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segunda-feira, 17 de março de 2008

Colecções...

Roma, de Federico Fellini (fotograma)
Quando o Público anunciou a sua extraordinária série de livros e filmes de 25 mestres do cinema mundial, sob a marca dos Cahiers du Cinéma – série que em França foi difundida pelo jornal Le Monde – tratei de elaborar as minhas (já famosas) listas, não só para verificar quanto tempo – contado em número de sextas-feiras – duraria a fastidiosa corrida às tabacarias e quiosques da minha cidade para adquirir o apêndice do dito jornal, por uns premeditados nove euros e noventa e cinco cêntimos, como também, para efeitos de comparação com a minha já considerável videoteca, para apurar as possíveis repetições de tal empreendimento – 248,75 euros já é uma cifra razoável, a pedir ponderação.
Feita a lista, uma pequena fúria, insípida, insonora, e até inodora – acabara de esgotar o meu stock de enxofre com os desgovernos socráticos (que não o mestre de Platão) – apoderou-se de mim, tendo por alvo um heteróclito quinteto: Nuno Artur Silva, Jorge Leitão Barros, Vasco Graça Moura, João Mário Grilo e Clara Ferreira Alves, respectivamente por, Fellini (com mais de 20 filmes, alguns ½), Coppola (mais de 30), Bergman (mais de 60), Rosselini (cerca de 50) e Antonioni (quase 40). Os 9,95 passariam a financiar apenas a curta biografia, atendendo à minha feliz condição de possuidor de bases para copos robustas e mais que suficientes, que vão permitindo manter imaculados os meus móveis de design (de concepção caseira), sem aquelas inestéticas rodelas que mesmo o cristal – vejam só! –, previamente humedecido dos mais finos espíritos condensados, sói deixar.
No entanto, esta semana, após um curto desabafo da minha lusitana avareza com o meu pai, ele disse-me: «Ouve lá, compra na mesma, eu pago-te metade e fico com o DVD. A cada passo dou por mim a rir-me sozinho com situações do Roma do Fellini… lembras-te do tipo que sai da plateia e vai acender o cigarro à vela que um cantor segurava no palco?… [sim, lembro-me] “e se te fosses f*** e acendesses nos c*** do pai!”» [os asteriscos são de exclusiva responsabilidade do decoro paterno, que se verbalizaram em palavras sincopadas a apelar à imaginação (ou inteligência) do receptor]
Negócio fechado.
Lapsos de segundo que me pareceram uma eternidade. O mal já havia sido reproduzido pelo meu menear de cabeça em assentimento, embora o mais zeloso dos contabilistas, se presente, manifestasse orgulho no potencial fiel seguidor… quiçá o próprio Bartleby.
Um forte lampejo de clarividência, perfeitamente verificável num cefalópode, e a vitória de espírito filial sem condições sobre o materialismo, levantaram do tapete os contundidos respeito e carinho que sinto pelo meu querido pai. Apercebendo-me do erro, antes ainda da terrível expiação, tentei reparar o dano – que não sei se foi sentindo como tal do outro lado – e disse:
«Deixa estar, pai. Eu vou comprá-lo porque quero ficar com o livro, e não precisas de me pagar a metade pelo DVD, dou-to como prenda do dia do pai que… humm… [lentamente dando-me conta do agravamento da minha mísera condição de Ebenezer Scrooge; os tais momentos em que o silêncio, com toda a sua implacabilidade, se transforma na única tábua de salvação, enquanto não chega o tenebroso fantasma dos Dias do Pai futuros] … é na próxima terça, não é?»
Não, minha alimária, é na quarta-feira.

Hoje, à hora que finalizo este texto, percorridas cerca de uma dúzia de bancas de jornais, nem Roma, nem biografia de Federico… E o jornal da Sonae, merecia uma resposta bem ao estilo do Mestre, que esta semana, por inépcia logística tão típica das empresas lusas, desapareceu das bancas.


Ah, entretanto, o meu pai está a gozar as suas merecidas férias durienses. Quarta-feira...

