Mostrar mensagens com a etiqueta Alan Hollinghurst. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alan Hollinghurst. Mostrar todas as mensagens

sábado, 29 de outubro de 2011

MH & AH: 1065 páginas.


Até breve...


PS - Aquela coisa do Finkler e do finklarismo tem mesmo piada. Repousou por aqui seis meses e vale mesmo a pena ser aberto e deixá-lo respirar, especialmente devido ao denso e brumoso momento por que passa a nossa vida (bom, diga-se, a minha...) Estrelização próxima, e por muito que custe aos estrelados (e até nem desdenho dos agora escalfados em lume brando) e aos guardiões pretorianos de constelação alheia que, por nebulosa atitude, votam à matéria escura aquele que ousa tão baixo estrelar. (Dou-vos um mandamento novo, contado com o de "amai-vos uns aos outros como...", será o 12.º: Não baixamente estrelarás o teu próximo [leia-se, o meu amigo].)  

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Homoerotismo atrasado

No passado dia 17 de Maio (sábado), celebrou-se o Dia Internacional contra a Homofobia.
Confesso que sofro de alguma fobia por dias internacionais, mundiais, nacionais ou regionais, embora ela resulte da vertente carnavalesca ou pedinchona dos eventos. Compreendo, no entanto, a necessidade da sua calendarização e posterior celebração, como um grito de alerta perante a passividade de um quotidiano de luta pela sobrevivência, que não deixa espaço à reflexão. Para problemas bastam os nossos, mas será que muitos desses, que são nossos, não resultam directa ou indirectamente do motivo que levou à criação desse determinado dia da memória?
A homofobia é um acto de violência puro e simples contra o direito à diferença, muitas vezes silenciosamente perverso, cobarde e mesquinho, cujos mais celerados propagadores e partidários da coarctação dessa liberdade se fundamenta em critérios tão intelectualmente medíocres como o da simples poluição visual, e esse costuma ser o grotesco, ignóbil, grande salto para a defesa da segregação, que outrora levou ao extermínio de milhões de inocentes.
Em suma, o penoso egoísmo ocidental não nos permite identificar como nosso o sofrimento dos outros; porém ele difunde-se inexoravelmente pelo globalizado canal social à comunidade em que nos inserimos. Infecta-a, com diferentes cargas de virulência, corrompe-a, distorce a escala de valores, onde o efeito é entendido como causa, onde o manso cordeirirnho digere o lobo até ao tutano em tranquilo repasto. E é essa a inversão – uso propositado da palavra: o motor de todos os conflitos.
Assim, porque não um pouco de homoerotismo literário para excitar, em sentido lato, a comunidade blogosférica?
Trata-se da primeira parte de um conto publicado na Granta n.º 100 pelo escritor inglês (sósia, insisto, do nosso
FJV), vencedor do Booker Prize em 2004 por A Linha da Beleza (The Line of Beauty, 2004), Alan Hollinghurst (n.1954) – os homofóbicos encapotados ficarão, decerto, com água na boca.

Atracções Turísticas
1. Eles estavam em Gatwick, Colin e Archie, à espera do check-in, enquanto Colin se ia recusando a reflectir se isto teria sido uma boa ideia. Archie já estava conversar com o jovem italiano que se encontrava à sua frente na fila, que tinha o novo modelo de iPod que ele pretendia. Colin ajoelhou-se para tirar da sua mala o seu exemplar de I promessi sposi, de que continuava a servir-se para expandir os seus domínios no italiano. Ele não estava nada satisfeito por haver descoberto que Archie também sabia falar italiano, embora o fizesse apenas no presente verbal; ele não o queria ver a escapulir-se por Roma toda a falar italiano. Naquele momento, Archie enviava o seu número de telefone ao rapaz italiano, perguntando-lhe algo sobre uma discoteca. Oh, meu Deus, pensou Colin. Certamente não vamos a Roma pelas discotecas. Embora, uma pequena parte dele próprio pensasse que até poderia ser algo excitante regressar tendo ido, pelo menos, a uma.

