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sábado, 23 de outubro de 2010

Um é uma multidão

We don’t need people / to be alone. / We are together / on our own.
É com estas quatro estrofes que pretendo deixar aqui algumas (poucas) palavras, para memória futura, sobre o regresso de Ozon depois do OFNI (Objecto Fílmico Não Identificado) Ricky (2009) – filme este que não estreou no circuito comercial de cinema português, tendo sido lançado pela Clap Filmes directamente em DVD, sob a chancela da Fnac.
O Refúgio (Le refuge, 2009) é um regresso de François Ozon ao seu lado mais despido, enganadoramente seco, onde uma fina membrana pulsa sobre um turbilhão de sentimentos como a solidão, o egoísmo e até a tácita misantropia, potenciados pela dor que advém da brutalidade da morte, da doença ou da ausência insuportável de outrem; uma inóspita imperturbabilidade que não é mais que um disfarce erigido para resguardar a pessoa perante os efeitos nefastos do amor e dos afectos mais sinceros. Ozon retorna a O tempo que resta (Le temps qui reste, 2005) e ao seu melhor filme, o incontornável Sob a Areia (Sous le sable, 2000), com o seu fabuloso trabalho de actores, Melvil Poupaud e Charlotte Rampling, respectivamente; agora replicado com Isabelle Carré, que tem um desempenho notável – a actriz parisiense encontrava-se grávida na realidade durante as filmagens –, mas que está longe de plantar no espectador as raízes profundas da melancolia e da solidão, da ternura e do choque, como Ozon fez com mestria com os seus predecessores existencialistas.
Contudo, não tenho dúvidas, apesar da desilusão pelas expectativas frustradas com O Refúgio, François Ozon é o mais notável e versátil realizador francês da sua geração, e um dos melhores entre os seus companheiros para além das fronteiras do pentágono gaulês.
As estrofes de abertura pertencem à música “People” do grupo alemão Superpitcher, incluída no seu sugestivo álbum Here Comes Love (2004). Nada é por acaso, a música marca engenhosamente o ponto de viragem do filme e é uma das suas cenas mais marcantes rumo ao inesperado desenlace que se aproxima e, como sempre em Ozon, dispõe da capacidade de nos deixar perturbados à medida que se vão acendendo as luzes da sala de projecção e vamos despertando para a nossa realidade.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

O anti-melodrama

François Ozon

Tem sido um osso fílmico duro de roer, um soco no estômago cinematográfico que ainda faz repercutir as suas ondas de choque sobre a minha alma, uma traição em forma de filme cujo sabor amargo ainda perdura na minha boca, um… Chega!
O melodrama barato – a existir o caro… –, algo que nunca esteve presente nas anteriores longas-metragens realizadas pelo, provavelmente®1, melhor realizador francês da actualidade, nascido em Paris há menos de 41 anos (na imagem com um ar sério e não melodramático antes de proferir que a campónia e untuosa Romola Garai era a sua musa).
Como é possível ter-se por musa uma Romola?

Antes de descobrir a fonte de inspiração etérea, François Ozon havia realizado esta excepcional sequência de filmes:

  • Gotas de água sobre pedras escaldantes (Gouttes d’eau sur pierres brûlantes, 2000)2;
  • Sob a areia (Sous le sable, 2000);
  • 8 Mulheres (8 femmes, 2002);
  • Swimming Pool (2003);
  • Cinco vezes dois (5x2, 2004);
  • O tempo que resta (Le temps qui reste, 2005)

