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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Para os Gulosos, estirpe McEwaniana

Eu, pecador, pela gula bibliómana com a marca do mestre de Aldershot, me confesso.

Um mês após o lançamento em Inglaterra, a Gradiva (obrigado!) publica no nosso país Sweet Tooth:



sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Imaginação Moral

«Ao contrário de muitos críticos contemporâneos que durante os últimos anos adquiriram uma reputação súbita nos Estados Unidos, Steiner não se dispõe a ler para ficar desapontado, e nunca encarou a actividade crítica como uma oportunidade para adoptar posturas profundamente desdenhosas.»
Robert Boyers, “Introdução”, p. 14. In George Steiner, George Steiner em The New Yorker [Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Junho de 2010, 417 pp; tradução de Joana Pedroso Correia e Miguel Serras Pereira; obra original: George Steiner at The New Yorker, 2008.]
Muito haveria para dizer partindo do curto período atrás citado, retirado do prefácio de autoria do coordenador (não, não se trata do eufemista Louçã) da antologia de ensaios escritos para a revista norte-americana The New Yorker por George Steiner e que, com louvor e consideração – não sem uma pequena reprimenda pela contumaz preguiça editorial de marca lusa* –, a Gradiva traduziu e publicou há cerca de um par de semanas em Portugal, sobre a ortodoxia e o reaccionarismo que se apoderou da crítica literária praticada em solo americano e que se estendeu, de forma pandémica, à crítica literária ocidental, inclusivamente nos cantinhos geográficos propensos à expansão da mediocridade dos visionários de um só olho. Discute-se e muito a técnica, ignora-se a estética e exalta-se a ética literárias – por outras palavras, fazendo uso do conhecimento quase científico da primeira, subordina-se a segunda a um conjunto de interesses de índole diversa que se subsumem nos princípios prevalecentes da terceira num dado momento. Descarta-se a imaginação em detrimento de um manual de bons costumes, de uma cartilha que implicitamente homenageia a obtusidade filistina, pois a arte – imaginação, criatividade, integridade estilística – é menorizada em favor de apriorismos políticos pseudoculturais, ou melhor, segue-se uma agenda económica, garroteada pelos subsídio-saqueadores, e, sobretudo, política, travestida de uma verdade oracular pela untuosa eminência auto-alardeada, apoiada pelo inebriante caleidoscópio contemporâneo dos novos canais promocionais – uma espécie de proliferação acelerada de Rui “brilhantina” Santos, ainda de menor calibre, com acesso privilegiado e exclusivo, porém irrestrito, a uma Delfos, que bem pode ser a Amadora ou Gondomar.
Os que confundem este movimento com a democratização da opinião, são os mesmos que, no seu afã libertário (contrário às convicções íntimas), acabam por criar mitos autocráticos, os monstros da opinião postados em torres de marfim, emprenhando um conjunto de seguidores cegos pelo falso brilho do logro bem vendido, e ainda mais medíocres que o justo progenitor, o que é bem mais atentatório para a evangelizada liberdade de expressão – causa arrebatada pela percebida autoridade moral publicitada, que mais não é que um narcisismo degenerado, porque a distorção mental é de tal ordem que não lhes permite sequer divisar a sua própria imagem numa hesitante superfície reflectora.
É assim a arte na mão dos políticos, burocratas e plutocratas (que proliferam pela actividade dos dois primeiros grupos), roubada aos artistas pelos sequazes da domação da criatividade. Passo a passo vai-se construindo o decálogo de onde emanará a feroz liturgia: e venha a nós a vossa crítica, ó sumo-sacerdote do realismo novecentista, engrandece os livros escritos pelos teus correligionários, publicados pelo grupo editorial da tua mulher e amigos, reprova a abstracção como liberdade criativa. Não denegarás o discurso indirecto livre…
