segunda-feira, 26 de maio de 2008

Komakino

Ian CurtisExcelente texto do Pedro Mexia sobre o “para além da melancolia” que caracterizou a (curta) vida da Ian Curtis (1956-1980).
Ian jamais foi um melancólico, a sua índole era mais complexa, e dificilmente explicável pelas suas origens, por haver sido um produto da classe média suburbana da Manchester. Embora desde cedo houvesse demonstrado a sua necessidade de libertação das amarras de uma vida rotineira reverberada pelos seus pais e amigos, para uma vida independente onde pudesse dar vida às suas pulsões: confusas, entrecruzadas. Libertadas em letras maiúsculas, sempre em maiúsculas, no seu caderno preto.
O
Pedro Mexia refere-se aos sete pecados capitais, retirados das palavras de Jon Savage apensas à reedição do primeiro álbum dos Joy Division: Uknown Pleasures, 1979. Culpa, medo, raiva, claustrofobia, repulsa, ódio de si mesmo e fatalismo. Todos eles vêm reflectidos nas letras que Ian nos deixou, a que eu juntaria um oitavo, impotência, que de alguma forma apura e explicita os restantes sete, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula.
O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilado com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão*.
Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo.
Dando um pequeno salto histórico. Despoletou a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco de Atmosphere (1988) como em Control (2007), e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto-: pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora.
Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difindiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Entre Closer e outros dispersos surgiu “Komakino”**, talvez levando à letra após uma tradução do alemão “Cinema Coma”, que foi distribuído e de forma gratuita pelas discotecas inglesas para quem o quisesse possuir em cerca de 35 mil cópias em flexi-disc (lembram-se dos singles promocionais que se dobravam como papel), sem capa. Foi em Junho de 1980, a voz cavernosa, gravada nesses milhares circulos de plástico flexível, de Ian Kevin Curtis já se havia calado na madrugada de 18 de Maio de 1980
(no seu gira-discos tinha acabado de rodar The Idiot da Iguana*).
Este é o instante em que emergem os mistérios
Uma estranheza tão difícil de entender
Um momento tão comovente que atinge em cheio o teu coração
A visão que nunca se concretizou
A atracção que lá dentro se sustém como um fardo pesado
Algo que jamais esquecerei

O padrão está definido, a reacção vai iniciar-se
Completa mas tão cedo rejeitada
Antecipando a agonia de cada lágrima
Evoca a vida que conhecêramos
A sombra que se manteve na beira da estrada
Faz-me sempre lembrar de ti

Como poderei encontrar a maneira correcta para controlar
Todos os conflitos interiores, todos os problemas expostos
À medida que surgem as perguntas e as respostas não encaixam
Na minha forma de vida
Na minha forma de vida


Ian Curtis, Komakino, Março de 1980 [versão de AMC, 2008]

Notas:
*Curiosas as presenças do Camaleão (aka David Bowie) e da Iguana (aka Iggy Pop) nos principio e fim de carreira dos JD, respectivamente. Talvez tenha sido uma das razões subconscientes que me fizeram (e me fazem) idolatrar o filme de 1998 do realizador norte-americano Todd Haynes, Velvet Goldmine. Em boa verdade a minha paixão pelos três autores musicais não conhece uma origem distinta; essa perdeu-se pelas brumas difusas das minhas reminiscências pré-adolescentes.

**Na barra direita deste blogue, até me fartar.

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