No admirável Sob a areia, Ozon demonstra toda a sua arte anti-climáctica, que antes poderia haver traduzido pelo horror ao melodrama.
Ozon cria o ambiente soturno de uma rotina conjugal e estraçalha o interior de uma mulher, Marie (soberbamente interpretada por Charlotte Rampling), que alheada da dor surda e da infelicidade estampada no rosto do marido (Bruno Cremer) quando chegam à sua casa de férias na estância de Landes, o vê partir no dia seguinte na praia quando este lhe disse que ia tomar um banho de mar. Apesar das buscas exaustivas, o corpo não aparece, uma série de incógnitas são levantadas (fuga, suicídio, morte acidental) e poderiam ter sido exploradas por Ozon para encetar um dramalhão de choro ininterrupto, dentro e fora do ecrã (neste último caso com um sério aviso para a eventual necessidade de uso do escafandro).
Marie parte para Paris, alheando-se da ausência do marido, falando dele no presente, compartilhando o leito com um homem num assumido adultério. Assiste-se ao desmoronar interior de um personagem, sem uma lágrima, apenas com gestos, reflexões e actos aparentemente demenciais de quem não aceita o que vê, mas apenas o que sente. Jean não está morto. A confrontação com a sogra. A morgue... a alienação.

Escrito em conjunto com três mulheres argumentistas (Emmanuèle Bernheim, Marina de Van e Marcia Romano), o momento da definição ocorre em Paris, na sala de aula da universidade onde Marie ensina Literatura Inglesa; Marie lê Virginia Woolf em voz alta, As Ondas, num momento da narrativa que se situa pouco após a morte do espectral Percival, na hora da confrontação da verdade poética com a realidade dos vários "eus" de Bernard:

«E o tempo, disse Bernard, esgota-se. A gota forma-se no telhado da nossa alma e depois cai. É o tempo que a faz cair. Na semana passada, quando me barbeava, a gota caiu. Estava de pé com a navalha de barbear na mão e de repente tomei consciência da natureza habitual desse meu gesto (a gota formando-se) e felicitei ironicamente as minhas mãos por se submeterem a esta rotina. “Barbeiem, barbeiem”, disse. Continuem a barbear. A gota caiu. Durante o dia, enquanto trabalhava, o meu pensamento escapou constantemente dirigindo-se a um lugar vazio em busca de qualquer coisa perdida, de qualquer coisa que acabara. «Morto e enterrado», murmurei consolando-me com as palavras. As pessoas repararam no meu ar ausente e na inconsequência das minhas frases. E enquanto abotoava o sobretudo para regressar a casa disse mais tragicamente: “Perdi a minha juventude.”»
Virginia Woolf, As Ondas, pág. 148
[Lisboa: Relógio D’Água, 1988, 239 pp; tradução de Francisco Vale; obra original: The Waves, 1931]

Marie interrompe a leitura nesse ponto da história, o terrível circunlóquio do despertar de Bernard, avista alguém no anfiteatro que ela sabe lhe poderá interromper o devaneio, a fuga que empreendeu para não ter de enfrentar a dor da perda. Interpelada no corredor, responde ao interlocutor, impávida, serena, firme da sua convicção do que é a verdade.
É, seguramente, um dos momentos mais sublimes da cinematografia contemporânea... apenas fica o silêncio da estupefacção...


Notas:

  1. Agradeço à Carlsberg pela utilização do advérbio de modo, que, nestes casos, impede que se ignorem os velhos ainda em actividade (Resnais, Rohmer, Godard, Rivette, Varda, Chabrol,…), os de meia-idade (Garrel, Téchiné, Schroeder, Chéreau,…) e os mais novos (Canet, Noé, Gondry, Carax, Honoré,…).
  2. Já o vi Luís, e agradeço-te a sugestão que colmatou uma das minhas falhas ozónicas (tenho ainda por ver Sitcom e Les amants criminels, para além da esmagadora maioria das curtas).

Porquê François? (em francês dava rima; volto à minha pose melodramática.)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Um problema molecular

mel à esquerda, e à direita Romola Garai com François Ozon nos bastidores
Já nada me surpreende no mundo da 7.ª arte. Talvez me seja difícil, aqui e agora, conseguir divisar o marco para a irremediável perda de fé nalguma consistência nas artes cinematográficas, concretamente na carreira dos realizadores que acompanhamos, admiramos e nos transportam, através do sortilégio das suas obras, para longe de uma realidade, de um quotidiano que nos (me) vai asfixiando – libertar as pulsões que, de outro modo, deixam marcas de reverberação cujo recalcamento tem o implacável poder de avivar uma dor que não se extingue.
Tudo isto se resume a um problema molecular. Por exemplo, o agravamento do meu espírito saturnino levou-me a proferir as inanidades melodramáticas escritas no final do anterior parágrafo. É do ozono: três moléculas de oxigénio que instabilizam a vida na Terra. Um simples átomo de oxigénio que se acrescenta à sua molécula, um “e” que cai que não me permite continuar a tergiversar e a tentar ser engraçado com o apelido do benfazejo realizador francês, François de seu nome, nascido em Paris no ano da Graça de 1967.

