segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Regresso e partida

Regressei a 13. Promessa cumprida. Embora persista a incerteza sobre a quem aproveita esse cumprimento.
Um dos benefícios do tempo improdutivo despendido com o que se convencionou chamar de férias: ler, de fio a pavio, os livros que se vão acumulando nas estantes dos não-lidos, sem interrupções, sem que o lamento surdo do corpo, que obnubila a mente pela falta de mais uns miligramas de nicotina, seja o impulsor para a assimilação enlevada de uma meia dúzia de páginas, perdendo-se de forma irremediável o alinhamento para a meia dúzia seguinte.
Na poupada (optimizada) mala de viagem levei comigo sete livros, que à subida deste país indolente – este ano sem fogos em directo nos serviços noticiosos das oito da noite – se perfilaram num conjunto de oito, com o assentimento do treslido DN e de um tal senhor Honoré e o seu Último Adeus.
Das novidades editoriais – livros publicados em Portugal em 2007 – levei apenas dois: um que terminava, outro para estrear nas férias – não esquecendo a fracção dos "Estudos Filosóficos" de A Comédia Humana.
Bellow e Gide – depois Balzac. O Planeta do Sr. Sammler (Texto Editores; Mr. Sammler’s Planet, 1970) e o dostoievskiano, cómico, embusteiro e perverso Lafcadio Wluiki no livro traduzido para português sob o título inaudito de Os Subterrâneos do Vaticano (Ambar; Les Caves du Vatican, 1914) – seguido de O Último Adeus (Europa-América/DN; Adieu, 1830).
Dois romances e uma novela que figurarão, por economia de esforço, sem mais comentários no lugar cimeiro da minha apreciação de livros de 2007.

Deverei estar de partida amanhã, assim que o crepúsculo prenuncie a assunção das sombras – assim mesmo, sem maiusculizar aquilo, sobre o que se foi perdendo a fé...

Nota: algum desencanto, a vívida consciência de um descaminho perante certas tarefas de carácter eminentemente individual (masturbações intelectuais impostas por terceiros) e absolutamente inadiáveis, assim como a ansiedade extrema que deles (estados da alma) decorre, levam-me à centésima tentativa de desintoxicação.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Ir de férias com...

…livros!

N.º 13
«Treize – j’eus un plaisir cruel de m’arrêter sur ce nombre.»
Marcel Proust

I. Os livros e as prostitutas podem levar-se para a cama.
II. Os livros e as prostitutas entrecruzam o tempo. Dominam a noite tal como o dia e o dia tal como a noite.
III. Ao ver os livros e as prostitutas ninguém nota que os minutos lhe são preciosos. Mas quando lidamos com eles mais de perto, então notamos a pressa que têm. Fazem contas também enquanto nos afundamos neles.
IV. Desde sempre os livros e as prostitutas têm entre si um amor infeliz.
V. Os livros e as prostitutas – ambos têm toda a espécie de homens que vivem deles e os atormentam. Os livros têm os críticos.
VI. Livros e prostitutas em casas públicas – para estudantes.
VII. Os livros e as prostitutas – raramente aquele que os possuiu lhes vê o fim. Costumam desaparecer antes de perecerem.
VIII. Os livros e as prostitutas contam com o mesmo agrado e mentira como se tornaram no que são. Na verdade, frequentemente, nem eles próprios o notam. Durante anos tudo é feito “por amor” e, certo dia, anda na rua como corpus bem carnal, aquilo que “enquanto estudo” pairava sempre por cima dela.
IX. Os livros e as prostitutas gostam de voltar as costas quando se expõem.
X. Os livros e as prostitutas têm muitas crias.
XI. Os livros e as prostitutas – “velha beata – jovem puta”. Quantos livros por onde actualmente a juventude tem de aprender não foram difamados!
XII. Os livros e as prostitutas têm as suas zangas diante das pessoas.
XIII. Os livros e as prostitutas – as notas de rodapé são neles o que nelas são as notas na meia.


Walter Benjamin, Rua de Sentido Único. Lisboa: Relógio D’Água, 1992, pp. 65-66. (tradução de Isabel de Almeida e Sousa; obra original: Einbahnstrasse, 1928).

Vou de férias com... Regresso a 13.

Ainda McEwan

Christopher HitchensNo último número (Julho/Agosto) da revista norte-americana The Atlantic (anteriormente designada por The Atlantic Monthly), o escritor, crítico e colunista britânico, residente nos Estados Unidos, Christopher Hitchens escreve sobre o último trabalho do seu eminente compatriota Ian McEwan, Na Praia de Chesil, e a consagração deste último como o escritor nacional“Think of England”.
Entre outros assuntos conexos, Hitchens, tal como fizeram alguns críticos literários antes dele, fala da coincidência histórica entre a novela de McEwan e o célebre poema de Philip Larkin (1922-1985) “Annus Mirabilis”, escrito em 1967 – trezentos anos após o poema épico homónimo de John Dryden que narra os acontecimentos do Grande Incêndio de Londres (entre 2 e 5 de Setembro de 1666) e, segundo se supõe, atribuindo-lhe uma natureza miraculosa ou decorrente da vontade divina devido ao pequeno número de baixas; assim como a vitória esmagadora da armada inglesa sobre os holandeses na Batalha de Lowestoft a 13 de Junho do mesmo ano, o ano da besta do 2.º milénio.

Da leitura do artigo, passando por uma releitura das sinopses fornecidas pela editora e até de algumas críticas, concluí que existe uma disfuncionalidade cronológica entre o autor, a editora e as inúmeras recensões publicadas na imprensa de língua inglesa antes da publicação da obra, alastrando-se, de forma pandémica, aos textos que se seguiram – virulência assaz frequente no crítico profissional que não lê a obra recenseada e que, imbuído de um curioso espírito de solidariedade profissional, vulgo engenho mimético, acaba por cair no mesmo erro, embora, por um zelo singular, a exegese surja sempre num estilo mui íntimo, revelador da erudição e da cientificidade literária do autor.
Bem, ou então… tudo está correcto, McEwan desfruta da companhia do seu meio-irmão recentemente descoberto, enquanto esboça a próxima obra, e o mundo, na sua inexorabilidade, pula e avança… e eu, na minha eventual neurose obsessivo-compulsiva, que se manifesta por um putativo rigor anacrónico, insisto num pormenor decerto obviável – e não recebo nada por isso.

Para que se possa entender o propósito desta torturante, quiçá tortuosa, arguição, convém delinear um fio condutor que, pelo menos, permita um pequeno vislumbre da sua finalidade (inutilidade), seguindo, para o efeito, um método por etapas.
Em primeiro lugar, é de todo aconselhável começar com o tal poema de Larkin:

Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(which was rather late for me) –
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.

Up to then there'd only been
A sort of bargaining,
A wrangle for the ring,
A shame that started at sixteen
And spread to everything.

Then all at once the quarrel sank:
Everyone felt the same,
And every life became
A brilliant breaking of the bank,
A quite unlosable game.

So life was never better than
In nineteen sixty-three
(Though just too late for me) –
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.


Philip Larkin, “Annus Mirabilis”, (1967)

(Segundo Hitchens – merecendo inclusive nota de destaque na revista:
«Somente Philip Larkin logrou descrever o sexo de forma ainda mais crua em comparação com a que aqui [Na Praia de Chesil] faz McEwan. Não houve imperícia, falhanço ou desgraça que tivesse ficado por revelar.» [Tradução Livre: AMC])

Em segundo lugar, se dispuserem de alguma reserva mental que vos permita ler, ou então reler – podendo, neste último caso, redundar num processo autopunitivo mais severo –, qualquer texto por mim escrito e publicado neste blogue, escrevi no passado dia 2 de Maio
este texto – também indicado na coluna da direita – sobre a minha experiência de leitura desta pequena obra-prima de McEwan.

