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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Luz. Trevas. Impotência.

[Eis a minha contribuição para o exercício de memória sobre os Joy Division, notavelmente organizado pelo Manuel A. Domingos no seu blogue sob o título Licht und Blindheit (inspirado no EP de 1980, com número limitado de cópias, da pequena e selectiva editora francesa Sordide Sentimental, e no ensaio de um dos seus fundadores, Jean-Pierre Turmel), a propósito da passagem dos 30 anos da morte trágica de Ian Curtis.]
Contacto
Fim dos anos 80. Vivia nas guitarras estridentes de Joey Santiago, nos gritos animalescos de Iggy, nas ondas emplumadas de Bowie, na voz cavernosa de Murphy – curioso trio este, a iguana, o camaleão e o vampiro –, e ao lado, como meio libertador da overdose sonora dos incessantemente repetidos, repousava o quarteto de Manchester, usado mas não abusado, ouvido por letargia, porém não cravado na memória de uma mente febril pré-universitária. Talvez o Substance, compilação de 1988.
Foi S. que me iniciou no mundo sepulcral da voz cava de Ian, das batidas hipnóticas e continuamente repetidas numa caixa de ritmos de Morris, dos abalos sísmicos provindos do baixo de Hook, da melodia – foram sempre acordes melódicos – que se soltava da guitarra de Sumner: “Transmission”, “Passover”, “Dead Souls”, “She’s Lost Control”, “Leaders of Men”, “Shadowplay”, “Novelty” e “A Means to an End”; mesmo antes de “Komakino”, “Love Will Tear Us Apart” ou de “Atmosphere”. Mas vão sendo todas repetidamente queimadas pelo laser a pulsar entre “zeros” e “uns”.
Foi S. na sua voz carente, doce e afectada, entre afagos e efervescências sensuais, que me levou a trocar o pançudo Charles Thompson por Curtis no pedestal cimeiro dos veneráveis. Descíamos as escadas daquele bar escavado no subsolo da capital transmontana, mas já antes corríamos febrilmente rumo à boca do monstro que soltava os sons de um baixo gótico cuja reverberação sentíamos cá fora sob os nossos pés, que lá dentro parecia ressumar – lágrimas espessas de suor delirantes – daquelas paredes graníticas cavernosas: BarBaros, foi esse o local da epifania. Entre vapores alcoólicos e gestos desregrados de lubricidade, fui aluno competente da história narrada em surdina sobre os factos que conduziram o quarteto para o abismo e para loucura necrófila que se lhe seguiu, deturpando comportamentos, ocultando factos, gerando patranhas pós-modernas, deificando excessos que não eram tolerados, pela sede mercantilista que se comprazia em vender os miasmas da morte em pacotes factícios.
Ingestão
Num artigo publicado por Jon Savage no The Guardian em 2008 por esta ocasião de hábito rememorativo, todavia a propósito da estreia do documentário Joy Division escrito pelo próprio e realizado por Grant Gee, o escritor, jornalista e musicógrafo britânico faz uma dissecação do interior de Curtis e dos seus estados de alma, concluindo pelo seu medo primordial do isolamento, que ressalta das letras febrilmente marcadas a maiúsculas, entre a luz ofuscante e o desespero sombrio, na dialéctica luz e trevas, que se sintetiza na urgência em sentir o toque e o calor humanos.
Em suma, apesar da miríade de perspectivas que cada fã tem das atribulações do sujeito idolatrado, sempre entendi que foi num violento sentimento de impotência que a vida e o tempo de Ian se fizeram curtos, que de alguma forma apura e explicita todos os medos, apreensões e enfados, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula.
O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilando com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão.
Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo – afinal, de onde partiu toda a engenharia do processo criativo.
Dando um pequeno salto histórico. Desencadeou-se a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana e anódina com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e sobretudo de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco apocalíptico de “Atmosphere” (1988), como no biopic Control (2007) –, e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto- (juntem-se-lhes os prefixos que quiserem): pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora.
Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difundiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Gozo
Entre Closer (“mais próximo”, com o frontispício tumular baseado numa fotografia de Bernard Pierre Wolff no Cemitério Monumental de Staglieno, Génova) e outros dispersos surgiu “Komakino”, levando à letra após uma simples tradução do alemão “Cinema Coma”. Foi em Junho de 1980, já Ian Kevin Curtis garroteara as suas súplicas na madrugada de 18 de Maio de 1980, que aquela voz cavernosa e implacável emergiu das trevas, gravada em milhares de círculos rotativos de plástico flexível, e cantou:
«A sombra que se manteve na beira da estrada / Faz-me sempre lembrar de ti.» [versão AMC]