Um longo período de publicidade e de trailers de filmes em exibição ou com exibição iminente. Letras do genérico rosa fúchsia estilizadas, barrocas e um som de fundo que me deixam a olhar de esguelha para o ecrã e a pensar nos penosos 135 minutos que irei passar naquele ambiente artificial. Romola Garai… curioso, este nome pindérico diz-me qualquer coisa… Sam NeillCharlotte Rampling… cadavérica... um outro que nasceu com um apelido com um possível erro ortográfico, um tal de Fassbenderbased on a novel by Elizabeth Taylor… Diamantes, lantejoulas, lamechices, Michael Jackson, gatos e laçarotes. Estava tudo lá, se exceptuarmos, é claro, o caucasiano ex Jackson Five.

Os minutos passam, as dúvidas desfazem-se. Trata-se, de facto, de um melodrama de quinta categoria, cuja música orquestrada de Philippe Rombi parece ser o canário na mina de carvão.
Romola… pois a tal de Romola, a sósia britânica de Carolina Salgado que vestiu a pele da personagem cruelmente expiatória Briony Tallis aos dezoito anos, quando se armou de Florence Nightingale na versão cinematográfica Joe Wright do romance de McEwan – parece que ainda a estou a ver a sair toda emplumada do seu BM X5 à porta do tribunal de Gondomar.

Com a excepção do
Luís Miguel, a crítica excita-se e estrela-o no máximo – de girassol ou de soja, é um enjoo. Pois, Ozon faz pulsar a priori a veia encomiástica dos cinéfilos e críticos de cinema.

Confesso que, durante as duas intermináveis horas, estive sempre na expectativa de assistir à metamorfose do desastre melodramático num thriller psicológico viscontiano, embora sem Helmut Berger, que terminasse com uma fanfarra felliniana, ou então, num intrigante e feérico jogo de espelhos hitchcockiano. Porém, foi uma espera sem proveito, a dramalhada termina subliminarmente com o cliché de que “o dinheiro (corporizado não só nos bens e na fortuna, mas também na fama) não traz felicidade”. (Ponham-mo na mão que já vos digo por onde começo a construir a minha felicidade...)

Ah, já me ia esquecendo... A tal de Elizabeth Taylor é outra. Também nascida em Inglaterra, mas em 1912, um quarto de século antes da amiga de Neverland, bi-Burton. E já não pertence ao mundo dos vivos, nem tão-pouco à estirpe dos zombies hollywoodianos. Morreu em 1975 vitimada por um cancro e escreveu 12 romances – entre eles, The Real Life of Angel Deverell em 1957 – e alguns contos; e segundo os especialistas em literatura britânica do século passado, passou tangencialmente ao lado de se tornar na Jane Austen do século XX. Talvez as simpatias e militância vermelhas sejam o catalisador para a tentativa de entronização póstuma. Para mim, basta olhar para a colecção que a Virago (a sua editora) lançou para o mercado assim que a eminente esquecida faleceu. Pede meças à colecção de Sabrinas, com toalha de praia e chinelos floridos incorporados no pacote global, à venda no hipermercado Jumbo.

Mas, isto sou eu. A condenar a pobre senhora sem haver lido uma única linha de um dos seus romances ou contos.

Quanto a Ozon, convém que nos esqueçamos rapidamente que engendrou (argumento e realização) esta xaropada.

Nota: a coloquialidade deve-se, sobretudo, ao estado de enervamento que me provoca o simples odor a desperdício artístico, seja ele na Música, na Literatura ou no Cinema – a minha tríade sagrada nas artes.