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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Bellow ao quadrado

Foi apenas hoje que, enquanto perscrutava os escaparates de uma livraria concorrente, mais asseada, diversificada e arrumada, para somar à minha onerosa (de certo modo, utópica) lista de desejos para os Dias do Aderente Fnac nas próximas quinta e sexta-feira – nos tempos que correm, não são despiciendos os 19% de desconto sobre o preço de capa –, reparei numa nova edição de um romance de Bellow no mercado editorial português. Trata-se do admiravelmente urdido Morrem Mais de Mágoa (More Die of Heartbreak, 1987), talvez o último romance de grande fôlego do autor canadiano de nascença, embora americano crónico desde tenra idade.
Bellow é responsável por um dos mais saudáveis dilemas no meu habitual e íntimo exercício de classificação da obra de um autor em que pelo menos dois terços daquela hajam passado pelo meu crivo estético-literário; e esse dilema mostrou o seu aspecto de dolorosa indecisão – como se escolher um romance em detrimento de outros se tornasse um caso de vida ou de morte, talvez uma vacuidade neste mundo filistino, a tender inexoravelmente para o absoluto do qualificativo – quando na minha passagem relâmpago pelo Facebook (a um ano de distância a desistência após três meses afigura-se-me cada vez mais como um acto prudente e ajuizado, um bem-haja para mim) me propuseram que, à queima-roupa, postasse uma listagem com os meus 10 ou 15 romances preferidos, sem muito pensar ou discernir para não contaminar a imposta espontaneidade. Assim o fiz e de imediato fui criticado, porque para além de ter efectuado trabalhos manuais de “copiar e colar” de um texto que havia escrito há alguns anos, tive de colocar um asterisco à frente da obra de Bellow porque não me conseguia decidir entre três das suas obras como a minha favorita, por onde vagueava com firmeza a acima mencionada; e, assim, a que figurava no arrolamento tornava-se perfeitamente intermutável com as outras duas, sem que a tal lista corresse riscos de desmoronamento por atentado à integridade da minha curta reflexão.
Mas voltemos aos escaparates da dita livraria, verifiquei com surpresa que a Quetzal editou o Morrem Mais de Mágoa, com nova tradução, quando uma outra de responsabilidade da editora Livros do Brasil circula ainda sem rupturas no mercado, com uma excelente tradução (aliás é seu apanágio) de Fernanda Pinto Rodrigues – e não é de todo necessário entrar neste caso, e como me parece óbvio, com o critério da pobreza estética das edições antigas da colecção “Dois Mundos” nesta editora (ver imagem) –, recuperando a de 1989 do Círculo de Leitores – jovem de 21 anos. De imediato, averiguei se nas badanas ou na contracapa existia um manifesto sobre a continuidade de publicação das obras do Prémio Nobel da Literatura de 1976. Para meu contentamento, a Quetzal irá continuar a publicar Bellow, embora no meu entender tenha começado mal, e esta apreciação não se prende só com a duplicação de Morrem Mais de Mágoa no, parco em qualidade, mercado editorial luso (a potência do título é hiperbólica), mas com a tríade de obras inacreditavelmente ainda não publicadas em Portugal:
  • The Adventures of Augie March (1953);
  • Humboldt’s Gift (1975);
  • The Dean’s December (1982).
E depois, nada me garante que as que se seguem não sejam aquelas que duas editoras, agora do grupo LeYa, a Texto e a Teorema, tinham vindo a publicar de forma sistemática desde o ano 2000, antes da mediática aquisição.
E para terminar, mais uma pequena irritação – apenas aplacada pela exposição do primeiro parágrafo desta notável obra, logo a seguir –, desta feita, julgo que de origem tipográfica, na badana da capa da nova edição, Bellow viveu quase 100 anos, nasceu na província do Quebeque, no Canadá, em 1905…

«[O] ano passado, quando atravessava uma crise na sua vida, o meu tio Benn (B. Crader, o famoso botânico) mostrou-me um cartoon de Charles Addams. Era um cartoon trivial, bom para um sorriso, mas o Tio estava embeiçado por ele e queria discuti-lo minuciosamente. A mim não me apetecia analisar um cartoon. Ele insistiu. Mencionou-o relacionando-o com tantas coisas que me irritei e encarei até a ideia de mandar emoldurar o mamarracho e oferecer-lho no dia dos seus anos. Pendura-o na parede e livra-te dele, pensei. De vez em quando, Benn conseguia bulir-me com os nervos, daquele modo que só uma pessoa que ocupa um lugar especial na nossa vida consegue. Ele ocupava, sem sombra de dúvida, um lugar especial. Eu amava o meu tio.»
Saul Bellow, Morrem Mais de Mágoa, p. 7 [Lisboa: Livros do Brasil, 1990, 353 pp.; tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.]