*Nota: a edição lusa deste livro, para além de alguns pecadilhos de tradução detectados logo no primeiro e gigantesco ensaio (por exemplo, troca-se “MI5” por “M15”), enferma do habitual nacional-forretismo, um dos principais derivados do nacional-porreirismo. De facto, os responsáveis da Gradiva não só eliminaram o essencialíssimo “índice remissivo” – peça fundamental em obras com esta configuração –, como também suprimiram um importante “anexo” que continha, na edição original, a listagem completa de todos os artigos publicados por Steiner na icónica revista norte-americana. Assim como, em nenhuma parte do texto em português se faz referência à, jamais negligenciável, data de publicação – percorri o livro de lés a lés e… nada de datas, que permitiriam descortinar a envolvente e o enquadramento histórico no momento em que os escritos foram produzidos e publicados.
Assim sendo, deixo aqui ficar um auxiliar de minha lavra [tudo o que figurar entre parêntesis rectos], para aqueles que fazem tenções de se aventurar na 1.ª edição desta obra (esperando, porventura em vão, uma correcção para a 2.ª):
–––O Sacerdote da traição [sobre Anthony Blunt; “The Cleric of Treason”; 08/12/1980]
–––Wien, Wien, Nur du Allein [sobre Anton Webern & Viena; 25/06/1979]
–––De Profundis [sobre o Volume III do Arquipélago de Gulag de Aleksandr Solzhenitsyn; 04/09/1978]
–––Espiões de Deus [sobre O Factor Humano de Graham Greene; “God’s Spies”; 08/05/1978]
–––Da Casa dos Mortos [sobre Albert Speer; “From the House of the Dead”; 19/04/1976]
–––De Mortuis [sobre Philippe Ariès & O Homem Perante a Morte; 22/06/1981]
–––Mil Anos de Solidão [sobre Salvatore Satta; “One Thousand Years of Solitude”; 19/10/1987]
–––Matar o Tempo [sobre Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell; “Killing Time”; 12/12/1983]
–––Danúbio Negro [sobre Karl Kraus & Thomas Bernhard; “Black Danube”; ”21/07/1986]
–––B. B. [sobre Bertolt Brecht; 10/09/1990]
–––Uneasy Rider [sobre Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas de Robert M. Pirsig; 15/04/1974]
–––Uma Ave Rara [sobre Guy Davenport; “Rare Bird”; 30/11/1981]
–––Cartas Perdidas [sobre John Barth; “Dead Letters”; 31/12/1979]
–––Tigres no Espelho [sobre Jorge Luis Borges; “Tigers in the Mirror”; 20/06/1970]
–––Do Cambiante e do Escrúpulo [sobre Samuel Beckett; “Of Nuance and Scruple”; 27/04/1968]
–––Aos Olhos do Oriente [sobre Aleksandr Solzhenitsyn & outros russos; “Under Eastern Eyes”; 11/10/1976]
–––Homem-Gato [sobre Louis-Ferdinand Céline; “Cat Man”; 24/08/1992]
–––O Amigo de um Amigo [sobre Walter Benjamin & Gershom Scholem; “The Friend of a Friend”; 22/01/1990]
–––Uma Sexta-Feira Má [sobre Simone Weil; “Bad Friday”; 02/03/1992]
–––O Jardim Perdido [sobre Claude Lévi-Strauss; “The Lost Garden”; 03/06/1974]
–––Da Concisão [sobre E.M. Cioran; “Short Shrift”; 16/04/1984]
–––Velhos Olhos Cintilantes [sobre Bertrand Russell; “Ancient Glittering Eyes”; 19/08/1967]
–––Uma História de Três Cidades [sobre as Memórias de Elias Canetti; “A Tale of Three Cities”; 22/11/1982]
–––Le [sic] Morte d’Arthur [sobre Arthur Koestler; “La Morte D’Arthur”; 11/06/1984]
–––As Línguas do Homem [sobre Noam Chomsky; “The Tongues of Man”; 15/11/1969]
–––Uma Morte de Reis [sobre Xadrez; “A Death of Kings”; 07/09/1968]
–––Dar a Palavra [sobre James Murray & o Oxford English Dictionary; “Give the Word”; 21/11/77]
–––Uma Vida Examinada [sobre Robert Hutchins & a Universidade de Chicago; “An Examined Life”; 23/10/1989]

