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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Suttree

Mais uma vez escrevo um texto neste blogue – que, parecendo que não, é um sinal de resistência às minhas tentativas de bloguicídio que surgem de forma intermitente há mais de três anos –, para felicitar, senão mesmo a melhor, uma das melhores editoras nacionais: a Relógio D’Água.
Para os membros do seu corpo editorial, evidenciado na figura tutelar de Francisco Vale – editor principal que tem sabido resistir ao assédio provindo da febre aquisitiva, de índole oligárquica, dos empórios lusos dos meios de comunicação e editoriais –, não há ano de publicação de uma obra (por mais longínquo que tenha sido), número de páginas de um livro (por mais volumoso que este seja), autor (por mais esquecido, hermético ou desconhecido, assim apontado pelas ondas de intelectualidade literária emanadas da perene sapiência de alguns notáveis que integram determinados órgãos de outras casas editoriais), que os assustem ou desviem do seu objectivo primordial: publicar livros de qualidade, independentemente da sua capacidade para gerar receitas imediatas, engrandecer o volume de negócios para ostentação futura, muitas vezes com lucros diminutos ou até inexistentes, apenas para alimentar a empáfia mediática.
Existem edições menos bem conseguidas – é por demais inevitável que assim seja. Há falhas de diversos níveis e gradações – claro que as há. Insucessos potencialmente ruinosos. Mas essas falhas e esses insucessos são claramente minorados, reduzidos à sua insignificância, desde que a pontaria, afinada por anos de prática e experiência no mercado dos livros, vá permitindo que se acerte quase sempre no coração do alvo. Uma marca de gestão: acompanhar o mercado em aparente silêncio, sem uma estratégia de marketing mix deliberadamente ofensiva. Reflecte-se, por exemplo, num produto bem construído, havendo-se contratado os melhores tradutores; numa excelente política de preços; numa simples, mas estudada, política de distribuição do produto literário pelos principais livreiros; são actos de gestão que quase evitam uma política promocional excessiva, meramente esbanjadora de recursos – contudo, e é de primordial importância realçar, todos estes encómios desinteressados, não devem servir de desculpa para as fracas actualização, facilidade de navegação e interactividade da página da internet da referida editora; no momento presente, reveste-se de um carácter urgente uma intervenção de fundo que permita melhorar esta funcionalidade, um dos principais pontos de contacto entre o consumidor final e a casa editora, antes de o primeiro tomar a decisão de compra.

E qual é a razão de ser de todo o palavreado anterior?
A Relógio D’Água publicará em breve uma das obras lapidares do icónico escritor norte-americano, Cormac McCarthy, nascido em Providence, no Estado de Rhode Island em 1933, vive, actualmente, enclausurado no seu rancho no Novo México, longe dos focos mediáticos. McCarthy pertence ao grupo dos quatro grandes escritores americanos contemporâneos identificado pelo crítico literário e professor univeristário, criador de cânones, Harold Bloom – para além do escritor de Providence, o “bando dos quatro” inclui os escritores Philip Roth, Don DeLillo e Thomas Pynchon, grupo a que eu, na minha modesta opinião de amante das letras, haveria juntado John Updike (falecido no passado dia 27 de Janeiro), mas que por qualquer motivo (político ou religioso, quiçá meramente por critérios estético-literários) nunca caiu nas suas graças; consulte-se, a título de exemplo, a sua obra de 1994 The Western Canon: The Books and School of the Ages, na Parte IV “The Chaotic Age”, onde Updike é apenas incluído no cânone literário ocidental pelo seu romance As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984), atirando para segundo plano toda a obra notável e multidimensional deste prolífico ficcionista, poeta e ensaísta.
Regressando ao assunto principal deste texto, a casa dirigida por Francisco Vale editará mais uma obra de ficção de autoria de Cormac McCarthy: trata-se do romance, originalmente publicado em 1979, intitulado Suttree, que se estende, nas suas versões americanas, por quase 500 páginas. O personagem principal, que dá o nome ao livro, abandona uma vida familiar e profissional confortável na cidade para se refugiar nos bairros de lata de Knoxville, partindo numa digressão que muitos comparam à de Leopold Bloom no colossal Ulisses de James Joyce – à semelhança dos itinerários joycianos de Dublin, existe um percurso em Knoxville marcado pelos lugares por onde perambulou Suttree. Por outro lado, segundo refere a crítica, Suttree é o romance mais faulkneriano de McCarthy, com notas bem vincadas de Mark Twain – já só falta falar dos taninos… –, designadamente através do seu púbere personagem Gene Harrogate que se identifica com a rebeldia anárquica de Tom Sawyer.
Suttree é o quarto de dez romances de Cormac McCarthy. Segundo a opinião de muitos entendidos em matérias qualificativo-literárias, trata-se, até ao presente, do magnum opus do autor, apesar de cronologicamente se lhe seguir a obra magistral Meridiano de Sangue (Blood Meridian, 1985), essa sim, considerada por uma grande maioria de críticos e de leitores como o seu melhor romance – onde me incluo, apesar de ainda não haver lido a primeira.
Na sua edição pela Vintage (cuja capa figura na imagem acima reproduzida) – a Vintage é uma chancela da Random House, destinada a reeditar os romances consagrados em formato paperback –, figuram nas primeiras páginas, depois da ficha técnica, algumas frases que destacam a eminência e o brilhantismo do autor, uma delas pertence a um dos escritores mais bartlebianos de toda a literatura norte-americana, Ralph Ellison (1913-1994) – escreveu e publicou em vida apenas um romance, uma obra-prima, Homem Invisível (Invisible Man, 1952). Segundo Ellison, «McCarthy é um escritor para ser lido, admirado e, muito honestamente, invejado.» [tradução: AMC]