terça-feira, 18 de maio de 2010

30 anos - O Melhor de Sempre

Ian Kevin Curtis
(15/Julho/1956 - 18/Maio/1980)
«Human beings are dangerous and they call me in the dark.»
(verso retirado da letra de "At A Later Date" (1977), Warsaw)

 
Vídeo elaborado por um fã, com imagens do memorável e brilhante filme de Anton Corbijn, Control (2007):
  • Sam Riley como Ian Curtis
  • Samantha Morton como Deborah Curtis
  • Som de fundo: "No Love Lost" (1978), Warsaw

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Komakino

Ian CurtisExcelente texto do Pedro Mexia sobre o “para além da melancolia” que caracterizou a (curta) vida da Ian Curtis (1956-1980).
Ian jamais foi um melancólico, a sua índole era mais complexa, e dificilmente explicável pelas suas origens, por haver sido um produto da classe média suburbana da Manchester. Embora desde cedo houvesse demonstrado a sua necessidade de libertação das amarras de uma vida rotineira reverberada pelos seus pais e amigos, para uma vida independente onde pudesse dar vida às suas pulsões: confusas, entrecruzadas. Libertadas em letras maiúsculas, sempre em maiúsculas, no seu caderno preto.
O
Pedro Mexia refere-se aos sete pecados capitais, retirados das palavras de Jon Savage apensas à reedição do primeiro álbum dos Joy Division: Uknown Pleasures, 1979. Culpa, medo, raiva, claustrofobia, repulsa, ódio de si mesmo e fatalismo. Todos eles vêm reflectidos nas letras que Ian nos deixou, a que eu juntaria um oitavo, impotência, que de alguma forma apura e explicita os restantes sete, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula.
O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilado com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão*.
Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo.
Dando um pequeno salto histórico. Despoletou a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco de Atmosphere (1988) como em Control (2007), e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto-: pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora.
Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difindiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Entre Closer e outros dispersos surgiu “Komakino”**, talvez levando à letra após uma tradução do alemão “Cinema Coma”, que foi distribuído e de forma gratuita pelas discotecas inglesas para quem o quisesse possuir em cerca de 35 mil cópias em flexi-disc (lembram-se dos singles promocionais que se dobravam como papel), sem capa. Foi em Junho de 1980, a voz cavernosa, gravada nesses milhares circulos de plástico flexível, de Ian Kevin Curtis já se havia calado na madrugada de 18 de Maio de 1980
(no seu gira-discos tinha acabado de rodar The Idiot da Iguana*).
Este é o instante em que emergem os mistérios
Uma estranheza tão difícil de entender
Um momento tão comovente que atinge em cheio o teu coração
A visão que nunca se concretizou
A atracção que lá dentro se sustém como um fardo pesado
Algo que jamais esquecerei

O padrão está definido, a reacção vai iniciar-se
Completa mas tão cedo rejeitada
Antecipando a agonia de cada lágrima
Evoca a vida que conhecêramos
A sombra que se manteve na beira da estrada
Faz-me sempre lembrar de ti

Como poderei encontrar a maneira correcta para controlar
Todos os conflitos interiores, todos os problemas expostos
À medida que surgem as perguntas e as respostas não encaixam
Na minha forma de vida
Na minha forma de vida


Ian Curtis, Komakino, Março de 1980 [versão de AMC, 2008]

Notas:
*Curiosas as presenças do Camaleão (aka David Bowie) e da Iguana (aka Iggy Pop) nos principio e fim de carreira dos JD, respectivamente. Talvez tenha sido uma das razões subconscientes que me fizeram (e me fazem) idolatrar o filme de 1998 do realizador norte-americano Todd Haynes, Velvet Goldmine. Em boa verdade a minha paixão pelos três autores musicais não conhece uma origem distinta; essa perdeu-se pelas brumas difusas das minhas reminiscências pré-adolescentes.