terça-feira, 30 de março de 2010

O Supermercado

Foi há cerca de duas semanas que, provavelmente por via da parcimónia retentiva dos factos históricos da nossa mente – tão pressurosa a viver na contemporaneidade consumista –, fui personagem acidental de um curioso episódio de confrontação desse presente voraz e amnésico, ou melhor, pouco interessado em revivalismos, e de um passado não muito longínquo, cuja extensão do adjectivo vai um pouco para lá de uma dezena de anos da minha já madura existência. O supermercado.
Cheguei a casa de meus pais e o cenário que se postava diante dos meus olhos assemelhava-se ao de um terreiro onde se travava uma pequena, polvorenta e buliçosa batalha, em que a poeira de antanho se evidenciava pela reverberação causada pelos finos raios de sol de Inverno que atravessavam a vidraça e o cheiro a mofo desenterrado das entranhas de uma luta. O pó e o bafio atiçaram-me a costumeira reacção alérgica – o eterno acicate da histamina –, tanto física, como mental – este tipo de arrumações e o excesso de zelo que lhe é normalmente associado induzem-me a um estado de melancolia de uma despedida inevitável –, havendo crescido em mim um desejo irrefreável de retroceder uns minutos e adiar por umas horas a visita de um homem emocional, cumpridor das suas obrigações filiais.
Os meus pais, mantendo o seu rigor exclusivista em matéria livresca, como uma espécie de ordem de “não profanação” daquela espaço sagrado de tantos dias de aprazível ócio, arrumavam a sua bem recheada biblioteca, retirando os livros um por um, limpando capas e lombadas, e reparando badanas e folhas que, fora da sua função, se exibiam de forma impudica aos elementos.
Houve um ligeiro resmungo, misturado com uma espécie de prazer de ostentação doutoral, quando chegou o filho inquisidor e metediço, desarrumando as pilhas de livros prontas a regressar aos seus locais de décadas, e lendo os ex-líbris que ambos, enquanto jovens idealistas nos anos vinte das suas vidas, apunham à literatura que adquiriam e liam, bem longe da função de mero adorno que hoje em dia desempenham – a vida por vezes endurece determinados prazeres, tornando-os memórias distantes de um tempo passado, ressessos e sem brilho. A minha mãe, mais romanesca e congruente: Somerset Maugham, Irving Wallace, John Steinbeck, Máximo Gorki, e mais um bando de autores de frémito romanesco; o meu pai, mais heterogéneo no estilo literário e nos autores: Camus, Henry Miller, Hemingway, Morris West, dos Passos, Freud, Yourcenar, D. H. Lawrence, e imensos livros de História, cuja maioria versa sobre um dos seus temas bélicos preferidos, a II Guerra Mundial.
Entretanto, vislumbrei uma relíquia pela envolvência da sua composição em obra. Estava encafuado numa das pilhas, já expropriado do seu pó alpino, como as neves eternas: Os Inadaptados, do colossal dramaturgo norte-americano Arthur Miller (1915-2005). Bem conservado, embora com um indisfarçável odor a velho bichado, tratava-se de uma edição da Livros do Brasil de 1961, com tradução de Sousa Victorino, cujo ex-líbris do meu pai assinalava a data de “20-V-67”.
Os Inadaptados (The Misfits, 1961), livro retirado do argumento escrito pelo próprio Miller para um filme de John Huston. O filme é um dos mais icónicos na fábrica de mitos e lendas de Hollywood, se nos atermos ao arrepiante departamento de “filmes maldição”. A história que envolveu a sua produção, há quase cinquenta anos, ainda consegue provocar calafrios aos mais supersticiosos, não só pela razia de mortandade que se abateu sobre o elenco principal nos períodos de pós-produção e de exibição, como nas constantes alterações de guião e batalhas surdas entre Miller, Huston e o produtor Frank E. Taylor, a que se juntaram os responsáveis pelos estúdios da United Artists, e para finalizar pelo desastre comercial e financeiro que o filme gerou:
  • Do elenco principal, só Eli Wallach sobreviveu à devastação, talvez, e não o refiro sem malícia ao antimito louro, por Marilyn Monroe se ter incompatibilizado com o actor nova-iorquino, hoje com 94 anos, durante as filmagens, segundo se diz por esta, perante a sobriedade daquele, se sentir diminuída do seu protagonismo.
  • Clark Gable morre alguns dias após o fim da rodagem do filme – nem sequer assistiu à sua estreia.
  • Marilyn Monroe divorcia-se de Arthur Miller, ironicamente processo que se acelerou por desentendimentos sobre a construção da volúvel personagem Roslyn Taber encarnada por Monroe, para quem Miller escreveu propositadamente o guião para tentar minorar a imagem de superficialidade da actriz californiana, que lhe era incessantemente aposta pela imprensa dedicada à 7.ª arte; este também foi o último filme protagonizado por Monroe, já que morre, encharcada em drogas, em Agosto de 1962 antes de completar o filme dirigido por George Cukor, Something’s Got to Give, cuja produção foi interrompida e jamais finalizada, dada a recusa inamovível de Dean Martin em contracenar com outra actriz que não a loura mais famosa de Hollywood.
  • Montgomery Clift foi o mais resistente, morre em sua casa durante a madrugada de 23 de Julho de 1966, vitimado, tal como Gable, por um ataque cardíaco fulminante. Segundo a sua biógrafa, Patricia Bosworth, as últimas palavras conhecidas proferidas por Monty compuseram a frase “Absolutely not!”, quando interpelado pelo seu companheiro-secretário Lorenzo James à 1 da manhã desse mesmo dia fatídico sobre se o actor gostaria de ver Os Inadaptados, precisamente na noite em que o filme de Huston fazia a sua estreia na televisão nacional.

