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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Preocupações, desejos e outras coisas para 2009


Começo com uma irritação – afinal é o tom que ultimamente mais se adequa a este blogue, dado o microcosmos relacional do seu autor: os responsáveis pela manutenção do BlogRolling continuam a empatar com a conversa da nova plataforma, melhoramentos, da vitimização perante esses cruéis hackers espalhados pelo mundo, do trabalho insano de reconstituição do serviço… desde Outubro! A partir de então estou impedido de remover, alterar endereços ou os títulos dos blogues já existentes. Só consigo adicioná-los, mas está-me vedado o deslincamento, essa potencial arma de destruição em massa na blogosfera. Não fora a quantidade de hiperligações, ter-me-ia dedicado a criar o arrolamento na plataforma do Blogger.

Felicitações ao Eduardo Pitta pelo 4.º aniversário do seu blogue Da Literatura – extensíveis, como é óbvio, ao meu conterrâneo João Paulo Sousa –, um dos meus blogues de leitura diária e, como é possível comprovar, consta da Via-Sacra deste blogue (coluna do lado direito). E, já agora, um bom ano de 2009 para os seus autores. Este ano optei pela não particularização, via telefone, e-mail ou texto no blogue, limitei-me a encher um post com um muito a propósito poema de Thomas Hardy.

Para continuar na onda de atribuição de prémios e comendas, não poderia esquecer-me de Dana Stevens por esta brilhante abertura de um artigo seu, publicado em 29 de Dezembro último na página da Slate: «I must have the opposite of Asperger’s syndrome: I'm allergic to hierarchies, lists, and ranking.» Em primeiro lugar, fiquem a saber que deixarei passar o feriado na tranquilidade possível do meu lar, para amanhã recorrer, de urgência, a um neurologista – talvez um dos Lobo Antunes – e tentar desfazer a associação entre listomania e a mencionada síndrome. Depois, é de realçar o notório mau gosto da senhora americana, nem caiu em graça, nem conseguiu ser engraçada. Finalmente, o horror a listas – listofobia – pode querer indiciar um distúrbio neurológico de outra ordem que a senhora desconhece, e pedras ao vizinho… e que eu tão-pouco pretendo conhecer.

O Abrupto continua na sua senda de corporização em blogue da presidencialmente famosa “Lei de Gresham”– eu já a conhecia desde os bancos da faculdade e comprovo a flexibilidade da sua utilização. E parece – que se realce o verbo, porque apenas se vislumbra um aparente nexo de causalidade – estar na origem da expulsão de mais uma boa moeda… Todavia, o mais grave do Grande Educador da blogosfera nem está tanto quando aquele se refere, por outras palavras, “ao muito de mau que se faz nesta blogosfera lusa”, felizmente efervescente, mas, quando usando da falácia facilmente adquirida no seu miasmático milieu dos jogos sórdidos da política, se refere aos outros blogues, que segundo diz, visita diariamente, e aos seus autores no seu tom professoral e de guia espiritual, talvez servindo-se do seu livrinho de antanho, vide o elogio sofista que faz ao meu muito estimado João Gonçalves: «O blogue que eu mais leio continua a ser o Portugal dos Pequeninos. O que João Gonçalves escreve é muitas vezes irritante, tem o defeito de aceitar como válidas informações em segunda mão, - o que num blogue "pesado" ainda resulta mais errado ou injusto, - mas continua a ser das poucas e cada vez menos coisas legíveis na blogosfera.» É, apenas, execrável.
Mas a enunciação da verdadeira etiologia das tristes palavras naquele texto patético-colérico, é muito bem feita pelo Pedro Mexia numa única frase:

«Pacheco tem aquela velha repugnância marxista pelo registo autobiográfico emotivo, e por isso não liga à blogosfera do CÁ DENTRO, mas a blogosfera do CÁ DENTRO tem gente interessantíssima, culta e de boa prosa.»

Quanto a livros, aguardo a concretização da promessa de publicação do magnum opus de Don DeLillo, Underworld, pelos responsáveis da nova e excelente editora Sextante. E, apesar, de haver lido o 2666 de Bolaño na sua língua original, faço eco do apelo do homónimo, por pseudónimo, do conhecido femeeiro Giacomo Girolamo do século XVIII – ao autor do apelo não me refiro porque cortou a sua ligação a este blogue: publique-se, com urgência, o dito romance.