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Público – Cahiers du Cinéma

Na passada sexta-feira, esquadrinhei uma boa meia dúzia de estabelecimentos tentando encontrar o jornal Público que iniciava uma colecção de livros, que se estenderá por 25 semanas (até 1 de Agosto deste ano), editados por umas das mais famosas publicações de cinema mundiais: a Cahiers du Cinéma (fundada em 1951 pelo trio Jacques Doniol-Valcroze, André Bazin e Lo Duca).
Trata-se da colecção “Grandes Realizadores” (originalmente, Grands Cinéastes), que o jornal francês Le Monde iniciou a 8 de Setembro passado, havendo terminado ontem com a curta biografia do cineasta russo Serguei Eisenstein e um DVD com o documentário exibido postumamente Que Viva México! e o filme O Couraçado Potemkine.
Por cá, o Público decidiu publicar 25 livros e respectivos DVD, escolhendo outras tantas personalidades da vida cultural nacional, de certa forma ligadas ao cinema, para que cada uma escrevesse uma brevíssima introdução ao cineasta supostamente escolhido. Como os títulos dos filmes diferem da edição francesa, presumo que, após a alocação de um realizador a uma personalidade, tenha havido liberdade de escolha do filme a editar em cada sexta-feira (e supostamente, evitados alguns problemas de direitos de autor que poderiam haver interferido na escolha final).
Relativamente à edição francesa (24 livros e DVD), a portuguesa acrescenta mais uma semana à dita colecção (25 livros e DVD), diferindo na inclusão de alguns nomes: Buster Keaton, Michelangelo Antonioni, Woody Allen e Manoel de Oliveira não fazem parte da edição francesa, assim como Clint Eastwood, Luis Buñuel e Pedro Almodóvar da portuguesa – um mero acaso ou alguma hispanofobia e mais ventos e casamentos?
Uma nota final apenas para a ausência de alguns realizadores, cujos gigantismo e contributo para o engrandecimento da 7.ª Arte me induziram a um estado de estranheza, para não empregar a carregadíssima estupefacção. Falo, por exemplo, e sem procurar ser exaustivo – já sei que vou deitar as mãos à cabeça por alguns esquecimentos imperdoáveis –, de nomes como: Hitchcock, Visconti, John Ford, Hawks, Pasolini, Rohmer, Kazan ou Cassavetes, e muitos outros (cá está a ressalva). Sei, no entanto, que a edição foi limitada a 25 e que a publicação francesa não dispõe de textos biográficos ilimitados; todavia considero que qualquer um dos 8 nomes acima referidos poderia ocupar, por troca imediata, 4 das 25 posições da colecção definitiva (abstenho-me a nomear quais).

Eis a lista completa da colecção do Público “Grandes Realizadores” – Cahiers du Cinéma (todas as sextas-feiras, de 15 de Fevereiro a 1 de Agosto de 2008) e respectivo “padrinho”:

  • 15-02-2008 – Charlie Chaplin, O Imigrante (The Immigrant, 1917), O Campeão (The Champion, 1915); À Beira-Mar (By the Sea, 1915); O Polícia (Police, 1916); O Ringue de Patinagem (The Rink, 1917) – Manoel de Oliveira
  • 22-02-2008 – Steven Spielberg, Relatório Minoritário (Minority Report, 2002) – Mário Augusto
  • 29-02-2008 – Martin Scorsese, Touro Enraivecido (Raging Bull, 1980) – Rodrigo Guedes de Carvalho
  • 07-03-2008 – Sergio Leone, O Bom, o Mau e o Vilão (Il buono, il brutto, il cattivo; 1966) – Baptista-Bastos
  • 14-03-2008 – Federico Fellini, Roma (1972) – Nuno Artur Silva
  • 21-03-2008 – Tim Burton, Eduardo Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990) – Pedro Marta Santos
  • 28-03-2008 – Francis Ford Coppola, Apocalypse Now (redux) (1979) – Jorge Leitão Barros
  • 04-04-2008 – Jean-Luc Godard, Bando à Parte (Bande à part, 1964) – Manuel S. Fonseca
  • 11-04-2008 – Woody Allen, Match Point (2005) – Herman José
  • 18-04-2008 – Ingmar Bergman, A Máscara (Persona, 1966) – Vasco Graça Moura
  • 25-04-2008 – David Lynch, Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) – Luís Miguel Oliveira
    02-05-2008 – François Truffaut, A Noiva Estava de Luto (La mariée était en noir, 1968) – Leonor Silveira
  • 09-05-2008 – Akira Kurosawa, Kagemusha – A Sombra do Guerreiro (Kagemusha, 1980) – António-Pedro Vasconcelos
  • 16-05-2008 – Fritz Lang, O Testamento do Dr. Mabuse (Das testament des Dr. Mabuse, 1933) – Mário Jorge Torres
  • 23-05-2008 – Roberto Rosselini, Viagem a Itália (Viaggio in Italia, 1954) – João Mário Grilo
  • 30-05-2008 – Buster Keaton, Pamplinas Maquinista (The General, 1927) – Nuno Markl
  • 06-06-2008 – Andrei Tarkovsky, O Sacrifício (Offret, 1986) – José Matos Cruz
  • 13-06-2008 – Billy Wilder, O Apartamento (The Apartment, 1960) – Beatriz Pacheco Pereira
  • 20-06-2008 – Jean Renoir, A Grande Ilusão (La grande illusion, 1937) – Mário Dorminsky
  • 27-06-2008 – Orson Welles, O Quarto Mandamento (The Magnificent Ambersons, 1942) – Marcelo Rebelo de Sousa
  • 04-07-2008 – Kenji Mizoguchi, O Conto dos Crisântemos Tardios (Zangiku monogatari, 1939) – Paulo Rocha
  • 11-07-2008 – Stanley Kubrick, Horizontes de Glória (Paths of Glory, 1957) – José Pacheco Pereira
  • 18-07-2008 – Serguei Eisenstein, O Couraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin, 1925) – João Botelho
  • 25-07-2008 – Michelangelo Antonioni, O Eclipse (L'Eclisse, 1962) – Clara Ferreira Alves
  • 01-08-2008 – Manoel de Oliveira, Vale Abraão (1993) – João Bénard da Costa

