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sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Ainda McEwan

Christopher HitchensNo último número (Julho/Agosto) da revista norte-americana The Atlantic (anteriormente designada por The Atlantic Monthly), o escritor, crítico e colunista britânico, residente nos Estados Unidos, Christopher Hitchens escreve sobre o último trabalho do seu eminente compatriota Ian McEwan, Na Praia de Chesil, e a consagração deste último como o escritor nacional“Think of England”.
Entre outros assuntos conexos, Hitchens, tal como fizeram alguns críticos literários antes dele, fala da coincidência histórica entre a novela de McEwan e o célebre poema de Philip Larkin (1922-1985) “Annus Mirabilis”, escrito em 1967 – trezentos anos após o poema épico homónimo de John Dryden que narra os acontecimentos do Grande Incêndio de Londres (entre 2 e 5 de Setembro de 1666) e, segundo se supõe, atribuindo-lhe uma natureza miraculosa ou decorrente da vontade divina devido ao pequeno número de baixas; assim como a vitória esmagadora da armada inglesa sobre os holandeses na Batalha de Lowestoft a 13 de Junho do mesmo ano, o ano da besta do 2.º milénio.

Da leitura do artigo, passando por uma releitura das sinopses fornecidas pela editora e até de algumas críticas, concluí que existe uma disfuncionalidade cronológica entre o autor, a editora e as inúmeras recensões publicadas na imprensa de língua inglesa antes da publicação da obra, alastrando-se, de forma pandémica, aos textos que se seguiram – virulência assaz frequente no crítico profissional que não lê a obra recenseada e que, imbuído de um curioso espírito de solidariedade profissional, vulgo engenho mimético, acaba por cair no mesmo erro, embora, por um zelo singular, a exegese surja sempre num estilo mui íntimo, revelador da erudição e da cientificidade literária do autor.
Bem, ou então… tudo está correcto, McEwan desfruta da companhia do seu meio-irmão recentemente descoberto, enquanto esboça a próxima obra, e o mundo, na sua inexorabilidade, pula e avança… e eu, na minha eventual neurose obsessivo-compulsiva, que se manifesta por um putativo rigor anacrónico, insisto num pormenor decerto obviável – e não recebo nada por isso.

Para que se possa entender o propósito desta torturante, quiçá tortuosa, arguição, convém delinear um fio condutor que, pelo menos, permita um pequeno vislumbre da sua finalidade (inutilidade), seguindo, para o efeito, um método por etapas.
Em primeiro lugar, é de todo aconselhável começar com o tal poema de Larkin:

Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(which was rather late for me) –
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.

Up to then there'd only been
A sort of bargaining,
A wrangle for the ring,
A shame that started at sixteen
And spread to everything.

Then all at once the quarrel sank:
Everyone felt the same,
And every life became
A brilliant breaking of the bank,
A quite unlosable game.

So life was never better than
In nineteen sixty-three
(Though just too late for me) –
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.


Philip Larkin, “Annus Mirabilis”, (1967)

(Segundo Hitchens – merecendo inclusive nota de destaque na revista:
«Somente Philip Larkin logrou descrever o sexo de forma ainda mais crua em comparação com a que aqui [Na Praia de Chesil] faz McEwan. Não houve imperícia, falhanço ou desgraça que tivesse ficado por revelar.» [Tradução Livre: AMC])

Em segundo lugar, se dispuserem de alguma reserva mental que vos permita ler, ou então reler – podendo, neste último caso, redundar num processo autopunitivo mais severo –, qualquer texto por mim escrito e publicado neste blogue, escrevi no passado dia 2 de Maio
este texto – também indicado na coluna da direita – sobre a minha experiência de leitura desta pequena obra-prima de McEwan.

Em terceiro lugar, Hitchens, as sinopses das edições inglesa e portuguesa do livro de McEwan e a generalidade dos críticos afirmam, de forma categórica e inequívoca, que a acção principal de Na Praia de Chesil – a famosa noite de núpcias – decorre no Verão de 1962. Ora, no caso do meu estimado leitor haver arriscado o esgotamento da sua paciência lendo
o meu texto de pseudo-recensão – e se chegou até aqui, por que não dar o benefício da dúvida e fazer mais um esforço –, certamente verificou que situo a dita acção no Verão de 1963.

Hipótese nula: a acção de Na Praia da Chesil ocorre no dealbar do coito como forma de expressão sexual.

