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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Feira do Livro do Porto [actualizado]

UEP


[Uma vontade indómita de boicotar, enquanto leitor: os grupos LeYa e Bertrand – sendo este último associado da APEL –, os editores da UEP e até a editora recentemente adquirida pelo jovem reformado Paulo Teixeira Pinto, a casa da colossal Agustina (autora do Porto, nascida em Vila-Meã em 1922), a Guimarães Editores. Não têm qualquer tipo de representação na 78.ª edição da FLP.]


Saúde-se a Gradiva e a Europa-América pelas suas posturas livres e independentes, pela coragem demonstrada perante o apelo do poderio económico de tendência eminentemente oligarca, em prol dos livros e da Literatura – já pareço o Carvalho da Silva a discursar.

Notas:
  1. Ver aqui a lista possível dos editores e livreiros com expositores na Feira do Livro do Porto, que se inicia hoje, 21 de Maio, às 15:30 no Pavilhão Rosa Mota.

  2. António Lobo Antunes irá estar presente no próximo dia 24, pelas 19:30, no Café Literário para uma sessão de autógrafos, ao arrepio da atitude inqualificável dos responsáveis da editora que publica os seus livros. Oxalá José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares se conseguissem demarcar, de igual modo, das suas editoras, Bertrand e Caminho (LeYa), respectivamente.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Meus senhores (…) Ivan Ilitch morreu! [actualizado]

«Aspirou o ar profundamente, não acabou a aspiração, inteiriçou-se e morreu.»
Porém, continuam a matar o pobre do Ivan Ilitch.

«Como isto aconteceu no início do terceiro mês da doença de Ivan Ilitch, impossível é sabê-lo, porque se deu a pouco e pouco, mas sucedeu que, sem ninguém dar conta, a mulher, a filha, o filho, os criados, os amigos, os médicos, e especialmente o próprio Ivan Ilitch, compreenderam que todo o interesse da sua situação para os outros se reduzia a saber quando deixaria enfim o campo livre, quando libertaria os vivos do mal-estar que causava a sua presença e se libertaria ele próprio dos seus sofrimentos.»


A Dom Quixote através da sua chancela para os livros de bolso, Booket, em colaboração com António Lobo Antunes, anunciou a edição da colecção “Biblioteca de Autor”, composta por 50 livros (à data não sei se reunirá 50 autores diferentes), ao preço de venda ao público de 7 euros cada, escolhidos pelo autor de Memória de Elefante.
Começou com Daudet e Tolstói (ambas as capas na imagem), e prosseguirá, por enquanto, com Conrad – mais uma edição, há poucas!, porventura com nova tradução, de O Coração das Trevas –, Svevo, Hawthorne com A Letra Encarnada – provavelmente, pelo título, com a tradução de Fernando Pessoa – e Balzac.

As citações acima reproduzidas referem-se à edição da Europa-América de A Morte de Ivan Ilitch, com tradução de Adolfo Casais Monteiro. Esta é a versão em português da obra imortal do escritor russo de que disponho na minha modesta biblioteca. Mas há-as para todos os gostos, mesmo sem contar com as edições brasileiras: ele é com tradução de Pedro Tamen, de António Pescada, de João Maia, do referido Casais Monteiro, de Alfredo e Maria Clarinda Brás – e não sei se a brilhante dupla de tradutores Nina Guerra e Filipe Guerra não terá feito a sua perninha; depois há Ilitch e Iliitch, de Leão, Leon, Leo ou Lev com Tolstoi, Tolstói ou Tolstoy; enfim, não é decerto por falta de soluções que Ivan Ilitch não morre…