Sem perder tempo com traduções livres, uma vez que o livro deverá estar prestes a chegar às livrarias, deixo ficar o parágrafo de abertura do romance, capítulo inicial escrito em forma de prefácio pelo próprio protagonista da obra (atente-se nestas escassas oitenta palavras, estão bem presentes os sinais idiossincráticos mccartianos em alguns neologismos e na repetição exaustiva da conjunção copulativa “e” em detrimento da vírgula):

«Dear friend now in the dusky clockless hours of the town when the streets lie black and steaming in the wake of the watertrucks and now when the drunk and the homeless have washed up in the lee of walls in alleys or abandoned lots and cats go forth highshouldered and lean in the grim perimeters about, now in these sootblacked brick or cobbled corridors where lightwire shadows make a gothic harp of cellar doors no soul shall walk save you.»
Cormac McCarthy, Suttree. New York: Vintage, May, 1992, p. 3.

Romances de Cormac McCarthy (por ordem cronológica da publicação original):

  • O Guarda do Pomar (ed. port. Relógio D’Água; The Orchard Keeper, 1965);
  • Outer Dark (1968);
  • Filho de Deus (ed. port. Relógio D’Água; Child of God, 1974);
  • Suttree (ed. port. Relógio D’Água; 1979);
  • Meridiano de Sangue ou O Crepúsculo Vermelho no Oeste (ed. port. Relógio D’Água; Blood Meridian, Or the Evening Redness in the West, 1985);
  • Belos Cavalos (ed. port. Teorema; All the Pretty Horses, 1992);
  • The Crossing (1994);
  • Cities of the Plain (1998);
  • Este País Não É para Velhos (ed. port. Relógio D’Água; No Country for Old Men, 2005);
  • A Estrada (ed. port. Relógio D’Água; The Road, 2006).

Nota: tendo em consideração a tão distintiva penúria qualitativa do meio editorial português, o rácio “obras editadas em Portugal/obras do autor estrangeiro”, regista um coeficiente bastante aceitável: 0,7 (7/10 ou 70% dos romances de Cormac McCarthy já se encontram editados em Portugal).

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Disparidades

A propósito de um texto que estou a escrever sobre um livro que acabei de ler (e que mais tarde, ou mais cedo, irá aqui ser objecto de publicação), onde me detinha sob considerandos formais da edição e da composição gráfica do exemplar estrangeiro para a nossa língua, relembrando aquilo que aqui foi dito sobre a publicação de um conto de Henry James, não consigo entender, a decisão dos editores da Relógio D’Água (e não se trata, de forma alguma, de uma embirração, ao invés, aqueles que me lêem até já conhecem a estima que tenho pela editora de Francisco Vale, propalada sempre que reputo essa referência de excelência como de menção oportuna) para a composição gráfica e tipográfica adoptada na reedição da obra introspectiva de Virginia Woolf, Rumo ao Farol. O tamanho da letra, o espaçamento entre linhas (perfazendo 175 páginas, excluindo o índice final, e dimensões de 23 x 15 x 1,5 cm, por um preço de venda ao público de 18 euros) não diferem muito da versão de bolso que continua a ser vendida pela Europa-América (180 páginas e dimensões de 17,5 x 11,5 x 1,3 cm, por apenas 6,49 euros).
Encontrando-me neste momento numa fase de releitura do referido romance de Woolf (o primeiro confronto com a obra deu-se precisamente através do livro de bolso supramencionado) e atendendo às condições climáticas dos dias que vão correndo, cada página lida contribui para o adensar de uma lenta e ruminante dor de cabeça, que a perseverante canícula nocturna agrava. Em suma, disparidades quase incompreensíveis, tão habituais no meio editorial nacional. E, neste caso em concreto, qual é o seu motivo?
  • Será dos direitos de autor? Da tradução a cargo de Mário Cláudio que já constava da 1.ª edição de 1985 das Edições Afrontamento (Porto)? Dos direitos a pagar a esta última?
  • Justificará a discrepância entre os 345 cm2 e os 201,25 cm2 (e respectivas qualidade e gramagens do papel) a diferença de 11,51 euros, com um número sensivelmente igual de páginas impressas?