Ou seja, rejeitar a Hipótese Pré-Larkin, em detrimento da Hipótese, mais poética, de coetaneidade.

Começando pela análise do poema de Larkin, consegue-se, facilmente, delimitar um período para o alvor da explicitação sexual:

  • the end of the Chatterley ban”, fim do processo judicial que visava proibir a venda do romance O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence: 2 de Novembro de 1960;
  • the Beatles' first LP”, estreia do primeiro L.P. dos BeatlesPlease Please Me, editado pela Parlophone (empresa subsidiária da EMI): 22 de Março de 1963.

Outros factos históricos:

  • os Beatles assinam o primeiro contrato com a EMI a 6 de Junho de 1962, nos famosos estúdios de Abbey Road, Londres, e publicam o primeiro single “Love Me Do” em 5 de Outubro de 1962, que integrava a canção “P.S. I Love You”. Segundo as inúmeras biografias e artigos de enciclopédia, o primeiro single teve um sucesso moderado, atingindo apenas a 17.ª posição no top de vendas do Reino Unido. O segundo single – que iria emprestar o nome ao primeiro álbum – “Please Please Me” é lançado no mercado britânico a 11 de Fevereiro de 1963 – foi primeiro grande sucesso dos Beatles, atingiu as 2.ª e 3.ª posições nos tops de vendas do Reino Unido e dos Estados Unidos, respectivamente.

Factos apontados no enredo da novela Na Praia de Chesil de Ian McEwan:
Edward Mayhew [destaques meus]:

  • «[Edward] Tinha nascido em 1940, demasiado tarde no século, para acreditar que estava a maltratar o corpo» (pág. 21).
  • «Naquela manhã, enquanto se vestia para o casamento […] decidira que nenhuma das figuras da sua lista poderia ter conhecido aquele tipo de satisfação […] Ali estava ele [Edward], um homem magnificamente realizado, ou quase realizado. Com vinte e três anos, já quase os tinha superado a todos.» (pp. 15-16)
  • «Ele [Edward] tinha nascido em Julho de 1940, na semana em que começou a batalha de Inglaterra.» (pág. 51). A batalha de Inglaterra, refere-se às hostilidades entre a Luftewaffe e a R.A.F. pelo domínio dos céus e pela supremacia aérea, iniciou-se a 10 de Julho de 1940 (quarta-feira).
  • «O Casal […] chegara ao entardecer ao hotel na costa de Dorset com um tempo que não era perfeito para meados de Julho» (pp. 7-8).
  • Seguindo as regras da aritmética mais simples, se o nosso herói nasceu em Julho de 1940, entre os dias 7 (domingo) e 13 (sábado), e se contava 23 anos, a acção desenrola-se, fatalmente, no ano de 1963, mais concretamente no Verão desse ano.

Referências musicais:

  • «Ele fê-la ouvir interpretações “desajeitadas mas respeitáveis” das canções do Chuck Berry pelos Beatles e os Rolling Stones.» (pág. 100). O primeiro single dos Rolling Stones saiu para o mercado a 7 de Junho de 1963, tratava-se de “Come On”, uma cover de uma canção de Chuck Berry. Todavia, segundo o The Complete Works of the Rolling Stones 1962 - 2007, entre 1962 e 1963, os Rolling Stones já tinham no seu repertório algumas canções de Chuck Berry: Brown-Eyed Handsome Man, Childhood Sweetheart, Don’t Lie To Me, Jaguar and Thunderbird, Johnny B. Goode, Little Queenie, No Money Down, Our Little Rendezvous e Sweet Little Sixteen. O período retratado nesta fase do livro, refere-se à fase do conhecimento mútuo pré-matrimónio, e neste caso relata os antagónicos gostos musicais de ambos. Episódio ocorrido, pelo menos, um ano antes do casamento.

Referências políticas:

  • «E ele [MacMillan] tinha despedido um terço do seu gabinete na “noite das facas longas”, o que exigia coragem. Mac the Knife, chamava-lhe um cabeçalho, Macbeth!, dizia outro.» (pág. 30). Nesta parte da narrativa, Edward tenta ocupar a sua mente com assuntos políticos para evitar ejacular precocemente, enquanto abraça Florence e ambos se beijam freneticamente. A “noite das facas longas” refere-se ao despedimento compulsivo de cerca de um terço dos membros do Governo pelo Primeiro-Ministro britânico Harold MacMillan numa só noite: 13 de Julho de 1962.

