quarta-feira, 16 de agosto de 2006

As linhas com que nos vamos cosendo

Linha do Tua(fotografia retirada do blogue Pensar Ansiães)

O Ministro dos Transportes, Mário Lino, sugeriu o encerramento das linhas de caminho-de-ferro do Tua, Corgo e Tâmega.
Em 1988, Mário Soares em presidência aberta na região do Douro afirma que (e cito de memória) "com ele na Presidência da República o troço de via-férrea, da Linha do Douro, entre o Pocinho e Barca D’Alva jamais fecharia". Todavia, os discursos inflamados e as marcações de posição geralmente não se consubstanciam em actos, e uma vez mais essa triste realidade foi provada empiricamente. O comboio que transportou Sua Excelência o Presidente foi a última composição a efectuar esse percurso.
A Linha do Douro, de São Bento a Barca D’Álva, é hoje uma pura ficção – é a Linha do Meio-Douro!

Era pequeno e já me acostumara a embarcar na luxuriante Estação de S. Bento, ansioso por ouvir o inevitável pregão da senhora gorda, de chinelos e de avental à varina, anunciando «Olhó chicolate a bender a cenhe! Dois chicolates por uma nota de cenhe!». Saía em Campanhã e desejava sempre «boa viagem! E obrigados!»
Era o início do deslumbramento e da pequena quezília com o meu irmão na ocupação do lugar à janela do lado direito.
Subíamos à Régua com o comboio à cunha. Magalas de pé, outros sentados, a contar as façanhas de uma semana de recruta e do gozo fininho aos furriéis, aos cabos e sargentos. Exprobrações pintadas do mais vertiginoso calão, que a minha mãe já não fazia questão de os fazer calar. (É assim a vida… mais cedo ou mais tarde aprenderão! Tenho de lhes recomendar que não os repitam. Está descansada mãe. Hoje só os digo perante a minha família de amigos e no Dragão, mesmo que as razões não sobejem.)
Duas horas se inter-regional; duas e meia se regional. Não havia IP4, nem A4, nem variantes e A24. Havia as tortuosas e torturantes estradas nacionais 15, 101 e 100. Demorava o mesmo tempo... carro ou comboio?
Com o advento do alcatrão e do Itinerários Principais, o comboio deixa de ser um meio alternativo para quem tem pressa de chegar ao destino, para quem não se compadece com a lentidão de uma linha ultrapassada, abandonada, periclitante, percorrida por carruagens vetustas, sem conforto ou dignidade.
A CP não investiu para fixar a clientela. Hoje como ontem a viagem tarda para aqueles que da linha férrea fazem o trajecto que os levará ao trabalho, à família ou até à tropa.
Quem ganhou? Quem beneficiou com este estado de abandono? As companhias de camionagem? As rotas fluviais?
E quem perdeu? Como sempre todos aqueles que têm os ouvidos empanturrados de promessas que nunca foram ou jamais serão cumpridas.
Agora fecha-se de uma assentada os três ramais: Tua, Corgo e Tâmega. Não há passageiros? As carruagens navegam sozinhas? Deixem-se de demagogias e de conversa mole. Invistam em novas composições, na manutenção e no franco melhoramento das linhas.

Estão a matar o Douro, Adolfo! Intercede por nós, aí onde te encontras, Miguel, que te apelidaste pela urze que só aí rebenta!

«O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.»
Miguel Torga, Diário XII, 1977

Nota: ler este texto sobre o assunto no blogue Pensar Ansiães.

1 comentário:

Mónica (em Campanhã) disse...

a este propósito recomendo "carris de papel", colectânea de textos portugueses sobre, ou à volta de, caminhos de ferro. é um Portugal do nosso imaginário que vamos deixar de reconhecer.