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segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Cin-Cinemateca

Nunca um defeito – que me merece todo o respeito, tal como um excesso, desde que não me fodam com patranhas – me pareceu tão adequado para qualificar a novela arrastada, burlesca, pobrezinha, em suma, epítome da lusitanidade, sobre a “vinda/não-vinda” da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema para o Porto. Somos pobres, provincianos e estamos curvados, receptivos (faltam as feromonas), perante o poder ditado pela Capital. O Bénard, semideus, não queria, logo pelo dom emanado dos miasmas além-túmulo não se faz – como um oráculo tenebroso, lançando gritos, aflições e pragas através da corrupção da carne e da vetustez do espírito.
Sin Cinemateca – é como nos tratam, como bando de espanhóis que enchem os bolsos a uma corte de subsidiados que levantam o nariz e apontam o dedo, clamando por ventos e tempestades contra qualquer iniciativa que lhes roube a chama sagrada da cultura. E cá continuamos, no enquadramento bucólico do porto, como o Ícaro de Brueghel de cabeça e tronco mergulhados nas águas cediças, de traseiro virado ao deus iracundo pelo arrojo da sugestão – nem sequer houve tempo para o roubo da chama eterna que ilumina aquelas cabeças olímpicas, supra-sumos da intelectualidade e agentes exclusivos da cultura.
Basta olhar para a programação, e deixar destilar a inveja que me invadiu, arrasadora e pérfida, pela constatação da sua excelência, embora à custa da depredação dos corpos exauridos das regiões mais pobres da Europa a 27 – e, nesse momento, surge a ira pela diferença abissal entre a sumptuosidade asiática da Capital macrocéfala e os cenários de devastação humana que me rodeiam. Pecador sem remissão.
Oh, e como a Sra. Dra. (por lá tratam-se todos assim, pelos títulos, a que nem as salas de projecção conseguem escapar; esse novo-riquismo, snob, sine nobilitate, a jactância pequeno-burguesa, o triunfo dos porcos que finalmente se acham símiles dos humanos no poder), investida daquela sua farpa graciosa, em que tartamudeando, faz as suas piadinhas demagógicas e atestadas de soberba:

«Houve um abaixo-assinado [sobre a criação de um pólo da Cinemateca no Porto], como sabe. E acontecem algumas projecções na Fundação de Serralves em que, segundo me disseram... Por exemplo, no ciclo dedicado a Pedro Costa, não sei se o realizador se alguém por ele, perguntou, perante o número exíguo de espectadores, se eles estavam ali em representação dos 4970 signatários.»
Maria João Seixas, Ípsilon, 28/05/2010 (em entrevista a Kathleen Gomes).
Ciclo, mas que ciclo? O extinto preparatório? Um cripto-ciclo com duas projecções duas (Ne change rien de 2009, e O Sangue de 1989) num auditório que não reúne as condições necessárias para uma projecção cinematográfica de qualidade (visual e sonora) e minimamente confortável?
Não há salas cheias, sem se readquirirem os hábitos que se perderam, ou que nos foram roubando. A outrora considerada cidade ibérica com maior número de cinéfilos, vai-se divertindo com os popós nos Aliados e na Boavista (com aplauso de veneração da Capital), as lantejoulas brejeiras e revisteiras à Praça D. João I e o gordo dos concursos à Sá da Bandeira. E chega.
E continuo a olhar para o programa, e a ira e a inveja consomem-me pelos trezentos quilómetros de distância.
Sin-Cinemateca. Para os mais eruditos, latinistas, Sine-Cinemateca. Besuntai-vos com ela e com as soluções de compromisso com os mortos. Bastava um arquivo digital que, com o dinheiro de todos nós, replicasse no Porto e noutras cidades com um razoável número de cinéfilos (Coimbra, Braga ou Vila Real, por exemplo), o programa exibido na Barata Salgueiro.
Polanski, Spielberg, Visconti e… Mário Barroso, uma nota cómica (a talho de foice)
A Cinemateca promoveu uma pequena e curiosa iniciativa (ainda em realização) denominada “Os Filmes dos Presidentes”, que se enquadra nas comemorações do Centenário da República, nesse sentido «a Cinemateca entendeu convidar quem ocupa e ocupou o mais Alto Cargo da República para a realização deste Ciclo, apresentando um filme da sua escolha.» Eis a selecção:
  • Cavaco Silva escolheu O Pianista (The Pianist, 2002), de Roman Polanski;
  • Jorge Sampaio elegeu o grandioso O Leopardo (Il Gattopardo, 1963), de Luchino Visconti;
  • Ramalho Eanes optou pelo mais prosaico e militarista O Regaste do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), de Steven Spielberg;
  • Mário Soares, bem ao seu estilo, laico e republicano (agora fala-se muito da ética desta última), sobrinhou (foi bastante papista) O milagre segundo Salomé, do realizador português Mário Barroso.
Como diria alguém que conheço e muito prezo: uma beleza!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Peixe-Gato e a Cosmogonia de um Mancuniano

