«Por muito boa que seja uma lei, ela é invariavelmente inapta. É por isso que a sua aplicação deveria ser disputada ou questionada. E a prática de fazer isto corrige a sua inépcia e serve a justiça.Existem leis más que legalizam a injustiça. Tais leis não são inaptas, porque elas reforçam, quando aplicadas, exactamente aquilo que se pretendia que reforçassem. E é preciso resistir-lhes, é preciso que sejam ignoradas, desafiadas. Mas é claro, compañeros, que o nosso desafio a elas é inapto!»John Berger, De A para X. Cartas de Amor, pág. 36[Porto: Civilização, Abril de 2009, 207 pp; tradução de Isabel Baptista; obra original: From A to X. A Story in Letters, 2008]
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
domingo, 12 de julho de 2009
Divagação apartidária + John Berger
terça-feira, 29 de julho de 2008
Booker Prize 2008 (13 semifinalistas)
Foi anunciada a lista dos treze romances semifinalistas, candidatos ao Man Booker Prize de 2008. Destes treze romances sairão, no próximo dia 9 de Setembro, os habituais seis finalistas, entre os quais figurará o vencedor a ser anunciado no dia 14 de Outubro no habitual jantar no Guildhall em Londres.
Eis os 13 semifinalistas (lista organizada por ordem alfabética do apelido do autor):
- Aravind Adiga, The White Tiger
- Gaynor Arnold, Girl in a Blue Dress
- Sebastian Barry, The Secret Scripture
- John Berger, From A to X
- Michelle de Kretser, The Lost Dog
- Amitav Ghosh, Sea of Poppies
- Linda Grant, The Clothes on Their Backs
- Mohammed Hanif, A Case of Exploding Mangoes
- Philip Hensher, The Northern Clemency
- Joseph O’Neill, Netherland
- Salman Rushdie, The Enchantress of Florence
- Tom Rob Smith, A Criança n.º 44, Dom Quixote (Child 44)
- Steve Toltz, A Fraction of the Whole
Dos 13 romances, apenas um foi, por enquanto, editado em Portugal, trata-se de A Criança n.º 44, o 1.º romance do jovem escritor inglês Tom Rob Smith (n. 1979) publicado pela Dom Quixote, editora que aliás já prometeu a edição para breve do último romance de Sir Salman Rushdie (o amigo literário do crítico britânico James Wood, não atingindo, porém, o paroxismo da sólida amizade que une o autor aos islamitas e vice-versa).
Destaque para a segunda presença do truculento crítico, ensaísta e romancista, assim como artista plástico, John Berger, vencedor do galardão em 1972 (para os mais curiosos, o excepcional ano do meu nascimento) com o romance G. Berger, no discurso de aceitação do prémio, disse que iria doar metade do seu prémio aos então já extintos Black Panthers, devido à política colonialista da sociedade Booker nas Índias Ocidentais (desconhecendo, porém, que as suas plantações de cana-de-açúcar já haviam sido confiscadas pelo menos 10 anos antes). Dois tiros pouco certeiros… mas o show off teve o mérito de ficar marcado na história dos prémios, com insultos, trocas de acusações à mistura e abandonos de sala.
Para o irlandês Sebastian Barry (n. 1955) trata-se da segunda nomeação, depois de ter sido finalista vencido no excepcional ano de 2005 – ano em que venceu John Banville com o dilacerante O Mar (The Sea), relegando para segundo plano, para além do romance A Long Long Way (não editado em Portugal) do próprio Barry, o meu mais que favorito Nunca Me Deixes (Never Let me Go) de Kazuo Ishiguro, A Acidental (The Accidental) de Ali Smith, Uma Questão de Beleza (On Beauty) de Zadie Smith e Arthur & George (Arthur and George) de Julian Barnes.
Também Linda Grant, romancista e jornalista inglesa nascida em 1951, vê pela segunda vez um dos seus romances na listagem dos semifinalistas. Para além deste ano, Grant ficou-se por esta fase com o romance Still Here (não editado em Portugal) em 2002. Exactamente como o seu compatriota Philip Hensher (n. 1960) com The Mulberry Empire (obra não editada em Portugal).
