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terça-feira, 20 de novembro de 2007

Coisas que mudaram uma vida

Ou que acabaram com ela. Ou melhor, que o acompanharam na morte naquela fatídica madrugada de 18 de Maio de 1980.


A manhã, Deborah e a epifania do desespero:

«O som seguinte que ouvi foi “This is the end, beautiful friend. This is the end, my only friend, the end. I’ll never look into your eyes again.” Surpreendida por ouvir o “The End” dos Doors, tentei levantar-me da cama. Mesmo a dormir sabia que era uma canção pouco provável para estar a rodar numa manhã de domingo na Radio One. Mas não era rádio – era tudo um sonho.» (Deborah Curtis, Carícias Distantes, pág. 184)




Irei ver Control pela segunda vez, agora que o frémito curtisiano amainou…
Para já, planos e fotografia admiráveis; movimentos de câmara assombrosos (e.g. o percurso de Ian de casa ao trabalho – o Centro de Emprego de Macclesfield – envergando o blusão com a inscrição “HATE” nas costas); Sam Riley um prodígio; um final simbolicamente poderoso e envolvente.

Da primeira vez, fui o último a abandonar a sala de cinema… a sala parecia-me distorcida… baixei a cabeça, a porra da vergonha que por vezes enxameia a mente retrógrada de um macho latino.

«“The movie will begin in five moments”, the mindless voice announced. […] Silver stream, silvery scream. Oooooh, impossible concentration.»

segunda-feira, 4 de junho de 2007

IAN

Joy Division - Love Will Tear us Apart (single, Fac. 23)Na noite de 17 para 18 de Maio de 1980, Ian Kevin Curtis (n. 1956) punha termo à sua curta vida, enforcando-se na cozinha de sua casa. Com ele terminou a carreira de uma das melhores bandas musicais de sempre, os Joy Division, justamente na véspera de iniciarem a promissora tournée pelos Estados Unidos, onde já reverberavam os sons angustiantes da guitarra de Bernard Sumner, do baixo de Peter Hook e da bateria de Stephen Morris, conjuntamente com a voz cavernosa e profundamente encantatória de Ian Curtis.
Para a história ficam o filme de 1977, Stroszek, do realizador alemão Werner Herzog, a que Ian assistiu na noite de 17 de Maio – relatando a história conturbada de um alcoólico e ex-condenado alemão que emigra para os Estados Unidos e que mais tarde acaba por se suicidar – e o fantástico álbum, também de 1977, de Iggy Pop, produzido por David Bowie, The Idiot – álbum que inclui as fabulosas músicas “Nightclubbing”, “Dum Dum Boys” e a icónica “China Girl” –, que corria ainda no gira-discos quando no dia 18 de manhã Deborah, a sua mulher, após haver acordado sobressaltada em casa dos pais com as primeiras estrofes de canção The End dos Doors, se deslocou a sua casa e encontrou Ian enforcado na cozinha. Em cima da mesa, junto a um amontoado de fotografias do seu casamento e de um retrato emoldurado de Natalie, a sua filha, estava uma carta, redigida em letras maiúsculas – tal como escrevia as letras das suas canções –, confessando a sua angústia pelo afastamento... (cf. Deborah Curtis, Carícias Distantes).

Em Março de 1980, os Joy Division gravam para a Factory o seu maior sucesso de sempre, a premonitória canção “Love Will Tear us Apart”. A capa do single, Fac 23 e que incluía no lado B o tema não menos excepcional “These Days”, foi idealizada por Curtis. Nela surgem apenas inscritos o título da música e o número de série do disco na editora; segundo Deborah, Ian relatou-lhe o processo de composição: são letras gravadas numa folha de metal, introduzida posteriormente em ácido e finalmente exposta à influência dos elementos. Ian queria que o metal se assemelhasse a uma pedra… Mais tarde, Deborah gravou as cinco palavras na pedra tumular que alberga as cinzas do marido.

Da letra ficam os reflexos da epilepsia que se vinha agravando com o ritmo apertado das gravações e dos concertos, e o afastamento de Ian das suas mulher e filha, catalisado por um romance mantido com a jovem admiradora belga Annick Honoré.

Por pedido expresso da
Mónica, fica aqui a minha versão em tradução eminentemente livre da letra cuja magia osmótica com a música não se deixou cair no olvido, atravessando gerações há 27 anos. Seguindo as palavras de Kundera sobre a imortalidade e adaptando-as ao caso concreto, Ian Curtis sim, pensou na morte ao sonhar com a imortalidade, pertencendo ao grupo restrito daqueles que serão recordados no espírito dos que nunca o conheceram – a distintiva da grande imortalidade e sem traços de risibilidade

Quando a penosa rotina magoa,
e frágeis são as ambições,
e o ressentimento alto voa,
mas não crescerão as emoções.
E estamos a mudar os nossos caminhos, seguindo por estradas diferentes.

Então o amor, o amor afastar-nos-á de novo.

Por que está o quarto tão frio?
Voltaste-te para teu lado do leito.
Não intervim em tempo digno?
Expirou o nosso mútuo respeito.
Porém ainda resiste esta atracção que sobreviveu às nossas vidas.

Mas o amor, o amor afastar-nos-á de novo.

Choras durante o teu sono,
expõem-se todos os meus fracassos.
Na minha boca forma-se um gosto,
sempre que o desespero aperta o laço.
E como algo tão bom deixou de poder continuar.

Enquanto o amor, o amor afastar-nos-á de novo.


Ian Curtis, Love will tear us apart, 1980 [versão: O amor afastar-nos-á, AMC, 2007]

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Os Melhores de Sempre

Vai interessante e assaz didáctica esta musical troca de galhardetes – no bom sentido – entre o Henrique e o Lourenço.
Porém, permitam-me discordar, quais Jagger & Richards, Lennon & McCartney, talvez só Cale, Reed & Companhia!
Eis os melhores de sempre (posição irredutível e que me acompanhará até ao último suspiro):



1976-1980, primeiro como Warsaw, depois como Joy Division

I wish I were a Warhol silk screen
Hanging on the wall
Or little Joe or maybe Lou
I’d love to be them all
All New York city’s broken hearts
And secrets would be mine
I’d put you on a movie reel
And that would be just fine

Ian Curtis (1956-1980), St Valentine’s Day poem from Ian to Debbie (1973)*

*poema de Ian Curtis (contava 16 anos) retirado da pág. 13 do livro de Deborah Curtis, Carícias Distantes: Ian Curtis e Joy Division (c/ prefácio de Jon Savage). Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Março de 1996, 197 pp. (tradução de Ana Cristina Ferrão; obra original: Touching from Distance: Ian Curtis and Joy Division, 1995).
Nota: Hoje, na 60.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, o filme Control do realizador holandês Anton Corbijn, baseado na curta vida do mágico atormentado Ian Curtis, foi aplaudido de pé por uma plateia em êxtase.