Júbilo e resignação. Uma alegria desmedida quando, por mero acaso, descobri que a obra-prima do realizador britânico Mike Leigh, Nu (Naked, 1993) foi finalmente editada em DVD em Portugal*, seguida da assunção da triste realidade materializada no conformismo que de imediato se abateu sobre o meu estado de espírito volátil – arriscando-me a citar Dalí através de Orwell, citação assestada em obra não escrita por Rui Santos, que «toda a vida quando vista de dentro, não passa de uma série de derrotas» –, porque nasci neste canto geográfico da finisterra, onde tudo o que potencialmente poderá ser apreciado como arte pertence a dois tipos de categorias de acesso restrito. A primeira categoria tem um cariz mais prático, físico, de mera locomoção; e a segunda resulta da estrutura da mentalidade de um povo: filistina, utilitarista e consumista. A primeira porque, pelos custos de transacção, se constitui numa ínfima minoria a parte dos portugueses que pode deslocar-se ao concelho (e não me enganei na circunscrição administrativo-geográfica) que absorve 63% do bolo monetário reservado à cultura – é aí que quase tudo acontece –, criando os necessários hábitos de consumo dos bens e das manifestações culturais; a segunda manifesta-se na falta de edição (sob que forma for) de marcos referenciais da cultura universal, por cedência ao imediatismo do espectáculo pirotécnico de um pequeno conjunto de baboseiras de valor acrescentado nulo, ou melhor, de depreciação progressiva de alguma intelectualidade residual que ainda subjaz findo o período ontogenético.
Todavia, mesmo considerando todas as dificuldades acima referidas, celebremos o pouco do muito que poderia ser feito. Finalmente, iremos ter as deambulações do mancuniano em Londres, Johnny (a grande interpretação do actor britânico, nascido em 1963, David Thewlis) e as suas asserções existencialistas derramadas nos escombros da degradação da sociedade ocidental contemporânea. Um filme para ver e rever, e a ele voltar regularmente.
Por último, o peixe-gato lascivo já tem distribuição garantida em Portugal. As tais cabriolas ronronantes aquáticas que fazem parte do filme vencedor da Palma de Ouro da edição deste ano do Festival de Cannes, anunciado aqui, e que se apresenta sob o título O Tio Boonme que se Lembra das Suas Vidas Anteriores, realizado pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul*. Entretanto, fica o aviso para as senhoras (e não só) mais sensíveis a este tipo fauniano de frenesim interclassista: cuidado com as imitações e deixem de lado o espadarte por este poder vir a revelar-se como uma experiência potencialmente mais pungente. E isto, apesar da premência de novas formas de alcançar receitas turísticas para a Madeira – por favor, deixem, neste aspecto, a caridade de lado (ainda que me assemelhe a um bronze que soa ou a um címbalo que retine**…)
Notas:
* saúde-se a Midas Filmes por haver permitido, através da sua actuação enquanto agente de cultura, a comunicação destas duas novidades.
** 1 Coríntios 13:1

domingo, 13 de maio de 2007

Quem corre por gosto... [corrigido]


