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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Resvalamento do Planalto



Ando por estes dias a observar, incrédulo e impotente (já não se trata de simples acédia), a subida, ainda por cima escabrosa, dos meus índices de PMD*. Com o efeito de retroacção sónica das Bombas V pynchonianas e o seu pavlovianismo, que por cá não se manifesta pela intumescência pré-libidinosa, nas convulsões anti-osmóticas com a espantosa turgidez narrativa de DFW**, os agonizantes odores de cansaço dos pupilos da ATE*** e que nos atingem fatalmente através de espúrias cadeiras de rodas canuck's, rejeitando com incompreensível intensidade a experialista Grande Concavidade: Quo vadis PMD!
Mais de duas mil duzentas páginas… Já nem há tempo para brevidade antologiada da ex-Auster, nem para a, pela cronologia, segunda pérola nabokoviana.
Terapêutica urgente: Reeducação Prescritiva, já!

A que vis andanças podemos tornar…****    

Notas:
*Propensão Marginal para a Demência.
**David Foster Wallace.
***Academia de Ténis de Enfield (“ETA” no original).

**** To what base uses we may return…

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

39 anos, 7 meses e 3 dias

Não se trata de um filme romeno, nem tão-pouco da minha idade (sou infelizmente mais velho, embora cerca de 8 meses, para que conste), mas do tempo que decorreu entre a publicação original e a edição em Portugal de uma transgressão literária que, mesmo na actualidade, continua a fazer torcer várias mentes e a vergar à humilíssima condição de falível humano os reaccionários semideuses defensores do realismo flaubertiano (e há um muito na moda) – como se isto fosse uma competição interescolar ou de mensuração perimetral e da extensibilidade máxima do órgão da soberba na eterna refrega pela masculinidade.

É somente isto:
«Uma berraria vem através do céu. Já aconteceu antes, mas nada há que a compare com agora.»
Com chancela da Bertrand e tradução de Jorge Pereirinha Pires, eis a tão magistral, como polémica, obra de Thomas Pynchon, que motivou mesmo uma suspensão de atribuição do prémio Pulitzer em 1974, embora a obra tivesse sido unanimemente eleita pelo júri nomeado para a categoria de “Ficção” – a talho de foice, constituído pelos escritores e críticos literários Elizabeth Hardwick (1916-2007) e Alfred Kazin (1915-1998), e pelo escritor, ensaísta, eminente académico e crítico cultural Benjamin DeMott (1924-2005) , porém enfaticamente rejeitado pelos visionários membros do Conselho de Administração dos referidos galardões.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Haverá alguém que entenda isto?

A Editorial Presença acabou de anunciar que já se encontra disponível no mercado a segunda obra da sua recentemente inaugurada colecção “Obras Literárias Escolhidas” – a estreia deu-se com o romance, esgotadíssimo no mercado nacional, Trópico de Câncer (Tropic of Cancer, 1934) de Henry Miller.
Ora, a tal segunda obra é o excepcional romance Os Anos (The Years, 1937), de Virginia Woolf – o seu penúltimo romance, e o último publicado antes da sua morte trágica no Rio Ouse em 1941. A edição da Presença conta com a tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e estende-se por 376 páginas, com o preço de venda ao público de 20 euros.
O que não se consegue entender é a oportunidade de publicação desta obra, uma vez que no mercado nacional de livros o mesmo romance, editado pela Relógio D’Água, distribuído por 414 páginas, com uma boa tradução de Pedro Elston, encontra-se perfeitamente disponível. Não há livraria, de média ou grande dimensão, que não o disponha, inclusive, em escaparate, pelo preço do editor de 17 euros.

Mas, comparemos as versões através das frases de abertura:

A versão original da abertura:
«It was an uncertain spring. The weather, perpetually changing, sent clouds of blue and of purple flying over the land. In the country farmers, looking at the fields, were apprehensive; in London umbrellas were opened and then shut by people looking up at the sky.»

A versão de Pedro Elston (Relógio D'Água) da abertura:
«Estava uma Primavera incerta. O tempo, em permanente mudança, fazia voar sobre a terra nuvens de azul e violeta. No campo os lavradores ao olharem para as terras ficavam apreensivos; em Londres os guarda-chuvas abriam-se e fechavam-se nas mãos das pessoas que olhavam para o céu.»