Já Salman Rushdie para além de ter vencido os Booker of Bookers comemorativos dos 25 e dos 40 anos de atribuição do prestigiado prémio com o seu romance Os Filhos da Meia-Noite (Midnight’s Children, Booker Prize em 1981), foi finalista vencido em 1983, 1988 e 1995 com Vergonha (Shame), Os Versículos Satânicos (The Satanic Verses) e O Último Suspiro do Mouro (The Moor’s Last Sigh), respectivamente. No tal ano de 2005 ficou merecidamente pelo caminho como apenas semifinalista com Shalimar, O Palhaço (Shalimar The Clown), podendo gabar-se de ter tido por companhia Ian McEwan com Sábado (Saturday) e o Nobel da Literatura de 2003 J.M. Coetzee com O Homem Lento (Slow Man), também eliminados do sexteto final.
Os restantes elementos vêem pela primeira vez o seu nome inscrito numa listagem do galardão literário mais importante da língua inglesa a premiar uma obra originalmente publicada no Reino Unido, num dos países pertencentes à Commonwealth ou na Irlanda – correm, no entanto, rumores que a Booker Prize Foundation com o grupo financeiro Man têm vindo a estudar a hipótese de alargar o leque de alternativas permitindo a inclusão de obras de romancistas norte-americanos, originalmente publicadas nos Estados Unidos; resta esperar para ver se a tal apetecível perspectiva se concretiza.
Uma pequena provocação: apesar das discrepâncias geográficas, não passa pela cabeça dos organizadores do evento alterar as regras do galardão maior em língua inglesa, para, por exemplo, na próxima edição apenas incluírem na listagem de obras sujeitas a apreciação, aquelas que foram escritas exclusivamente por autores ingleses… do you know what I mean? (tradução: vocês sabem do que é que eu estou falando?)
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Algum Abandono
Ando arredio. Por vezes, este exercício catártico a que se convencionou chamar de blogosfera – quiçá por disfuncionalidade anatómica ou por dislexia orgânica, nunca a vi como “extensão da pila” (deixemo-nos de pruridos penianos) – deixa-me prostrado, sem ânimo, o cursor a pulsar sobre a folha branca antes do copy & paste, as ideias formigam na minha cabeça, seguem num curso definido e delimitado, mas frequentemente acabam por desembocar num delta, gigantesco, pantanoso… assalta-me um sentimento de vazio: não têm ponta por onde se lhes pegue.
Capítulo II
Livros. Não me sinto capaz de encontrar um simples fio que me conduza à materialização das emoções que se me afloraram durante a sua leitura num texto estruturado. O livro de Palahniuk, que terminei há 5 dias, é medonhamente mau, é pura e simplesmente literatura rasca. Escrevi um monte de parágrafos e não os consigo encaixar num todo conexo que seja capaz de exprimir o meu sentimento de desagrado... repousa para amadurecimento. O mesmo se passa com Aqui Nos Econtramos de John Berger, embora com alguns sentimentos misturados, um belíssima primeira parte e um final um pouco fastidioso. Terminei-o há dois dias, atribuir-lhe-ia talvez 4 estrelas – Bom – mas não consigo encontrar as palavras. Cansam-me as remissões ao texto escrito, tenho preguiça de as procurar. Já para nem falar nalguma frase tipicamente de literatura comparada que, em certas ocasiões, aponho nos meus textos curtos de avaliação pessoal de uma obra. Pensei em Vertigens. Impressões de Sebald, Berger fez-me recordá-lo, porém não vislumbro as palavras que permitam consubstanciar a suposta semelhança entre as duas obras.
Capítulo III
Depois… Depois há a hora habitual do exercício da escrita na blogosfera. Aproveito o silêncio que prepondera no intervalo de tempo em que o trio fantástico de pares de cromossomas X inicia a sua peregrinação ao mundo dos sonhos, e eu, um insone por excelência, ainda vagueio pela casa inventando coisas – a ler, a comer, a ver televisão ou DVD, mais um iogurte com cereais, mais um livro, a escrever no blogue, and so on – antes de me deitar e dormir 4 ou 5 horas... OK, é pouco e eu não sou o Marcelo Rebelo de Sousa, recupero-as (refiro-me às horas de sono perdido) aos fins-de-semana.
