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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Os negacionistas


(na imagem: Campo de Concentração de Auschwitz II – Birkenau. Câmara de gás e crematório II – as fornalhas. Fotografia das SS, 1943.)

O jornalista e escritor galego Álvaro Otero (n. 1967) publicou, na segunda-feira passada no seu blogue, um artigo, sob o título Los negacionistas, que arrasa com o rumo seguido pela Igreja Católica no actual papado.
Otero refere-se em concreto às palavras proferidas pelo bispo inglês radicado na Argentina Richard Williamson, que nega o Holocausto e a existência das câmaras de gás, e isto após a sua recente reabilitação (revogação da excomunhão) pela Igreja de Roma a 24 de Janeiro deste ano. Wiliamnson, é um anglicano convertido ao catolicismo, tendo sido ordenado padre em 1976, foi consagrado como bispo em 1988 pela congregação fundada pelo ultraconservador e extremista Marcel Lefebvre, que valeu a ambos excomunhão automática segundo a Lei Canónica.

Eis as palavras finais do artigo de Otero:

«[…] Para defender a sua tese, este bispo que exerce em La Reja, próximo de Buenos Aires, onde costuma sair para fazer footing em sotaina, apoia-se em tais considerações sobre o gás cianeto, sobre a altura das chaminés dos crematórios, sobre o desenho de Auschwitz, que quando alguém as lê se interroga sobre o que é mais delirante, se o facto de que este personagem seja bispo ou que, para continuar a sê-lo, o Vaticano lhe tenha pedido uma retractação, ou seja, que minta sobre a suas verdadeiras convicções. Nada de novo, enfim, na gestão romana da vinha do senhor. Boffs* expulsos, pederastas perdoados, negacionistas de mitra e bordão apregoando as suas sandices a partir do púlpito. Para aqueles que acreditam, um desgraçado e secular soma e segue.» [tradução: AMC; destaque e nota explicativa que se segue de minha autoria.]

Nota: *referência a Leonardo Boff, teólogo, filósofo, escritor e professor universitário brasileiro (em universidade brasileiras e no estrangeiro como visitante das universidades de Lisboa, Harvard, Heidelberg, Salamanca e Basileia), figura eminente da Teoria da Libertação na América Latina. Boff foi silenciado nos anos 80 do século passado por Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI), quando este dirigia a Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição) da Cúria Romana. Perseguido pelo Vaticano nos anos subsequentes, abandonou o sacerdócio, dedicando-se em exclusivo ao ensino e à divulgação das suas ideias, apodadas de marxistas e subversivas pela Igreja de Roma.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sátira de um exílio

A Ulisseia acaba de lançar no mercado nacional o primeiro livro da trilogia que finalizou a obra de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), escritor maldito pela sua associação ao governo fantoche do Regime de Vichy durante a ocupação alemã de parte da França entre 1940 e 1944 e pelas suas ideias marcadamente racistas, xenófobas e anti-semitas.
Trata-se de uma reedição há muito aguardada no mercado editorial português – o mesmo livro havia sido publicado pela Dom Quixote em 1992, sob o título De Castelo em Castelo, actualmente encontrava-se esgotado – que recebeu desta feita o título de Castelos Perigosos (D’un château l’autre, 1957).
Castelos Perigosos retrata, em forma de romance, escrito na primeira pessoa, o picaresco do exílio do autor entre 1944 e 1945 em Sigmaringen, no Estado Baden-Württemberg, no sudoeste da Alemanha, em companhia dos colaboracionistas do governo de Vichy, onde aquele tentava retomar o exercício da sua profissão de médico – Céline era Doutor em Medicina desde 1924, pela École de médecine de Rennes.
A trilogia completa-se com os romances Nord (1960) e Rigodon (1969; publicado postumamente), todos sob a chancela da Gallimard – romances ainda inéditos em Portugal, sabendo-se que, segundo a Ulisseia, a segunda obra da trilogia já se encontra no prelo (ou, pelo menos, na vizinhança da tipografia) sob o título Norte; esperando que a mesma editora venha a publicar num futuro próximo o terceiro volume, ampliando assim a sensatez demonstrada com a publicação dos dois primeiros.
Apesar da profunda náusea e do menosprezo que poderão assaltar a mente mais empedernida, pelo terrível passado panfletário que fizeram do autor um torcionário intelectual, associado a um dos regimes mais hediondos que a História da humanidade jamais conheceu, Céline é quase unanimemente considerado pela crítica e pelos seus pares como um dos melhores escritores franceses de todo o século XX; consideração que em muito contribuíram as suas duas primeiras e notáveis obras, ainda publicadas na era pré-Vichy: Viagem ao Fim da Noite (Voyage au bout de la nuit, 1932; ed. port. Ulisseia) e Morte a Crédito (Mort à crédit, 1936; ed. port. Assírio & Alvim).