A versão de Fernanda Pinto Rodrigues (Presença) da abertura:
«Era uma Primavera irregular. O tempo, em constante mudança, punha nuvens azuis e purpúreas a voar sobre a terra. No interior, os agricultores olhavam, apreensivos, para os campos; em Londres, os guarda-chuvas eram abertos e depois fechados por pessoas que olhavam para o céu.»
A quem serve esta duplicação de esforços? Será a primeira versão uma má tradução? E se esse for o caso, quem a classificou como tal? O público? A crítica? Uma qualquer reunião casual de editores sentenciadores?

Já no início do ano havia dado conta de um caso ainda mais paradigmático de desperdício de eucaliptos para a produção de pasta de papel: as versões disponíveis no mercado nacional da novela de Lev Tolstói A Morte de Ivan Ilitch. Ele há para todos os gostos, de Adolfo Casais Monteiro, de António Pescada, de Pedro Tamen, de João Maia, de Nina e Filipe Guerra, e por aí fora.

Não há critério razoável que me permita discernir pela bondade desta duplicação, condição que é agravada pela quantidade incomensurável de obras de autores consagrados, há muito pertencentes ao cânone literário universal, que nunca viram a luz do dia em língua portuguesa deste lado do Atlântico.
Bastar-me-ão dois singelos exemplos entre dezenas: a obra de Thomas Pynchon após o romance O Leilão do Lote 49 (The Crying of Lot 49, 1966) e obras como The Adventures of Augie March (1953), Humboldt's Gift (1975) ou The Dean's December (1982), entre outras, do inigualável Saul Bellow (Prémio Nobel da Literatura em 1976).

Nas mãos do leitor fica a decisão: comprar o livro Os Anos de Woolf por 17 ou por 20 euros? Relógio D’Água ou Presença? 414 ou 376 páginas? Pedro Elston ou Fernanda Pinto Rodrigues?

sexta-feira, 14 de março de 2008

Pynchon Luso

Para os pynchonianos do nosso burgo, que lêem há anos, pelo menos desde 1963, as obras do esquivo, obscuro e admirável autor norte-americano Thomas Pynchon (n. 1937), informo que, após um das minhas cada vez mais raras perambulações pelas ruas da baixa – que, por tradição, inclui sempre uma visita à Livraria Leitura (agora pertença do império Bulhosa) em busca de raridades que escapam à indexação cibernética –, avistei uma das suas duas únicas obras que se encontram traduzidas para português de Portugal: V. (1964), da extinta Editorial Notícias, com edição de Fevereiro de 2000 (estavam disponíveis dois exemplares). Logo, aconselha-se ao mais empedernido dos pynchonianos uma rápida visita à livraria da José Falcão (a entrada da Rua de Ceuta, junto à Livros do Brasil, está fechada).
Em Portugal, para além de V. – obra de estreia de Pynchon, que (des)honradamente continua a pertencer ao meu íntimo e particular top 10 das melhores obras de ficção de todos os tempos, a história dos inesquecíveis Stencil e Benny Profane – apenas podemos correr o sério risco de encontrar a segunda obra de Pynchon (em termos cronológicos) devidamente traduzida para a nossa língua, numa edição de Junho de 1987 – pelo menos, é a data da edição que repousa na minha biblioteca: trata-se do mais pequeno dos seus romances, O Leilão do Lote 49 (The Crying of Lot 49, 1966) da já possivelmente defunta Editorial Fragmentos.

Por editar, neste país de requintados e selectivos letrados, continua a sua enciclopédica obra-prima Gravity’s Rainbow (1973) – que, a título de exemplo, está publicada no Brasil sob o título O Arco-íris da Gravidade –, para além da colectânea de contos Slow Learner (1984) e dos romances Vineland (1990), Mason & Dixon (1997) e o recente Against the Day (2006).

Nota: há uns anos transcrevi para o meu blogue, agora inactivo, Data, um dos diálogos mais curiosos da obra.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Platão et al.