**Na barra direita deste blogue, até me fartar.

sábado, 24 de novembro de 2007

IAN [republicação]

Joy Division - Love Will Tear us Apart (single, Fac. 23)Na noite de 17 para 18 de Maio de 1980, Ian Kevin Curtis (n. 1956) punha termo à sua curta vida, enforcando-se na cozinha de sua casa. Com ele terminou a carreira de uma das melhores bandas musicais de sempre, os Joy Division, justamente na véspera de iniciarem a promissora tournée pelos Estados Unidos, onde já reverberavam os sons angustiantes da guitarra de Bernard Sumner, do baixo de Peter Hook e da bateria de Stephen Morris, conjuntamente com a voz cavernosa e profundamente encantatória de Ian Curtis. Para a história ficam o filme de 1977, Stroszek, do realizador alemão Werner Herzog, a que Ian assistiu na noite de 17 de Maio – relatando a história conturbada de um alcoólico e ex-condenado alemão que emigra para os Estados Unidos e que mais tarde acaba por se suicidar – e o fantástico álbum, também de 1977, de Iggy Pop, produzido por David Bowie, The Idiot – álbum que inclui as fabulosas músicas “Nightclubbing”, “Dum Dum Boys” e a icónica “China Girl” –, que corria ainda no gira-discos quando no dia 18 de manhã Deborah, a sua mulher, após haver acordado sobressaltada em casa dos pais com as primeiras estrofes de canção The End dos Doors, se deslocou a sua casa e encontrou Ian enforcado na cozinha. Em cima da mesa, junto a um amontoado de fotografias do seu casamento e de um retrato emoldurado de Natalie, a sua filha, estava uma carta, redigida em letras maiúsculas – tal como escrevia as letras das suas canções –, confessando a sua angústia pelo afastamento... (cf. Deborah Curtis, Carícias Distantes).
Em Março de 1980, os Joy Division gravam para a Factory o seu maior sucesso de sempre, a premonitória canção “Love Will Tear us Apart”. A capa do single, Fac 23 e que incluía no lado B o tema não menos excepcional “These Days”, foi idealizada por Curtis. Nela surgem apenas inscritos o título da música e o número de série do disco na editora; segundo Deborah, Ian relatou-lhe o processo de composição: são letras gravadas numa folha de metal, introduzida posteriormente em ácido e finalmente exposta à influência dos elementos. Ian queria que o metal se assemelhasse a uma pedra… Mais tarde, Deborah gravou as cinco palavras na pedra tumular que alberga as cinzas do marido.
Da letra ficam os reflexos da epilepsia que se vinha agravando com o ritmo apertado das gravações e dos concertos, e o afastamento de Ian das suas mulher e filha, catalisado por um romance mantido com a jovem admiradora belga Annick Honoré.

Nota: texto originalmente publicado neste blogue no passado dia 4 de Junho, cuja republicação se deve à minha segunda experiência contemplativa da obra de Corbijn no período de uma semana.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Coisas que mudaram uma vida

Ou que acabaram com ela. Ou melhor, que o acompanharam na morte naquela fatídica madrugada de 18 de Maio de 1980.


A manhã, Deborah e a epifania do desespero:

«O som seguinte que ouvi foi “This is the end, beautiful friend. This is the end, my only friend, the end. I’ll never look into your eyes again.” Surpreendida por ouvir o “The End” dos Doors, tentei levantar-me da cama. Mesmo a dormir sabia que era uma canção pouco provável para estar a rodar numa manhã de domingo na Radio One. Mas não era rádio – era tudo um sonho.» (Deborah Curtis, Carícias Distantes, pág. 184)




Irei ver Control pela segunda vez, agora que o frémito curtisiano amainou…
Para já, planos e fotografia admiráveis; movimentos de câmara assombrosos (e.g. o percurso de Ian de casa ao trabalho – o Centro de Emprego de Macclesfield – envergando o blusão com a inscrição “HATE” nas costas); Sam Riley um prodígio; um final simbolicamente poderoso e envolvente.