Em terceiro lugar, Hitchens, as sinopses das edições inglesa e portuguesa do livro de McEwan e a generalidade dos críticos afirmam, de forma categórica e inequívoca, que a acção principal de Na Praia de Chesil – a famosa noite de núpcias – decorre no Verão de 1962. Ora, no caso do meu estimado leitor haver arriscado o esgotamento da sua paciência lendo
o meu texto de pseudo-recensão – e se chegou até aqui, por que não dar o benefício da dúvida e fazer mais um esforço –, certamente verificou que situo a dita acção no Verão de 1963.

Hipótese nula: a acção de Na Praia da Chesil ocorre no dealbar do coito como forma de expressão sexual.

Ou seja, rejeitar a Hipótese Pré-Larkin, em detrimento da Hipótese, mais poética, de coetaneidade.

Começando pela análise do poema de Larkin, consegue-se, facilmente, delimitar um período para o alvor da explicitação sexual:

  • the end of the Chatterley ban”, fim do processo judicial que visava proibir a venda do romance O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence: 2 de Novembro de 1960;
  • the Beatles' first LP”, estreia do primeiro L.P. dos BeatlesPlease Please Me, editado pela Parlophone (empresa subsidiária da EMI): 22 de Março de 1963.

Outros factos históricos:

  • os Beatles assinam o primeiro contrato com a EMI a 6 de Junho de 1962, nos famosos estúdios de Abbey Road, Londres, e publicam o primeiro single “Love Me Do” em 5 de Outubro de 1962, que integrava a canção “P.S. I Love You”. Segundo as inúmeras biografias e artigos de enciclopédia, o primeiro single teve um sucesso moderado, atingindo apenas a 17.ª posição no top de vendas do Reino Unido. O segundo single – que iria emprestar o nome ao primeiro álbum – “Please Please Me” é lançado no mercado britânico a 11 de Fevereiro de 1963 – foi primeiro grande sucesso dos Beatles, atingiu as 2.ª e 3.ª posições nos tops de vendas do Reino Unido e dos Estados Unidos, respectivamente.

Factos apontados no enredo da novela Na Praia de Chesil de Ian McEwan:
Edward Mayhew [destaques meus]:

  • «[Edward] Tinha nascido em 1940, demasiado tarde no século, para acreditar que estava a maltratar o corpo» (pág. 21).
  • «Naquela manhã, enquanto se vestia para o casamento […] decidira que nenhuma das figuras da sua lista poderia ter conhecido aquele tipo de satisfação […] Ali estava ele [Edward], um homem magnificamente realizado, ou quase realizado. Com vinte e três anos, já quase os tinha superado a todos.» (pp. 15-16)
  • «Ele [Edward] tinha nascido em Julho de 1940, na semana em que começou a batalha de Inglaterra.» (pág. 51). A batalha de Inglaterra, refere-se às hostilidades entre a Luftewaffe e a R.A.F. pelo domínio dos céus e pela supremacia aérea, iniciou-se a 10 de Julho de 1940 (quarta-feira).
  • «O Casal […] chegara ao entardecer ao hotel na costa de Dorset com um tempo que não era perfeito para meados de Julho» (pp. 7-8).
  • Seguindo as regras da aritmética mais simples, se o nosso herói nasceu em Julho de 1940, entre os dias 7 (domingo) e 13 (sábado), e se contava 23 anos, a acção desenrola-se, fatalmente, no ano de 1963, mais concretamente no Verão desse ano.

Referências musicais:

  • «Ele fê-la ouvir interpretações “desajeitadas mas respeitáveis” das canções do Chuck Berry pelos Beatles e os Rolling Stones.» (pág. 100). O primeiro single dos Rolling Stones saiu para o mercado a 7 de Junho de 1963, tratava-se de “Come On”, uma cover de uma canção de Chuck Berry. Todavia, segundo o The Complete Works of the Rolling Stones 1962 - 2007, entre 1962 e 1963, os Rolling Stones já tinham no seu repertório algumas canções de Chuck Berry: Brown-Eyed Handsome Man, Childhood Sweetheart, Don’t Lie To Me, Jaguar and Thunderbird, Johnny B. Goode, Little Queenie, No Money Down, Our Little Rendezvous e Sweet Little Sixteen. O período retratado nesta fase do livro, refere-se à fase do conhecimento mútuo pré-matrimónio, e neste caso relata os antagónicos gostos musicais de ambos. Episódio ocorrido, pelo menos, um ano antes do casamento.

Referências políticas:

  • «E ele [MacMillan] tinha despedido um terço do seu gabinete na “noite das facas longas”, o que exigia coragem. Mac the Knife, chamava-lhe um cabeçalho, Macbeth!, dizia outro.» (pág. 30). Nesta parte da narrativa, Edward tenta ocupar a sua mente com assuntos políticos para evitar ejacular precocemente, enquanto abraça Florence e ambos se beijam freneticamente. A “noite das facas longas” refere-se ao despedimento compulsivo de cerca de um terço dos membros do Governo pelo Primeiro-Ministro britânico Harold MacMillan numa só noite: 13 de Julho de 1962.

Conclusão: hipótese nula não rejeitada. Rectifica lá as datas, Hitchens. A acção principal da novela Na Praia de Chesil não decorre na fase pré-coito, ou se se preferir, na fase pré-Larkin, mas, impudicamente, durante o coito (ou a faso do).

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Aplausos

Autoridade da Concorrência multa PT em 38 milhões de euros por abuso de posição dominante.

Finalmente, alguém com coragem para abanar – não creio que seja, para já, o princípio do fim – as estruturas de um monopólio, mantido durante anos a expensas dos contribuintes e com o beneplácito dos governantes deste país – os mesmos que mais tarde, saídos do Governo, integravam os órgãos colegiais da dita empresa.

Actualmente, não tenho uma única relação comercial com a PT: telemóvel, internet, telefone fixo e televisão por cabo. Poupo mais de 50 euros mensais.

Sou PT Free há um ano! (e não foi necessário seguir o método dos 12 Passos).

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Mais Bellow

A Texto Editores – bendita seja – continua a publicar, na sua colecção “Grandes Autores – Prémio Nobel”, as obras do autor norte-americano, nascido no Canadá, Saul Bellow (1915-2005).
Depois de, nos dois últimos anos, haver editado os romances A Vítima, Henderson, O Rei da Chuva e Aproveita o Dia, a editora recentemente adquirida por Miguel Paes do Amaral, lançou hoje no mercado português O Planeta do Sr. Sammler, 7.º romance de Bellow, Nobel da Literatura em 1976.
Apesar deste esforço editorial considerável – a edição ou a reedição de obras de autores consagrados publicadas há dezenas de anos –, e centrando-me no caso concreto de Saul Bellow, continuam por editar em Portugal, fazendo fé na crítica especializada, duas das suas melhores obras: The Adventures of Augie March (1953) e Humboldt’s Gift (1975), respectivamente, os seus 3.º e 8.º romances.
Faço figas…


Abertura:
«Pouco depois do amanhecer, ou do que seria o amanhecer num céu normal, o Sr. Artur Sammler, com o seu olho de lince, examinou os livros e os papéis do quarto do West Side e teve fortes suspeitas de que aqueles eram os livros errados, os papéis errados.» (Saul Bellow, O Planeta do Sr. Sammler, Texto, 2007, pág. 5).