Não, não foi por falta de aviso – por leitura anterior e aconselhamento ajuizado. Mas naquele dia enquanto revolvia os livros floridos de auto-ajuda na secção de “Novidades” da Fnac, descobri que, para além dos romances históricos ou das efabulações sobre as cefaleias ou herpes labiais de determinado cientista ou personalidade histórica eminente, havia um livro cor de vómito em quarta expulsão – para ser sincero, julguei à partida tratar-se de mais um livro da inefável MRP® –, que me deteve pelo estilo de letra de imprensa garatujado a vermelho sangue pré-oxidado… chamava-se Diário e só faltava a fitinha coquete a enlaçá-lo – praga do kitsch mais balofo que se alastrou aos livros.
Não eram couves, nem tão-pouco alforrecas, o presuntivo cientista literário era outro. Tratava-se, então, do sexto romance de Palahniuk, originalmente publicado em 2003, editado em Portugal no passado mês pela Casa das Letras.
«A Voz de uma geração inquieta. O mestre das vidas marginais», garantia a capa em jeito laudatório.

Chuck PalahniukChuck Palahniuk (n. 1962), escritor norte-americano, de ascendência ucraniana, é actualmente considerado, a par de Bret Easton Ellis (n. 1964) e de Douglas Coupland (n. 1961), como uma das vozes mais inconformadas, um dos escritores de culto da denominada Geração X: a geração que se seguiu aos babyboomers do pós-guerra; seres rebeldes, livres e niilistas, nascidos nas décadas de 60 e 70, cansados, por simples tédio burguês, do american way of life, unindo-os um discurso ligeiro, coloquial e prático, entabulado pela alienação das massas, pelo consumismo, pela globalização, em suma, juntos são susceptíveis – ou, nesse caso, põem-se a jeito – de serem catalogados como epítome da frivolidade existencial contemporânea.
Palahniuk descende da nova vaga pós-modernista da ficção literária norte-americana. A sua estreia literária foi verdadeiramente prometedora. Em 1996, publicava o romance, considerado por muitos como a sua obra-prima, Fight Club (Clube de Combate, ed. port. de 1999, Editorial Notícias).
Muitas questões – ou quiçá, nenhumas… – poderiam ser levantadas se, em 1999, o realizador norte-americano David Fincher não houvesse levado à tela o dito romance – também para muitos, talvez para mim, o seu melhor filme. Magistralmente realizado, o filme contou com as interpretações irrepreensíveis, sublimes, mágicas de Edward Norton, Brad Pitt e Helena Bonham Carter – pronto, estou hiperbólico, estado que Fincher ousa impor-me. Porém, negar esse facto – o da cinematização do romance – para explicar o verdadeiro fenómeno que tornou Palahniuk como objecto de um culto literário, para além de falacioso, já que não existiria filme sem livro, sendo falso o seu inverso, seria como apreciar um carpaccio de salmão antes de, pelo menos, laminar as suas postas – que bela metáfora! Isto, por estes lados, anda cada vez melhor… [este é o meu Tyler Durden… o meu estado de espírito estival.]

Palahniuk é sobejamente conhecido por utilizar na substância das suas tramas tortuosas o tema do neoludismo: práticas de terrorismo urbano, de meios, organização e magnitude diversos que têm como alvo preferencial as grandes corporações multinacionais, de carácter globalizante, que emergiram nos mercados das economias ocidentais à custa do imparável fenómeno da globalização; alvos onde ademais se incluem as classes privilegiadas.
O prefixo “neo” deve-se, como é óbvio, ao reavivamento hodierno do ludismo, cujos primórdios remontam ao século XVIII na Inglaterra da Revolução Industrial. Os seus partidários e fundadores manifestavam-se contra o progresso tecnológico e científico e as suas implicações no factor humano, perpetrando acções terroristas organizadas, que quase sempre culminavam com a destruição de máquinas e instalações industriais. Segundo alguns, o termo “ludismo” tem na sua raiz etimológica o apelido de um operário da indústria têxtil chamado Ned Ludd, que em 1779, num ataque de fúria, entrou numa casa nos arredores de Leicester e destruiu à marretada dois teares de produção de malhas. Mais tarde os seus seguidores, os verdadeiros fundadores do Ludismo ou do Movimento Ludita, juraram fidelidade ao “Rei Ludd” – entidade abstracta – abjurando o Rei de Inglaterra, ficando para a História o dia 11 de Março de 1811 como o início das actividades luditas concertadas.
Para mais informações, porque não começar com um mestre?
Ler o fabuloso artigo de Thomas Pynchon, “Is It O.K. To Be A Luddite?”, publicado no The New York Times (Book Review) em 28 de Outubro de 1984, a propósito da comemoração dos 25 anos da dissertação, tão polémica, como revolucionária, “The Two Cultures and the Scientific Revolution” de C. P. Snow, no âmbito da ancestral e prestigiosa Rede Lecture na Universidade de Cambridge.