Da primeira vez, fui o último a abandonar a sala de cinema… a sala parecia-me distorcida… baixei a cabeça, a porra da vergonha que por vezes enxameia a mente retrógrada de um macho latino.

«“The movie will begin in five moments”, the mindless voice announced. […] Silver stream, silvery scream. Oooooh, impossible concentration.»

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Mais Perto (Curtis, Dia D)

Estreia hoje:


O amor voltará a destruir-nos

Quando a rotina castiga de forma severa,
E já são curtas as ambições,
E um forte ressentimento prospera,
Sem que irrompam as emoções.
E vamos mudando os nossos caminhos,
Percorrendo estradas diferentes.

Então o amor, o amor voltará a destruir-nos.

Por que está o quarto tão frio?
Viraste-te na cama para o outro lado.
Falhei o momento correcto?
Esgotou-se o nosso respeito.
Porém ainda resiste esta atracção
Que guardámos nas nossas vidas.

Mas o amor, o amor voltará a destruir-nos.

Choras durante o sono,
Expões todos os meus fracassos.
Na minha boca forma-se um gosto,
Sempre que o desespero aperta.
Apenas isto, algo tão bom
Que já não pode funcionar.

Enquanto o amor, o amor voltará a destruir-nos.

Versão II*: AMC, Nov/2007. Love Will Tear Us Apart, Joy Division (1980).

*versão corrigida. Menos preocupada com as rimas e mais brutal. A destruição da relação, ao invés do eufemista "afastamento", ou "distanciamento" – que adveio de Touching from a Distance.

Boa sessão!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Mais Perto (Curtis, 1d)

«Era pequeno e estava embrulhado de cabeça aos pés em andrajos sujos, enfaixado como um bebé recém-nascido. Estava suspenso do poste do telefone e abanava ao sabor da brisa antes de descer docemente. Como uma folha de Outono, aterrou suavemente no regato e a sua forma aerodinâmica deslizou rapidamente na superfície da água, desaparecendo na distância. Espremi todo o meu corpo para gritar, mas à medida que caminhava a única coisa que ouvia eram os meus soluços abafados.
A minha filha pequenina aninhou-se mais a mim e tentou consolar-me: “Não chores, mãezinha. Não chores.”
A minha mãe abriu a porta e mesmo na escuridão conseguiu ver qual de nós estava a chorar.»

Deborah Curtis, Carícias Distantes, pág. 17, (Lisboa: Assírio & Alvim, Março de 1996, 197 pp.; tradução de Ana Cristina Ferrão; obra original: Touching from a Distance, 1995).


Aqui fica o vídeo de Atmosphere – curiosamente realizado por Anton Corbijn em 1988 – canção de Ian Curtis (Joy Division), gravada em 1979 e editada postumamente em Setembro de 1980.



Atmosfera

Caminha em silêncio
Não fujas em silêncio
Vê o perigo
Sempre perigo
Conversa sem fim
Voltar a construir a vida
Não fujas

Caminha em silêncio
Não abdiques em silêncio
Tua confusão
Minha ilusão
Usada como uma máscara de autoflagelação
Confronta e a seguir morre
Não fujas

Pessoas como tu pensam que é fácil
Ansiando por ver
Andando no ar
Caçando nas margens dos rios
Percorrendo as ruas
Todas as esquinas cedo abandonadas
Alcançadas com o devido cuidado
Não fujas em silêncio
Não fujas.

Versão: AMC, Nov/2007. Atmosphere, Joy Division (1980).



terça-feira, 13 de novembro de 2007

Mais Perto (Curtis, 2d)

Jogo de Sombras

No centro da cidade onde todas as estradas se cruzam, estive à tua espera
Nas profundezas do oceano onde todas as expectativas se afogaram, estive à tua procura
Atravessei o silêncio sem movimento, para te esperar
Num quarto com uma janela ao canto, encontrei a verdade

No jogo de sombras, representando a tua própria morte, sem nada saber
Enquanto os assassinos se reuniam em quatro filas dançando no chão
E perante o aço frio, o odor dos seus corpos, fiz uma tentativa para comunicar
Mas apenas conseguia olhar perplexo enquanto a multidão partia

Eu fiz tudo, tudo o que sempre quis
Deixei que te usassem para os seus próprios fins
No centro da cidade à noite, estou à tua espera.

