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terça-feira, 17 de agosto de 2010

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As boas notícias e as incógnitas do meio editorial português.
Imune à crítica do crítico vingador de Flaubert – quem lhe terá passado semelhante procuração? Ao homem do discurso indirecto livre, casado com uma romancista sofrível, e tal vez sofredora, e que vê a ficção como a pianola de Gaddis ou o multiusos pianocktail de Vian, cristalizada no século XIX –, Auster prossegue e prepara-se para ver publicado o seu 14.º romance desde que iniciou a carreira no campo da ficção em 1985, com a publicação da novela Cidade de Vidro (City of Glass), mais tarde integrada na sua, até hoje, obra mais admirada e objecto de culto, A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987), o seu primeiro romance, constituído por três partes interligadas de acordo com o seu leitmotiv. Eis que em breve chegará Sunset Park, cujo primeiro parágrafo aqui reproduzo, devidamente traduzido:


«Faz quase um ano que ele começou a tirar fotografias de objectos abandonados. Há pelo menos dois serviços por dia, por vezes chegam a seis ou sete, e de cada vez que ele e os seus colegas entram noutra casa, são confrontados pelas coisas, inúmeros objectos usados deixados para trás pelas famílias que partiram. Todas as pessoas ausentes fugiram à pressa, com vergonha, confusas, e é certo que, qualquer que seja o sítio em que agora vivam (se é que encontraram outro lugar para viver e não estão acampadas nas ruas) as suas novas residências são mais pequenas que as casas que perderam. Cada casa é uma história de fracasso – de bancarrota e de incumprimento, de dívidas e de hipotecas executadas – e ele resolveu assumir as responsabilidades deste emprego para documentar os últimos, os vestígios remanescentes daquelas vidas dissipadas para provar que, em tempos, as famílias desaparecidas aqui estiveram, que os fantasmas de pessoas que ele nunca verá e jamais conhecerá, continuam presentes nos objectos sem préstimo espalhados pelas suas casas vazias.»
Paul Auster, Sunset Park, p. 3 [excerto de obra a publicar em Novembro próximo pela Henry Holt no mercado norte-americano; 320 pp. – tradução livre: AMC, 2010]
Notas e questões (do mercado editorial):
1 – Tal como aconteceu com Invisível (Invisible, 2009) e segundo os editores nacionais do escritor originário de Newark, que gosta de ser reconhecido como um filho de Brooklyn, a Asa lançará a obra no mercado livreiro nacional no mesmo dia em que esta estrear nos Estados Unidos.
2 – Prometida para publicação em Setembro em Portugal, está finalmente o magistral romance As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March, 1953), considerado por muitos dos seus mais fervorosos leitores como a obra-prima do autor norte-americano, nascido no Canadá no Dia de Portugal, Saul Bellow (1915-2005), Prémio Nobel da Literatura em 1976 – trata-se do seu 3.º romance. O anúncio foi feito pelo seu editor, Francisco José Viegas, no seu blogue A Origem das Espécies, e terá, como é óbvio, a chancela da brilhantemente renovada Quetzal.
3 – Para além da referida obra de Bellow, até hoje inédita em Portugal, a Quetzal irá publicar de uma só assentada o primeiro romance da já longa carreira literária de Martin Amis, inacreditavelmente ainda virgem na aridez do solo literário português, O Diário de Raquel (The Rachel Papers, 1973); e, pela primeira vez, um ensaio de escritor, polemista, jornalista e eminente blogger Andrew Sullivan, A Alma Conservadora (The Conservative Soul, 2006).
4 – Para finalizar, uma singela pergunta por quem se interessa por estas coisas aborrecidas, como ler: será que a Dom Quixote, desde que passou para o grupo LeYa, para além de muitos outros, se esqueceu de Philip Roth? Para quando a edição de The Humbling (2009) e/ou de Nemesis (2010)? Suponho que ainda detêm os direitos autorais de Roth.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Bellow ao quadrado

