quinta-feira, 20 de março de 2008

A fábula e o contador de histórias

É um terrível lugar-comum, mas atrevo-me a renová-lo afirmando que uma paixão não se explica, nem sequer se discute. Não há racionalidade que permita compreender o arrebatamento, a agitação, o caldeirão fervente de emoções humanas perante o objecto elevado à idolatria. Sou assim com Auster, como fui com outros ídolos da juventude, do futebol à fórmula 1, do cinema à música. Tive talvez a sorte (ou o azar, para muitos, os que censuram esta minha admiração incondicional) de me iniciar com A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987), que me levou a ler de uma assentada A Música do Acaso (The Music of Chance, 1990) e Leviathan (1992) – por feliz coincidência, continua a ser o meu trio preferido de obras de Auster, dos 165 conjuntos de três obras, diferentes entre si, que permitem combinar os 11 romances até hoje publicados e por mim lidos na íntegra (ou 13?*)
Depois, por esses tempos de frenesim austeriano percorri as livrarias e consegui encontrar Palácio da Lua (Moon Palace, 1989) e Timbuktu (1999) que acabara de ser publicada, e, ainda mais tarde, O Livro das Ilusões (The Book of Illusions, 2002) e A Noite do Oráculo (The Oracle Night, 2004). Para terminar com As Loucuras de Brooklyn (The Brooklyn Follies, 2005) e Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007).
Percorri páginas na internet, sítios de leilões e espaços físicos de livrarias e alfarrabistas, contactei a editora, mas nunca encontrei No País das Últimas Coisas (In the Country of Last Things, 1987) e Mr. Vertigo (1994). Resisti, tentando não infringir a velha regra que aponho na leitura enquanto divertimento: só leio em português, apesar de me poderem apontar os inconvenientes deletérios das traduções; mas se assim fosse, ficar-me-ia apenas pelos autores de língua inglesa e espanhola, e alguns franceses mais acessíveis, e jamais haveria lido Tchékhov, Gogol, Tolstói, Dostoievski, Walser, Benjamin, Kafka, Musil, Mann, Böll, Rilke, Eco, Calvino, Pirandello, Moravia, Pasolini, Mishima, Ibsen, Hamsun, Laxness e por aí em diante. Infelizmente não leio alemão ou russo ou até norueguês. Não navego em pensamentos com a Enterprise e os seus imaginosos aparelhos de tradução automática para Ferengis ou Klingons.

Que outra coisa senão uma verdadeira paixão é capaz de fazer invalidar um todo intrincado de princípios auto-impostos para tentar arrancar da existência uma alegria breve, efémera, asseverando conscientemente o merecimento da aplicação da pena que será, sabemo-lo, cumprida com zelo. Somos eminentemente livres, é certo, porém o paradoxo está na dificuldade em divisar que coordenadas usar no estabelecimento das barreiras dentro das quais podemos exercer essa tal liberdade, com vista a alcançar a inatingível quimera da felicidade plena – que insatisfação, que sede, que angústia… sinto-as, e a reflexão agrava-as. Assim, racionalmente derroguei o princípio, li, sem dramas e, em boa verdade e com bom senso, sem motivos para que os houvesse, In the Country of Last Things e Mr. Vertigo na língua em que originalmente foram publicadas.
Bom, para encerrar esta minha divagação estéril, bastaria referir que a insignificância da infracção em nada beliscou uma paixão que se vai estruturando – tem graça conjugar este último verbo com a volatilidade de um sentimento exaltado –, nem tão-pouco seria necessário travestir-me de Florentino Ariza à espera de Fermina Daza (a estreia cinematográfica de amanhã de gente das letras colombianas nobelizada levou-me a esta comparação no mínimo destemperada). A estupidez também tem limites; talvez os conceitos de paixão e de estupidez sejam irmãos no infortúnio.

Há três dias acabei de reler Mr. Vertigo, agora em português, na edição deste ano da Asa.
Li-o com a mesma avidez de um inédito. Cheguei às conclusões que havia chegado outrora; e não há muito mais a acrescentar às primeiras impressões retiradas da sua leitura na língua original. Curiosamente, o inestético frontispício escolhido pela editora portuguesa contém uma simples frase retirada de uma recensão de 1994 publicada no periódico britânico The Independent:

«Uma grandiosa obra de literatura pela mão de um monstro da fábula moderna norte-americana.»

Volto à prelecção Nobel de Doris Lessing e ao discurso de Auster em Oviedo a propósito do recebimento do Prémio Príncipe de Astúrias das Letras. Ambos, de maneiras diferentes, especularam sobre a aparente inutilidade da arte, em concreto da literatura: não sacia a sede, não mata a fome, não acaba com a miséria humana na luta pela sobrevivência; mas divisam a necessidade primordial que o Homem tem da fábula. A menina-mãe africana de Lessing que lê fragmentos de Anna Karénina, abandonados por quem tudo tem, enquanto espera sedenta com o filho amarrado ao corpo exposta ao sol quente de África que lhe encham a bilha de água potável, é uma das mais belas imagens dessa utilidade onírica da literatura. Não é um muro que se ergue para esconder o problema, é apenas o enriquecimento de um imaginário, do fortalecimento espiritual indispensável à própria sobrevivência; não é prostração, indolência ou desistência, é antes o cumprir somente humano de uma função vital: sonhar.

