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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Haverá alguém que entenda isto?

A Editorial Presença acabou de anunciar que já se encontra disponível no mercado a segunda obra da sua recentemente inaugurada colecção “Obras Literárias Escolhidas” – a estreia deu-se com o romance, esgotadíssimo no mercado nacional, Trópico de Câncer (Tropic of Cancer, 1934) de Henry Miller.
Ora, a tal segunda obra é o excepcional romance Os Anos (The Years, 1937), de Virginia Woolf – o seu penúltimo romance, e o último publicado antes da sua morte trágica no Rio Ouse em 1941. A edição da Presença conta com a tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e estende-se por 376 páginas, com o preço de venda ao público de 20 euros.
O que não se consegue entender é a oportunidade de publicação desta obra, uma vez que no mercado nacional de livros o mesmo romance, editado pela Relógio D’Água, distribuído por 414 páginas, com uma boa tradução de Pedro Elston, encontra-se perfeitamente disponível. Não há livraria, de média ou grande dimensão, que não o disponha, inclusive, em escaparate, pelo preço do editor de 17 euros.

Mas, comparemos as versões através das frases de abertura:

A versão original da abertura:
«It was an uncertain spring. The weather, perpetually changing, sent clouds of blue and of purple flying over the land. In the country farmers, looking at the fields, were apprehensive; in London umbrellas were opened and then shut by people looking up at the sky.»

A versão de Pedro Elston (Relógio D'Água) da abertura:
«Estava uma Primavera incerta. O tempo, em permanente mudança, fazia voar sobre a terra nuvens de azul e violeta. No campo os lavradores ao olharem para as terras ficavam apreensivos; em Londres os guarda-chuvas abriam-se e fechavam-se nas mãos das pessoas que olhavam para o céu.»

A versão de Fernanda Pinto Rodrigues (Presença) da abertura:
«Era uma Primavera irregular. O tempo, em constante mudança, punha nuvens azuis e purpúreas a voar sobre a terra. No interior, os agricultores olhavam, apreensivos, para os campos; em Londres, os guarda-chuvas eram abertos e depois fechados por pessoas que olhavam para o céu.»
A quem serve esta duplicação de esforços? Será a primeira versão uma má tradução? E se esse for o caso, quem a classificou como tal? O público? A crítica? Uma qualquer reunião casual de editores sentenciadores?

Já no início do ano havia dado conta de um caso ainda mais paradigmático de desperdício de eucaliptos para a produção de pasta de papel: as versões disponíveis no mercado nacional da novela de Lev Tolstói A Morte de Ivan Ilitch. Ele há para todos os gostos, de Adolfo Casais Monteiro, de António Pescada, de Pedro Tamen, de João Maia, de Nina e Filipe Guerra, e por aí fora.

Não há critério razoável que me permita discernir pela bondade desta duplicação, condição que é agravada pela quantidade incomensurável de obras de autores consagrados, há muito pertencentes ao cânone literário universal, que nunca viram a luz do dia em língua portuguesa deste lado do Atlântico.
Bastar-me-ão dois singelos exemplos entre dezenas: a obra de Thomas Pynchon após o romance O Leilão do Lote 49 (The Crying of Lot 49, 1966) e obras como The Adventures of Augie March (1953), Humboldt's Gift (1975) ou The Dean's December (1982), entre outras, do inigualável Saul Bellow (Prémio Nobel da Literatura em 1976).

Nas mãos do leitor fica a decisão: comprar o livro Os Anos de Woolf por 17 ou por 20 euros? Relógio D’Água ou Presença? 414 ou 376 páginas? Pedro Elston ou Fernanda Pinto Rodrigues?

quarta-feira, 30 de julho de 2008

O anti-melodrama

François Ozon

Tem sido um osso fílmico duro de roer, um soco no estômago cinematográfico que ainda faz repercutir as suas ondas de choque sobre a minha alma, uma traição em forma de filme cujo sabor amargo ainda perdura na minha boca, um… Chega!
O melodrama barato – a existir o caro… –, algo que nunca esteve presente nas anteriores longas-metragens realizadas pelo, provavelmente®1, melhor realizador francês da actualidade, nascido em Paris há menos de 41 anos (na imagem com um ar sério e não melodramático antes de proferir que a campónia e untuosa Romola Garai era a sua musa).
Como é possível ter-se por musa uma Romola?