Colin Cardew tinha cinquenta e dois anos e trabalhou para a Latimer, os editores dos famosos guias culturais. Ele vivia sozinho e bebia um pouco de mais, e as pessoas que o ficavam a conhecer nos encontros literários julgavam-no mais velho e entediante do que o era na realidade. Ele tinha estado em Roma há vinte anos, com um amigo que mais tarde viria a morrer, e desde então, um sentimento de desânimo e de perda afastaram-no do lugar. Ao Archie nada foi contado sobre isto e, de certa forma, a sua ignorância era a beleza do plano. Ele pedira-lhe para lá ir, para que lhe pudesse ser mostrada alguma coisa de diferente. Colin fitou discretamente a sua pequena, bem moldada, os, bem na moda, centímetros de roupa interior branca acima dos seus jeans de cintura descaída. Desde Maio passado, deixara de haver sexo, ou qualquer coisa que se lhe pudesse aproximar. Archie esquivar-se-ia ou diria, “Deus do céu, estou cheio de fome!” e depois teriam ido à trattoria mais próxima. Ele fizera dele próprio, de uma forma tocante porém ao mesmo tempo frustrante, apenas um amigo: Colin pagou na mesma, mas pelo jantar e não por cinquenta minutos na cama. Pois bem, ele sabia que estas coisas não se dão por adquiridas, mas sentiu com alguma certeza que com um fim-de-semana livre em Roma o seu companheiro aceitara qualquer coisa mais.

No avião, Archie insistiu em ficar junto à coxia, garantindo possuir uma tendência para a claustrofobia. Assim que todos haviam apertado os cintos de segurança e as portas se encontravam fechadas, o primeiro comissário anunciou um atraso de oito minutos. Archie demonstrou uma grande tolerância durante o primeiro minuto e meio, mas depois disse, “Eu sabia que deveríamos ter viajado na BA.”

Colin releu várias vezes o mesmo parágrafo de I promessi sposi, picado pela crítica às suas providências de viagem, e incapaz de vislumbrar porque é que aquela estaria menos sujeita a atrasos na pista que a Alitalia. Bom, era um lembrete útil: aquele Archie, apesar de gostar de ser pago para, não gostava de ser planeado para. Ele podia ficar abespinhado se não estivesse ao comando na elaboração dos planos, e os agrados e as surpresas nem sempre corriam bem com ele. Por vezes, se ele não estivesse a par de um determinado plano, ele tomava-o para si e mudava-o, para que, ao invés, se transformasse numa surpresa para Colin.

Colin disse, “Bem, pelo menos podes começar a habituar-te ao espírito italiano”, e entregou-lhe o Latimer Cultural Guide to Rome. Archie disse, “O.K.…” com o cenho franzido, e depois riu-se e encostou a sua cabeça ao ombro de Colin num gesto de confiança e de afecto, que tinha tanto de acriançado como de enamorado. “Eu só quero chegar a Itália,” disse ele.

“Eu sei”, disse Colin, subitamente animado. “Também eu.”

“Tenho muita sorte em te ter para ma mostrares.”

“Sim, tens”, disse Colin; e depois, pensado que seria a melhor altura para a sua primeira lição, “Então, quem são os dois grandes arquitectos da Roma barroca?”

Archie afastou-se e inclinou-se para espreitar para a coxia para um comissário de bordo que se afastava.

“Não respondeste à minha pergunta”, disse Colin

“Hum…” Archie riu ligeiramente e mexeu os olhos de um lado para o outro imitando reflexão. “Sim… agora… quem são eles?” disse ele.

“Bom, eles são muito fáceis de memorizar. Há o Bernini e há o Borromini: os dois B’s.”

“Oh!... claro. Então é Bernini – e… qual era ao outro?”

“Borromini.”

Bernini”, disse Archie. “E Borromini.”

“E há ainda um terceiro, chamado Pietro da Cortona, mas eu não vou chatear-te com ele até lá chegarmos e podermos visitar uma igreja dele.”

Não era claro que Archie houvesse imaginado que na realidade iriam visitar igrejas. “O.K…” disse ele; e depois, “Não, os dois B’s são provavelmente suficientes para o meu pequeno cérebro.”

“Eu imaginei”, disse Colin.

“Olha para os bíceps deste tipo”, disse Archie, enquanto o comissário de bordo, colossal com a sua camisa de manga curta, deambulava pela coxia.
À sua passagem Archie sorriu-lhe, e recebeu em troca um dissimulado franzir de sobrancelha.

“Irás ver melhores exemplos disso em Roma”, disse Colin de forma entusiástica, reabrindo I promessi sposi, lendo o parágrafo que lhe era vagamente familiar pela quarta vez.
[...]