Conclusão: hipótese nula não rejeitada. Rectifica lá as datas, Hitchens. A acção principal da novela Na Praia de Chesil não decorre na fase pré-coito, ou se se preferir, na fase pré-Larkin, mas, impudicamente, durante o coito (ou a faso do).

terça-feira, 24 de julho de 2007

Clorofila

Hoje de manhã, enquanto deambulava pela minha habitual actualização informativa na blogosfera, uma força estranha apoderou-se do meu sistema informático.
Tentei ligar-me ao Pedro Vieira – uma das pessoas que, pela graça e pelo saudável atrevimento do seu blogue, me vai impedindo a já muito ensaiada desistência. Uma fina ironia, daquelas coincidências que insistimos atribuir ao divino, assim que carregava na dita ligação, um misterioso erro teimava em fechar todas as janelas do Internet Explorer. Consegui aceder ao
Irmãolucia ao fim da 4.ª tentativa. Sinal sagrado!
Insondáveis são os caminhos do Senhor.
Possivelmente houve a mais do que zelosa intervenção de uma força divina, que teima em encarreirar no trilho da bem-aventurança os meus passos supostamente extraviados. Passos que há alguns anos me vão levando para bem longe da Fé, pelo pouco crédito que vou atribuindo àqueles que, segundo rezam as Escrituras, foram feitos à Sua imagem.
Talvez seja um reducionista. Talvez assim pense, sinta e aja por mera letargia ou por um menos gravoso comodismo, embora, nas minhas poucas certezas, atribua uma ínfima probabilidade a essa insuficiência de ponderação.

Pobre Mrs. Jean Watts!
Professora de Ciências da Natureza e de Religião de Hitchens quando este tinha apenas nove anos.
Quem? Christopher Hitchens, o trotskista, amigo do Islão, que mais tarde descobriu pela sua avó possuir uma costela de judeu, e que agora apoia fervorosamente George W. Bush e a sua cruzada no Iraque, sendo por muitos considerado como um verdadeiro neocon, ou pelo menos uma das fontes de inspiração do neoconservadorismo norte-americano – as voltas que a vida dá.
E Hitchens narra um maravilhoso passeio pelo campo e a sua precoce epifania ateísta:
«[…] houve um dia em que a pobre Mrs. Watts se transcendeu por completo. Procurando, de forma ambiciosa, a fusão entre os seus dois papéis de professora de ciências e de instrutora da Bíblia, disse: “Vejam bem, crianças, quão poderoso e generoso é Deus. Ele fez com que todas as árvores e ervas fossem de cor verde, que é exactamente a cor mais repousante para os nossos olhos. Agora imaginem se a vegetação fosse toda púrpura ou cor-de-laranja, que horrível isso não seria.”
[…] fiquei francamente chocado com aquilo que ela disse. […] Aos nove anos, eu não tinha ainda uma ideia sobre […] a relação entre a fotossíntese e a clorofila. […] Eu apenas sabia, quase como se tivesse usufruído do acesso privilegiado a uma autoridade superior, que a minha professora tinha conseguido errar por completo em apenas duas frases. Os olhos foram ajustados à natureza, e não o contrário.»
Christopher Hitchens, God is not Great: How Religion poisons Everything (Twelve, 2007, pp. 1-2) [Tradução livre: AMC].

sábado, 7 de julho de 2007

Momento Solnado

E dizes tu que não conversas com Ele – ou ele, ou ela (versão Maria Belo).
Andava eu a escrever qualquer coisa sobre umas declarações escritas, mefistofélicas, ateístas, antiteístas, porém rutilantes e piadéticas por CHRISTopher HITCHens, palavras apenas não publicadas por algum pudor provindo de moderada lembrança (anamnese) educacional… desculpa pai (bem grafado, para que se entenda).

Pronto, confesso, não li tudo. Alguma sovinice disfarçada de enorme indignação pelos 22,46 euros – e porque não posso passar o dia a fumar cigarro atrás de cigarro, pela minha saúde, no Fórum Fnac – quando o livro custa 14,99 dólares (11,03 euros ao fixing cambial de ontem).

Afinal, falaste com a John Nash, Jr. lusa mas-com-cérebro-
homérico!?

Nota: amanhã, talvez – momento Doce da noite – postarei o último quinteto. É que estou com o Palahniuk na mão… é peganhento.

Bendita interactividade! Acabo de constatar que estás de PARABÉNS. Um abraço.

Porra, e não é que toda a gente, neste círculo íntimo, é mais nova que eu!