Antes de descobrir a fonte de inspiração etérea, François Ozon havia realizado esta excepcional sequência de filmes:

  • Gotas de água sobre pedras escaldantes (Gouttes d’eau sur pierres brûlantes, 2000)2;
  • Sob a areia (Sous le sable, 2000);
  • 8 Mulheres (8 femmes, 2002);
  • Swimming Pool (2003);
  • Cinco vezes dois (5x2, 2004);
  • O tempo que resta (Le temps qui reste, 2005)

No admirável Sob a areia, Ozon demonstra toda a sua arte anti-climáctica, que antes poderia haver traduzido pelo horror ao melodrama.
Ozon cria o ambiente soturno de uma rotina conjugal e estraçalha o interior de uma mulher, Marie (soberbamente interpretada por Charlotte Rampling), que alheada da dor surda e da infelicidade estampada no rosto do marido (Bruno Cremer) quando chegam à sua casa de férias na estância de Landes, o vê partir no dia seguinte na praia quando este lhe disse que ia tomar um banho de mar. Apesar das buscas exaustivas, o corpo não aparece, uma série de incógnitas são levantadas (fuga, suicídio, morte acidental) e poderiam ter sido exploradas por Ozon para encetar um dramalhão de choro ininterrupto, dentro e fora do ecrã (neste último caso com um sério aviso para a eventual necessidade de uso do escafandro).
Marie parte para Paris, alheando-se da ausência do marido, falando dele no presente, compartilhando o leito com um homem num assumido adultério. Assiste-se ao desmoronar interior de um personagem, sem uma lágrima, apenas com gestos, reflexões e actos aparentemente demenciais de quem não aceita o que vê, mas apenas o que sente. Jean não está morto. A confrontação com a sogra. A morgue... a alienação.

Escrito em conjunto com três mulheres argumentistas (Emmanuèle Bernheim, Marina de Van e Marcia Romano), o momento da definição ocorre em Paris, na sala de aula da universidade onde Marie ensina Literatura Inglesa; Marie lê Virginia Woolf em voz alta, As Ondas, num momento da narrativa que se situa pouco após a morte do espectral Percival, na hora da confrontação da verdade poética com a realidade dos vários "eus" de Bernard:

«E o tempo, disse Bernard, esgota-se. A gota forma-se no telhado da nossa alma e depois cai. É o tempo que a faz cair. Na semana passada, quando me barbeava, a gota caiu. Estava de pé com a navalha de barbear na mão e de repente tomei consciência da natureza habitual desse meu gesto (a gota formando-se) e felicitei ironicamente as minhas mãos por se submeterem a esta rotina. “Barbeiem, barbeiem”, disse. Continuem a barbear. A gota caiu. Durante o dia, enquanto trabalhava, o meu pensamento escapou constantemente dirigindo-se a um lugar vazio em busca de qualquer coisa perdida, de qualquer coisa que acabara. «Morto e enterrado», murmurei consolando-me com as palavras. As pessoas repararam no meu ar ausente e na inconsequência das minhas frases. E enquanto abotoava o sobretudo para regressar a casa disse mais tragicamente: “Perdi a minha juventude.”»
Virginia Woolf, As Ondas, pág. 148
[Lisboa: Relógio D’Água, 1988, 239 pp; tradução de Francisco Vale; obra original: The Waves, 1931]

Marie interrompe a leitura nesse ponto da história, o terrível circunlóquio do despertar de Bernard, avista alguém no anfiteatro que ela sabe lhe poderá interromper o devaneio, a fuga que empreendeu para não ter de enfrentar a dor da perda. Interpelada no corredor, responde ao interlocutor, impávida, serena, firme da sua convicção do que é a verdade.
É, seguramente, um dos momentos mais sublimes da cinematografia contemporânea... apenas fica o silêncio da estupefacção...


Notas:

  1. Agradeço à Carlsberg pela utilização do advérbio de modo, que, nestes casos, impede que se ignorem os velhos ainda em actividade (Resnais, Rohmer, Godard, Rivette, Varda, Chabrol,…), os de meia-idade (Garrel, Téchiné, Schroeder, Chéreau,…) e os mais novos (Canet, Noé, Gondry, Carax, Honoré,…).
  2. Já o vi Luís, e agradeço-te a sugestão que colmatou uma das minhas falhas ozónicas (tenho ainda por ver Sitcom e Les amants criminels, para além da esmagadora maioria das curtas).

Porquê François? (em francês dava rima; volto à minha pose melodramática.)

domingo, 27 de julho de 2008

O elefante acorrentado

Louis (o eliotiano), a par de Bernard (o joyciano), talvez o personagem mais bem elaborado por Woolf em As Ondas – opinião pessoal, e sem sombra de misoginia. Simboliza o homem, outrora admirado, «o melhor aluno do colégio», desprezado pelas vicissitudes da vida. O australiano que vive atormentado com o seu sotaque pela Londres das elites, confrontado com a falência do negócio do pai, um banqueiro de Brisbane, trabalha atrás de uma secretária atafulhada de papelada num escritório de contabilidade (onde é que já li ou ouvi isto no caso português).