Versão: AMC, Nov/2007. Shadowplay, Joy Division (Unknown Pleasures, 1979)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Mais Perto (Curtis, 3d)

Anton Corbijn's Control (Sam Riley - Ian Curtis)


Um simples instrumento

Um legado de tal forma afastado
Um dia destes serão melhorados
Os direitos eternos que deixámos para trás
Nós éramos os melhores
Dois seres semelhantes, igualmente libertos
Eu sempre contei contigo

Lutámos pelo bem, mantivemo-nos lado a lado
A nossa amizade nunca morreu
Por caminhos estranhos, os altos e os baixos
A nossa quimera alcançou o céu
Imortalistas com perspectivas por provar
Eu confiei em ti

Uma casa algures em solo estrangeiro
Onde acorrem os velhos amantes
É esta a tua meta, são estes os teus desejos finais?
Onde comem os cães e os abutres
Ainda acredito, disponho-me a partir
Eu confio em ti

Em ti,
Confio em ti.

Versão: AMC, Nov/2007. A Means to an End, Joy Division (Closer, 1980)

domingo, 14 de outubro de 2007

terça-feira, 25 de setembro de 2007

15 de Novembro...

...é a data de estreia em Portugal de Control, de Anton Corbijn. Filme aclamado e premiado nos festivais de cinema de Cannes, Edimburgo e Melbourne sobre a vida e a obra do melhor de sempre: Ian Curtis (1956-1980).
Eis o trailer – som no máximo, por favor:

(She's lost control / Love will tear us apart / Atmosphere)
Longo arrepio? Um indescritível nó na garganta? Olhos marejados de lágrimas?
Bem-vindo ao clube.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Encomendas Simultâneas

Por um comentador anónimo deste blogue fiquei a saber que, tal como eu e no mesmo dia (não sei a que hora), o Pedro Mexia traduziu Love will tear us apart de Ian Curtis (Joy Division).
Curiosamente, a pedido da mesma pessoa, a Mónica Granja.

Enfio a viola no saco (put the guitar in the bag), dou o braço a torcer (giving my arm to twist) e deixo a poesia aos poetas…

Lembrei-me daquela do sapateiro e do rabecão (how dare you, shoemaker, to play contrabass), e regresso para o que sei ou julgo saber…
Blogosfera, esse longo processo ontológico do meu eu desnorteado.

Depois da viola ensacada, do braço torcido, Finanças, aí vou eu!

segunda-feira, 4 de junho de 2007

IAN

Joy Division - Love Will Tear us Apart (single, Fac. 23)Na noite de 17 para 18 de Maio de 1980, Ian Kevin Curtis (n. 1956) punha termo à sua curta vida, enforcando-se na cozinha de sua casa. Com ele terminou a carreira de uma das melhores bandas musicais de sempre, os Joy Division, justamente na véspera de iniciarem a promissora tournée pelos Estados Unidos, onde já reverberavam os sons angustiantes da guitarra de Bernard Sumner, do baixo de Peter Hook e da bateria de Stephen Morris, conjuntamente com a voz cavernosa e profundamente encantatória de Ian Curtis.
Para a história ficam o filme de 1977, Stroszek, do realizador alemão Werner Herzog, a que Ian assistiu na noite de 17 de Maio – relatando a história conturbada de um alcoólico e ex-condenado alemão que emigra para os Estados Unidos e que mais tarde acaba por se suicidar – e o fantástico álbum, também de 1977, de Iggy Pop, produzido por David Bowie, The Idiot – álbum que inclui as fabulosas músicas “Nightclubbing”, “Dum Dum Boys” e a icónica “China Girl” –, que corria ainda no gira-discos quando no dia 18 de manhã Deborah, a sua mulher, após haver acordado sobressaltada em casa dos pais com as primeiras estrofes de canção The End dos Doors, se deslocou a sua casa e encontrou Ian enforcado na cozinha. Em cima da mesa, junto a um amontoado de fotografias do seu casamento e de um retrato emoldurado de Natalie, a sua filha, estava uma carta, redigida em letras maiúsculas – tal como escrevia as letras das suas canções –, confessando a sua angústia pelo afastamento... (cf. Deborah Curtis, Carícias Distantes).