Hoje em dia, é inegável que Palahniuk arrasta consigo uma pequena horda de seguidores fanatizados com a sua escrita, prontos a espalhar pelo mundo o putativo sortilégio que emana dos seus livros. A Palahniuk resta apenas alimentar esse culto, não só através de uma sucessão impressionante de romances publicados – quase um por ano –, como também através de um aproveitamento quase irrepreensível desse claro factor de dependência, desse filão comercial, mediante o estabelecimento de uma interactividade público/autor, quase sempre perniciosa no mundo das letras, mas que com o escritor norte-americano tem servido de instrumento de fortalecimento para o seu culto – a clara identificação dos desenraizados do novo milénio.
Por exemplo, em Diário quase todos os nomes dos personagens correspondem a nomes de leitores na vida real. Para o efeito, Palahniuk lançou um concurso, comprometendo-se a seleccionar um conjunto de nomes que, mediante autorização, seriam utilizados no romance. Outros, porém, foram criados numa espécie de charada literária: leia o livro e descubra-lhe os “ovos de Páscoa”.

[Aviso: a partir deste ponto o texto poderá conter algumas pistas para o deslindar do enredo – é a minha veia ludita manifestada através da variante desmancha-prazeres. Se é que há algum para desmanchar…]
O romance, como o próprio nome indica, está redigido sob a forma de um diário, cujas entradas se situam entre os dias 21 de Junho – o solstício de Verão – e 3 de Setembro de um determinado ano. A sua autora, Misty Marie (Kleinman) Wilmot, narra os dias que se sucedem à gorada tentativa de suicídio do seu marido, Peter Wilmot, que, em resultado do terrível e caricato falhanço, se encontra em estado de coma num hospital que se situa fora da imaginária ilha de Waytansea – triste jogo de palavras, “wait and see”, é o local onde decorre a acção – ao largo da costa norte-americana do Pacífico.
Misty e Peter conheceram-se na juventude enquanto frequentavam uma escola de artes no continente. Misty fora criada no limiar da pobreza – pertencia à denominada “escumalha branca” – num parque de caravanas junto ao (inexistente) Lago Tecumseh, no estado da Geórgia, compartilhando uma roulotte com a mãe, que supostamente tinha dois tipos de ocupação… Peter provinha da ilha de Waytansea. Era um jovem andrajoso, de cabelo comprido sujo, que envergava inúmeras jóias de imitação, e, entre elas, um broche iridescente no blusão, previamente espetado no mamilo.
Misty tem aulas de História da Arte e de Anatomia humana. Através dessas disciplinas a protagonista inscreve no seu diário um sem-número de referências do anedotário do mundo das artes: artistas que criavam as suas obras de arte com as suas próprias fezes ou que aspergiam uma tela com o próprio vómito. De igual modo, há um rol de alusões que procura demonstrar que “arte é sofrimento” ou vista como sofrimento, citam-se exemplos de artistas eminentes à trouxe-mouxe e os seus segredos, insanidades e deformidades mais escondidos, como por exemplo o envenenamento por mercúrio ou por chumbo incluídos nas tintas.
Vejamos:

«– Se calhar, as pessoas têm de sofrer a sério antes de se arriscarem a fazer aquilo de que gostam.
Tu disseste isto tudo à Misty.
Contaste-lhe que o Miguel Ângelo era um maníaco-depressivo que se representou a si próprio como um mártir flagelado num quadro. O Henri Matisse desistiu de ser advogado por causa de uma apendicite. O Robert Schumann só começou a compor depois da mão direita ficar paralisada e acabou a sua carreira como pianista concertista.
[…]

Falaste-lhe do Nietzsche e da sua sífilis. Do Mozart e da sua uremia. Do Paul Klee e da sua esclerodermia que lhe encolheu as articulações e os músculos levando-o à morte. Da Frida Kahlo e da sua espinha bífida que lhe cobria as pernas de feridas sangrentas. Do Lord Byron e do seu pé deformado. Das irmãs Brontë e da sua tuberculose. Do Mark Rothko e do seu suicídio. Da Flannery O’Connor e do seu Lúpus. A inspiração precisa de doença, lesões, loucura.
– Segundo Thomas Mann – disse o Peter – Os grandes artistas são grandes inválidos.
[…]

E a Misty começou a pintar.
» (pp. 78-79)

Porém, Misty, que entretanto engravidara, vai viver para ilha de Waytansea, após a morte do sogro, para casa da mãe de Peter, Grace Wilmot, e deixa de pintar. Em breve, transformar-se-á numa vulgar empregada de mesa do restaurante do Hotel Waytansea, com um salário miserável e parcas gorjetas, para se sustentar a si e a Tabitha, a filha do casal, concebida, por uma série de práticas luditas de Peter, antes do casamento.