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Lowry

Malcolm Lowry
Por razões que a recente linha editorial deste blogue não desmente, comprei a edição de hoje do jornal Público. O frontispício da Ípsilon evoca o atormentado Ian pela cara de Sam Riley no filme Control do holandês Anton Corbijn – já lá vão os tempos em que a centerfold ditava a compra…
Para além da tentativa de dissecação do génio musical e poético, e da curta experiência de vida de Ian Curtis, a Ípsilon, numa lógica congruente – sofredores deste mundo, uni-vos... no nosso suplemento cultural de 16 de Novembro de 2007 –, dedica grande parte do seu espaço ao escritor inglês Malcolm Lowry (1909-1957), a propósito da comemoração dos 50 anos da sua morte por desventura e dos 60 anos da publicação da sua obra máxima Debaixo do Vulcão – agora reeditado pela
Relógio D’Água, infortunadamente optando apenas pela revisão da tradução de 1961 de Virgínia Motta para a editora Livros do Brasil.
Para o leitor e meio que visita diariamente este blogue, não é de todo surpreendente a minha evocação de Lowry. Debaixo do Vulcão trata-se, de facto, de um dos livros da minha vida – incluído numa
listagem que, à laia de exercício metaliterário, aqui publiquei há quase um ano –, e Geoffrey Firmin um dos personagens mais marcantes e fascinantes da história da literatura mundial – a ele, o Cônsul britânico em Quauhnahuac, se devem algumas das minhas rememorações literárias e associações simbólicas.
Sobre este anti-herói
escrevi o que se segue – a propósito de outro criado pela pena de Iris Murdoch, o fabuloso e acidental, Austin Gibson Grey:


«A obra literária de ficção cria personagens mais ou menos ilustres, mais ou menos encantadores sob o ponto de vista do leitor/receptor, e na maioria das vezes avaliamo-la na sua globalidade, pelo todo que o mestre quis construir ao introduzir determinadas idiossincrasias. Trata-se de um simples jogo de estereótipos que conseguimos identificar nas relações que, como Homo Socialis, estabelecemos no dia-a-dia. Muitas vezes os personagens criados não perduram além da obra, noutras, porém, eles afirmam-se, ultrapassam a circunscrição dos caracteres impressos em papel e parecem ter vida própria fora dele, na nossa cabeça, nas nossas fantasias de leitores que veneram a literatura como forma de entretenimento e de íntimo preenchimento das imposições estéticas.
«Para apenas dar um exemplo do que acabei de professar – e suponho que o mesmo deverá ter ocorrido com a maioria das pessoas que leu a obra –, eis o cônsul britânico no México Geoffrey Firmin na obra-prima de Malcolm Lowry,
Debaixo do Vulcão. Por muitos anos que distem da última vez em que lemos esse tratado involuntário do existencialismo literário, as atribulações do Cônsul no dia de finados de 1938 permanecem-nos na memória, mais pela amargurada existência que se foi construindo numa série de equívocos que o conduzem à sua aniquilação através do prazer inebriante do álcool que tudo faz esquecer, do que por qualquer predestinação advinda de uma vontade exterior inaudita e que resulta de um colectivo relacional, que ao invés parece girar em torno do seu supremo individualismo, materializado no seu desprendimento pelo mundo, pelo dever, pelo amor da sua Yvonne e pela afeição do seu irmão Hugh – o Mescal e a Tequila são o refúgio, a essência...» [autocitação: "amo-me!"].