Mr. Vertigo é Auster a fazer uma vez mais um apelo deliberado às suas publicitadas influências literárias, nos tempos em que descobriu que escrever seria a sua missão enquanto vagueasse neste mundo: Dickens, mas sobretudo, como acaba por confessar em entrevista, Carlo Collodi e a versão não adulterada de Pinóquio.
Eis Walter Claireborne Rawley na primeira pessoa, no primeiro parágrafo da obra:

«Tinha doze anos quando caminhei sobre as águas pela primeira vez. Foi o homem de preto quem me ensinou a fazer isso e não vou pôr-me para aqui com histórias e dizer que aprendi o truque da noite para o dia. Quando o Mestre Yehudi me descobriu tinha eu nove anos e era um dos muitos órfãos que mendigavam nas ruas de Saint Louis, e só ao fim de três anos de um treino incessante é que ele me deixou mostrar as minhas habilidades em público. Isso aconteceu em 1927, o ano de Babe Ruth e Charles Lindbergh, esse mesmo ano em que a noite começou a cair sobre o mundo para todo o sempre. Continuei a trabalhar até poucos dias antes do crash de Outubro e devo dizer que aquilo que fiz nesse poucos anos foi maior do que tudo o que aqueles dois cavalheiros possam ter sonhado. Eu fiz o que nenhum americano tinha feito antes de mim, o que ninguém fez desde então.»
Paul Auster, Mr. Vertigo (pág. 7)

Mr. Vertigo é um conto de fadas que se vai transformando num épico americano. Não faltam as alusões ao Ku Klux Klan, ao desastre da Lei Seca, à dizimação dos índios, ao crash bolsista de Outubro de 1929 e à II Guerra Mundial, e as metamorfoses que um mendigo de nove anos vai sofrendo ao longo da sua vida, de miséria e de prosperidade, de fome e da abundância, de santidade e da mais extrema violência, do amor ao ódio exacerbado.
Retirado das ruas de Saint Louis, Missouri por um judeu de origem húngara, o Mestre Yehudi – uma percebida referência a mestre da ilusão Harry Houdini –, sob a promessa de um dia poder vir a voar, Walter Rawley (a sonoridade do seu nome muito próxima do de Sir Walter Raleigh não é fruto da coincidência, é antes o acaso materializado pela pena do seu principal efabulador) troca as ruas da sua cidade por uma zona desolada do Kansas, nas cercanias de Wichita, onde terá por companhia, para além do Mestre, um rapaz negro deformado, um pouco mais velho, com uma inteligência e uma cultura acima da média – que no futuro lhe garantirão a uma bolsa de estudo e uma entrada em Yale para iniciar os estudos universitários –, sugestivamente chamado de Esopo, e uma anciã índia, sobrinha do famoso Touro Sentado, da tribo Sioux, carinhosamente chamada de Mãe Sioux, a que não falta Mrs. Witherspoon (ou Mrs. W.), o último vértice de um triângulo quando a primeira tragédia, que se confunde com a história do racismo na América, bate à porta.
E, para mais não revelar, fico-me por estas já extensas palavras, sobre mais um romance; convicto, porém, de que o leitor, pelas mais diversas razões que se circunscrevem às emanações etéreas de uma obra deste tipo, dele não se conseguirá livrar nos tempos mais imediatos após o encerramento da página número 299, a última.
Abaixo do meu trio sagrado, A Trilogia de Nova Iorque, A Música do Acaso e Leviathan; quase a par com o duo Palácio da Lua e de No País das Últimas Coisas; mas ao nível do deslumbrantemente terno Timbuktu e do engenhoso Viagens no Scriptorium, Mr. Vertigo é imperdível… aliás, como todas as restantes obras deste judeu, que há 61 anos nascia em Newark, Nova Jérsia e que um dia respondeu à sua própria pergunta “Não sei porque me dedico a isto?”, desta forma:

«Nunca quis trabalhar noutra coisa.»

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica
Paul Auster, Mr. Vertigo. Porto: Asa, 1.ª edição, Março de 2008, 304 pp. (tradução de José Vieira de Lima; obra original: Mr. Vertigo, 1994).


Nota: *A contagem não é pacífica, embora, pela minudência da questão, não seja objecto de polémica. O 12.º romance de Paul Auster, Man in the Dark, vem a caminho, será publicado nos Estado Unidos no próximo mês de Agosto e, provavelmente, tê-lo-emos em português no próximo Natal. No entanto, há quem inicie a contagem das obras de ficção de meia e longa narrativa do autor norte-americano, a partir da novela ou romance curto “Cidade de Vidro” (City of Glass) publicado em 1985, desdobrando assim a famosa Trilogia, que prosseguiu com a publicação em separado de “Fantasmas” (Ghosts) em 1986 e que apenas ganhou corpo como um trio de obras com a conclusão de “O Quarto Fechado” (The Locked Room) no mesmo ano. Em 1987, por sugestão da editora inglesa
Faber & Faber, as três histórias formaram-se como partes integrantes e perfeitamente indissociáveis de uma só obra, A Trilogia de Nova Iorque e daí, dada essa trindade que apenas ganha sentido na unidade, preferir o “11” como número de obras de ficção publicadas por Auster, e isto, claro, no dia em que escrevo este texto.

1 comentário:

Nuno Vieira disse...

Excelente post sobre a obra de Paul Auster. Nota-se a pesquisa feita. Os meus gostos em relação à obra de Auster são praticamente os mesmos. Não sou grande fã do País das Últimas Coisas, nem de Timbuktu parece-me um Admirável Mundo Novo, mas Mr.Vertigo e a Noite do Oráculo são bons. Nada que supere, A Triologia... e A Música Ao Acaso e o Palácio da Lua.
Pensei que o meu pai era deus, apesar de não ser escrito por Paul Auster é uma antologia de contos organizada por ele, através de um programa de rádio.

linkei-te porque gostei do que li, ou será melhor dizer linkei-vos (linkei-vos???)

abraço

Nuno