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sábado, 6 de março de 2010

Sonhos

Sentei-me sem expectativa que adviesse de conselho de mente avisada na cinefilia médico-legal do “suspense”. Procurei não ler e nada ver ou ouvir sobre a última obra de Scorsese, a mente mais preclara e enciclopédica de Hollywood sobre a arte, a ciência e a técnica cinematográficas da indústria centenária.
Ecrã preto, letras no velho formato cinemascópio e um navio ao largo de Boston quebrando as ondas ao som do trecho orquestral “Lontano” do compositor austro-húngaro György Ligeti, criam o ambiente hitchcockiano que, como prenúncio, sabemos que irá salpicar de estilo as cenas marcantes do filme.
A obra de base é um thriller de Dennis Lehane, e o primeiro passo consistiu em vencer a tentação de catalogação apriorística – ir ao fundo da mente para denegar a denegação –, surdindo um apelo de confrontação entre o italo-americano e o Mestre inglês, em que, um dos corolários da agitação da memória, se faz recordando e estabelecendo-nos na admiração irrestrita do primeiro sobre a plasticidade transformadora de uma má história na mais brilhante mistura cénica para o grande ecrã. E não foi só, porquanto o cientista foi buscar os distúrbios de personalidade e o seu recontro final esquizofrénico a um Samuel Fuller (argumento e realização) do início dos anos 60: O Corredor do Silêncio (Shock Corridor, 1963) e a inesquecível sequência do sonho. Mas mais uma vez são do Mestre as reminiscências que me assaltam em catadupa; e a ele recorro invocando esse portentoso e incrivelmente tortuoso A Casa Encantada (Spellbound, 1945), estigmatizado pela cena do “sonho” concebida por Salvador DalíPeck em DiCaprio, porque não? Ballantine e Daniels, uma curiosa contenda onomástica entre um scotch e um bourbon.
Lembrei-me também do subavaliado Fear X – O Medo (2003) escrito pelo desenfreado Hubert Selby, Jr. nos seus últimos dias de vida, em parceria com o jovem realizador dinamarquês Nicolas Winding Refn, e do seu final aberto, com a curiosidade de Brian Eno ser um dos elementos comuns com esta ilha do desassossego.
E depois emergiu o mínimo literário Harlan Coben, engenhosamente adaptado por Guillaume Canet, trasladando a trama de Nova Iorque para Paris, e o sonho ganhou aqui uma palpabilidade propulsada por um inusitadamente realista happy ending.

No fim do filme, enquanto seguia atrás de dois casais de septuagenários que, para além de teimosamente, com a sua parcimónia senil, me tentarem manter dentro da claustrofobia que desceu sobre a sala com o angustiante “This bitter Earth” plantada em “On the nature of daylight”, ensaiavam interpretar o final de Shutter Island, outras imagens corriam desenfreadamente na minha mente. Os paralelismos, sem nunca pensar em plágios, senão em arte como uma sucessão de originalidades decorrentes de repetições ao longo dos séculos, neste caso encorpada por um dos poucos fazedores de filmes que pode ser comparado a uma filmoteca viva, cujas técnicas foram aprendidas e apreendidas pelo olhar de relojoeiro no rendilhado minucioso que molda com uma marca pessoal inimitável, com a sua assinatura, uma obra de arte.
A mim bastou-me aquele início para a rendição completa, uma câmara hitchcockiana a deambular pelas escarpas de uma ilha-prisão assustadora pelo som tenebroso do trítono de “Passacalha - Allegro Moderato”, o 4.º andamento da 3.ª sinfonia de Penderecki.
Sem mais delongas ou palavras vãs: Arrepiante. Magnífico. A arte de tornar verosímil o absurdo, aqui como no Mestre, elevada ao seu expoente máximo. Martin Scorsese.

Ouvir aqui Dinah Washington (This bitter earth) e Max Richter (On the nature of daylight), uma mistura etérea de autoria de Robbie Robertson.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