Foi apenas hoje que, enquanto perscrutava os escaparates de uma livraria concorrente, mais asseada, diversificada e arrumada, para somar à minha onerosa (de certo modo, utópica) lista de desejos para os Dias do Aderente Fnac nas próximas quinta e sexta-feira – nos tempos que correm, não são despiciendos os 19% de desconto sobre o preço de capa –, reparei numa nova edição de um romance de Bellow no mercado editorial português. Trata-se do admiravelmente urdido Morrem Mais de Mágoa (More Die of Heartbreak, 1987), talvez o último romance de grande fôlego do autor canadiano de nascença, embora americano crónico desde tenra idade.
Bellow é responsável por um dos mais saudáveis dilemas no meu habitual e íntimo exercício de classificação da obra de um autor em que pelo menos dois terços daquela hajam passado pelo meu crivo estético-literário; e esse dilema mostrou o seu aspecto de dolorosa indecisão – como se escolher um romance em detrimento de outros se tornasse um caso de vida ou de morte, talvez uma vacuidade neste mundo filistino, a tender inexoravelmente para o absoluto do qualificativo – quando na minha passagem relâmpago pelo Facebook (a um ano de distância a desistência após três meses afigura-se-me cada vez mais como um acto prudente e ajuizado, um bem-haja para mim) me propuseram que, à queima-roupa, postasse uma listagem com os meus 10 ou 15 romances preferidos, sem muito pensar ou discernir para não contaminar a imposta espontaneidade. Assim o fiz e de imediato fui criticado, porque para além de ter efectuado trabalhos manuais de “copiar e colar” de um texto que havia escrito há alguns anos, tive de colocar um asterisco à frente da obra de Bellow porque não me conseguia decidir entre três das suas obras como a minha favorita, por onde vagueava com firmeza a acima mencionada; e, assim, a que figurava no arrolamento tornava-se perfeitamente intermutável com as outras duas, sem que a tal lista corresse riscos de desmoronamento por atentado à integridade da minha curta reflexão.
Mas voltemos aos escaparates da dita livraria, verifiquei com surpresa que a Quetzal editou o Morrem Mais de Mágoa, com nova tradução, quando uma outra de responsabilidade da editora Livros do Brasil circula ainda sem rupturas no mercado, com uma excelente tradução (aliás é seu apanágio) de Fernanda Pinto Rodrigues – e não é de todo necessário entrar neste caso, e como me parece óbvio, com o critério da pobreza estética das edições antigas da colecção “Dois Mundos” nesta editora (ver imagem) –, recuperando a de 1989 do Círculo de Leitores – jovem de 21 anos. De imediato, averiguei se nas badanas ou na contracapa existia um manifesto sobre a continuidade de publicação das obras do Prémio Nobel da Literatura de 1976. Para meu contentamento, a Quetzal irá continuar a publicar Bellow, embora no meu entender tenha começado mal, e esta apreciação não se prende só com a duplicação de Morrem Mais de Mágoa no, parco em qualidade, mercado editorial luso (a potência do título é hiperbólica), mas com a tríade de obras inacreditavelmente ainda não publicadas em Portugal:
  • The Adventures of Augie March (1953);
  • Humboldt’s Gift (1975);
  • The Dean’s December (1982).
E depois, nada me garante que as que se seguem não sejam aquelas que duas editoras, agora do grupo LeYa, a Texto e a Teorema, tinham vindo a publicar de forma sistemática desde o ano 2000, antes da mediática aquisição.
E para terminar, mais uma pequena irritação – apenas aplacada pela exposição do primeiro parágrafo desta notável obra, logo a seguir –, desta feita, julgo que de origem tipográfica, na badana da capa da nova edição, Bellow viveu quase 100 anos, nasceu na província do Quebeque, no Canadá, em 1905…

«[O] ano passado, quando atravessava uma crise na sua vida, o meu tio Benn (B. Crader, o famoso botânico) mostrou-me um cartoon de Charles Addams. Era um cartoon trivial, bom para um sorriso, mas o Tio estava embeiçado por ele e queria discuti-lo minuciosamente. A mim não me apetecia analisar um cartoon. Ele insistiu. Mencionou-o relacionando-o com tantas coisas que me irritei e encarei até a ideia de mandar emoldurar o mamarracho e oferecer-lho no dia dos seus anos. Pendura-o na parede e livra-te dele, pensei. De vez em quando, Benn conseguia bulir-me com os nervos, daquele modo que só uma pessoa que ocupa um lugar especial na nossa vida consegue. Ele ocupava, sem sombra de dúvida, um lugar especial. Eu amava o meu tio.»
Saul Bellow, Morrem Mais de Mágoa, p. 7 [Lisboa: Livros do Brasil, 1990, 353 pp.; tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.]