Li algures que ALA pretende acabar com o marasmo da classificação de obras literárias como “clássico” – lá está a célebre megalomania, Lobo Antunes armado em Harold Bloom lusitano para fixar o cânone, com uma pitada de Borges para tentar delimitar a Biblioteca... se bem que este último houvesse proferido que ela “existe ab aeterno” e que o Homem é o imperfeito bibliotecário...
Pelos vistos, o marasmo combate-se com o marasmo. A Dom Quixote edita a célebre novela de Tolstói (a 7 euros, com uma brevíssima introdução de ALA) apenas dois meses volvidos da sua reedição pela Relógio D’Água (a 12 euros, com prefácio de Vladimir Nabokov), facto que é agravado pela total disponibilidade para venda da edição de bolso das Publicações Europa-América (a 5,99 euros, embora sem o precioso prefácio de 10 linhas de ALA…)
Assim vai o mercado editorial em Portugal, ainda parco na publicação de uma grande parte das obras da literatura universal de reconhecidíssimo mérito, abundante nas repetições, cujo único mérito, atingido assim de repente, é o de aumentar os lucros das indústrias da celulose, e pródigo nas mesquinhas guerras editoriais de alecrim e manjerona – e se, de facto, não se tratar de uma guerra, então o marasmo deve-se a uma negligência pura e simples, evidenciando o desrespeito pelo leitor e pelo fenómeno literário; maior proveito trariam se vendessem sabonetes…

[Não sei se já repararam, mas hoje mais do que nunca as reticências abundam neste blogue. É da idade e da irritação (contenção extrema para não dizer uma... caralhada.)]

Bom, eis o momento em que reiniciarei a antiga melopeia deste blogue em relação à maior (não confundir com a melhor, como se sói fazer neste país)
editora portuguesa, agora propriedade da LeYa, a princesa do George Lucas:

Para quando a prometida publicação das obras completas de Robert Musil com tradução de João Barrento?

«Nesse instante precisamente Ivan Ilitch caiu, viu a luzinha e descobriu que a sua vida não fora o que deveria ser, mas que o mal ainda podia ser reparado.»


[Adenda às 19:10]: Confirma-se, a versão de A Morte de Ivan Iliitch (sic) da editora Relógio D'Água é de autoria da dupla Nina Guerra e Filipe Guerra.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Quem tem medo de Lobo Antunes?

Com muita pena minha, os últimos romances de António Lobo Antunes deixaram de ser os meus livros. E o último, O meu nome é Legião, afigurou-se-me como um verdadeiro suplício para a leitura, tal como anterior Ontem não te vi em Babilónia.
No entanto, fica a mente brilhante, porém torturada, do homem que escreveu o portentoso Os Cus de Judas, numa das melhores entrevistas dadas por António Lobo Antunes nos últimos tempos, conduzida de forma superior por Mário Crespo (não obstante o "fica-se grato perante alguém que nos salvou a vida?").
Eis o, apesar de tudo e com a firme convicção daquilo que vou referir, melhor escritor português vivo:


quarta-feira, 3 de outubro de 2007

«Porque muitos demónios tinham entrado nele…

António Lobo Antunes…e suplicavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo.»
Lucas, 8: 30-31


Quarenta páginas de O meu nome é Legião para verificar que o Homem não tem emenda… ALA. Intervalo com Tchékhov. Mais um ou dois contos das sete colectâneas até agora publicadas pela Relógio D'Água.
Ainda faltam trezentas e quarenta… Desistir ou não desistir…
Já não é literatura, é um torturante jogo de paciência, um maçador labirinto, nada beckettiano e muito menos borgiano, que se repete indefinidamente, como um pesadelo diário, obstinado, recidivo, que nos esgota pela inescapável e retemperadora exsudação o último vestígio de água no organismo; uma longa e monótona travessia no deserto, sem miragens, sem que se vislumbre um simples indício de finalidade das emanações daquela mente, aparentemente torturada e supostamente proficiente e visionária.
Por onde anda o autor da inolvidável trilogia «Memória de Elefante – Os Cus de Judas – Conhecimento do Inferno»?

E depois temos uma daquelas frases, cujo teor altaneiro, impele à citação do
Eduardo Pitta e da rubrica de um jornal cujo nome já não me lembro: “Importa-se de repetir?”

«O Livro equaciona o problema do mal, como o título indica, manifestando nessa meninice irresponsável a indecidível culpa ou inocência, imputável ao vazio cultural e ao viver carenciado, que mescla consequências demoníacas numa aura de edénica ambiguidade.»
Maria Alzira Seixo (Coordenadora da Edição ne varietur), in JL, n.º 965, 26/09/2007, pág. 19.

