ou mais tarde, o próprio fim: «Através de uma nesga da cortina, a luz azul da sirene, volteando, desenrolava um desenho na parede do quarto. (…) – Ora aí está – disse ela. – Foi um sono muito lindo.»
Em 1981 é publicado Estranha Sedução. Porventura, fiel ao título com que foi baptizado em português – o original é The Comfort of Strangers – é um dos livros mais tenebrosos do escritor britânico. A acção decorre em Veneza, local de férias escolhido por um jovem casal decidido a reencontrar a paixão que se foi desvanecendo com o tempo e a rotina da convivência e, de repente, se vê envolvido num trama de contornos poucos claros com um velho casal residente, que de forma parcimoniosa e simultaneamente de um magnetismo inexplicável vai arrebatando a vida ao casal, como desinscrustáveis e insaciáveis sanguessugas.
O romance foi adaptado para o cinema por Harold Pinter, com realização a cargo de Paul Schrader e, apesar das notáveis interpretações de Natasha Richardson, de Christopher Walken e de Helen Mirren, o produto final não me conseguiu convencer. Posteriormente li o romance e de certa forma anseio por um segundo visionamento para desfazer as dúvidas sobre o filme.

Até 1992, McEwan escreve argumentos para televisão, um libreto para música de Michael Berkeley e vários argumentos para cinema, para além de mais três romances: o fabuloso A Criança no Tempo (The Child in Time, 1987), vencedor do Whitbread Novel Award em 1987 e do Fémina em 1993, O Inocente (1990) e Cães Pretos (Black Dogs, 1992).
Em 1993 McEwan escreve o argumento O Bom Filho (The Good Son), para o filme realizado por Joseph Ruben – que anos antes havia assustado meio mundo feminino com o filme Dormindo com o Inimigo – onde se destacam os desempenhos dos jovens Elijah Wood e Macaulay Culkin.
A partir daqui consegue-se distinguir um novo fôlego na carreira do autor inglês. McEwan adopta a narrativa mais elaborada, densa e com uma forte componente de investigação. O Fardo do Amor (Enduring Love, 1997) baseia-se no historial clínico verídico de um paciente com uma patologia psíquica conhecida como síndrome de De Clérambault, relatado num artigo científico reproduzido na íntegra do final de romance.
Esta transformação não significa, porém, uma ruptura de McEwan com a temática do insondável da mente humana, das distorções psíquicas que se materializam numa forte tensão sexual e comportamental com sequelas na sociedade e que simultaneamente gera, por uma sinuosa reverberação, o comportamento desviante. Assim, O Fardo do Amor marca a tal viragem na carreira do autor pelo enchimento das personagens, que confere de forma deliberada um tom mais romanesco aos seus escritos. Nessa altura anuncia-se um Ian McEwan mais maduro e mais seduzido com a miríade de possibilidades que a prosa ficcional oferece. Se antes tínhamos uma história, um determinado objectivo e alguns artifícios que rapidamente nos conduziam ao desenlace, com O Fardo do Amor, sem que desapareça a formal tensão psicológica mcewaniana, há uma grande preocupação plástica na elaboração da urdidura, aparentemente mais complexa e ornamentada.
Seguem-se, na minha muito pessoal opinião de admirador de Ian McEwan, os dois melhores romances do autor, tão díspares nas suas estrutura e densidade, como próximos na genialidade: Amesterdão (Amsterdam, 1998), vencedor do Booker Prize, e Expiação (Atonement, 2001), vencedor do WH Smith Literary Award e do National Book Critics Circle (Fiction Award, EUA) em 2002.
Amesterdão encanta pela ironia, pelo retrato da comédia humana nas suas soberba e cobiça desmedidas. Expiação é profundo e comovente, e simultaneamente um documento histórico sobre os males da guerra no seu sentido mais lato, não só porque parte da acção se situa em pleno campo de batalha durante a 2.ª Guerra Mundial, como também naquela consubstanciada num magistral paralelismo à maldade e à inveja no relacionamento interpessoal.
O sortilégio de Amesterdão está no seu brilho e na sua hilaridade; em Expiação ele emana do próprio processo de auto-análise da protagonista que se estende para fora dos domínios do livro, através do escrutínio das nossas acções passadas que potencialmente provocaram dano, mesmo que este não estivesse presente, ou não fosse conscientemente aquilatado, no momento em que as perfilhámos.
Em 2005 surge o último romance publicado de Ian McEwan: Sábado (Saturday). Vencedor em 2006 do James Tait Black Memorial Prize. Um excelente romance, talvez aquele em que McEwan demonstra no seu pleno esplendor a sua mestria como contador de histórias do dia-a-dia, que porventura só me desapontou pela cruel cronologia: seguiu-se ao melhor dos melhores do autor britânico.

Deste modo, por aqui se vai aguardando, em jubilosa esperança, a publicação de On Chesil Beach, prometida para a próxima semana.

Aqui fica um excerto do romance (1.º parágrafo):
«They were young, educated, and both virgins on this, their wedding night, and they lived in a time when a conversation about sexual difficulties was plainly impossible. But it is never easy. They were sitting down to supper in a tiny room on the second floor of a Georgian inn in Dorset. In the next room, visible through the open door, was a fourposter bed, rather narrow, whose cover was pure white and stretched startlingly smooth, as though by no human hand. Edward did not mention that he had never stayed in a hotel before, whereas Florence, after many trips as a child with her father, was an old hand. Superficially, they were in fine spirits. Their wedding, at St. Mary’s, Oxford, had gone well; the service had been decorous, the reception jolly, the sendoff from school and college friends raucous and uplifting. Her parents had not condescended to his, as they had feared, and his mother had not significantly misbehaved, or completely forgotten the purpose of the occasion. The couple had driven away in a small car belonging to Florence’s mother and arrived in the early evening at their hotel on the coast in weather that was not perfect for mid-June or the circumstances but was entirely adequate: it was not raining, but nor was it quite warm enough, according to Florence, to eat outside on the terrace, as they had hoped. Edward thought that it was, but, polite to a fault, he would not think of contradicting her on such an evening.»

Promete!

Nota: Em Portugal, todos os livros de Ian McEwan foram até agora publicados pela
Gradiva.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Solidariedade Literária

O Rogério publica uma carta de solidariedade enviada pelo gigante Thomas Pynchon ao não menos gigante Ian McEwan.

Assunto: um suposto plágio cometido por McEwan na sua obra-prima – e isto apenas segundo os meus cânones estéticos, fazendo par com AmesterdãoExpiação (Atonement, 2001), sobre a construção da protagonista Briony Tallis.

Nota: Para mais informações sobre a polémica, ler
este texto do Sérgio Lavos no Auto-Retrato.