No meu entender de leitor exigente, considero que, uma vez mais, se perdeu a oportunidade de se fazer uma edição portuguesa digna da imensidão literária da obra. É, sem sombra de sarcasmo, uma pena.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Lowry

Malcolm Lowry
Por razões que a recente linha editorial deste blogue não desmente, comprei a edição de hoje do jornal Público. O frontispício da Ípsilon evoca o atormentado Ian pela cara de Sam Riley no filme Control do holandês Anton Corbijn – já lá vão os tempos em que a centerfold ditava a compra…
Para além da tentativa de dissecação do génio musical e poético, e da curta experiência de vida de Ian Curtis, a Ípsilon, numa lógica congruente – sofredores deste mundo, uni-vos... no nosso suplemento cultural de 16 de Novembro de 2007 –, dedica grande parte do seu espaço ao escritor inglês Malcolm Lowry (1909-1957), a propósito da comemoração dos 50 anos da sua morte por desventura e dos 60 anos da publicação da sua obra máxima Debaixo do Vulcão – agora reeditado pela
Relógio D’Água, infortunadamente optando apenas pela revisão da tradução de 1961 de Virgínia Motta para a editora Livros do Brasil.
Para o leitor e meio que visita diariamente este blogue, não é de todo surpreendente a minha evocação de Lowry. Debaixo do Vulcão trata-se, de facto, de um dos livros da minha vida – incluído numa
listagem que, à laia de exercício metaliterário, aqui publiquei há quase um ano –, e Geoffrey Firmin um dos personagens mais marcantes e fascinantes da história da literatura mundial – a ele, o Cônsul britânico em Quauhnahuac, se devem algumas das minhas rememorações literárias e associações simbólicas.
Sobre este anti-herói
escrevi o que se segue – a propósito de outro criado pela pena de Iris Murdoch, o fabuloso e acidental, Austin Gibson Grey:


«A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
«Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry,
Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...» [autocitação: "amo-me!"].


Em adjacência ao artigo principal, que ainda não li, surgem as opiniões de dois dos meus bloggers de visita virtual diária e de frequente intercâmbio de ideias via caixa de comentários ou e-mail: o Henrique Fialho e o nosso recém-convertido à hortofruticultura Rogério Casanova.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Devastação

«Os dias passavam, vagarosos, sem que ninguém os contasse, os assinalasse num calendário. Lá longe, ao longo da interestadual, enormes filas de carros calcinados e cobertos de ferrugem. O metal despido das jantes mergulhado numa pasta dura e cinzenta de borracha derretida, em anéis enegrecidos de arame. Os cadáveres incinerados, mirrados até ao tamanho de crianças e apoiados nas molas nuas dos assentos. Milhares de sonhos sepultados naqueles corações reduzidos a lascas de pedra. Eles continuaram a caminhar. Palmilhavam o mundo sem vida como ratinhos numa roda. De noite, silêncio de morte e trevas sepulcrais. Tanto frio.» (pág. 179)
Trevas. Suponhamos a Terra definitiva e perenemente coberta de nuvens negras, fuliginosas, que raramente deixam entrever os raios do astro-rei que outrora fora a fonte criadora de vida. A superfície da América é apenas um deserto cruzado por uma intricada rede de estradas de asfalto negro derretido, por onde deambulam seres humanos em busca de alimento, revirando os despojos de uma devastação de chamas, de árvores queimadas, cidades inteiras destruídas, onde já nem se escuta o trinado dos pássaros que cruzavam os céus. O Homem sozinho com ele mesmo, curiosamente o único ser que remanesceu à barbárie por ele ocasionada; o Homem e a sua desmesurada inteligência, desviada apenas para o objectivo último de sobreviver numa paisagem hostil que ele próprio criou no seu afã de conquista, de poder, de dominar a indomável Natureza.