O Duende

Nasceu diferente na terra quente andaluza e nela morreu pela indisfarçável diferença na canícula de Agosto num país inflamado.
Falo de Lorca. Federico García Lorca (1898-1936), poeta espanhol, nascido em Granada, no coração da fúria e da virilidade espanholas, a Andaluzia, pátria do Flamenco, mas também dos touros e dos… duendes!
Em 1933, na Argentina, numa conferência na Sociedad de Amigos del Arte de Buenos Aires expõe pela primeira vez o seu mais famoso ensaio Jogo e Teoria do Duende (Teoría y Juego del Duende), e estabelece a notável distinção entre os conceitos de Musa, Anjo e Duende, na relação entre a arte e a morte.
A Musa:
«Quando a musa vê a morte chegar, fecha a porta ou ergue uma peanha, ou passeia uma urna e escreve um epitáfio com mão de cera, mas em seguida volta a regar o seu loureiro com um silêncio que vacila entre duas brisas.» (pág. 68)
O Anjo:
«Quando o anjo vê a morte chegar voa em círculos lentos, e com lágrimas de gelo e narcisos tece a elegia que vimos tremer nas mãos de Keats e nas de Villasandino, e nas de Herrera, e nas de Bécquer, e nas de Juan Ramón Jiménez. Mas que terror, o do anjo, se no seu brando pé rosado sentir uma aranha, pequena que seja!» (pp. 68-69)
O Duende:
«Pelo contrário, o duende não aparece se não vir possibilidade de morte, se não souber que irá rondar-lhe a casa, se não tiver a certeza de que vai agitar esses ramos que todos transportamos e não têm, não terão, consolo.» (pág. 69)

A editora Assírio & Alvim, pela mão de Aníbal Fernandes, reúne numa antologia, intitulada de Anjo e Duende, parte da prosa poética, dois textos escritos para conferências e cinco exemplares de um estranho exercício poético em diálogos criados pelo insigne autor granadino. São pistas biográficas. Textos que assim reunidos nos procuram levantar a ponta do véu sobre a dimensão humana, terna, frágil e angustiante, de um dos maiores poetas de sempre de língua castelhana. Neles se demonstram a obsessão do jovem poeta pela morte; o amor pelo mundano e pela cultura popular do seu país, os touros, o flamenco, os ciganos andaluzes e a sua ancestralidade oriental; as suas relações de amizade com os artistas da Geração de 27, que habitam a mesma residência de estudantes em Madrid, como Pepín Bello, Luis Buñuel e Salvador Dalí, com destaque especial para este último, pela profunda admiração mútua (e não só...), cuja amizade veio a sofrer uma dolorosa e lenta ruptura após Lorca haver publicado Romancero Gitano em 1928*, Dalí chega a apelidá-lo de un perro andaluz, ironizando através da alusão ao filme surrealista escrito por Dalí e Buñuel e realizado por este último; as entrelinhas da sua condição de homossexual, reprimida por uma sociedade tremendamente machista, de implacabilidade e violência homofóbicas e de um profundo fundamento religioso, onde as facas dilacerantes eram falos e a sua evocação da Lua, como anunciação permanente da morte e de um erotismo oculto. Por fim, o García Lorca político, a falaciosa capa de perigoso espião russo cuidadosamente erigida para ocultar a sua morte bárbara e desonrosa perante um pelotão de fuzilamento dos falangistas e que mais tarde foi impudica e ardilosamente aproveitada pelos vermelhos republicanos como bandeira dos seus ideais não menos bárbaros e sanguinários. Todavia, Lorca nada queria da política e dos políticos, apesar de demonstrar, através da sua arte, as suas preocupações sociais com os mais desfavorecidos e com as minorias étnicas. O poeta morreu vítima de uma sociedade fechada, confessional, preconceituosa e fortemente homofóbica. De um dos seus carrascos são as palavras: «Acabamos de matar a Federico García Lorca. Yo le metí dos tiros en el culo por maricón […] Es que estábamos hartos ya de maricones en Granada.» (pág. 15)

{*Excerto da carta de Salvador Dalí a García Lorca a propósito de Romancero Gitano: «“Li calmamente o teu livro […] A tua poesia de hoje cai dentro do tradicional, e nela descubro a substância poética mais suculenta que alguma vez existiu mas ligada em absoluto às regras da poesia antiga, incapaz de nos emocionar e satisfazer os nossos desejos actuais. A tua poesia está de mãos e pés amarrada à poesia velha. Talvez julgasses aquelas imagens atrevidas, ou naquilo que fazes encontrasses uma dose aumentada de irracionalidade, mas posso dizer-te que a tua poesia se move dentro da ilustração dos lugares-comuns mais estereotipados e conformistas.”» (pp. 129-130)}

Para terminar, resta apenas referir o trabalho notável de síntese, de tradução e de compilação de Aníbal Fernandes, aliás como vem sendo hábito na sua vasta carreira de tradutor de autores estrangeiros de primeira água.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Federico García Lorca, Anjo e Duende. Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Abril de 2007, 155 pp. (tradução, apresentação e notas de Aníbal Fernandes).