Alan Hollinghurst, “Highlights”, Granta, n. 100, Winter 2007 [trafução do inglês: AMC, 2008]

domingo, 3 de junho de 2007

Da rotulagem

Lugar-comum: gosto de Literatura, especialmente da boa.
Digressão: Esta tautologia, usada amiúde nos mais diversos assuntos donde emana a susceptibilidade de qualificação, encerra tudo aquilo que se me apraz dizer sobre esta mania humana, demasiado humana, de categorizar o belo segundo os juízos estéticos próprios, eminentemente pessoais, e felizmente intransferíveis sem ruído ou atrito para outrem.

Apor o rótulo de “literatura gay” ao romance Cidade Proibida, o primeiro do autor português Eduardo Pitta (n. 1949), seria como reputar de “literatura esquizofrénica” o Dom Quixote de Cervantes ou de “literatura judicial” (distópica) O Processo de Franz Kafka.
A rotulagem serve apenas de guia, ou o propósito de síntese, e com esse breve resumo epitético poder transmitir alguma da verdade que se esconde para além do esforço de interpretar os signos que cruzam a obra – i.e., ler o livro no caso de se tratar de uma obra literária –, mas cumpre capazmente as funções de uma arma de arremesso se estiverem presentes no espírito do rotulador sentimentos apriorísticos, inter alia, de simples esconjuro, maledicência, inveja, animosidade sobre autor da obra, mesmo que, à luz dos princípios morais transversais ao todo social, as razões que motivam a imposição desses preconceitos possam derivar de causas objectivamente reputadas como justas.


O que seria feito de autores como Gide, Wilde, Vidal, Forster, Waugh ou Mann, se a homofobia do recenseador em conjugação com o conhecimento da preferência sexual do autor determinassem a apreciação crítica dos seus textos?
Tergiverso, eu sei, rumo à temática da homofobia empedernida, normalmente uma curiosa fachada que esconde um mal que, residindo no âmago do nosso ser, não se pretende enfrentar, sabendo-se, como se sabe, que um assunto mal resolvido redunda, quase sempre, num persistente estado de frustração que, se não for debelado, termina de forma inevitável numa existência marcadamente infeliz. Ora, curiosamente, ou talvez não – via mecanismo de manipulação (ilusório) do destino do texto que estou a escrever –, Cidade Proibida relata e tenta responder de forma subliminar – e aí reside a destreza do autor – a muitos desses malogros que enxameiam as vidas etéreas dos denominados recolectores do êxito social.

Em 2004, o escritor britânico Alan Hollinghurst publica o seu mais aclamado romance, A Linha da Beleza. Nele se narram as atribulações de um jovem literato homossexual, proveniente da classe média rural britânica que, na década de 80, embevecido pelo Mestre Henry James, entra pela porta grande de Kensington Gardens, coabitando com classe política e a aristocracia londrinas, embrenhando-se nos meandros dos jogos de poder e da corrupção instalada, dos seus vícios e pecadilhos, sustentados por todo um ritual de manutenção das aparências.
Durante as páginas do extenso e brilhante romance, Nick Guest – é assim que se chama o rapaz, um eterno convidado por aquelas obscuras paragens –, com alguma parcimónia típica de um ser refinado, delicado e contemplativo, vai despertando para a cruel realidade da sua frágil condição de plebeu descartável, processo que apenas se materializou no final por uma dilacerante e brutal, tão tardia como súbita, tomada de consciência sobre um destino traçado sem hipótese de remissão.

Em Cidade Proibida, o centro geodésico desloca-se para Lisboa. Londres passa à condição de satélite de uma esfera de relacionamentos, mantida por uma teia de cumplicidades, na qual se move a alta sociedade lisboeta.
A partir da história de Martim e Rupert – um casal homossexual –, Eduardo Pitta constrói toda uma alegoria sobre a longa e abissal fractura que divide a sociedade lisboeta. De um lado subsiste uma elite que se move entre os jogos de interesses e a devassidão e que se refugia num apertado código de estrita observância comportamental que lhe garante a conspicuidade; e do outro os peões rejeitáveis e que se vão movendo por mão alheia no tabuleiro de xadrez apenas para garantir a inexpugnabilidade do núcleo duro representado na realeza e na turba de personalidades de segunda linha, os arrivistas, que, posicionados em lugares-chave, protegem os primeiros de toda a publicitação dos seus comportamentos mundanos, ao mesmo tempo que mantêm a ilusão de pertença a todo um meio que, na sua intimidade, lhe é hostil.