Como já referi, a acção inicia-se no momento em que Peter se encontra em estado de coma no hospital. Chega o Verão, o ferryboat traz os primeiros veraneantes para a ilha. Os proprietários regressam às casas de férias, arejando-as do ar bafiento pelo encerramento de uma temporada. Começam os problemas…
Entrada no diário: «21 de Junho. A Lua a Três Quartos.» Abertura do romance: «Hoje telefonou um homem de Long Beach. Deixou uma mensagem muito longa no atendedor de chamadas, balbuciando e gritando, falando depressa e devagar, praguejando e ameaçando chamar a polícia, para te mandar prender.» (pág. 9)
Angel Delaporte – mais um jogo de palavras, desta feita em francês, para o “anjo da porta” – queixa-se que a sua cozinha desapareceu. Peter que cuidava das casas abandonadas pelos proprietários durante o Inverno fechou a cozinha de Delaporte: «Um homem telefona do continente, de Ocean Park, a queixar-se que a cozinha desapareceu.» (pág. 23)
Aí está o recorrente neoludismo de Palahniuk. Peter antes de ter tentado o suicídio vandalizou as casas de Verão. Delaporte fez um furo na parede que tapava a cozinha e descobriu um conjunto de frases pintadas na parede: «…ponham o pé na ilha e morrem…» ou «…fujam o mais depressa que puderem deste sítio. Eles matarão todos os filhos de Deus se isso significar salvar os seus próprios…» (pág. 25)

Estão reunidos os ingredientes para mais uma narrativa tortuosa palahniukiana. Porém, a base residirá numa harmonia filosófica entre Platão e Carl Gustav Jung, o Síndrome de Stendhal e um Angel Delaporte estudioso e sintetizador das teorias e métodos de Stanislavski, Pavlov, Sechenov e Poe:

«A análise da caligrafia e a escola do Método, o Angel diz que ambas se tornaram populares ao mesmo tempo. Stanislavski estudou a obra de Pavlov e o seu cão salivante e a obra do neurofisiologista I. M. Sechenov. Antes disso, Edgar Allen Poe estudou grafologia. Toda a gente estava a tentar ligar o físico e o emocional. O corpo e o espírito. O mundo e a imaginação. Este mundo e o seguinte.
[...]
[Angel profere a seguinte asserção, depois de haver passado o dedo indicador de Misty sobre as letras pintadas na parede pelo comatoso Peter]:

– Se a emoção consegue criar acção física, então, o duplicar da acção física consegue recriar a emoção.
» (pág. 66)

Juntemos a filosofia de pacotilha à psicanálise baseada nos arquétipos universais de Jung – com um erro de palmatória «Segundo o filósofo alemão Carl Jung (…)» [destaque meu] (pág. 220) –, ver os outros como projecção de nós próprios, e à Alegoria da Caverna de Platão – «Como a tua cabeça é a caverna, os teus olhos a boca da caverna. Como vives dentro da tua cabeça e apenas vês aquilo que queres.» (pp. 290-291), com a experiência paralisante de Stendhal em 1817, quando visitava Florença, para o seu livro Rome, Naples et Florence, e depois de um dia a visitar os esplendorosos monumentos da cidade, entra na Basílica de Santa Croce em Florença, e eis que se vê acometido de alucinações, ritmo cardíaco acelerado, vertigens e tonturas não só pelos magníficos frescos e pela sua arquitectura fascinante, como também por aí estarem sepultadas figuras esmagadoras como Galileu, Maquiavel ou Miguel Ângelo – foi-lhe diagnosticada “overdose de beleza” –, e teremos o desenlace. Tudo isto numa linguagem pobre, superficial e com as inevitáveis reviravoltas na intriga, que inviabiliza uma leitura honesta ou, então, são os tais bolos com que se compram os tolos.