Finalmente, tenho vontade de fechar esta coisa. Arrancos e arremedos não me têm faltado – aliás, quem já me conhece o suficiente, via blogue, sabe desta minha faceta de consistente na inconstância. Mas procurarei dedicar-me mais à Literatura, que no último ano foi bastante descurada. Embora não se tenha reflectido na quantidade de leitura de livros publicados no ano, atente-se, por exemplo, no número de notas de apreciação (ou pseudo-recensões) escritas em 2008 por comparação às elaboradas em 2007: 8 contra 34.

A todos, uma vez mais e sem excepção, desejo um bom ano de 2009.

sábado, 8 de novembro de 2008

A intimidação dos poderosos

A Destruição do Leviatã, de Gustave Doré, 1865Intróito
Depois de ter lido
isto e isto do Eduardo Pitta no seu blogue Da Literatura, germinou em mim uma vontade incomensurável de falar, de gritar, de exteriorizar a revolta que casos como este e similares me provocam, me revolvem as entranhas e me fazem, por vezes, estiolar em palavras de desprezo perante este país de capelinhas e sacristias, onde uma pequena turba de oligarcas dedilha os fios que fazem mover os nossos braços e pernas como se fôssemos marionetas.
Irei falar um pouco das vicissitudes de um processo desta natureza, eminentemente persecutória, que está escrito nos seus contornos quase kafkianos. E, de seguida, recupero um texto – cujo título original deu o nome ao de hoje –, à laia de ensaio, passe o possível pretensiosismo, que havia escrito, por catarse (outros queriam-no para publicação, a que resisti com alguma veemência, dada a minha indisponibilidade física e mental, não literal, para servir de Martim Moniz), em Fevereiro de 2004. Hoje, ao ler os textos do Eduardo, sabia que o houvera escrito e que estaria arrumado com centenas de outros numa das pastas abandonadas do disco rígido do meu computador; apenas cheguei lá pelo título – neste caso aparece com o subtítulo “Do Poder: a incubação dos medíocres”.

Do Processo
É esta a resignação perante uma coisa cuja denominação há muito deixou de corresponder à sua etimologia (percebe-se no final, pela circularidade).
Um exemplo cabal desse desfasamento materializa-se no processo disciplinar consubstanciado no direito do trabalho. A putativa protecção do trabalhador nestes casos, não passa disso mesmo, de uma presunção de atribuição de determinados direitos de defesa que jamais poderão ser exercidos, quer no campo meramente interno – na condução do processo disciplinar tout court, que cabe única e exclusivamente à empresa dirigir, com um instrutor parcial (de partidário) nomeado para o efeito –, quer no plano externo quando a decisão de despedimento é tomada e se recorre aos tribunais para recuperação do vínculo e de todas as prerrogativas anteriores que a mera existência desse vínculo englobava.
A lei obriga a manifestação expressa do desejo de despedir na, usualmente rocambolesca, “Nota de Culpa”. Findo o processo de inquérito, segue-se o tribunal, com a interposição do procedimento cautelar de suspensão do despedimento. A vitória aí alcançada poderá, segundo dizem, ser um prenúncio para a vitória final, mas quase sempre se trata de um presente envenenado, uma vez que nada mais repõe que não seja o direito à retribuição.
Depois chega a acção declarativa (a chamada de "principal"), o processo de impugnação desse despedimento: a verdadeira tortura. Advogados, petições, juízes, requerimentos, audiências preliminares, tentativas de conciliação, audiência de partes, arrolamento de testemunhas, adiamentos por falta de douta agenda, expedientes dilatórios, etc. Custas, taxas de justiça, preparos, honorários, telefonemas, deslocações… dois anos, na melhor das hipóteses. Em suma, o despedido via processo disciplinar é condenado a pelo menos dois anos de tortura enquadrada nos beneplácitos e nas concessões da monstruosa máquina judicial portuguesa.
Todavia, o pior chega com o impedimento de entrada do visado nas instalações onde durante anos, talvez décadas, exerceu a sua actividade profissional; onde deixou todo o seu suor, as suas ideias, a sua dedicação e natural socialização dentro de um ambiente controlado que, fatalmente, criou uma teia de relações pessoais. É precisamente aí que se inicia a tortura chinesa da difamação e da injúria: dentro das instalações, “no escurinho do cinema” (sem dropes de anis), longe da vista e do coração do terrível aviltador do status quo, sem qualquer hipótese de defesa, inicialmente difundida pelos donos do poder e perpetrada diariamente nos corredores através do boato e da inócua maledicência, e depois propagada até por aqueles que um dia havíamos reputado como colegas de trabalho dignos da nossa confiança e até, em alguns casos, como amigos fora do círculo restrito das relações profissionais. É precisamente aí que ficamos a conhecer, sem hipótese de remissão, a mesquinhez da natureza humana, a baixeza, a vileza, o grau de maleabilidade moral de seres intrinsecamente reptilários.
Já não me recordo de quem o disse, mas louvo-lhe a coragem por haver proferido a seguinte frase: «frequento muito pouco a natureza humana». Atribuo, hoje em dia, um valor imensurável à independência e à sujeição mínima perante uma hierarquia. Como diz o Miguel Esteves Cardoso na última Ler, prefiro ser «autor de mim próprio» nem que isso faça de mim materialmente mais pobre.
Sem conhecer a visada, e tão-pouco vislumbrar a hipótese de algum dia a poder vir a conhecer; sem conhecer o processo em causa, mas divisando, infelizmente, os contornos que por ora assume e que, mais tarde, irá decerto assumir, gostaria de manifestar a minha solidariedade a Joana Morais Varela, que de um momento para outro se viu despojada de um projecto que erigiu e ajudou a retirar, em definitivo, a Colóquio/Letras dos escombros da ociosa intelectualidade lusa.