Imagem: (cf. Metamorfoses de Ovídio) reprodução de Eco e Narciso, de Nicolas Poussin (1594-1665), circa 1630, óleo sobre tela (Museu do Louvre, Paris).

sexta-feira, 26 de março de 2010

Novo McEwan

Tal como aconteceu com a extraordinária novela Na Praia de Chesil (On Chesil Beach, 2007), a Gradiva (inexplicavelmente, sem ligação à sua página oficial na Internet), editora portuguesa responsável pela edição da obra do eminente escritor inglês, publica em simultâneo com as edições britânica e norte-americana a mais recente obra de ficção de Ian McEwan: Solar. Felicitações à editora.
Preparo-me, por isso, para largar tudo que vem passando debaixo dos meus olhos em matéria de literatura recreativa, assim que dispuser do exemplar de um dos escritores contemporâneos pertencentes ao meu Olimpo pessoal.
 
Excerto (1.º parágrafo):

«Ele pertencia a essa classe de homens — de aparência vagamente desagradável, muitas vezes calvos, baixos, gordos, inteligentes — que são inexplicavelmente atraentes para certas mulheres belas. Ou ele julgava que o era, e pensá-lo parecia fazer com que assim fosse. E ajudava o facto de certas mulheres estarem convencidas de que ele era um génio a precisar que o socorressem. Mas o Michael Beard dessa época era um homem mentalmente diminuído, anedónico, monotemático, devastado. O seu quinto casamento estava a desintegrar-se, e ele devia ter sabido como comportar-se, pensar a longo prazo, arcar com as culpas. Os casamentos, os seus casamentos, não se assemelhariam a marés, com um a recuar para o largo imediatamente antes de o outro vir dar à praia? Mas este era diferente. Ele não sabia como comportar-se, pensar a longo prazo fazia-o sofrer e, por uma vez, não lhe parecia haver culpas com que arcar. Era a mulher dele que estava a ter um caso, e a tê-lo de uma forma flagrante, punitiva, seguramente sem remorsos. Ele descobria no seu íntimo, por entre uma série de emoções, momentos intensos de vergonha e nostalgia. Patrice andava com um empreiteiro, o empreiteiro que trabalhava para eles, que lhes tinha rebocado a casa, equipado a cozinha, posto azulejos novos na casa de banho, o mesmo sujeito corpulento que, certa vez, durante a pausa do chá, mostrara a Beard uma fotografia da sua casa Tudor de imitação, renovada e tudorizada por suas próprias mãos, com um barco atrelado a um reboque por baixo de um candeeiro de estilo vitoriano no caminho de acesso cimentado e espaço suficiente para pôr de pé uma cabine telefónica vermelha desafectada. Beard ficou surpreendido ao descobrir como era complicado ser o marido enganado. A desventura não era simples. Que ninguém dissesse que nessa fase avançada da vida ele era imune a novas experiências.»
Ian McEwan, Solar, pp. 11-12
[Lisboa: Gradiva, 1.ª edição, Março de 2010, 338 pp.; tradução de Ana Falcão Bastos; obra original: Solar, 2010]

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Nocturnes, by Ishiguro

À atenção da Gradiva (editora portuguesa que publicou quatro dos seis romances do autor anglo-nipónico, que poderia ser tão expedita como o foi na publicação do último trabalho de Ian McEwan, Na Praia de Chesil):


Data de publicação no Reino Unido: 7 de Maio de 2009 (Faber and Faber).

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

As Bruxas Enviuvaram

O provocante, arrebatador e célebre trio formado por Alexandra, Jane e Sukie – meninas agora enviuvadas por um defeito da sua malignidade –, regressou ao sortilégio histérico pela pena (por vezes misógina, daí o histerismo aqui explícito, e por lá subliminar) de John Updike, que há vinte e quatro anos publicou As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984) – obra editada em Portugal em 1987 pela Gradiva, que, de forma incompreensível e sobremaneira irritante, se encontra esgotada há anos no nosso mercadozinho editorial.