Obras de Saul Bellow publicadas em Portugal:

  • Na Corda Bamba (Dom Quixote, 1976; Dangling Man, 1944);
  • A Vítima (Texto, 2006; The Victim, 1947);
  • Aproveita o Dia (Texto, 2007; Seize the Day, 1956);
  • Henderson, o Rei da Chuva (Texto, 2006; Henderson the Rain King, 1959);
  • Herzog (Relógio D’Água, 1988; 1964);
  • O Planeta do Sr. Sammler (Texto, 2007; Mr. Sammler's Planet; 1970);
  • Morrem Mais de Mágoa (Livros do Brasil, 1990; More Die of Heartbreak, 1987);
  • Uma Recordação Minha (Teorema, 2005; Something to Remeber Me By, 1991) [inclui para além do conto epónimo, os contos: Um Furto – A Theft, 1989; A Organização Bellarosa – The Bellarosa Connection, 1989];
  • A Autêntica (Teorema, 2000; The Actual, 1997);
  • Ravelstein (Teorema, 2005; 2000).

terça-feira, 31 de julho de 2007

Antonioni


Michelangelo Antonioni
(n. 29/09/1912 – m. 30/07/2007)

No mesmo dia, Bergman e Antonioni, com ou sem felizes campanhas, deixam mais pobre o cinema europeu. Para completar o ramalhete, embora um pouco mais novos, já só faltam Rohmer (1920) e Godard (1930)…

Em baixo, a famosa sequência da sessão fotográfica de David Hemmings com a loura esplendorosa Veruschka von Lehndorff, no excepcional Blow-Up (1966):


segunda-feira, 30 de julho de 2007

O Sétimo Selo

Ingmar Bergman - O Sétimo Selo
Perseverante. Xeque-mate aos 89 anos.

Ingmar Bergman
(n. 14/07/1918 – m. 30/07/2007)

Na imagem: Max von Sydow (Antonius Block) com Bengt Ekerot (A Morte) no meu filme preferido do cineasta sueco, O Sétimo Selo de 1957 (Det sjunde inseglet).

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Carta a Nietzsche

Saul BellowBelíssima e ilustrativa esta história do Lutz. Medonha e grotescamente verídica pela mera inferência do caso para uma realidade que julgáramos ultrapassada, ou então, restringida a uma realidade periférica. A (falta de) eficiência alemã e a política de extermínio do III Reich, Os Protocolos

(Escrevi uma série de parágrafos que acabei de apagar. Neles falava das minhas raízes cristãs, no meu cavalgante agnosticismo e do estado de decrepitude em que se encontra a minha fé; terminando com a constatação, por diversas vezes reiterada, da esmagadora preponderância de autores judeus nos meus gostos literários e nos standards musicais americanos: são tão poucos sobre seis mil milhões…)

Deixo-vos apenas com uma carta redigida por Moses E. Herzog (personagem criada por um judeu, gigantesco entre gigantes, que venceu o Nobel da Literatura em 1976) a Friedrich Nietzsche:

«Caro Herr Nietzsche – Excelentíssimo senhor. Poderei fazer-lhe uma pergunta cá de baixo? Refere-se ao poder do espírito Dionisíaco de suportar a visão do Terrível, do Problemático, de se permitir a luxúria da Destruição, de testemunhar a Decomposição, a Hediondez, o Mal. Tudo isto o espírito Dionisíaco o pode fazer porque aufere da capacidade de restabelecimento da própria Natureza. Algumas destas expressões, permita-me que lho diga, têm uma aura muito germânica. Uma frase como a “luxúria da Destruição” é francamente wagneriana, e eu bem sei por que razão veio a desprezar toda essa idiotice e bombástico doentios de Wagner. Actualmente, já assistimos a destruições suficientes para pôr amplamente à prova o poder do espírito Dionisíaco, e onde estão os heróis que disso se refizeram? Estou só com a Natureza (ela própria) nos Berkshires, e é esta a minha oportunidade de compreender. Estou deitado numa rede, com o queixo sobre o peito, de dedos entrelaçados, com o espírito atolado em pensamentos, agitado, sim, mas também alegre, e sei que valoriza a alegria – a autêntica alegria, não o aparente optimismo dos epicuristas, nem a flutuabilidade estratégica dos desesperados. Sei igualmente que considera que a dor profunda enobrece, a dor que arde lentamente, como madeira verde, e nisso concordo consigo, em parte. Mas para essa educação superior é necessária a sobrevivência. É preciso resistir à dor. […] Não, na verdade, Herr Nietzsche, tenho por si grande admiração. Simpatia. Deseja capacitar-nos para vivermos com o vácuo. Não nos iludindo com as boas intenções, a confiança, com considerações humanas, vulgares e medianas, mas indagando como nunca se indagou, incansavelmente, com férrea determinação, no mal, através do mal, para além do mal, não aceitando qualquer abjecto conforto. As perguntas mais absolutas, mais pertinazes. Rejeitando a humanidade tal como ela é, essa multidão vulgar, prática, salteadora, fedorenta, obscurecida, estúpida, não apenas a multidão dos trabalhadores, mas essa multidão “educada”, ainda pior, com os seus livros e concertos e conferências, o seu liberalismo e os seus “amores” e “paixões” românticos e teatrais – tudo isso merece morrer, e morrerá. Está bem. No entanto, os seus extremistas têm de sobreviver. Sem sobrevivência, não há Amor Fati. Os seus imoralistas também comem carne. Andam de autocarro. Mas são os viajantes que pior se dão com os autocarros. A humanidade vive principalmente de ideias pervertidas. Pervertidas, as suas ideias não são melhores que as do Cristianismo que condena. Qualquer filósofo que deseja manter-se em contacto com a humanidade deveria previamente perverter o seu próprio sistema para ver como será encarado algumas décadas após a adopção. Envio-lhe os melhores cumprimentos deste jardim de luz temporal onde pulula a relva, e desejo-lhe felicidades, onde quer que se encontre. Seu, sob o véu de Maya, M. E. H.» (pp. 372-374)

Saul Bellow, Herzog. Lisboa: Relógio D’Água, 2.ª edição, 1988, 398 pp. (tradução de Luísa Ducla Soares; obra original: Herzog, 1964).

Um destaque meu no original (creio que a verdadeira essência da acusação não se revela na tradução em português):
«I also know that you think that deep pain is ennobling, pain which burns slow, like green wood, and there you have me with you, somewhat.»

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Morto de morte matada

Hoje, na Bertrand das Antas, enquanto verificava as novidades editoriais, deparei-me com um livro, sobre o qual já havia lido a notícia da sua publicação num jornal da especialidade, cujo título seria susceptível de fazer intervir a Super Zezinha com a sua equipa especial do MP: Matei um homem.

