terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Inebriado

Jeremy Irons
Ontem, após várias tentativas frustradas para desligar o televisor, acabei por ver na íntegra a cerimónia de entrega dos Globos de Ouro de 2007.
O senhor aqui em cima foi um dos responsáveis pelas três horas de sono mal dormidas que, ao contrário do frenético Prof. Marcelo, me afundaram num estado de entorpecimento insuperável, por mais cafeína que haja ingerido até à hora em que escrevo este texto.
Independentemente das suas invulgares e inimitáveis qualidades de interpretação enquanto actor, Jeremy Irons inebria pelo simples discurso. A verdade é que, desde tempos imemoriais – e talvez fosse eu ainda um aprendiz de “puto sem cueiros” –, me delicio com a bem vincada received pronunciation de Irons – apenas comparável na História do cinema à de Laurence Olivier – iniciada com Reviver o Passado em Brideshead e prolongando-se depois por cada filme em que participa, especialmente quando desempenha o invisível papel de narrador.

Dois exemplos:

A comovente e inesquecível parte final do remake de Lolita de Nabokov, realizado por Adrian Lyne, quando Humbert Humbert (Irons) ouve ao longe o riso inocente e penetrante de crianças a brincar:
«What I heard then was the melody of children at play. Nothing but that. And I knew that the hopelessly poignant thing was not Lolita's absence from my side, but the absence of her voice from that chorus.»
E, na sequência,
«She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita. Light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo... Lee... Ta.»

O segundo exemplo, a abertura de O Homem da Máscara de Ferro de Alexandre Dumas, realizado por Randall Wallace, narrado por Irons:
«Some of this is legend, but at least this much is fact – when rioting citizens of France destroyed the Bastille, they discovered within its records this mysterious entry: “Prisoner number 64389000 – the Man in the Iron Mask.”»

E mais exemplos poderiam ser dados.

Quando Jeremy Irons fala a plateia cala-se, embevecida, hipnotizada pela língua adestrada por Shakespeare, captando sem ruído as ondas hertzianas emanadas pelo reverberar das suas cordas vocais.

Da noite, para além da minha alegria incontida pelo prémio para Irons, alegrei-me por Laurie e pelo colossal Whitaker... e, por que não, por Scorsese e por Babel.

1 comentário:

Mónica (em Campanhã) disse...

eu sucumbo à voz de J Irons