A obra será lançada na próxima semana nos Estados Unidos, e se provas faltassem quanto à comunicabilidade intercultural e às versatilidade e desinsularidade literárias de Updike, atente-se na sua vasta obra, que vai desde a crónica da conturbada vida familiar americana – recordemo-nos, por exemplo, da tetralogia do Coelho e do romance provocador e, à época, fracturante Casais Trocados (Couples, 1968) – aos meandros da política e dos meios artístico e literário, até aos grandes temas que preocupam ou preocuparam a população americana, como o terrorismo, o fundamentalismo assassino das seitas religiosas davidianas, e até, diga-se para que honra lhe seja feita, da condição feminina, chegando ao puro domínio da fábula e da fantasia onde As Bruxas de Eastwick e o extraordinário e inesquecível romance Brasil (Brazil, 1994) são o seu expoente máximo.

Quem me visita e tem paciência para ler os meus textos, já o sabe: sou um admirador da ficção norte-americana contemporânea e, em particular, da de John Updike. De todas as suas obras por onde passaram os meus olhos de leitor atento – e, acreditem, trata-se já de uma parte substancial do seu catálogo romanesco que foi publicado em português –, apenas Procurai a Minha Face (Seek My Face, 2002) e O Terrorista (The Terrorist, 2006) abalaram as já firmes expectativas de um updikiano convicto. Ambas, e refiro-o com alguma frustração (felizmente curável), ficaram abaixo do nível de perfeição e de rigor estético que o autor da Pensilvânia nos habituou, e foi apenas isso, não se devendo a qualquer irrupção varicosa de má qualidade literária.
Por publicar, em Portugal, está a totalidade da sua poesia, dos seus contos e, mais importante e simultaneamente frustrante, todos os seus ensaios sobre arte e literatura, e principalmente o seu aclamado livro de memórias, publicado em 1989, Self-Consciousness – situação que, no meu caso, poderia ser de fácil resolução, não fora a minha teimosia de não ler em inglês nas horas de lazer pelo seu forte odor a trabalho e pelos sinais mentais de alerta de vivificação da desejadamente adormecida rotina quotidiana.

Sem mais delongas, aqui fica o início traduzido – pois claro – do romance que Updike publicou aos 76 anos:

«O conventículo reconstituído

Aqueles que entre nós estão a par da sua história sórdida e escandalosa não ficarão surpreendidos se ouvirem, mediante os rumores provenientes dos mais diversos locais onde as feiticeiras assentaram arraiais depois de escaparem da nossa venerável vila de Eastwick, Rhode Island, que os maridos que as três infames mulheres, através das suas artes negras, forjaram para elas próprias, não se revelaram duradouros. Métodos ruins fabricam produtos ruinosos. Satanás, claro, falsifica a Criação, mas através de deuses inferiores.
»
John Updike, The Widows of Eastwick (2008) [tradução: AMC]

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Feira do Livro do Porto [actualizado]

UEP


[Uma vontade indómita de boicotar, enquanto leitor: os grupos LeYa e Bertrand – sendo este último associado da APEL –, os editores da UEP e até a editora recentemente adquirida pelo jovem reformado Paulo Teixeira Pinto, a casa da colossal Agustina (autora do Porto, nascida em Vila-Meã em 1922), a Guimarães Editores. Não têm qualquer tipo de representação na 78.ª edição da FLP.]


Saúde-se a Gradiva e a Europa-América pelas suas posturas livres e independentes, pela coragem demonstrada perante o apelo do poderio económico de tendência eminentemente oligarca, em prol dos livros e da Literatura – já pareço o Carvalho da Silva a discursar.

Notas:
  1. Ver aqui a lista possível dos editores e livreiros com expositores na Feira do Livro do Porto, que se inicia hoje, 21 de Maio, às 15:30 no Pavilhão Rosa Mota.

  2. António Lobo Antunes irá estar presente no próximo dia 24, pelas 19:30, no Café Literário para uma sessão de autógrafos, ao arrepio da atitude inqualificável dos responsáveis da editora que publica os seus livros. Oxalá José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares se conseguissem demarcar, de igual modo, das suas editoras, Bertrand e Caminho (LeYa), respectivamente.