Do Poder: a incubação dos medíocres
Muitas vezes, a forma mais vil de se obter o poder, ao contrário do popularmente determinado, não é aquela onde se o conquista pela força. Ela advém de um sistema genericamente considerado como o mais “humanamente benigno”, a democracia.
Winston Churchill disse, mais ou menos por estas palavras, que «a democracia é o pior de todas as formas de governo, com excepção de todos as outras que a História já deu a conhecer ao mundo».
A inquietação implícita nesta frase leva-nos ao reconhecimento cabal das falhas dos sistemas democráticos.
Arriscar-me-ia a afirmar que a democracia, na sua fase de maturidade, conduz à alienação das massas, ao triunfo dos medíocres e à permanente insatisfação das franjas populacionais que lutam por ideias de transparência, honestidade e de desenvolvimento sustentado da condição humana.
Cada acto eleitoral deveria corresponder a um acto de renovação da esperança dos eternos insatisfeitos com a classe governativa. Quando falo de classe governativa não me circunscrevo àquela que administra e representa os destinos da nossa pátria, seja ela qual for. O conceito é mais abrangente, incluindo as micro-relações de poder que vamos enfrentando na nossa vivência quotidiana.
O respeito pela democracia plena determinaria “1 Homem – 1 voto”. Empiricamente, afigura-se-nos como a solução mais generosa no sentido de garantir a participação plural de todos os membros que compõem uma dada comunidade ou uma dada organização no processo de tomada de decisão. Todavia, o somatório das vontades individuais não é igual à vontade colectiva, na medida em que o jogo da procura pela solução consensual implica, à partida, cedências de alguns desejos de cariz pessoal para benefício da colectividade.
Parece um simples truísmo, mas convém salientar que é impossível conciliar posições individuais quando estas se revelam antagónicas, sob pena de o próprio sistema democrático não funcionar. Logo, os grupos formam-se por pessoas que têm valores, comportamentos, atitudes e objectivos similares. Agrupam-se, em primeiro lugar, pela identificabilidade.
Depois de constituídos os grupos, que normalmente se arrogam de representativos de determinadas franjas sociais, há a definição da acção comum de forma a seduzir os indecisos e engrossar fileiras para a conquista da vitória final, que se poderá facilmente traduzir pela conquista do poder – é todo um léxico marcial que mais bem se adequa à explicação da génese do poder.
Inicia-se o processo de governação, normalmente começa-se por satisfazer as clientelas políticas, distribuem-se os poleiros, hierarquizados pela notoriedade, poder de influência e pelo pretenso grau de operacionalidade ou mais-valia técnico-científica. Posteriormente, tomam-se decisões de fundo e afastam-se algumas vozes críticas que, potencialmente, pelas suas integridade e idoneidade, podem constituir um entrave à governação. Arrebanham-se os volúveis e os medíocres com promessas vãs de status social, de engrandecimento da reputação e/ou com estabilidade governativa, já que geralmente o seu valor de mercado é acessível.
Quem detém o poder governa para si e para os seus e intimida os oponentes que, de forma resistente, ainda perduram, quais obstáculos, no horizonte de poder dos dirigentes.
Ao ostracismo são votados os que permanecem com as suas convicções e, o pior de tudo, são apontados a dedo, pelos neodominados partidários da elite governamental, como destruidores da instituição ou da comunidade a que pertencem e das suas vidinhas conformistas.
Usualmente, vigora a tese da intimidação pelo bem colectivo – que para os poderosos significa a eternização no poder, manutenção do status quo e conservação ou expansão do açambarcamento de privilégios extraordinários –, que é divulgada, amedrontando: "o bem colectivo" poderá ser destruído pelos, por si denominados, com direito a comunicação explícita usando os gratuitos megafones do poder, “difamadores” e/ou “sequiosos de poder”, de forma a garantirem a imposição das suas vontades individuais.