Pai e filho caminham sós por essa imensa estrada, unindo-os uma relação de amor incondicional, resquícios dos afectos de um tempo que já passou. Pequenos nadas que se consolidaram numa liga indestrutível perante a miséria.
Pai e filho caminham para Leste, em direcção ao mar. Talvez a única força viva da Natureza que, pela distância – na memória do pai – ou pelo desconhecimento que não seja através de uma memória secundária – no caso do filho –, simboliza todo o fulgor e o fascínio que necessariamente o simples acto de viver, toda uma existência, requer para lhe atribuir um significado, um propósito, um objectivo cuja génese incognoscível – Deus? – poderá encerrar algo de absolutamente aterrador, mas que decerto conduz à libertação... à luz.
Pela estrada deambulam pessoas em busca de alimento, quando não pertencem e nem se encontram organizados em comunas fortemente hostis ao contacto com o exterior despedaçado. No pai subsiste a memória de um espaço de luz e toda a aprendizagem de um processo que conduziu o planeta ao apocalipse. Ao filho resta-lhe a obediência cega à voz da experiência do seu velho companheiro de caminhada, e um coração puro, não contaminado, desconhecedor das atrocidades praticadas e, principalmente, da razão de ser para aquele cenário de autodestruição: «Está bem», simboliza a tal obediência que é simultaneamente o epítome de um sentimento arrebatador que extravasa toda a degradação; e, enfim, a caridade que, como dizia o Profeta, recolherá os seus frutos num tempo que há-de vir.

Cormac McCarthy conquistou com este livro o prémio Pulitzer 2007 para a melhor obra de ficção literária. Nas cerca de 190 páginas do romance, que se lêem de um só fôlego, o escritor norte-americano faz jus às atribuídas solidez e integridade narrativas, especialmente difícil numa obra de carácter distópico.
Com alguma crueza em determinados relatos – vide a descrição, tão discutida pela crítica, do bebé canibalizado – e, por outro lado, sem haver deixado algum do barroquismo que caracteriza a sua bibliografia ficcional activa, esta é, no meu entender a sua melhor obra e, seguramente um dos romances do ano editorial português, uma vez mais com a chancela de uma das minhas editoras preferidas, a
Relógio D’Água.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica
Cormac McCarthy, A Estrada. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Março de 2007, 187 pp. (tradução de Paulo Faria; obra original: The Road, 2006).

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Cartago


(carregar na imagem para ampliar)

Para aqueles que, como eu, aproveitaram a recente edição da Relógio D’Água, com tradução de Pedro Tamen, para se iniciarem, através da leitura, no romance histórico Salammbô de Gustave Flaubert, originalmente publicado em 1862, aqui deixo ficar um precioso auxiliar – ver imagem acima – para a tarefa mental de situar as cidades cartaginesas do século III a.C. mencionadas no livro, e para entender os limites até aos quais se estendia o Império de Cartago após o fim da primeira das três Guerras Púnicas com Roma, época em que decorre a acção da fabulosa narrativa:

«Era em Megara, subúrbio de Cartago, nos Jardins de Amílcar.»
Gustave Flaubert, Salammbô, pág. 11 (Relógio D’Água, 2007).

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Nos Escaparates

Vencedor, na segunda-feira passada, do Pulitzer 2007 na categoria de obra literária de ficção, A Estrada (The Road, 2006) do escritor norte-americano Cormac McCarthy já se encontra à venda em Portugal, editado pela Relógio D’Água, com tradução de Paulo Faria.

Nota: McCarthy também figura na lista de finalistas para o IMPAC Award 2007, com o seu romance de 2005 No Country for Old Men, ainda sem edição em Portugal.





Obras de McCarthy editadas em Portugal, para além de A Estrada:
  • O Guarda do Pomar – Relógio D’Água, 1996 (The Orchard Keeper, 1965);
  • Filho de Deus – Relógio D’Água, 1994 (Child of God, 1974);
  • Meridiano de Sangue ou o Crepúsculo Vermelho no Oeste – Relógio D’Água, 2004 (Blood Meridian, or the Evening Redness in the West, 1985);
  • Belos Cavalos – Teorema, 1994 (All the Pretty Horses, 1992)*.