Folheei-o e logo me apeteceu desfolhá-lo. Vejamos a abertura (não sei se vos acontecerá o mesmo, mas, depois de a ler, fui assaltado por uma sensação de déjà-vu):

«Matei um homem. Não me importei. Não foi por mal nem por bem. Apeteceu-me. Podia ter morto dois, ou três, ou sei lá quantos. Podia ter morto uma mulher. Calhou ser aquele. Não o escolhi. Não o conhecia. Matei-o.» Alexandra Carita, Matei um homem (Alêtheia) [destaques meus]

Hoje, mataram o português. Uma epidemia de irregularização de particípios passados varre o país de Norte a Sul. O “empregue” e o “empregado”. O “aceite” e o “aceitado”. O “morto” e o “matado”. A primeira forma verbal de cada par, para os verbos “empregar”, “aceitar” e “matar”, corresponde ao respectivo particípio passado irregular; a segunda forma, refere-se ao particípio passado regular.
Se matar um homem já é coisa grave, tê-lo morto é ainda pior, porque para além da consumação de um crime contra a vida de um ser humano, acto legal e moralmente condenável, assassina-se o português sem dó nem piedade.
Podia ter matado dois, mas só um estava morto.
Podia ter matado uma mulher, porém só um cão foi morto.

Regra para memória futura: com os verbos “haver” ou “ter” utiliza-se sempre o particípio passado regular; com os verbos “ser” ou “estar” usa-se o particípio passado irregular – isto se os verbos dispuserem de um particípio passado irregular.
A tal patologia lusa da irregularização aguda é um caso grave… Hum! Digamos que, esdrúxulo, pela criatividade revelada. Vejamos:
Eu tinha marco muitos golos…
Tu tinhas passo o exame se…
Todos os dias ouvimos coisas desta natureza.
Bom, adiante.
Acaso já vos disse que já escrevi as primeiras frases do meu romance. Elas aqui ficam

Tratem-me por Ismael. [1] Dentro em breve estarei apesar de tudo bem morto finalmente. Talvez para o mês que vem. [2] O melhor seria escrever os acontecimentos dia a dia. [3] Mais ou menos tudo isto aconteceu. [4]
Era um dia claro e frio de Abril, nos relógios batiam as treze. [5] Sou um homem doente… Sou um homem mau. [6] Enterrei hoje a minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. [7] Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado. Foi este o ultimato, o exasperante, inacreditável e absolutamente imprevisto ultimato (…) [8] Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar. [9] No dia seguinte ninguém morreu. [10]

Nota: Houve uma alma diligente e rigorosa que me obrigou a postar estas notas… não percebo a necessidade:
[1] Herman Melville, Moby Dick.
[2] Samuel Beckett, Malone está a morrer.
[3] Jean-Paul Sartre, A Náusea.
[4] Kurt Vonnegut, Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças.
[5] George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro.
[6] Fiodor Dostoievski, Cadernos do Subterrâneo.
[7] Vergílio Ferreira, Alegria Breve.
[8] Philip Roth, Teatro de Sabbath.
[9] Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido.
[10] José Saramago, As Intermitências da Morte.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Escolhas [actualizado]

Na edição n.º 960 do JL (a última nas bancas) João Tordo e José Luís Peixoto postam, sem mais comentários, as suas preferências literárias – secção “os livros da minha vida” – subdivididas por duas tabelas de dez entradas cada: (1) obras de autores portugueses e (2) obras de autores estrangeiros.
Deixando de parte as escolhas nacionais, onde constam nomes como Vergílio Ferreira, Aquilino, Torga e Cardoso Pires para Tordo e Raul Brandão, Herberto Hélder, Herculano, Soeiro Pereira Gomes e Ruy Belo para Peixoto, unindo-os autores como os imprescindíveis Eça, Saramago, Lobo Antunes e Pessoa – não lhes perdoando, apenas, o pecadilho de não haverem incluído, pelo menos, uma obra de Agustina–, são mais interessantes as escolhas de obras de autores estrangeiros, desde logo porque, pela primeira vez, desde que o JL publica a referida secção, com elas irmano os meus gostos literários.
Embora não tema o costumeiro e blogosférico apodo de intruso no campo das letras, atrevo-me a asseverar que, tanto João Tordo (n. 1975), como José Luís Peixoto (n. 1974) são já, no ano da Graça de 2007, valores seguros da literatura nacional, prometendo, se a vida lhes permitir, o não fenecimento de um género literário que muito me agrada e que muitos rotulam, jocosamente, de pós-modernista.
Ao contrário dos rotuladores do regime, não entendo, por um lado, em toda a sua plenitude semântica, o conceito de pós-modernismo; descortino-lhe alguns traços, porém não lhe vislumbro uma estrutura sólida, hermética, com objecto, missão, meios e, talvez, alvos pré-definidos. Por outro lado, se ser pós-modernista permite dá o direito ao autor de se incluir num grupo constituído por Beckett, Pynchon, Ishiguro, Borges, McEwan, DeLillo, Bellow, Auster ou Philip Roth, então, quem tem medo do pós-modernismo?

Eis a selecção oficial (efectuei algumas correcções e acrescentei a editora, no caso de a obra se encontrar editada em Portugal):

João Tordo
  • Edgar Allen Poe – Histórias Completas (Arcádia);
  • Javier Cercas – O Inquilino (Asa);
  • William S. Burroughs – Junky (Editorial Notícias);
  • Ian McEwan – Expiação (Gradiva);
  • Patrick McGrath – Spider, A Teia da Loucura (Presença);
  • George Orwell – Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (Antígona);
  • Paul Auster – A Trilogia de Nova Iorque (Asa);
  • Fiodor Dostoievski – Crime e Castigo (Presença);
  • Herman Melville – Moby Dick (Relógio D’Água);
  • James Joyce – Gente de Dublin (Livros do Brasil).

José Luís Peixoto

  • Walt Whitman – Canto de Mim Mesmo (Assírio & Alvim);
  • Albert Cohen – Bela do Senhor (Círculo de Leitores);
  • William Faulkner – O Som e a Fúria (Dom Quixote);
  • Fiodor Dostoievski – O Idiota (Presença);
  • Marguerite Yourcenar – Memórias de Adriano (Ulisseia);
  • Juan Rulfo – Pedro Páramo (Cavalo de Ferro);
  • Charles Bukowski – Ham on Rye;
  • L.F. Céline – Viagem ao Fim da Noite (Ulisseia);
  • Dave Eggers – What is the What;
  • Peter Singer – Ética Prática (Gradiva).

Eu (n. 1972) identifico-me com esta geração. Para além das obras de sua autoria, a quase totalidade dos seus 20 livros faz parte de Os Meus Livros.

[Adenda, às 23:24]: a (minha) identificação atrás referida, parte do princípio (talvez erróneo) que os autores procuraram construir as suas listas seleccionando, na sua maioria, obras pertencentes à literatura contemporânea de ficção. Como notou o Henrique, com algumas excepções, faltam os grandes clássicos e as grandes obras ou tratados filosóficos. Suponho não ter sido esse o espírito do desafio. Mas como referi, trata-se apenas de uma suposição minha… talvez, crédula e pueril, porém, válida.