Confesso. Não sei quem de mim merece um maior sentimento de comiseração, se os medíocres que sabem que são medíocres, ou aqueles que, devido à ignorância, se acham autorizados a intervir pelo bem comum. Estes últimos são os coitados que interferem nas nossas vidas com a consciência tranquila de que contribuíram de forma decisiva para a comunidade. Os primeiros são os parasitas da sociedade, aqueles que cedem, que recuam, que deambulam neste mundo esquecendo amigos, parentes, vizinhos, colegas de profissão, e, mais grave ainda, os valores mais nobres e elevados da sinceridade, honradez, amizade, compaixão, integridade e, acima de tudo, da lealdade nas relações humanas, que deveriam ser orientadores do seu comportamento nas suas mesquinhas vidas.
A democracia emprenha intimidadores, concebe medíocres e afasta aqueles com opiniões próprias.

Mas haverá melhor sistema!? (voltar a "Do Processo")

(Imagem:A Destruição do Leviatã” gravura de Gustave Doré, 1865, para a Bíblia Sagrada: Isaías, 27)

domingo, 3 de junho de 2007

Da rotulagem

Lugar-comum: gosto de Literatura, especialmente da boa.
Digressão: Esta tautologia, usada amiúde nos mais diversos assuntos donde emana a susceptibilidade de qualificação, encerra tudo aquilo que se me apraz dizer sobre esta mania humana, demasiado humana, de categorizar o belo segundo os juízos estéticos próprios, eminentemente pessoais, e felizmente intransferíveis sem ruído ou atrito para outrem.

Apor o rótulo de “literatura gay” ao romance Cidade Proibida, o primeiro do autor português Eduardo Pitta (n. 1949), seria como reputar de “literatura esquizofrénica” o Dom Quixote de Cervantes ou de “literatura judicial” (distópica) O Processo de Franz Kafka.
A rotulagem serve apenas de guia, ou o propósito de síntese, e com esse breve resumo epitético poder transmitir alguma da verdade que se esconde para além do esforço de interpretar os signos que cruzam a obra – i.e., ler o livro no caso de se tratar de uma obra literária –, mas cumpre capazmente as funções de uma arma de arremesso se estiverem presentes no espírito do rotulador sentimentos apriorísticos, inter alia, de simples esconjuro, maledicência, inveja, animosidade sobre autor da obra, mesmo que, à luz dos princípios morais transversais ao todo social, as razões que motivam a imposição desses preconceitos possam derivar de causas objectivamente reputadas como justas.


O que seria feito de autores como Gide, Wilde, Vidal, Forster, Waugh ou Mann, se a homofobia do recenseador em conjugação com o conhecimento da preferência sexual do autor determinassem a apreciação crítica dos seus textos?
Tergiverso, eu sei, rumo à temática da homofobia empedernida, normalmente uma curiosa fachada que esconde um mal que, residindo no âmago do nosso ser, não se pretende enfrentar, sabendo-se, como se sabe, que um assunto mal resolvido redunda, quase sempre, num persistente estado de frustração que, se não for debelado, termina de forma inevitável numa existência marcadamente infeliz. Ora, curiosamente, ou talvez não – via mecanismo de manipulação (ilusório) do destino do texto que estou a escrever –, Cidade Proibida relata e tenta responder de forma subliminar – e aí reside a destreza do autor – a muitos desses malogros que enxameiam as vidas etéreas dos denominados recolectores do êxito social.