E eis, neste momento, o livro em minha casa, pronto a ser desfrutado, sem a real possibilidade de o poder acompanhar com a edição portuguesa do filme, porventura caído no esquecimento da esmagadora maioria dos portugueses, que nem as sinistras desventuras que o envolveram, o fizeram despertar para o circuito comercial em DVD.
Folheadas as primeiras páginas, saltaram-me à vista alguns deliciosos e falsos anacronismos, como algo que sentidamente acharíamos impossível verificar-se à data de edição em 1961. Porém, as disparidades entre a maior potência mundial e o nosso cantinho retrógrado, governado pela pequenez reducionista de uma ditadura, pronta a entregar os seus filhos numa guerra sem sentido que duraria treze anos, são hoje desconcertantes para quem sempre viveu os seus anos de assunção plena da sua consciência numa democracia ocidental, que se foi desenvolvendo, para o bem e para o mal, rumo a uma economia aberta, de mercado, sem fronteiras e sem as grilhetas que outrora amarravam, sem piedade, as liberdades mais fundamentais à existência digna do ser humano.
A páginas tantas, é mesmo a 13 – o número do anátema, mas também da religiosidade acerba – pode ler-se: «Vemos, através da montra dum supermarket (3) uma mulher que segura um grande saco de géneros de mercearia com um dos braços, enquanto baixa com o outro a alavanca de uma máquina caça-moedas.»
E o (3) refere-se à 3.ª nota assestada pelo tradutor desde que se iniciou a narrativa, que reza o seguinte:

«(3) Grande estabelecimento, principalmente de produtos alimentares, em que o cliente se serve a si próprio. (N. do T.)»
Era este o país dos estouvados marçanos que, agarrados à sua bicicleta munida do cesto na retaguarda carregado de produtos alimentares, se esgueiravam a toda brida por ruas e passeios e namoravam as criadas dos senhores às portas das casas fidalgas onde entregavam os produtos encomendados à mercearia do Sr. António. Sítio lúgubre, de mil odores em que constava a folha dos fiados escrita cuidadosamente à mão e quando aberto podia ainda sentir-se o cheiro a farinha do pão acabado de amassar, aí encerrado, com zelo, no momento da escrita. 

Proposta pascal para tema de redacção: O Supermercado.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Lowry

Malcolm Lowry
Por razões que a recente linha editorial deste blogue não desmente, comprei a edição de hoje do jornal Público. O frontispício da Ípsilon evoca o atormentado Ian pela cara de Sam Riley no filme Control do holandês Anton Corbijn – já lá vão os tempos em que a centerfold ditava a compra…
Para além da tentativa de dissecação do génio musical e poético, e da curta experiência de vida de Ian Curtis, a Ípsilon, numa lógica congruente – sofredores deste mundo, uni-vos... no nosso suplemento cultural de 16 de Novembro de 2007 –, dedica grande parte do seu espaço ao escritor inglês Malcolm Lowry (1909-1957), a propósito da comemoração dos 50 anos da sua morte por desventura e dos 60 anos da publicação da sua obra máxima Debaixo do Vulcão – agora reeditado pela
Relógio D’Água, infortunadamente optando apenas pela revisão da tradução de 1961 de Virgínia Motta para a editora Livros do Brasil.
Para o leitor e meio que visita diariamente este blogue, não é de todo surpreendente a minha evocação de Lowry. Debaixo do Vulcão trata-se, de facto, de um dos livros da minha vida – incluído numa
listagem que, à laia de exercício metaliterário, aqui publiquei há quase um ano –, e Geoffrey Firmin um dos personagens mais marcantes e fascinantes da história da literatura mundial – a ele, o Cônsul britânico em Quauhnahuac, se devem algumas das minhas rememorações literárias e associações simbólicas.
Sobre este anti-herói
escrevi o que se segue – a propósito de outro criado pela pena de Iris Murdoch, o fabuloso e acidental, Austin Gibson Grey:


«A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
«Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry,
Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...» [autocitação: "amo-me!"].