Em adjacência ao artigo principal, que ainda não li, surgem as opiniões de dois dos meus bloggers de visita virtual diária e de frequente intercâmbio de ideias via caixa de comentários ou e-mail: o Henrique Fialho e o nosso recém-convertido à hortofruticultura Rogério Casanova.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Travels in the Scriptorium

«O velho está sentado na beira da cama estreita, as palmas das mãos abertas sobre os joelhos, a cabeça baixa, a olhar fixamente para o chão. Não faz ideia de que há uma câmara colocada no tecto directamente por cima dele. O obturador dispara silenciosamente uma vez por segundo, produzindo oitenta e seis mil e quatrocentos instantâneos a cada revolução da terra. Mesmo que soubesse que estava a ser observado, não faria qualquer diferença. Tem o pensamento noutro lado, perdido entre os fragmentos da sua cabeça enquanto procura uma resposta à pergunta que o assombra.
Quem é ele? O que faz aqui? Quando chegou e por quanto tempo permanecerá? Com sorte, o tempo encarregar-se-á de nos contar. De momento, a nossa única tarefa consiste em estudar as fotografias o mais atentamente possível, contendo-nos a retirar qualquer conclusão precipitada.
»

Paul Auster, Travels in the Scriptorium [Tradução: 1.º parágrafo: jornal Público; 2.º parágrafo do inglês: AMC]

Enquanto o velho se descobre a si mesmo nessa cela prodigiosamente austeriana, nós, portugueses amantes da língua e cansados da pátria, teremos de esperar pela edição traduzida que, fazendo fé no artigo publicado no jornal Público de ontem (pág. 18 do tal caderno P2), só sairá para o mercado no próximo (que fina ironia!) mês de Setembro. Até lá não sairá neste blogue qualquer avaliação sobre o dito cujo – para manter alguma coerência (raridade!) com o critério por mim estipulado.
Em suma, até que a
Asa – detentora dos direitos de publicação em Portugal do escritor norte-americano – se digne a colocá-lo no mercado, por agora muito entretida em publicar a Floribela e uma resma de livros de auto-ajuda que, decerto, já deram o seu contributo para tirar este país da depressão que parecia crónica, com níveis de rendimento muito próximo dos concidadãos nórdicos, não haverá aqui qualificações ao novo romance de Auster – vamos a ver se aguento!

Só mais um cheirinho para abrir o apetite:

«Há um sem número de objectos no quarto e em cada qual foi afixada na sua superfície uma tira de fita adesiva branca contendo uma única palavra escrita em letras maiúsculas.» [Tradução AMC]

Para saber mais comprar o livro em inglês editado no Reino Unido pela editora Faber & Faber e nos Estados Unidos pela Henry Holt, ou em espanhol (Viajes por el Scriptorium) editado em Espanha pela Anagrama, ou em francês (Scriptorium) editado em França pela Actes Sud, ou em italiano (Viaggi nello scriptorium) editado em Itália pela Einaudi, ou até em dinamarquês (Rejser i scriptoriet) editado na Dinamarca pela Forlaget Per Kofod, e por essa estrada fora… (uma conclusão um pouco beatnik, não?)

De cara lavada…

…apareceu o Público, com edição impressa à borla e com “P” num vermelho garrido como que a alardear uma fúria incontida. Espera-se que a circunspecção de tons cinzentos, que outrora lhe conferiram eminência jornalística, não caminhe para o sensacionalismo aberrante praticado pelos seus congéneres: diz que é uma espécie de evolucionismo.

De resto, talvez uma infelicidade, porventura um enorme equívoco, ou até, quem sabe, um pequeno gracejo do Sr. Engenheiro, o segundo caderno foi baptizado com um arrepiante “P2”. Para os mais atentos a designação “P2” é sinónimo da loja maçónica “negra” italiana “Propaganda Due” que aterrorizou o país e que, segundo se diz, esteve ligada ao escândalo da insolvência do Banco Ambrosiano e ao consequente assassinato, disfarçado de suicídio, em Londres do seu presidente Roberto Calvi, cujo IOR, mais conhecido como Banco do Vaticano, era o principal accionista.