«Saíram, pois, do homem, entraram nos porcos e a vara lançou-se do alto do precipício ao lago, e afogou-se.»
Lucas, 8: 33

quinta-feira, 15 de março de 2007

Prémio Camões 2007

António Lobo AntunesAntónio Lobo Antunes, aquele homem atormentado pela sua Memória de Elefante – fabuloso romance de estreia – cuja escrita nos transmite um invulgar e inigualável Conhecimento do Inferno, advindo das suas deambulações pelos Cus de Judas que a pátria, no sua ufana querença colonial, teimou em sustentar, acabou de ser designado como vencedor do Prémio Camões de 2007, juntando-se assim a Torga (1989), Jorge Amado (1994), Agustina (2004), ao seu amigo Saramago (1995) – que deve estar radiante –, Vergílio Ferreira (1992), Maria Velho da Costa (2002), Eugénio de Andrade (2001), Rubem Fonseca (2003), Eduardo Lourenço (1996) e a Sophia (1999).

Parabéns ao meu mais estimado escritor vivo português, apesar das exasperantes derivações babilónicas da última temporada.

«Procurou às cegas a garganta de Paul Simon no porta-luvas e introduziu-a na ranhura de caixa de esmolas do leitor de cassetes no intuito de escutar, a caminho de Lisboa, o apelo hesitante e terno, delicado e ferido, de uma voz tão igual à que se lhe enrolava nas tripas que o assaltava por vezes a sensação esquisita de que cada uma das palavras do cantor fora arrancada, sílaba a sílaba, do mais secreto de si mesmo, e o envergonhava que aquele homem lhe mostrasse em público, despudoradamente, a intimidade da angústia que tentava transformar, em vão, na lucidez sem amargura que fazia nele, nos seus melhores momentos, as vezes da alegria. Um roçar de violinos, leve como um espanador, trepou-lhe das pernas para o peito como a maré veste, no rio, o lodo castanho da muralha numa poderosa inspiração de água:

[Letra:
Paul Simon – Still Crazy After All These Years]

«Sou parecido com este tipo pequenino e feio (pensou) e espanta-me não encontrar sobre o umbigo, quando o coço, uma pauta de cordas de guitarra, espanta-me que a minha saliva, a minha urina e o meu esperma não saibam à espuma de cerveja morna dos bares dos negros de Harlem que escorrega para dentro da garganta num lamento de blues, espanta-me este cenário de cartão para férias inventadas, este Algarve excessivamente claro que afasta os loucos e os espectros com o néon do sol, reduzindo a penumbra a uma vaga geometria de linhas escuras acumuladas nos ângulos dos quartos. Como em Lisboa, verificou a palpar uma espinha infectada no pescoço, a única cidade do mundo onde a noite não existe: existem manhãs, tardes, crepúsculos, auroras, as nuvens translúcidas, alaranjadas, roxas, do poente, que se afilam e estiram como os troncos no orgasmo num júbilo elástico e tranquilo, existe o revelador brutal da madrugada que faz surgir nos nossos rostos nos espelhos os contornos dos velhos que seremos, mas a noite não existe: os turistas, perplexos, fotografam estátuas idênticas a generais de chocolate, perdem-se, de mapa em riste, num labirinto de travessas fumegantes como intestinos, invadem as pequenas pastelarias suburbanas onde cavalheiros calvos bebem chás de limão defronte dos problemas de damas do jornal, e acabam por regressar, extenuados, aos hotéis, para tentarem dormir na claridade ofuscante de um meio-dia perpétuo.»