«A mãe pressionava como nunca. Aguentar o lugar na empresa, mais do que uma seca, tornara-se penoso. Com os amigos não podia contar, nunca fora pessoa de grandes confidências e, ainda que fosse, no meio a que pertencia as confidências tinham balizas bem definidas. O limite aceitável seria dar o flanco por uma conquista mal resolvida. A partir daí era impensável. A família nunca se discute com terceiros.» (pág. 125)

Cidade Proibida é um romance enganador. Apesar das suas escassas 134 páginas e de uma miríade de personagens – incluindo os protagonistas – superficialmente descritas, contrastando com a descrição pormenorizada, roçando os limites do detalhe obsessivo, das festas, das ementas, dos vinhos, da indumentária do convivas, aquele deve ser lido com cuidado, todos os pormenores, por mais supérfluos que possam parecer, interessam para o estabelecimento do quadro final. Não há gordura ou divagação, nota-se uma forte determinação do autor em contar uma história sem atavios, solilóquios e metáforas obsidiantes. Trata-se de uma escrita crua e impiedosa, que não pretende provocar o choque gratuito – a gratuitidade deixemo-la, por exemplo, com escritores como Palahniuk –, mas que, como com Easton Ellis, apenas pretende ser o mais fiel possível a uma realidade, a um modo de vida celerado que se esconde dos demais e que sobrevive à custa dessa ignorância.

Literatura gay? Onde?

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Eduardo Pitta, Cidade Proibida. Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Maio de 2007, 134 pp.

Nota: Um dos episódios mais deliciosos: os homéricos “mirmidões” de Egina que, programados para o combate, quais formigas trabalhadoras e obedientes, cumprem fielmente as funções para as quais foram destinados pelos seus nobres e celerados amos.

terça-feira, 13 de março de 2007

O Mestre é…

Henry James.
A primeira década do século XXI foi fértil em obras de ficção que, de forma directa ou indirecta, se debruçaram sobre um dos maiores estetas literários de todos os tempos.
O maior destaque vai não só para a obra de Allan Hollinghurst, A Linha da Beleza (The Line of Beauty, 2004) – vencedor do Booker Prize em 2004 e que se centra na existência atribulada do jovem plebeu e homossexual Nick Guest pelos meandros da frívola aristocracia e da corrompida classe política britânicas, enquanto trabalha na sua tese de doutoramento sobre Henry James –, como também, e de forma mais directa, pelas obras Autor, Autor (Author, Author; 2004) do truculento David Lodge e de O Mestre (The Master, 2004) do escritor irlandês Colm Tóibín, que lhe permitiu vencer o cobiçado IMPAC Dublin Literary Award em 2006 – em termos monetários, é o maior prémio do mundo a distinguir uma obra literária de ficção que, desde a sua criação em 1996, já galardoou romances de escritores como Michel Houellebecq, Orhan Pamuk, David Malouf ou Javier Marías.
Decorridos quase três anos (1060 dias) após a sua primeira publicação em língua inglesa, O Mestre de Colm Tóibín foi finalmente editado em português de Portugal, sob a chancela da Dom Quixote.

Na Ípsilon do
Público de sexta-feira passada há um excelente e extenso artigo, escrito por Luís Miguel Queirós sob o título “Diabruras do fantasma de Henry James”, que relata a recente febre Jamesiana na literatura contemporânea e em particular um curioso conflito entre Tóibín e Lodge a propósito da publicação das suas obras com Henry James como protagonista.

Para finalizar, nada como as palavras de um Mestre sobre outro Mestre, sobre alguma incompreensão do público e da crítica reinante perante a subtileza dos personagens e dos finais abertos que abundam na obra do escritor anglo-americano e na recusa daqueles pelo mundo das sombras em detrimento da realidade substancial. Joseph Conrad discorre sobre a permanente busca do público pelo desenlace, pelo fim da história, pelo descanso após o encerramento do livro e a constatada impossibilidade dessa demanda na genialidade da obra de James e dos seus personagens que imitam a vida, deixando os seus leitores em permanente sobressalto.
Conrad chega a afirmar: «Por que motivo o público leitor, que, como um todo, nunca conferiu ao contador de histórias o poder de ser um artista, lhe deve exigir a presunção da Divina Omnipotência, é algo absolutamente incompreensível.» [tradução livre: AMC]

A ler: Joseph Conrad, “Henry James – An Appreciation – 1905”, Notes on Life and Letters, 1921 (Part I – Letters; textos editados por J. H. Stape)