Ritmos Etéreos (II)

Estou de novo em 1992. Doces 20 anos.
Na Rádio Comercial, Pedro Costa dava lugar a Aníbal Cabrita para gozar umas merecidas férias. O programa ia apenas da três às quatro da tarde, antecedia o jurássico Rock em Stock de Luís Filipe Barros – os Def Leppard lideravam as listas de vendas com Adrenalize e o sucesso “Let’s Get Rocked”; a versão ao vivo de 1988 de “Run Like Hell”, com Gilmour e sem Waters, dos Pink Floyd ainda imperava.
O programa radiofónico era o 4.º Bairro.
De Inglaterra surgia, de forma fulgurante, um nome no apartado musical então denominado por House: Felix.
Segundo rezavam as crónicas, Felix era o pseudónimo de um tal de Francis Wright, um miúdo inglês de apenas 17 anos de idade, que num dia de inspiração pegou num sample “Don't You Want My Love”, pertença de um trio feminino norte-americano chamado Jomanda, e criou um trecho musical que se propagou, à velocidade da luz, por todas os clubes de dança à escala do globo. A pequena peça musical electrónica ficará para a História como um dos ícones da geração House dos anos 90:

Felix - Don't You Want Me (1992)



Nota: Felix, um estranho caso do Síndrome de Bartleby no campo musical, compôs apenas mais uma música. Chamava-se “It Will Make Me Crazy”, igualmente um sucesso de vendas, embora, segundo a minha mui particular escala de apreciação, se situasse umas léguas abaixo da primeira.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Clorofila

Hoje de manhã, enquanto deambulava pela minha habitual actualização informativa na blogosfera, uma força estranha apoderou-se do meu sistema informático.
Tentei ligar-me ao Pedro Vieira – uma das pessoas que, pela graça e pelo saudável atrevimento do seu blogue, me vai impedindo a já muito ensaiada desistência. Uma fina ironia, daquelas coincidências que insistimos atribuir ao divino, assim que carregava na dita ligação, um misterioso erro teimava em fechar todas as janelas do Internet Explorer. Consegui aceder ao
Irmãolucia ao fim da 4.ª tentativa. Sinal sagrado!
Insondáveis são os caminhos do Senhor.
Possivelmente houve a mais do que zelosa intervenção de uma força divina, que teima em encarreirar no trilho da bem-aventurança os meus passos supostamente extraviados. Passos que há alguns anos me vão levando para bem longe da Fé, pelo pouco crédito que vou atribuindo àqueles que, segundo rezam as Escrituras, foram feitos à Sua imagem.
Talvez seja um reducionista. Talvez assim pense, sinta e aja por mera letargia ou por um menos gravoso comodismo, embora, nas minhas poucas certezas, atribua uma ínfima probabilidade a essa insuficiência de ponderação.

Pobre Mrs. Jean Watts!
Professora de Ciências da Natureza e de Religião de Hitchens quando este tinha apenas nove anos.
Quem? Christopher Hitchens, o trotskista, amigo do Islão, que mais tarde descobriu pela sua avó possuir uma costela de judeu, e que agora apoia fervorosamente George W. Bush e a sua cruzada no Iraque, sendo por muitos considerado como um verdadeiro neocon, ou pelo menos uma das fontes de inspiração do neoconservadorismo norte-americano – as voltas que a vida dá.
E Hitchens narra um maravilhoso passeio pelo campo e a sua precoce epifania ateísta:
«[…] houve um dia em que a pobre Mrs. Watts se transcendeu por completo. Procurando, de forma ambiciosa, a fusão entre os seus dois papéis de professora de ciências e de instrutora da Bíblia, disse: “Vejam bem, crianças, quão poderoso e generoso é Deus. Ele fez com que todas as árvores e ervas fossem de cor verde, que é exactamente a cor mais repousante para os nossos olhos. Agora imaginem se a vegetação fosse toda púrpura ou cor-de-laranja, que horrível isso não seria.”
[…] fiquei francamente chocado com aquilo que ela disse. […] Aos nove anos, eu não tinha ainda uma ideia sobre […] a relação entre a fotossíntese e a clorofila. […] Eu apenas sabia, quase como se tivesse usufruído do acesso privilegiado a uma autoridade superior, que a minha professora tinha conseguido errar por completo em apenas duas frases. Os olhos foram ajustados à natureza, e não o contrário.»
Christopher Hitchens, God is not Great: How Religion poisons Everything (Twelve, 2007, pp. 1-2) [Tradução livre: AMC].

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Platão et al.

Não, não foi por falta de aviso – por leitura anterior e aconselhamento ajuizado. Mas naquele dia enquanto revolvia os livros floridos de auto-ajuda na secção de “Novidades” da Fnac, descobri que, para além dos romances históricos ou das efabulações sobre as cefaleias ou herpes labiais de determinado cientista ou personalidade histórica eminente, havia um livro cor de vómito em quarta expulsão – para ser sincero, julguei à partida tratar-se de mais um livro da inefável MRP® –, que me deteve pelo estilo de letra de imprensa garatujado a vermelho sangue pré-oxidado… chamava-se Diário e só faltava a fitinha coquete a enlaçá-lo – praga do kitsch mais balofo que se alastrou aos livros.
Não eram couves, nem tão-pouco alforrecas, o presuntivo cientista literário era outro. Tratava-se, então, do sexto romance de Palahniuk, originalmente publicado em 2003, editado em Portugal no passado mês pela Casa das Letras.
«A Voz de uma geração inquieta. O mestre das vidas marginais», garantia a capa em jeito laudatório.

Chuck PalahniukChuck Palahniuk (n. 1962), escritor norte-americano, de ascendência ucraniana, é actualmente considerado, a par de Bret Easton Ellis (n. 1964) e de Douglas Coupland (n. 1961), como uma das vozes mais inconformadas, um dos escritores de culto da denominada Geração X: a geração que se seguiu aos babyboomers do pós-guerra; seres rebeldes, livres e niilistas, nascidos nas décadas de 60 e 70, cansados, por simples tédio burguês, do american way of life, unindo-os um discurso ligeiro, coloquial e prático, entabulado pela alienação das massas, pelo consumismo, pela globalização, em suma, juntos são susceptíveis – ou, nesse caso, põem-se a jeito – de serem catalogados como epítome da frivolidade existencial contemporânea.
Palahniuk descende da nova vaga pós-modernista da ficção literária norte-americana. A sua estreia literária foi verdadeiramente prometedora. Em 1996, publicava o romance, considerado por muitos como a sua obra-prima, Fight Club (Clube de Combate, ed. port. de 1999, Editorial Notícias).
Muitas questões – ou quiçá, nenhumas… – poderiam ser levantadas se, em 1999, o realizador norte-americano David Fincher não houvesse levado à tela o dito romance – também para muitos, talvez para mim, o seu melhor filme. Magistralmente realizado, o filme contou com as interpretações irrepreensíveis, sublimes, mágicas de Edward Norton, Brad Pitt e Helena Bonham Carter – pronto, estou hiperbólico, estado que Fincher ousa impor-me. Porém, negar esse facto – o da cinematização do romance – para explicar o verdadeiro fenómeno que tornou Palahniuk como objecto de um culto literário, para além de falacioso, já que não existiria filme sem livro, sendo falso o seu inverso, seria como apreciar um carpaccio de salmão antes de, pelo menos, laminar as suas postas – que bela metáfora! Isto, por estes lados, anda cada vez melhor… [este é o meu Tyler Durden… o meu estado de espírito estival.]