António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno. Lisboa: Dom Quixote, 14.ª edição (1.ª edição ne varietur), Novembro de 2004, pp. 20-22.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Publica logo escolho [actualizado]

O João e o Eduardo, sem o saberem, devem-me 1 euro e 50 cêntimos. E logo eu que, como o Henrique, deixei de comprar jornais…
O
João cita Armando Silva Carvalho referindo-se àquele livro-do-qual-não-gosto-de-falar-mas… O Eduardo escreve sobre eleição dos melhores livros de 2006 por 38 personalidades ligadas ao panorama literário português, exercício electivo publicado no suplemento Mil Folhas do jornal Público de ontem.
Começando pelo principal desencadeante do supramencionado desembolso monetário, o Eduardo Pitta
referiu-o e mais tarde vi, claramente visto, o lume vivo – que a letrada gente tem por santo – Ontem não te vi em Babilónia assestado na terceira posição das escolhas de tão ilustre gente.
Eu sou um admirador do ALA, a Memória de Elefante levou-me aos Cus de Judas onde passei a ter Conhecimento do Inferno que habita na ponta daquela pena. E fico-me por essa ternária viagem para não encalhar num firme rochedo enlouquecidamente logorréico – por esta amostra para lá caminho a passos largos.
Não, ainda não me aventurei Em Busca do Tempo Perdido, e custou-me a engolir à primeira O Processo, mas havendo lido Ontem não te vi em Babilónia já me sinto apto a ler a Bíblia a fazer o pino ao mesmo tempo que escuto o Bancada Central* na
TSF, com a paciência de Jó de Fernando Correia – Deus lhe dê 140 anos de vida
O último romance do ALA é simplesmente intragável e nem ponho em hipótese uma releitura por eventual cometimento de crime de tresleitura, prefiro que me enforquem em directo na TVI ou me enlivrejem com o livro-do-qual-não-gosto-de-falar-mas…

Depois há a deliciosa frase de Armando Silva Carvalho, citada pelo
João Gonçalves, quando o primeiro elege aquela coisa:
«E, por fim, o livro de Carolina Salgado, que teve a qualidade de fazer vir ao de cima não aquilo que escreve, mas as reacções do país medonho em que nós escrevemos.»

Falando agora da Lista retiro uma obrigatoriedade de escolha do próximo livro a ler – por agora Sou Todo Ouvidos para Mitchell, cuja escrita límpida e escorreita merece os maiores encómios do ALA. Da muito próxima centena e meia de livros que repousam em lista de espera na minha estante consta o elogiadíssimo livro de contos Um bom homem é difícil de encontrar, de Flannery O’Connor, editado pela Cavalo de Ferro e com tradução de Clara Pinto Correia. Há que rentabilizar os 13,95 euros despendidos em Junho na Fnac e este meio ano de espera não valorizou o livro, tal como o tempo faz com o meu mui apreciado líquido inebriante de terras do Douro.

Para o fim guardo o melhor e sem mais comentários, a não ser que a mesmíssima linha de raciocínio do ilustre eleitor votou ao esquecimento os livros de Manuel Maria Carrilho ao apontar a dedo jornalistas e centrais de informação corruptos e de Pedro Santana Lopes e as suas cabalas:
«“Eu, Carolina”, Carolina Salgado, Dom Quixote

Ressuscita o poder formal de um livro mudar a sociedade. Ao que lá se conta ninguém ligava antes de ser livro. Denuncia crimes e culpados. Corrupção e banditagem no futebol e na PJ, por dentro. Só por estupidez se podem apreciar os efeitos directos do livro na paralisia judicial e criticar a sua publicação e forma. Acusando o livro de não ser aquilo que ele ‘não’ é, nem nunca quis ser.
»
Por Rui Cardoso Martins

PS 1 – Quase que me esquecia de falar das escolhas da inefável Mnemónica**: elegeu apenas livros em língua inglesa: o que dizer à nossa criadagem depois do 1.º choque com a confissão de militância na esquerda?

PS 2 – Na mesma edição do suplemento do Público fiquei a saber que a Dom Quixote vai editar o romance enciclopédico de Jonathan Littell «Les Bienveillantes», vencedor do Prémio Goncourt 2006. Ai se as Fúrias se crispam de novo… para onde vai a benevolência!?

*[actualização às 15:46] Acabo de saber através deste texto de Alexandre Borges no 31 da Armada que «acabou o "Bancada Central"». O choque, o horror, o drama apoderaram-se de mim.
**Corrigido por douto alerta.