Em Março de 1980, os Joy Division gravam para a Factory o seu maior sucesso de sempre, a premonitória canção “Love Will Tear us Apart”. A capa do single, Fac 23 e que incluía no lado B o tema não menos excepcional “These Days”, foi idealizada por Curtis. Nela surgem apenas inscritos o título da música e o número de série do disco na editora; segundo Deborah, Ian relatou-lhe o processo de composição: são letras gravadas numa folha de metal, introduzida posteriormente em ácido e finalmente exposta à influência dos elementos. Ian queria que o metal se assemelhasse a uma pedra… Mais tarde, Deborah gravou as cinco palavras na pedra tumular que alberga as cinzas do marido.

Da letra ficam os reflexos da epilepsia que se vinha agravando com o ritmo apertado das gravações e dos concertos, e o afastamento de Ian das suas mulher e filha, catalisado por um romance mantido com a jovem admiradora belga Annick Honoré.

Por pedido expresso da
Mónica, fica aqui a minha versão em tradução eminentemente livre da letra cuja magia osmótica com a música não se deixou cair no olvido, atravessando gerações há 27 anos. Seguindo as palavras de Kundera sobre a imortalidade e adaptando-as ao caso concreto, Ian Curtis sim, pensou na morte ao sonhar com a imortalidade, pertencendo ao grupo restrito daqueles que serão recordados no espírito dos que nunca o conheceram – a distintiva da grande imortalidade e sem traços de risibilidade

Quando a penosa rotina magoa,
e frágeis são as ambições,
e o ressentimento alto voa,
mas não crescerão as emoções.
E estamos a mudar os nossos caminhos, seguindo por estradas diferentes.

Então o amor, o amor afastar-nos-á de novo.

Por que está o quarto tão frio?
Voltaste-te para teu lado do leito.
Não intervim em tempo digno?
Expirou o nosso mútuo respeito.
Porém ainda resiste esta atracção que sobreviveu às nossas vidas.

Mas o amor, o amor afastar-nos-á de novo.

Choras durante o teu sono,
expõem-se todos os meus fracassos.
Na minha boca forma-se um gosto,
sempre que o desespero aperta o laço.
E como algo tão bom deixou de poder continuar.

Enquanto o amor, o amor afastar-nos-á de novo.


Ian Curtis, Love will tear us apart, 1980 [versão: O amor afastar-nos-á, AMC, 2007]

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Os Melhores de Sempre

Vai interessante e assaz didáctica esta musical troca de galhardetes – no bom sentido – entre o Henrique e o Lourenço.
Porém, permitam-me discordar, quais Jagger & Richards, Lennon & McCartney, talvez só Cale, Reed & Companhia!
Eis os melhores de sempre (posição irredutível e que me acompanhará até ao último suspiro):



1976-1980, primeiro como Warsaw, depois como Joy Division

I wish I were a Warhol silk screen
Hanging on the wall
Or little Joe or maybe Lou
I’d love to be them all
All New York city’s broken hearts
And secrets would be mine
I’d put you on a movie reel
And that would be just fine

Ian Curtis (1956-1980), St Valentine’s Day poem from Ian to Debbie (1973)*

*poema de Ian Curtis (contava 16 anos) retirado da pág. 13 do livro de Deborah Curtis, Carícias Distantes: Ian Curtis e Joy Division (c/ prefácio de Jon Savage). Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Março de 1996, 197 pp. (tradução de Ana Cristina Ferrão; obra original: Touching from Distance: Ian Curtis and Joy Division, 1995).
Nota: Hoje, na 60.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, o filme Control do realizador holandês Anton Corbijn, baseado na curta vida do mágico atormentado Ian Curtis, foi aplaudido de pé por uma plateia em êxtase.