Classificação: ** (Medíocre)

Referência bibliográfica:
Chuck Palahniuk, Diário. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Junho de 2007, 299 pp. (tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa, Vasco Teles de Menezes; obra original: Diary, 2003).

Nota: Havendo derrogado este ano, por duas ocasiões, o critério de avaliação das obras objecto da minha leitura – não revelar as obras classificadas abaixo das 3 estrelas –, passarei a incluir na coluna da direita, com a respectiva ligação, algumas – e não todas – destas obras. O contador “Livros de 2007” continuará a reflectir, por diferença, o número de obras não incluídas: à data, a diferença é de 1 obra (28 lidas – 27 classificadas).

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Bartleby

É caso para dizer que o assédio continua. Evoco de novo o Sérgio Lavos e o seu Auto-Retrato, agora a propósito da sua excelente sucessão de textos sobre os Bartlebys deste mundo.
Este texto do Sérgio recorda um episódio ficcionado de Enrique Vila-Matas numa deambulação por Nova Iorque. Vila-Matas encontra Jerome David, ou melhor, J.D. Salinger num autocarro, mas, simultaneamente, julga ver ao seu lado o amor da sua vida. Uma rapariga que despertou no autor uma paixão assolapada e a forte convicção do tal raríssimo encontro com a alma gémea. Eis o dilema: as mulheres ou a Literatura?
Salinger, é o epítome do Síndrome de Bartleby – o escrivão do conto de Herman Melville, ao que dizem inspirado em R. W. Emerson. E mais não direi, o enlace vem na nota de rodapé n.º 31 ao texto invisível de Bartleby e Companhia de Enrique Vila-Matas: – Não te preocupes. Por amor de Deus, não te preocupes. (que repetitivo!)

Mas o mais fascinante na Bartlebylândia é imperfeição revelada em alguns dos seus habitantes menos ortodoxos. Por exemplo, Salinger é um Bartleby ortodoxo, deixou de escrever e acabou-se (a propósito: tem algum conto guardado na sua gaveta?) Com 88 anos, e há 42 sem publicar, dêem-lhe o Prémio Nobel da Literatura… do Não!
Thomas Pynchon é um caso à parte. Ninguém o vê, fotografa ou filma há décadas e Pynchon continua a publicar. É o caso de um Bartleby errático ou, se se preferir, heterodoxo em termos batlebyanísticos. Todavia, não foi Pynchon que me trouxe aqui.
Um feliz exemplo, de igual modo apontado por Vila-Matas, é o do escritor uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964) que, para além do abandono precoce da carreira de pianista, se embrenhou nas artes literárias através da narrativa curta, cujos contos eram famosos por simplesmente não terminarem, ou melhor dito, possuírem finais incompletos. O paradigma do conto incompleto é o seu famoso texto “Ninguém acendia as luzes”, que, por muito paradoxal que possa parecer, Vila-Matas considera dispor de um final inesquecível, o qual não revelarei, porque:

A ler (em castelhano): «Nadie encendía las lámparas».

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Mini-entrevistas

Coube-me hoje em sorte – por vezes prefiro a expressão idiomática espanhola “al azar” – responder às quatro perguntas elaboradas por Luís Carmelo no Miniscente na sua saga de entrevistas a gente da bloga.

A entrevista foi concedida no tal hiato de 70 dias entre o falecimento abrupto do
Porque e o surgimento, pela saudade sentida da blogosfera, deste In Absentia.
Terminando à Pynchon “Que o leitor escolha, que o leitor tenha cautela. Boa sorte.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Cameo Pynchoniano

Sobre Thomas Pynchon, ler este texto escrito pelo seu fã n.º 1 (R. C.) da blogosfera lusa.

Em jeito de homenagem, [faltam-me as palavras, my "mind is elsewhere, stranded among the figments in" my "head as" I search "for an answer to the question that haunts" me], aqui fica um divertidíssimo cameo do Homem Invisível:

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Solidariedade Literária

O Rogério publica uma carta de solidariedade enviada pelo gigante Thomas Pynchon ao não menos gigante Ian McEwan.

Assunto: um suposto plágio cometido por McEwan na sua obra-prima – e isto apenas segundo os meus cânones estéticos, fazendo par com AmesterdãoExpiação (Atonement, 2001), sobre a construção da protagonista Briony Tallis.

Nota: Para mais informações sobre a polémica, ler
este texto do Sérgio Lavos no Auto-Retrato.