Li com interesse este texto do Eduardo Pitta sobre um dos muitos episódios, integráveis na secção dos efeitos colaterais “Carmona, O Arguido”, e que neste caso redundou no cancelamento de um ciclo de conferências subordinada ao tema “Os livros que não esqueci”, organizado pela Casa Fernando Pessoa, notavelmente dirigida nos últimos anos por Francisco José Viegas – que, como portuense que sou (nado, criado e residente), enche-me de inveja pelos eventos literários promovidos sem eco nesta acabrunhada Invicta.
Todavia, o que me traz a estas curtas palavras nada tem que ver com as triviais questões burocrático-administrativas que soem atrasar o andamento de um país que caminha a passo de caranguejo, passe a redundância. Nem tão-pouco discutir sobre a efervescência política actual que afecta o apetecível trono do maior município português, assim como os repulsivos jogos de bastidores de estruturas partidárias, empórios, organizações secretas e ufanos altruístas da cidadania perdida. Quero falar do pro bono, ou da tendência doutrinal da obrigatória graciosidade dos servidores da causa pública, neste caso materializada nas artes literárias.
O evento foi cancelado. Faltou o vil metal de que se fariam pagar os reputados ponentes – entre eles José Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Segundo o Eduardo, Rui Pereira, o director municipal da Cultura da Câmara de Lisboa, disse que os convidados «Almeida Faria e Diogo Pires Aurélio disseram logo que falariam gratuitamente». E depois de falar dos imbróglios administrativos, causa cimeira no cancelamento do evento, o Eduardo Pitta põe o dedo na ferida: «É evidente que o imbróglio radica na convicção, muito portuguesa, de que o trabalho intelectual deve ser feito pro bono.» Concordo com cada palavra do Eduardo aposta nesta contundente afirmação; compreendo – e revolta-me – o embaraço provocado a quem, como o Francisco José Viegas, havia dado a sua palavra a um número considerável de escritores que se deslocaria ao nosso país com o objectivo de participar no referido evento; discordo, todavia, da ideia subjacente ao caso concreto e imediato – Os livros que não esqueci – que sem pilim não há prelecção, cuja boa vontade, entendida aqui como graciosidade – e que se lhe atribua toda a carga semântica –, seria a única solução para a resolução do caso concreto, inadiável porque, segundo entendi, estava aprazado para o próprio dia. Só isto.

Uma pequena história (entre muitas, de trabalho académico pro bono)
Há três anos, após uma série de artigos científicos publicados e de algumas intervenções públicas em que participei como orador, fui convidado por uma reputada revista especializada na minha área profissional para, num luxuoso Hotel da minha cidade, intervir num congresso subordinado ao tema que vinha a tratar nos meus intermináveis trabalhos – que ainda hoje se mantêm – de elaboração da tese de dissertação de doutoramento.
Para participar no evento de três dias, cada assistente teria de desembolsar cerca de 1500 euros.
Chegou o dia, intervim no painel que me estava destinado, com um moderador e mais um ilustre participante que eu próprio arrebatei da sua Universidade extramuros. A sala do hotel estava repleta. Um natural e desinteressado olhar daria para calcular de cabeça a cifra que figuraria do lado da receita ilíquida. Uma enormidade. Falei 50 minutos, respondi a perguntas da audiência durante 20. No final recebo do Sr. Presidente do Congresso um forte aperto de mão e uma lembrança: um pequeno relógio de secretária, que no mais refinado dos sítios não passaria dos 15 euros.
Saí do lobby, entrei no parque de estacionamento, paguei cerca de 5 euros para chegar a casa.
Três anos volvidos, acabo de relatar o episódio no meu blogue…