*Obra que, conjuntamente com The Crossing (1994) e Cities of the Plain (1998), integra a denominada Trilogia da Fronteira do autor norte-americano.

terça-feira, 27 de março de 2007

Um personagem nada acidental

Iris Murdoch - Um Homem AcidentalAustin Gibson Grey é Um Homem Acidental. Personagem principal do romance de 1971 da escritora britânica (de adopção) Iris Murdoch, nasceu em Dublin em 1919 e morreu em Oxford em 1999 vítima da Doença de Alzheimer.
Casada desde 1956 com o escritor e crítico literário John Bailey, Iris Murdoch é ademais conhecida pelas fortes raízes filosóficas da sua formação académica na Universidade de Oxford, baseada sobretudo no existencialismo de Jean-Paul Sartre, cuja marca se faz notar nas suas obras de ficção. Poetisa, dramaturga e ensaísta, foi contudo na literatura de ficção em prosa que se notabilizou. Obras como O Sino (1958), The Black Prince (1973, vencedor do prestigiado James Tait Black Memorial Prize), A Máquina do Amor: Sagrado e Profano (1974, vencedor do Whitbread Book Award), O Mar, O Mar (1978, vencedor do Booker Prize) e O Bom Aprendiz (1985) foram internacionalmente aclamadas como obras-primas da Literatura do século XX.

Este ano (em Janeiro) a excepcional editora lusa Relógio D’Água – cujo trabalho editorial tem permitido a publicação de obras de literatura de outros tempos que jamais haviam sido editadas no mercado português, ou daquelas cuja edição na língua de Camões se encontrava esgotada há décadas – publicou pela primeira vez no nosso país o romance de Iris An Accidental Man (1971) sob o título Um Homem Acidental.
Este romance de Iris Murdoch é, como tantos outros romances da autora, marcado pela matriz filosófica existencialista de Sartre. Fortemente imbuído do intrincado das relações sociais e das influências nefastas que as nossas acções exercem na vida dos outros de forma involuntária, apenas porque somos livres de as praticar, onde imperam a angústia perante a decisão e o absurdo da própria existência.

A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...

Assim é Austin Gibson Grey. Um anti-herói. Um homem que se define a si próprio como acidental. Aquele que pela sua acção aparentemente anódina traz a infelicidade ao mundo e destrói tudo aquilo que o rodeia. Um homem que vive com a culpa dessa destruição e que resignadamente sobrevive com essa consciência. Vive na angústia da separação física da mulher que ama e cuja existência em comum é entendida como um cataclismo por razões aparentemente injustificáveis e não encontradas à luz da razão. A dado passo, num curioso diálogo sobre a Irlanda – terra natal da autora, remota e fortuita na sua consciência, já que viveu em Inglaterra desde os primeiros anos da sua infância –, estabelece-se a analogia entre a terra de São Patrício e o acidental protagonista: «A Irlanda é como o Austin. Bonita para se ver e tem-se pena dela, mas é, de certo modo… horrível.» (pág. 246)
Austin desiste da possibilidade de uma existência feliz, abdica da luta, porém a luta vem ter com ele a cada gesto que, por mais inocência que possa encerrar, arrasa e implica tudo e todos que o rodeiam, mas que, de forma paradoxal e inexplicável, o próprio, o pólo de atracção da tormenta, acaba por sair incólume:
«Austin faz com que qualquer um fique com um ar pálido e assombrado.» (pág. 363)
É em roda deste personagem que se desenrola a trama com mais de uma dúzia de personagens que gravitam em torno dessa contingência existencial que é Austin Gibson Grey, a que não falta um espaventoso carro desportivo, que passa de mão em mão, apelidado de Kierkegaard...
Um Homem Acidental é um puro exercício da mestria das capacidades de narrativa de Iris Murdoch.
A escrita flui num manancial de diálogos que são acompanhados de algumas introspecções, mas sobretudo de cartas e bilhetes que dão uma sequência lógica ao enredo, através da revelação das inquietações mais profundas dos personagens. E depois temos os eventos sociais, onde Murdoch através de frases curtas e aparentemente retiradas do contexto nos transmite de forma magistral a frivolidade da classe média inglesa, numa sociedade que ainda mal acabara de lamber as feridas de uma guerra atroz e que parecia subsistir num auto-estimulado autismo num mundo onde dois pólos opostos se digladiavam no extremo oriente afastando, em definitivo, a barbárie das batalhas fratricidas do martirizado solo europeu.
Um Homem Acidental é um livro de leitura compulsiva, pleno de ironia, com momentos de boa disposição – alguns elevados ao paroxismo do burlesco que nos induzem à manifestação de uma sonora e saudável gargalhada –, e outros que exigem uma reflexão, não à laia de uma enfatuada lição sobre a condição humana, mas sobre os efeitos perversos que as tais contingências resultantes do exercício da nossa inderrogável liberdade individual têm sobre os outros, o inferno.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica
Iris Murdoch, Um Homem Acidental. Lisboa: Relógio D’Água, Janeiro de 2007, 365 pp. (tradução de Maria de Lourdes Guimarães; obra original: An Accidental Man, 1971).