Nas suas próprias palavras:

«É muito profundo o que nos diferencia, disse Louis, e talvez impossível de definir. Mas, apesar disso, procuremos uma definição. Ao entrar, ajeitei o cabelo para me tornar parecido convosco. Mas não o consegui, porque não sou uno e completo como vocês. Já vivi mil vidas. Em cada dia cavo e desenterro alguma coisa, descubro restos de mim na areia pisada pelas mulheres há milhares de anos, na época em que escutava os cantos que se elevavam na margem do Nilo e as patadas da besta acorrentada. O Louis que estão a ver é feito das cinzas de alguém outrora sublime. Fui príncipe árabe; a nobreza dos meus gestos é disso testemunha. Na época de Elisabeth fui um grande poeta. E era duque na corte de Luís XIV. Sou vaidoso e destemido e tenho um imenso desejo de que as mulheres suspirem de ternura por mim. Hoje não almocei para que Susan me achasse pálido e Jinny estendesse sobre mim a singular fragância [sic] da sua simpatia. Mas, ao mesmo tempo que admiro Susan e Percival, odeio os outros, pois é por causa deles que me torno ridículo, à força de me pentear e procurar esconder o meu sotaque. Sou o macaquinho que brinca com uma noz e vocês são as mulheres desmazeladas, com reluzentes sacos de pastéis apodrecidos. Sou também o tigre enjaulado e vocês os guardas armados com ferros incandescentes. É exactamente isso. Sou mais forte e mais feroz do que vocês e, no entanto, esta minha breve aparição sobre a terra, após milénios de não ser, será consumida no temor de que se riam de mim, a mudar com o vento conforme sopram as tempestades de fuligem, esforçando-me por forjar o anel de aço da clara poesia que reúna as gaivotas e as mulheres de dentes apodrecidos, os campanários das igrejas e os chapéus de coco que desfilam pelas ruas quando estou a almoçar e apoio um dos meus poetas preferidos (talvez Lucrécio) no galheteiro e no cardápio sujo com molho de carne.»
Virginia Woolf, As Ondas, pp. 102-103
Lisboa: Relógio D’Água, 1988, 239 pp. [tradução de Francisco Vale; obra original: The Waves, 1931]

Enfim, quebradas as correntes apenas fica o desejo expresso de que não se estilhacem as porcelanas que habitam as lojinhas pessoais, delicadas e assépticas, dos pequenos (grandes, por auto-ilusão) caciques da lusa erudição.
Ah, a inveja, já dizia o outro “um mal oculto”.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Disparidades

A propósito de um texto que estou a escrever sobre um livro que acabei de ler (e que mais tarde, ou mais cedo, irá aqui ser objecto de publicação), onde me detinha sob considerandos formais da edição e da composição gráfica do exemplar estrangeiro para a nossa língua, relembrando aquilo que aqui foi dito sobre a publicação de um conto de Henry James, não consigo entender, a decisão dos editores da Relógio D’Água (e não se trata, de forma alguma, de uma embirração, ao invés, aqueles que me lêem até já conhecem a estima que tenho pela editora de Francisco Vale, propalada sempre que reputo essa referência de excelência como de menção oportuna) para a composição gráfica e tipográfica adoptada na reedição da obra introspectiva de Virginia Woolf, Rumo ao Farol. O tamanho da letra, o espaçamento entre linhas (perfazendo 175 páginas, excluindo o índice final, e dimensões de 23 x 15 x 1,5 cm, por um preço de venda ao público de 18 euros) não diferem muito da versão de bolso que continua a ser vendida pela Europa-América (180 páginas e dimensões de 17,5 x 11,5 x 1,3 cm, por apenas 6,49 euros).
Encontrando-me neste momento numa fase de releitura do referido romance de Woolf (o primeiro confronto com a obra deu-se precisamente através do livro de bolso supramencionado) e atendendo às condições climáticas dos dias que vão correndo, cada página lida contribui para o adensar de uma lenta e ruminante dor de cabeça, que a perseverante canícula nocturna agrava. Em suma, disparidades quase incompreensíveis, tão habituais no meio editorial nacional. E, neste caso em concreto, qual é o seu motivo?
  • Será dos direitos de autor? Da tradução a cargo de Mário Cláudio que já constava da 1.ª edição de 1985 das Edições Afrontamento (Porto)? Dos direitos a pagar a esta última?
  • Justificará a discrepância entre os 345 cm2 e os 201,25 cm2 (e respectivas qualidade e gramagens do papel) a diferença de 11,51 euros, com um número sensivelmente igual de páginas impressas?

No meu entender de leitor exigente, considero que, uma vez mais, se perdeu a oportunidade de se fazer uma edição portuguesa digna da imensidão literária da obra. É, sem sombra de sarcasmo, uma pena.