Palahniuk é sobejamente conhecido por utilizar na substância das suas tramas tortuosas o tema do neoludismo: práticas de terrorismo urbano, de meios, organização e magnitude diversos que têm como alvo preferencial as grandes corporações multinacionais, de carácter globalizante, que emergiram nos mercados das economias ocidentais à custa do imparável fenómeno da globalização; alvos onde ademais se incluem as classes privilegiadas.
O prefixo “neo” deve-se, como é óbvio, ao reavivamento hodierno do ludismo, cujos primórdios remontam ao século XVIII na Inglaterra da Revolução Industrial. Os seus partidários e fundadores manifestavam-se contra o progresso tecnológico e científico e as suas implicações no factor humano, perpetrando acções terroristas organizadas, que quase sempre culminavam com a destruição de máquinas e instalações industriais. Segundo alguns, o termo “ludismo” tem na sua raiz etimológica o apelido de um operário da indústria têxtil chamado Ned Ludd, que em 1779, num ataque de fúria, entrou numa casa nos arredores de Leicester e destruiu à marretada dois teares de produção de malhas. Mais tarde os seus seguidores, os verdadeiros fundadores do Ludismo ou do Movimento Ludita, juraram fidelidade ao “Rei Ludd” – entidade abstracta – abjurando o Rei de Inglaterra, ficando para a História o dia 11 de Março de 1811 como o início das actividades luditas concertadas.
Para mais informações, porque não começar com um mestre?
Ler o fabuloso artigo de Thomas Pynchon, “Is It O.K. To Be A Luddite?”, publicado no The New York Times (Book Review) em 28 de Outubro de 1984, a propósito da comemoração dos 25 anos da dissertação, tão polémica, como revolucionária, “The Two Cultures and the Scientific Revolution” de C. P. Snow, no âmbito da ancestral e prestigiosa Rede Lecture na Universidade de Cambridge.

Hoje em dia, é inegável que Palahniuk arrasta consigo uma pequena horda de seguidores fanatizados com a sua escrita, prontos a espalhar pelo mundo o putativo sortilégio que emana dos seus livros. A Palahniuk resta apenas alimentar esse culto, não só através de uma sucessão impressionante de romances publicados – quase um por ano –, como também através de um aproveitamento quase irrepreensível desse claro factor de dependência, desse filão comercial, mediante o estabelecimento de uma interactividade público/autor, quase sempre perniciosa no mundo das letras, mas que com o escritor norte-americano tem servido de instrumento de fortalecimento para o seu culto – a clara identificação dos desenraizados do novo milénio.
Por exemplo, em Diário quase todos os nomes dos personagens correspondem a nomes de leitores na vida real. Para o efeito, Palahniuk lançou um concurso, comprometendo-se a seleccionar um conjunto de nomes que, mediante autorização, seriam utilizados no romance. Outros, porém, foram criados numa espécie de charada literária: leia o livro e descubra-lhe os “ovos de Páscoa”.

[Aviso: a partir deste ponto o texto poderá conter algumas pistas para o deslindar do enredo – é a minha veia ludita manifestada através da variante desmancha-prazeres. Se é que há algum para desmanchar…]
O romance, como o próprio nome indica, está redigido sob a forma de um diário, cujas entradas se situam entre os dias 21 de Junho – o solstício de Verão – e 3 de Setembro de um determinado ano. A sua autora, Misty Marie (Kleinman) Wilmot, narra os dias que se sucedem à gorada tentativa de suicídio do seu marido, Peter Wilmot, que, em resultado do terrível e caricato falhanço, se encontra em estado de coma num hospital que se situa fora da imaginária ilha de Waytansea – triste jogo de palavras, “wait and see”, é o local onde decorre a acção – ao largo da costa norte-americana do Pacífico.
Misty e Peter conheceram-se na juventude enquanto frequentavam uma escola de artes no continente. Misty fora criada no limiar da pobreza – pertencia à denominada “escumalha branca” – num parque de caravanas junto ao (inexistente) Lago Tecumseh, no estado da Geórgia, compartilhando uma roulotte com a mãe, que supostamente tinha dois tipos de ocupação… Peter provinha da ilha de Waytansea. Era um jovem andrajoso, de cabelo comprido sujo, que envergava inúmeras jóias de imitação, e, entre elas, um broche iridescente no blusão, previamente espetado no mamilo.
Misty tem aulas de História da Arte e de Anatomia humana. Através dessas disciplinas a protagonista inscreve no seu diário um sem-número de referências do anedotário do mundo das artes: artistas que criavam as suas obras de arte com as suas próprias fezes ou que aspergiam uma tela com o próprio vómito. De igual modo, há um rol de alusões que procura demonstrar que “arte é sofrimento” ou vista como sofrimento, citam-se exemplos de artistas eminentes à trouxe-mouxe e os seus segredos, insanidades e deformidades mais escondidos, como por exemplo o envenenamento por mercúrio ou por chumbo incluídos nas tintas.
Vejamos:

«– Se calhar, as pessoas têm de sofrer a sério antes de se arriscarem a fazer aquilo de que gostam.
Tu disseste isto tudo à Misty.
Contaste-lhe que o Miguel Ângelo era um maníaco-depressivo que se representou a si próprio como um mártir flagelado num quadro. O Henri Matisse desistiu de ser advogado por causa de uma apendicite. O Robert Schumann só começou a compor depois da mão direita ficar paralisada e acabou a sua carreira como pianista concertista.
[…]

Falaste-lhe do Nietzsche e da sua sífilis. Do Mozart e da sua uremia. Do Paul Klee e da sua esclerodermia que lhe encolheu as articulações e os músculos levando-o à morte. Da Frida Kahlo e da sua espinha bífida que lhe cobria as pernas de feridas sangrentas. Do Lord Byron e do seu pé deformado. Das irmãs Brontë e da sua tuberculose. Do Mark Rothko e do seu suicídio. Da Flannery O’Connor e do seu Lúpus. A inspiração precisa de doença, lesões, loucura.
– Segundo Thomas Mann – disse o Peter – Os grandes artistas são grandes inválidos.
[…]

E a Misty começou a pintar.
» (pp. 78-79)

Porém, Misty, que entretanto engravidara, vai viver para ilha de Waytansea, após a morte do sogro, para casa da mãe de Peter, Grace Wilmot, e deixa de pintar. Em breve, transformar-se-á numa vulgar empregada de mesa do restaurante do Hotel Waytansea, com um salário miserável e parcas gorjetas, para se sustentar a si e a Tabitha, a filha do casal, concebida, por uma série de práticas luditas de Peter, antes do casamento.

Como já referi, a acção inicia-se no momento em que Peter se encontra em estado de coma no hospital. Chega o Verão, o ferryboat traz os primeiros veraneantes para a ilha. Os proprietários regressam às casas de férias, arejando-as do ar bafiento pelo encerramento de uma temporada. Começam os problemas…
Entrada no diário: «21 de Junho. A Lua a Três Quartos.» Abertura do romance: «Hoje telefonou um homem de Long Beach. Deixou uma mensagem muito longa no atendedor de chamadas, balbuciando e gritando, falando depressa e devagar, praguejando e ameaçando chamar a polícia, para te mandar prender.» (pág. 9)
Angel Delaporte – mais um jogo de palavras, desta feita em francês, para o “anjo da porta” – queixa-se que a sua cozinha desapareceu. Peter que cuidava das casas abandonadas pelos proprietários durante o Inverno fechou a cozinha de Delaporte: «Um homem telefona do continente, de Ocean Park, a queixar-se que a cozinha desapareceu.» (pág. 23)
Aí está o recorrente neoludismo de Palahniuk. Peter antes de ter tentado o suicídio vandalizou as casas de Verão. Delaporte fez um furo na parede que tapava a cozinha e descobriu um conjunto de frases pintadas na parede: «…ponham o pé na ilha e morrem…» ou «…fujam o mais depressa que puderem deste sítio. Eles matarão todos os filhos de Deus se isso significar salvar os seus próprios…» (pág. 25)

Estão reunidos os ingredientes para mais uma narrativa tortuosa palahniukiana. Porém, a base residirá numa harmonia filosófica entre Platão e Carl Gustav Jung, o Síndrome de Stendhal e um Angel Delaporte estudioso e sintetizador das teorias e métodos de Stanislavski, Pavlov, Sechenov e Poe:

«A análise da caligrafia e a escola do Método, o Angel diz que ambas se tornaram populares ao mesmo tempo. Stanislavski estudou a obra de Pavlov e o seu cão salivante e a obra do neurofisiologista I. M. Sechenov. Antes disso, Edgar Allen Poe estudou grafologia. Toda a gente estava a tentar ligar o físico e o emocional. O corpo e o espírito. O mundo e a imaginação. Este mundo e o seguinte.
[...]
[Angel profere a seguinte asserção, depois de haver passado o dedo indicador de Misty sobre as letras pintadas na parede pelo comatoso Peter]:

– Se a emoção consegue criar acção física, então, o duplicar da acção física consegue recriar a emoção.
» (pág. 66)

Juntemos a filosofia de pacotilha à psicanálise baseada nos arquétipos universais de Jung – com um erro de palmatória «Segundo o filósofo alemão Carl Jung (…)» [destaque meu] (pág. 220) –, ver os outros como projecção de nós próprios, e à Alegoria da Caverna de Platão – «Como a tua cabeça é a caverna, os teus olhos a boca da caverna. Como vives dentro da tua cabeça e apenas vês aquilo que queres.» (pp. 290-291), com a experiência paralisante de Stendhal em 1817, quando visitava Florença, para o seu livro Rome, Naples et Florence, e depois de um dia a visitar os esplendorosos monumentos da cidade, entra na Basílica de Santa Croce em Florença, e eis que se vê acometido de alucinações, ritmo cardíaco acelerado, vertigens e tonturas não só pelos magníficos frescos e pela sua arquitectura fascinante, como também por aí estarem sepultadas figuras esmagadoras como Galileu, Maquiavel ou Miguel Ângelo – foi-lhe diagnosticada “overdose de beleza” –, e teremos o desenlace. Tudo isto numa linguagem pobre, superficial e com as inevitáveis reviravoltas na intriga, que inviabiliza uma leitura honesta ou, então, são os tais bolos com que se compram os tolos.

Classificação: ** (Medíocre)

Referência bibliográfica:
Chuck Palahniuk, Diário. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Junho de 2007, 299 pp. (tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa, Vasco Teles de Menezes; obra original: Diary, 2003).

Nota: Havendo derrogado este ano, por duas ocasiões, o critério de avaliação das obras objecto da minha leitura – não revelar as obras classificadas abaixo das 3 estrelas –, passarei a incluir na coluna da direita, com a respectiva ligação, algumas – e não todas – destas obras. O contador “Livros de 2007” continuará a reflectir, por diferença, o número de obras não incluídas: à data, a diferença é de 1 obra (28 lidas – 27 classificadas).

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Contratação

Na impossibilidade de contratar Gardel ou Piazzolla, o meu clube prepara um novo projecto para orientar a invasão argentina:




Animação garantida!

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Direito de resposta

Exercido por Abílio Neto, santomense, autor do blogue Uma Abordagem, como resultado do texto por mim publicado no passado dia 13 de Junho de 2007, sob o título “Hermenêutica do Racismo”:

«
Caros,
Sobre os V/ escritos.
É preciso não conhecer a obra do Chinua Achebe, CA, (ninguém é obrigado a conhecer tudo), só assim se explicando a estreiteza dos V/ comentários. Reduzir a complexidade da escrita de CA ao mais simples PC parece dar razão ao principal argumento do seu artigo sobre a obra de Conrad: não é (continua a não ser) possível existir complexidade no homem africano, real, criador e / ou representado.
Sobre a justificação da minha intervenção.
Conheço bem as obras de Achebe, Conrad, DeLillo, Roth - nutro uma autêntica paixão por qualquer uma delas - e também pela obra de Edward Said, cuja leitura aconselho, caso queiram ter uma ideia de outras aproximações, considerando as limitações dos comentários que acabei de ler.
Sobre os meus argumentos.
Tanto CA como Said reconhecem o talento dos autores das obras analisadas, reconhecem a qualidade literária das obras, reconhecem o contexto da narração e da acção e reconhecem a «injustiça literária» das suas abordagens, mas avançam para análise, antecipando as suas perspectivas, são culturalistas. Por isso, obrigam-se, no seu tempo, podendo fazê-lo (na altura em que Conrad publicou não podiam fazer...) a dar as suas visões críticas, claro e óbvio, sem fugir ao enquadramento político, que os motiva, pelas suas condições. Para tal, preocupam-se em desconstruir textos de manifesta visibilidade, porque são aqueles que fazem consciências. O privilégio de não ter que o fazer desta forma, a forma de CA e Said, é dos Ocidentais... que podem e puderam sempre ler, tranquila e incondicionalmente.
Sobre mim.
Sim, sou africano, já consigo e posso ler, e, hoje, nem sequer sou particularmente «exótico». Não, não considero Conrad um racista, considero que ele não podia ser outra coisa, e isso agrada-me, porque, hoje, eu posso ser o que quiser. Graças ao Conrad, ao Chinua, ao Roth, ao DeLillo, ao Said e a muitos outros.
Gosto deste blog. Continue. Que merecerá a minha visita.
Desculpa pela maçada ou massada! Feito à correr.
Abraços,

Abílio Neto
».

Álcool

Reparei hoje. O Vítor Neves Fernandes deu, de forma graciosa e abnegada, o seu inestimável contributo para o progresso e o aprofundamento dos estudos protésicos em Portugal ao debruçar-se sobre esse fenómeno em emergência que se deu a conhecer ao mundo por blogosfera.
Partindo do axioma de que um blogue é como “a extensão do pénis”, o Vítor realizou um estudo empírico sobre a população alvo, baseando-se numa amostra perfeitamente aleatória – e que sobre essa aleatoriedade não subsista qualquer sombra de dúvida – de 10 indivíduos , maiores de idade e de ambos os sexos, que impudicamente exibissem à data, pelo menos, uma “extensão peniana”, vulgo blogue. O objectivo do estudo era o de avaliar o impacto do álcool, esse incompreendido instrumento de expiação, sobre a capacidade e a perícia da produção seminal na blogosfera.
De forma a aperfeiçoar o estudo, o Vítor contou com a preciosa ajuda de dois ejaculadores canónicos, não protésicos. O objectivo era o da introdução no modelo de uma variável de controlo, cujos dados foram recolhidos em entrevistas realizadas por si para a revista literária
The Paris Review – o que significa que angariou mais uns cobres para o financiamento do seu trabalho de investigação – a Philip Larkin e a Vladimir Nabokov.
Hoje em dia, como é do domínio de qualquer eminente membro da plebe blogonauta, o lugar que alberga um sem-fim de extensões penianas é um espaço privilegiado para o exercício da reciprocidade, assaz estimuladora da reprodução livre, mas também da paz social e da harmonia global. Nesse sentido tentei dar o meu apport – ah, que toque de classe! – empenhando-me seriamente nessa tarefa hercúlea iniciada pelo Vítor. Usei os meus contactos e o meu solícito agente mediador, um americano do Tennessee chamado Jack Daniels – o qual, vindo a talho de foice, pertence à mais fina aristocracia, é um Bourbon. Porém, todos os meus esforços produziram um e um só resultado. Todos os meus contactos, de casta certificada, Lowry, Bukowski, Hemingway e Dylan Thomas, foram unânimes na resposta, indicaram-me um… português: Mário de Sá-Carneiro (já não lhe bastava o aborrecimento de Camarate…)
Vítor, aqui fica o meu modesto contributo:

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas d'auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo –
Luto, estrebucho… Em vão! Silvo pra além…

Corro em volta de mim sem me encontrar…
Tudo oscila e se abate como espuma…
Um disco de ouro surge a voltear…
Fecho os meus olhos com pavor da bruma…

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio d'inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante –
Manhã tão forte que me anoiteceu.