Em adjacência ao artigo principal, que ainda não li, surgem as opiniões de dois dos meus bloggers de visita virtual diária e de frequente intercâmbio de ideias via caixa de comentários ou e-mail: o Henrique Fialho e o nosso recém-convertido à hortofruticultura Rogério Casanova.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Uma editora a desperdiçar qualidades

Robert MusilEm Maio de 2005, a Lusa noticiava que a Dom Quixote iria editar as obras completas do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942):
«O primeiro título da colecção será “As Perturbações do Pupilo Torless”, publicado em 1906 e já editado em Portugal pela Livros do Brasil.
«O segundo livro da série, intitulado “A Portuguesa e outras novelas”, sairá no Outono, e só no primeiro trimestre de 2006 devem chegar às livrarias os dois primeiros volumes de “O Homem sem Qualidades”, publicado entre 1930 e 1942.
«De acordo com João Barrento, a colecção, composta por oito obras distribuídas por 11 tomos, será publicada ao ritmo de dois a três livros por ano, devendo ficar completa no final de 2006 ou no início de 2007.» (Agência Lusa, 7 de Maio de 2005).

Hoje, 30 de Maio de 2007, a referida editora apenas publicou o excepcional As Perturbações do Pupilo Törless – uma das obras de ficção da minha vida, a par de Jakob von Gunten do seu contemporâneo suíço Robert Walser, uns furos acima da obra que emprestou a epígrafe a este blogue, para me situar no género diarista de púberes-buscas-existenciais, que já havia lido sob o título O Jovem Törless na versão, chamemos-lhe comedida, de João Filipe Ferreira para a editora Livros do Brasil.

Tal como A Montanha Mágica de Mann, O Homem sem Qualidades de Musil foi em tempos imemoriais publicado pela editora Livros do Brasil, porém há anos que ambas as edições se encontram esgotadas no mercado – colecção “Dois Mundos”, edições n.º 32 e n.º 115 (esta em 3 volumes), respectivamente –, e sem reedição prevista, talvez justificada pela perda de direitos de publicação.

(Louvor: honra seja feita à editora fundada por António Augusto de Souza-Pinto pelo eclético e completíssimo catálogo de autores consagrados e de verdadeiras obras-primas da literatura universal, que, se não existisse e perante a penosa constatação do vencimento dos critérios mercantilistas da promoção do lixo no actual panorama editorial português, jazeriam no olvido do deserto – desta feita em ambas as margens, a começar no Terreiro do Paço – cultural luso.)

É por todos sabido – pelo menos por aqueles que se interessam por livros – que a Dom Quixote tem vindo, no último par de anos, a encaminhar-se para um destino completamente divergente daquele que foi idealizado pela sua mais notável fundadora, a tragicamente desaparecida, a 4 de Dezembro de 1980, Snu Abecassis.
Em 1999, a editora portuguesa foi adquirida pelo gigantesco grupo editorial espanhol Planeta. No entanto, para nós leitores, os efeitos da quente brisa de mudança do Levante peninsular começaram apenas a sentir-se no século XXI, havendo culminado com a publicação do best-seller "Auchan/Modelo-Continente/Barbas" Eu, Carolina.
Enquanto isso a editora, que já perdeu Kundera e Banville para a Asa e que publica Roth, García Márquez, Lobo Antunes, Rushdie, Vargas Llosa, Faulkner, Jorge Amado, entre outros, tarda em publicar Slow Man de Coetzee, adia sucessivamente Everyman de Philip Roth, não se conhecem os últimos avanços na prometida edição de Les Bienveillantes de Jonathan Littell – vencedor do Goncourt 2006 –, emudece-se sobre a edição do aclamado romance On Beauty da jovem e premiada escritora britânica Zadie Smith (n. 1975) e, ao que parece, meteu literalmente Robert Musil na gaveta, já com obra restaurada pelo notável ensaísta, tradutor e crítico literário João Barrento.

De degradação em degradação, quo vadis, Dom Quixote?