Sem conseguir resistir à transcrição, deixo aqui ficar o primeiro e longo parágrafo da obra que deu origem a este texto:
«Para falar com franqueza, aqui entre nós, eu ainda acabo pior do que comecei… Oh! não comecei muito bem… nasci, repito, em Courbevoie, Sena… repito-o pela milésima vez… depois de muitas andanças chego ao fim da vida realmente muito mal… a idade, dir-me-á você… a idade!… pois claro!… com sessenta e três anos feitos, torna-se muito difícil refazer a vida… ganhar de novo clientela… aqui ou em qualquer outro sítio!… já me esquecia de lhe dizer!… sou médico… a clientela médica, e isto que fique entre nós, em confidência, não é apenas uma questão de ciência e de consciência… mas sim, em primeiro lugar, e acima de tudo, de encanto pessoal… encanto pessoal depois dos sessenta? com uma idade destas você ainda pode fazer de manequim no museu, de figura decorativa… talvez… e agradar a uns quantos excêntricos, curiosos de enigmas… e as senhoras? o velhote anda nos trinques, perfumado, pintado, laca no cabelo?… um espantalho! com clientela ou sem clientela, exercendo medicina ou não, ele provoca-lhes vómitos!… e se estiver podre de rico?… ainda vá!… é tolerado… hum! hum!… mas um velho de cabelos brancos e sem dinheiro?… ele que se vá embora! basta ouvir as clientes nos passeios, nas lojas… a falar de um jovem colega dele… “oh! sabe, minha senhora!… minha senhora!… que olhos! que olhos, aquele médico!… entendeu logo o meu caso!… e as gotas que ele me receitou! ao almoço e ao jantar!… que gotas!… este jovem médico é maravilhoso!…” mas espere a sua vez… espere até elas falarem de si!… “embirrento, desdentado, ignorante, corcunda, sempre a cuspinhar…” elas vingam-se de si!… a tagarelice das senhoras é soberana!… enquanto os homens parem as leis, as senhoras só se ocupam de coisas sérias: a Opinião Pública!… uma clientela médica é feita pelas senhoras!. .. não as tem do seu lado?… deite-se a afogar!… as suas senhoras são umas atrasadas mentais, umas idiotas de fugir?… tanto melhor! quanto mais tacanhas, casmurras e irredutivelmente estúpidas, mais soberanas elas são!… arrume a bata, e o resto!… o resto?… roubaram-me tudo em Montmartre!… tudo!… na rue Girardon!… repito-o e nunca o repetirei o bastante!… fazem de conta que não me ouvem… justamente as coisas que devem ouvir!… no entanto eu ponho os pontos nos ii… tudo!… uns indivíduos, libertadores e vingadores, entraram em minha casa por arrombamento, e levaram tudo para a Feira da Ladra!… tudo passado a patacos!… não estou a exagerar, tenho provas, testemunhas, nomes… todos os meus livros e os meus instrumentos, os meus móveis e os meus manuscritos!… a tralha toda!… não encontrei nada!… nem um lenço, nem uma cadeira!… até as paredes eles venderam!… a casa, tudo!… saldado!… metido ao bolso!… e ponto final! sei o que você pensa! estou a ouvi-lo!… é natural! oh! que isto não lhe acontecerá! que nada de semelhante lhe acontecerá! que tomou as devidas precauções!… que é tão comunista como qualquer milionário, tão poujadista como Poujade tão russo como todas as saladas, mais americano que Buffalo!… perfeitamente conluiado com tudo o que é importante, Loja, Célula, Sacristia, Ministério Público!… Vrunzês da nova vaga como ninguém!… o sentido da História passa-lhe pelo meio das nádegas!… irmão honorário?… claro!… criado de carrasco? veremos!… adulador da guilhotina?… he! he!»
Louis-Ferdinand Céline, Castelos Perigosos, pp. 7-8.
[Lisboa: Ulisseia, Setembro de 2008, 362 pp.; tradução de Clara Alvarez; obra original: D’un château l’autre, 1957].