Capítulo IV
Não é justo!, assevero com uma estranha indignação. A RTP2 anda a passar o Curb Your Enthusiasm – Calma, Larry em Portugal – do genial argumentista e produtor de Seinfeld Larry David. A 1.ª temporada foi exibida na íntegra na semana passada – dois episódios por dia, nos dias úteis. Esta semana iniciou-se a 2.ª temporada – que ainda não havia visto. Há pouco mais de 1 hora acabei de ver os 3.º e 4.º episódios. Talvez se recordem: (3.º ep.) “Trick or Treat”, as meninas adolescentes que vão à porta da casa de Larry para o costumeiro “trick or treat?” na noite de halloween e que são corridas por este pela bitola idade e a qualificação de “vagamente disfarçadas”, mas também é o episódio do assobio do arranjo orquestral Idílio de Siegfried de Richard Wagner que o compôs para oferecer à sua mulher, Cosima, no dia do seu aniversário… a propósito Cheryl faz anos; (4.º ep.) “The Shrimp Incident” lembrem-se dos camarões que faziam parte do prato encomendado por Larry e que, alegadamente, o patrão da HBO comeu, por uma infeliz troca de encomendas, mais tarde remediada porém desfalcada de 8 dos precisosos bichos… É o episódio onde Larry é acusado de violência doméstica e de misoginia pelo uso da palavra “cunt” numa mesa de póquer. Alguém sai do armário…
Epílogo
A hora do silêncio é agora ocupada por Larry David…
Para os 7 (e estou a ser generoso) que me lêem com atenção, as minhas desculpas. Queixem-se à HBO e especialmente à RTP2, cada vez melhor na sua criteriosa programação.
Rebuçado
sábado, 23 de junho de 2007
O fim do romance anglo-saxónico?
(seguindo os passos até ao São João)
Felizes os podcasts da estação de televisão pública. Eis a plataforma que evita a incompatibilidade de horários no mundo… isto é, o do telespectador com o dos seus programas favoritos. Assim seja.
Câmara Clara, programa da RTP2, apresentado pela faiscante Paula Moura Pinheiro, cujo título foi decalcado do último trabalho publicado em vida de Roland Barthes, o ensaio filosófico de 1980 em que Barthes discorreu sobre a fotografia e os seus elementos vivos e essenciais, o studium e o punctum: o primeiro resulta da nossa concepção geral do mundo, onde a fotografia reflecte o nosso interesse apenas como objecto; o segundo é aquele que transforma a fotografia de novo em sujeito, não só pelo simples pormenor que torna a fotografia única a cada indivíduo, visto no momento ou resultante de um processo apuramento da memória, mas também, de forma mais arrebatadora, a consciência da morte ou da sua chegada iminente, porque representa no tempo um momento que deixou de existir… Bom, basta de filosofias!
Ponto de ordem: prosseguindo…
No passado dia 27 de Maio, o Câmara Clara, no meu entender o melhor programa de produção exclusivamente portuguesa no descoroçoante panorama televisivo nacional, contou com a presença do all-in-one das artes e das letras nacionais Jorge Silva Melo. Da ficha do programa destacava-se a celebração dos cem anos de nascimento do actor norte-americano John Wayne – nasceu a 26 de Maio de 1907. Por outro lado, dela constava a promessa de uma boa conversa sobre livros, particularmente daqueles que acompanharam o convidado de honra ao longo da sua vida e da sua carreira literária, discutindo-se, em simultâneo, o estado da arte do mercado editorial português, bem a propósito da abertura da 77.ª edição das feiras do livro de Lisboa e do Porto.Jorge Silva Melo, quer se goste ou não da sua idiossincrasia e/ou das suas ideias ou reflexões, é uma personalidade que se ouve por vício, tem uma capacidade comunicacional ímpar no meio cultural português, pelas fluidez do discurso e limpidez de raciocínio.
Sobre John Wayne, de quem Silva Melo confessou a sua profunda admiração, especialmente nos filmes em que foi dirigido pelo mestre Howard Hawks – de forma notável, referiu, para o efeito e através da exibição de um excerto do filme de 1959 Rio Bravo, a introdução do elemento fragilidade nos personagens interpretados por Wayne quando dirigido por Hawks, comummente apresentado com um homem de ferro por outros realizadores –, evocou um facto curioso que demonstra a perenidade da arte no espírito humano através das suas constantes revoluções e contra-revoluções: recordou que no preciso ano em que Wayne soltava o primeiro choro no Iowa nos Estados Unidos – certamente já instilando, no seu estilo pastoso, a sua voz cava –, Pablo Picasso pintava Les Demoiselles d’Avignon (óleo sobre tela, com as descomunais dimensões de 2,44 por 2,34 metros, actualmente propriedade do MoMA em Nova Iorque) e com ele revolucionou as artes plásticas mundiais, o grande ponto de viragem, o início de um novo paradigma estético que se alastrou às demais artes.
Depois, chegou o momento dos livros. Antes de referir as sugestões de Filipa Melo, consultora de Literatura do Câmara Clara, dou um salto cronológico até Rui Zink para logo regressar a Silva Melo, que discorre sobre o estado do romance anglo-saxónico da segunda metade do século XX.