Mário de Sá-Carneiro, Álcool (Paris 1913 – Maio 4.)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ritmos Etéreos (I)

Do holandês Jaydee, Plastic Dreams (1992):

Andava eu pelos 20. Várias manhãs a sair das catacumbas no Parque Itália (à Júlio Dinis)… os óculos escuros, por antecipação, já seguiam no casaco... Foi há 15 anos!

Ouvir aqui a música completa (melhor qualidade).

Algum Abandono

Capítulo I
Ando arredio. Por vezes, este exercício catártico a que se convencionou chamar de blogosfera – quiçá por disfuncionalidade anatómica ou por dislexia orgânica, nunca a vi como “extensão da pila” (deixemo-nos de pruridos penianos) – deixa-me prostrado, sem ânimo, o cursor a pulsar sobre a folha branca antes do copy & paste, as ideias formigam na minha cabeça, seguem num curso definido e delimitado, mas frequentemente acabam por desembocar num delta, gigantesco, pantanoso… assalta-me um sentimento de vazio: não têm ponta por onde se lhes pegue.

Capítulo II
Livros. Não me sinto capaz de encontrar um simples fio que me conduza à materialização das emoções que se me afloraram durante a sua leitura num texto estruturado. O livro de Palahniuk, que terminei há 5 dias, é medonhamente mau, é pura e simplesmente literatura rasca. Escrevi um monte de parágrafos e não os consigo encaixar num todo conexo que seja capaz de exprimir o meu sentimento de desagrado... repousa para amadurecimento. O mesmo se passa com Aqui Nos Econtramos de John Berger, embora com alguns sentimentos misturados, um belíssima primeira parte e um final um pouco fastidioso. Terminei-o há dois dias, atribuir-lhe-ia talvez 4 estrelas – Bom – mas não consigo encontrar as palavras. Cansam-me as remissões ao texto escrito, tenho preguiça de as procurar. Já para nem falar nalguma frase tipicamente de literatura comparada que, em certas ocasiões, aponho nos meus textos curtos de avaliação pessoal de uma obra. Pensei em Vertigens. Impressões de Sebald, Berger fez-me recordá-lo, porém não vislumbro as palavras que permitam consubstanciar a suposta semelhança entre as duas obras.

Capítulo III
Depois… Depois há a hora habitual do exercício da escrita na blogosfera. Aproveito o silêncio que prepondera no intervalo de tempo em que o trio fantástico de pares de cromossomas X inicia a sua peregrinação ao mundo dos sonhos, e eu, um insone por excelência, ainda vagueio pela casa inventando coisas – a ler, a comer, a ver televisão ou DVD, mais um iogurte com cereais, mais um livro, a escrever no blogue, and so on – antes de me deitar e dormir 4 ou 5 horas... OK, é pouco e eu não sou o Marcelo Rebelo de Sousa, recupero-as (refiro-me às horas de sono perdido) aos fins-de-semana.

Capítulo IV
Não é justo!, assevero com uma estranha indignação. A RTP2 anda a passar o Curb Your EnthusiasmCalma, Larry em Portugal – do genial argumentista e produtor de Seinfeld Larry David. A 1.ª temporada foi exibida na íntegra na semana passada – dois episódios por dia, nos dias úteis. Esta semana iniciou-se a 2.ª temporada – que ainda não havia visto. Há pouco mais de 1 hora acabei de ver os 3.º e 4.º episódios. Talvez se recordem: (3.º ep.) “Trick or Treat”, as meninas adolescentes que vão à porta da casa de Larry para o costumeiro “trick or treat?” na noite de halloween e que são corridas por este pela bitola idade e a qualificação de “vagamente disfarçadas”, mas também é o episódio do assobio do arranjo orquestral Idílio de Siegfried de Richard Wagner que o compôs para oferecer à sua mulher, Cosima, no dia do seu aniversário… a propósito Cheryl faz anos; (4.º ep.) “The Shrimp Incident” lembrem-se dos camarões que faziam parte do prato encomendado por Larry e que, alegadamente, o patrão da HBO comeu, por uma infeliz troca de encomendas, mais tarde remediada porém desfalcada de 8 dos precisosos bichos… É o episódio onde Larry é acusado de violência doméstica e de misoginia pelo uso da palavra “cunt” numa mesa de póquer. Alguém sai do armário…

Epílogo
A hora do silêncio é agora ocupada por Larry David
Para os 7 (e estou a ser generoso) que me lêem com atenção, as minhas desculpas. Queixem-se à HBO e especialmente à RTP2, cada vez melhor na sua criteriosa programação.

Rebuçado

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Alívio

Nove milhões de portugueses sentem que se aproxima, enfim, o momento da libertação do miasma centralista – infelizmente em tese ou, pelo menos, naquilo que os olhos vêem.
Foram meses em que se não era a Ota, era a Câmara, e se não era a Câmara, era Berardo e o Benfica, o Berardo e o Museu Berardo e depois o Mega… chega!
Todavia, enquanto essa libertação, puramente ilusória, não puder ser gozada em toda a sua plenitude, os telejornais e os canais de televisão ditos generalistas vão-nos matraqueando com inúmeros rescaldos. As máquinas partidárias tiram as suas ilações para o todo nacional: vão rolar cabeças... Por aqui vai-se aguardando, em ansiosa esperança, por uma exportação laranja em 2009. A bem da Nação. O Porto perderá o seu filho dilecto, conjuntamente o mais amado pelos lisboetas que, em seis anos de exortações laudatórias, o poriam em cada esquina da Capital.
Os nove milhões continuarão, apesar de tudo, a viver as suas vidas. Desses, três milhões ainda respiram saúde pelo sorvedouro de recursos luso-centralista. Os restantes lutam por manter um nível de vida apenas equiparado ao das regiões mais pobres da Europa a 27.
Cá em cima, o Querido Líder promove uma competição automobilística na zona mais rica da cidade, bem longe do São João de Deus (à Areosa) onde ainda se trafica droga às claras. Quis o destino que as ruas da Alegria, D. João IV, Santa Catarina, do Bonjardim ou toda a zona do Bonfim e de Campanhã se houvessem assestado no extremo oposto da cidade: degradado e degradante; o local com maior incidência de casos de tuberculose do país, doença que, como se sabe, vem sempre associada à miséria extrema.
O Querido Líder faz uma declaração única ao seu blogue… à página da
Web da Câmara que escapou ao país: «uma das marcas mais fortes da cidade do Porto». As corridas de automóveis, a sua grande paixão, para promover a marca Porto. O desporto promove a cidade! É caso para dizer: o que eu lutei para aqui chegar...
«O Porto possui esta marca muito forte, que temos de prestigiar cada vez mais, evitando, na medida do possível, cometer também cada vez menos erros e falhas.»

Mas:
Estamos todos felizes. De anestesia em anestesia, o país rejubila. Sócrates saiu incólume. Lisboa tem Presidente!

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Neoludismo

Se me encontrarem, hoje ou nos próximos dias, num McDonald’s de lenço estendido a apertar, com exagerado entusiasmo, a mão ao empregado do mês, desconfiem.
É um problema de imunidades