Em suma, um infeliz acaso.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Publica logo escolho [actualizado]

O João e o Eduardo, sem o saberem, devem-me 1 euro e 50 cêntimos. E logo eu que, como o Henrique, deixei de comprar jornais…
O
João cita Armando Silva Carvalho referindo-se àquele livro-do-qual-não-gosto-de-falar-mas… O Eduardo escreve sobre eleição dos melhores livros de 2006 por 38 personalidades ligadas ao panorama literário português, exercício electivo publicado no suplemento Mil Folhas do jornal Público de ontem.
Começando pelo principal desencadeante do supramencionado desembolso monetário, o Eduardo Pitta
referiu-o e mais tarde vi, claramente visto, o lume vivo – que a letrada gente tem por santo – Ontem não te vi em Babilónia assestado na terceira posição das escolhas de tão ilustre gente.
Eu sou um admirador do ALA, a Memória de Elefante levou-me aos Cus de Judas onde passei a ter Conhecimento do Inferno que habita na ponta daquela pena. E fico-me por essa ternária viagem para não encalhar num firme rochedo enlouquecidamente logorréico – por esta amostra para lá caminho a passos largos.
Não, ainda não me aventurei Em Busca do Tempo Perdido, e custou-me a engolir à primeira O Processo, mas havendo lido Ontem não te vi em Babilónia já me sinto apto a ler a Bíblia a fazer o pino ao mesmo tempo que escuto o Bancada Central* na
TSF, com a paciência de Jó de Fernando Correia – Deus lhe dê 140 anos de vida
O último romance do ALA é simplesmente intragável e nem ponho em hipótese uma releitura por eventual cometimento de crime de tresleitura, prefiro que me enforquem em directo na TVI ou me enlivrejem com o livro-do-qual-não-gosto-de-falar-mas…

Depois há a deliciosa frase de Armando Silva Carvalho, citada pelo
João Gonçalves, quando o primeiro elege aquela coisa:
«E, por fim, o livro de Carolina Salgado, que teve a qualidade de fazer vir ao de cima não aquilo que escreve, mas as reacções do país medonho em que nós escrevemos.»

Falando agora da Lista retiro uma obrigatoriedade de escolha do próximo livro a ler – por agora Sou Todo Ouvidos para Mitchell, cuja escrita límpida e escorreita merece os maiores encómios do ALA. Da muito próxima centena e meia de livros que repousam em lista de espera na minha estante consta o elogiadíssimo livro de contos Um bom homem é difícil de encontrar, de Flannery O’Connor, editado pela Cavalo de Ferro e com tradução de Clara Pinto Correia. Há que rentabilizar os 13,95 euros despendidos em Junho na Fnac e este meio ano de espera não valorizou o livro, tal como o tempo faz com o meu mui apreciado líquido inebriante de terras do Douro.

Para o fim guardo o melhor e sem mais comentários, a não ser que a mesmíssima linha de raciocínio do ilustre eleitor votou ao esquecimento os livros de Manuel Maria Carrilho ao apontar a dedo jornalistas e centrais de informação corruptos e de Pedro Santana Lopes e as suas cabalas:
«“Eu, Carolina”, Carolina Salgado, Dom Quixote

Ressuscita o poder formal de um livro mudar a sociedade. Ao que lá se conta ninguém ligava antes de ser livro. Denuncia crimes e culpados. Corrupção e banditagem no futebol e na PJ, por dentro. Só por estupidez se podem apreciar os efeitos directos do livro na paralisia judicial e criticar a sua publicação e forma. Acusando o livro de não ser aquilo que ele ‘não’ é, nem nunca quis ser.
»
Por Rui Cardoso Martins

PS 1 – Quase que me esquecia de falar das escolhas da inefável Mnemónica**: elegeu apenas livros em língua inglesa: o que dizer à nossa criadagem depois do 1.º choque com a confissão de militância na esquerda?

PS 2 – Na mesma edição do suplemento do Público fiquei a saber que a Dom Quixote vai editar o romance enciclopédico de Jonathan Littell «Les Bienveillantes», vencedor do Prémio Goncourt 2006. Ai se as Fúrias se crispam de novo… para onde vai a benevolência!?

*[actualização às 15:46] Acabo de saber através deste texto de Alexandre Borges no 31 da Armada que «acabou o "Bancada Central"». O choque, o horror, o drama apoderaram-se de mim.
**Corrigido por douto alerta.