Em 2004, o escritor britânico Alan Hollinghurst publica o seu mais aclamado romance, A Linha da Beleza. Nele se narram as atribulações de um jovem literato homossexual, proveniente da classe média rural britânica que, na década de 80, embevecido pelo Mestre Henry James, entra pela porta grande de Kensington Gardens, coabitando com classe política e a aristocracia londrinas, embrenhando-se nos meandros dos jogos de poder e da corrupção instalada, dos seus vícios e pecadilhos, sustentados por todo um ritual de manutenção das aparências.
Durante as páginas do extenso e brilhante romance, Nick Guest – é assim que se chama o rapaz, um eterno convidado por aquelas obscuras paragens –, com alguma parcimónia típica de um ser refinado, delicado e contemplativo, vai despertando para a cruel realidade da sua frágil condição de plebeu descartável, processo que apenas se materializou no final por uma dilacerante e brutal, tão tardia como súbita, tomada de consciência sobre um destino traçado sem hipótese de remissão.

Em Cidade Proibida, o centro geodésico desloca-se para Lisboa. Londres passa à condição de satélite de uma esfera de relacionamentos, mantida por uma teia de cumplicidades, na qual se move a alta sociedade lisboeta.
A partir da história de Martim e Rupert – um casal homossexual –, Eduardo Pitta constrói toda uma alegoria sobre a longa e abissal fractura que divide a sociedade lisboeta. De um lado subsiste uma elite que se move entre os jogos de interesses e a devassidão e que se refugia num apertado código de estrita observância comportamental que lhe garante a conspicuidade; e do outro os peões rejeitáveis e que se vão movendo por mão alheia no tabuleiro de xadrez apenas para garantir a inexpugnabilidade do núcleo duro representado na realeza e na turba de personalidades de segunda linha, os arrivistas, que, posicionados em lugares-chave, protegem os primeiros de toda a publicitação dos seus comportamentos mundanos, ao mesmo tempo que mantêm a ilusão de pertença a todo um meio que, na sua intimidade, lhe é hostil.

«A mãe pressionava como nunca. Aguentar o lugar na empresa, mais do que uma seca, tornara-se penoso. Com os amigos não podia contar, nunca fora pessoa de grandes confidências e, ainda que fosse, no meio a que pertencia as confidências tinham balizas bem definidas. O limite aceitável seria dar o flanco por uma conquista mal resolvida. A partir daí era impensável. A família nunca se discute com terceiros.» (pág. 125)

Cidade Proibida é um romance enganador. Apesar das suas escassas 134 páginas e de uma miríade de personagens – incluindo os protagonistas – superficialmente descritas, contrastando com a descrição pormenorizada, roçando os limites do detalhe obsessivo, das festas, das ementas, dos vinhos, da indumentária do convivas, aquele deve ser lido com cuidado, todos os pormenores, por mais supérfluos que possam parecer, interessam para o estabelecimento do quadro final. Não há gordura ou divagação, nota-se uma forte determinação do autor em contar uma história sem atavios, solilóquios e metáforas obsidiantes. Trata-se de uma escrita crua e impiedosa, que não pretende provocar o choque gratuito – a gratuitidade deixemo-la, por exemplo, com escritores como Palahniuk –, mas que, como com Easton Ellis, apenas pretende ser o mais fiel possível a uma realidade, a um modo de vida celerado que se esconde dos demais e que sobrevive à custa dessa ignorância.

Literatura gay? Onde?

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Eduardo Pitta, Cidade Proibida. Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Maio de 2007, 134 pp.