O último romance de Martin Amis, A Casa dos Encontros (Teorema, 2007), foi destacado mediante a exibição de uma pequena peça jornalística, por Luís Caetano, na qual o hiperbólico Rui Zink, após haver falado do horror dos gulags, exprimiu a sua imensa admiração pelo escritor de Oxford, filho de Kingsley Amis, nestes termos: «o Martin Amis é para mim, simplesmente, o melhor escritor de língua inglesa do mundo… e é-o desde há vinte anos.»
Não podia estar mais em desacordo, embora conheça mal a obra de Amis – devo ter lido, ao todo, 4 ou 5 obras – havendo-me recordado naquele preciso momento de pelo menos dez nomes que, segundo os meus padrões estético-literários, são consideravelmente superiores ao autor de O Cão Amarelo.
Para não os nomear e, para além disso, ter de puxar pela memória e encontrar mais uma meia dúzia escritores de língua inglesa, com obra publicada nos últimos 20 anos, cuja qualidade considero superior a Amis, basta-me fazer de novo um recuo no programa e falar dos quatro gigantes literários norte-americanos propostos por Filipa Melo, no pressuposto – quanto a mim um pouco lírico, a Internet tomou em definitivo esse lugar – de que nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto poderíamos encontrar os livros que, por razões de espaço, há muito abandonaram os escaparates das livrarias portuguesas:
Saul Bellow, Philip Roth, John Updike e Gore Vidal.
Considero qualquer um daqueles quatro nomes com uma razoável distância qualitativa, para melhor, em relação a Martin Amis. No futuro, quem sabe, se lá não chegará… E mais, Zink traduziu Bellow…
Confrontado com os quatro nomes, Silva Melo diz não considerar Gore Vidal como um ficcionista de primeira linha, apesar de ser uma personalidade fascinante [talvez um cínico?, pergunto eu]*; de Philip Roth confessa-se um leitor irregular, lê três obras de Roth de enfiada para depois ficar anos sem o ler, processo que curiosamente metaforiza como de ir «por ataques, são abcessos [sic] de leitura»; de seguida, JSM revela o seu enorme fascínio por Saul Bellow e pelas suas obras, que acompanhava a cada nova publicação, chamando-lhe o fenómeno (de leitura) da «continuidade permanente», cujo processo apenas durou até ao romance Dean’s December, o décimo de quinze romances que Bellow – Nobel da Literatura em 1976 – publicou – morreu a 5 de Abril de 2005; nunca leu com muito interesse as obras de John Updike, apesar de o achar «inteligente, cerebral e pertinente».
Depois veio uma reflexão potencialmente assassina e a apelar para alguma reflexão da blogosfera que se interessa por e admira a Literatura anglo-saxónica (como é, sem qualquer sombra de dúvida, o meu caso):
«Eu tenho algumas dúvidas com a ficção anglo-saxónica desta segunda metade do século XX, ou seja, até justamente Saul Bellow, Graham Greene, Doris Lessing fui um leitor fiel… depois comecei a achar… a ficar um pouco aborrecido com esta hipótese de contar histórias, com esta hipótese de acreditar na ficção e nas personagens sem ter passado pela era da suspeita de que falava tão bem a Nathalie Sarraute.»
Para reflectir enquanto ando nesta tentativa de desintoxicação blogólica. Estarei limpo no dia de São João, ou seja, amanhã…?
Nota: *A propósito de Gore Vidal e das suas qualidades enquanto personalidade do show business americano, há um episódio – para além de outros deliciosos protagonizados com os ex-amigos Capote ou Mailer, ou até com William F. Buckley (a quem, em directo na cadeia de televisão ABC, Vidal chamou de “proto ou cripto-nazi”, motivando a seguinte resposta de Buckley: “Now listen, you queer, stop calling me a crypto-Nazi or I'll sock you in your goddamn face, and you'll stay plastered”) – contado por Fred Kaplan no seu livro de 1999 Gore Vidal: A Biography, em que Saul Bellow, em conversa com Vidal, lhe confessou que um dia gostaria de lhe apresentar o seu filho, para este último ficar a conhecer alguém verdadeiramente cínico.
Promessa: Depois de ouvir JSM, vou ler a obra por ele recomendada Aqui nos Encontramos de John Berger. Já era dela possuidor desde o início do ano. Neste momento passou para a lista de prioridades no enorme arquivo de não-lidos que repousam nas estantes e atulham a minha biblioteca.