Como dizia o MEC, por outras palavras, mas cujo sentido é o que se segue, se fôssemos a eliminar todos os livros de todos os autores com gigantescos esqueletos no armário – pederastas, nazis, estalinistas, assassinos, toxicómanos, bêbados, adúlteros, burlões, etc. – ficaríamos reduzidos às excepcionais obras de Samuel Beckett, que, segundo ele – e eu confirmo, por aquilo que conheço de um dos meus autores favoritos, residente no meu top-5 literário –, era um santo.
Entretanto, para quem já leu, vai lendo ou faz tenções de ler as obras fundamentais de Pound, Gorki, Bernard Shaw ou Jünger (para não sair da linha acusatória celiniana), este livro não irá legitimar, de forma alguma, a hediondez doutrinária perfilhada pelo autor francês.

sábado, 13 de setembro de 2008

Sult, Knut Hamsun

Mesmo nos confins deste país desequilibrado (por exemplo, hoje a TSF no noticiário das 15 horas... perdão, das 14:58 emitiu durante 11 minutos ininterruptos as várias facetas do carricídio perpetrado, em plena luz do dia, por duas árvores centenárias, que se saldou na vil destruição de meia dúzia de inocentes automóveis, inundando-nos com entrevistas a vizinhos, um vereador, proprietários registados das vítimas, uma meteorologista com um nome inconcebível e outras testemunhas ocasionais e assaz comovidas... só faltaram os astrólogos e, claro, ninguém auscultou as vetustas árvores, porventura discriminadas por se tratar de mera flora...) continuo atento ao mercado editorial português. A Cavalo de Ferro reedita o magnum opus do escritor norueguês, Nobel da Literatura em 1920, Knut Hamsun (1859-1952), publicado originalmente em 1890, Sult (a.k.a. Hunger em inglês) – Fome.

Apesar das suas desprezíveis simpatias hitlerianas, exaltando as qualidades de liderança de um dos maiores monstros da História do século XX, são inegáveis as suas qualidades literárias confirmadas com este romance dilacerante, escrito quando o pai do nazismo ainda não havia largado as fraldas, e, curiosamente, quarenta anos antes de o maior monstro do século passado (Koba, ou Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, mais conhecido por Estaline*, o homem de aço) usar a FOME de dezenas de milhões como a principal arma de propagação do Grande Terror, que o camarada Lenine não teve tempo (e conceda-se, nem coragem) para acabar através do seu Terror Vermelho.

Ei-lo, com introdução de um dos escritores contemporâneos que sempre se confessou um dos maiores admiradores do laureado escritor norueguês, influenciando, de forma explícita, a sua já extensa obra, Paul Auster (n. 1947):


*Nota: texto escrito usando o tipo de letra Georgia.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Carta a Nietzsche

Saul BellowBelíssima e ilustrativa esta história do Lutz. Medonha e grotescamente verídica pela mera inferência do caso para uma realidade que julgáramos ultrapassada, ou então, restringida a uma realidade periférica. A (falta de) eficiência alemã e a política de extermínio do III Reich, Os Protocolos