Nota: Um dos episódios mais deliciosos: os homéricos “mirmidões” de Egina que, programados para o combate, quais formigas trabalhadoras e obedientes, cumprem fielmente as funções para as quais foram destinados pelos seus nobres e celerados amos.

domingo, 13 de maio de 2007

Quem corre por gosto... [corrigido]


Li com interesse este texto do Eduardo Pitta sobre um dos muitos episódios, integráveis na secção dos efeitos colaterais “Carmona, O Arguido”, e que neste caso redundou no cancelamento de um ciclo de conferências subordinada ao tema “Os livros que não esqueci”, organizado pela Casa Fernando Pessoa, notavelmente dirigida nos últimos anos por Francisco José Viegas – que, como portuense que sou (nado, criado e residente), enche-me de inveja pelos eventos literários promovidos sem eco nesta acabrunhada Invicta.
Todavia, o que me traz a estas curtas palavras nada tem que ver com as triviais questões burocrático-administrativas que soem atrasar o andamento de um país que caminha a passo de caranguejo, passe a redundância. Nem tão-pouco discutir sobre a efervescência política actual que afecta o apetecível trono do maior município português, assim como os repulsivos jogos de bastidores de estruturas partidárias, empórios, organizações secretas e ufanos altruístas da cidadania perdida. Quero falar do pro bono, ou da tendência doutrinal da obrigatória graciosidade dos servidores da causa pública, neste caso materializada nas artes literárias.
O evento foi cancelado. Faltou o vil metal de que se fariam pagar os reputados ponentes – entre eles José Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Segundo o Eduardo, Rui Pereira, o director municipal da Cultura da Câmara de Lisboa, disse que os convidados «Almeida Faria e Diogo Pires Aurélio disseram logo que falariam gratuitamente». E depois de falar dos imbróglios administrativos, causa cimeira no cancelamento do evento, o Eduardo Pitta põe o dedo na ferida: «É evidente que o imbróglio radica na convicção, muito portuguesa, de que o trabalho intelectual deve ser feito pro bono.» Concordo com cada palavra do Eduardo aposta nesta contundente afirmação; compreendo – e revolta-me – o embaraço provocado a quem, como o Francisco José Viegas, havia dado a sua palavra a um número considerável de escritores que se deslocaria ao nosso país com o objectivo de participar no referido evento; discordo, todavia, da ideia subjacente ao caso concreto e imediato – Os livros que não esqueci – que sem pilim não há prelecção, cuja boa vontade, entendida aqui como graciosidade – e que se lhe atribua toda a carga semântica –, seria a única solução para a resolução do caso concreto, inadiável porque, segundo entendi, estava aprazado para o próprio dia. Só isto.

Uma pequena história (entre muitas, de trabalho académico pro bono)
Há três anos, após uma série de artigos científicos publicados e de algumas intervenções públicas em que participei como orador, fui convidado por uma reputada revista especializada na minha área profissional para, num luxuoso Hotel da minha cidade, intervir num congresso subordinado ao tema que vinha a tratar nos meus intermináveis trabalhos – que ainda hoje se mantêm – de elaboração da tese de dissertação de doutoramento.
Para participar no evento de três dias, cada assistente teria de desembolsar cerca de 1500 euros.
Chegou o dia, intervim no painel que me estava destinado, com um moderador e mais um ilustre participante que eu próprio arrebatei da sua Universidade extramuros. A sala do hotel estava repleta. Um natural e desinteressado olhar daria para calcular de cabeça a cifra que figuraria do lado da receita ilíquida. Uma enormidade. Falei 50 minutos, respondi a perguntas da audiência durante 20. No final recebo do Sr. Presidente do Congresso um forte aperto de mão e uma lembrança: um pequeno relógio de secretária, que no mais refinado dos sítios não passaria dos 15 euros.
Saí do lobby, entrei no parque de estacionamento, paguei cerca de 5 euros para chegar a casa.
Três anos volvidos, acabo de relatar o episódio no meu blogue…

terça-feira, 8 de maio de 2007

Cidade Proibida

Eduardo Pitta poeta, ensaísta, contista, crítico literário, viajante e epicurista, e segundo lhe apontam – decalcando uma referência da sua página pessoal – de hermenêutica eminentemente gay; e, em suma, blogger de colheita vintage, com firme estrutura de taninos e de complexidade aromática de onde sobressai um aroma da mais fina pimenta da índias, como uma síntese das notáveis aptidões e qualidades atrás mencionadas.

No próximo dia 16 de Maio, pelas 18:30, na Fnac do Chiado (Lisboa), Eduardo Pitta apresentará a sua última obra Cidade Proibida (na imagem), editada pela QuidNovi, acrescentando assim mais uma competência ao seu já extenso currículo literário: romancista.

Por aqui, vai-se aguardando ansiosamente a venda para posterior degustação, enquanto perdura a aura de mistério sobre o fio condutor da narrativa.