(Escrevi uma série de parágrafos que acabei de apagar. Neles falava das minhas raízes cristãs, no meu cavalgante agnosticismo e do estado de decrepitude em que se encontra a minha fé; terminando com a constatação, por diversas vezes reiterada, da esmagadora preponderância de autores judeus nos meus gostos literários e nos standards musicais americanos: são tão poucos sobre seis mil milhões…)

Deixo-vos apenas com uma carta redigida por Moses E. Herzog (personagem criada por um judeu, gigantesco entre gigantes, que venceu o Nobel da Literatura em 1976) a Friedrich Nietzsche:

«Caro Herr Nietzsche – Excelentíssimo senhor. Poderei fazer-lhe uma pergunta cá de baixo? Refere-se ao poder do espírito Dionisíaco de suportar a visão do Terrível, do Problemático, de se permitir a luxúria da Destruição, de testemunhar a Decomposição, a Hediondez, o Mal. Tudo isto o espírito Dionisíaco o pode fazer porque aufere da capacidade de restabelecimento da própria Natureza. Algumas destas expressões, permita-me que lho diga, têm uma aura muito germânica. Uma frase como a “luxúria da Destruição” é francamente wagneriana, e eu bem sei por que razão veio a desprezar toda essa idiotice e bombástico doentios de Wagner. Actualmente, já assistimos a destruições suficientes para pôr amplamente à prova o poder do espírito Dionisíaco, e onde estão os heróis que disso se refizeram? Estou só com a Natureza (ela própria) nos Berkshires, e é esta a minha oportunidade de compreender. Estou deitado numa rede, com o queixo sobre o peito, de dedos entrelaçados, com o espírito atolado em pensamentos, agitado, sim, mas também alegre, e sei que valoriza a alegria – a autêntica alegria, não o aparente optimismo dos epicuristas, nem a flutuabilidade estratégica dos desesperados. Sei igualmente que considera que a dor profunda enobrece, a dor que arde lentamente, como madeira verde, e nisso concordo consigo, em parte. Mas para essa educação superior é necessária a sobrevivência. É preciso resistir à dor. […] Não, na verdade, Herr Nietzsche, tenho por si grande admiração. Simpatia. Deseja capacitar-nos para vivermos com o vácuo. Não nos iludindo com as boas intenções, a confiança, com considerações humanas, vulgares e medianas, mas indagando como nunca se indagou, incansavelmente, com férrea determinação, no mal, através do mal, para além do mal, não aceitando qualquer abjecto conforto. As perguntas mais absolutas, mais pertinazes. Rejeitando a humanidade tal como ela é, essa multidão vulgar, prática, salteadora, fedorenta, obscurecida, estúpida, não apenas a multidão dos trabalhadores, mas essa multidão “educada”, ainda pior, com os seus livros e concertos e conferências, o seu liberalismo e os seus “amores” e “paixões” românticos e teatrais – tudo isso merece morrer, e morrerá. Está bem. No entanto, os seus extremistas têm de sobreviver. Sem sobrevivência, não há Amor Fati. Os seus imoralistas também comem carne. Andam de autocarro. Mas são os viajantes que pior se dão com os autocarros. A humanidade vive principalmente de ideias pervertidas. Pervertidas, as suas ideias não são melhores que as do Cristianismo que condena. Qualquer filósofo que deseja manter-se em contacto com a humanidade deveria previamente perverter o seu próprio sistema para ver como será encarado algumas décadas após a adopção. Envio-lhe os melhores cumprimentos deste jardim de luz temporal onde pulula a relva, e desejo-lhe felicidades, onde quer que se encontre. Seu, sob o véu de Maya, M. E. H.» (pp. 372-374)

Saul Bellow, Herzog. Lisboa: Relógio D’Água, 2.ª edição, 1988, 398 pp. (tradução de Luísa Ducla Soares; obra original: Herzog, 1964).

Um destaque meu no original (creio que a verdadeira essência da acusação não se revela na tradução em português):
«I also know that you think that deep pain is ennobling, pain which burns slow, like green wood, and there you have me with you, somewhat.»